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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O Cinema e o Medo [Índice]

Hugo Gomes, 15.11.23

As estações não temem o Ceifeiro

Hugo Gomes, 31.10.23

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Peter Lorre, Vincent Price, Boris Karloff e Basil Rathbone em imagem promocional de "The Comedy of Terrors" (Jacques Tourneur, 1963)

Começo por situar-me numa peça recente - “02:22: Uma História de Fantasmas”, encenado por Michel Simeão e com texto de Danny Robins, no Teatro Villaret - o encontro entre dois casais de amigos que perante um estranho fenómeno sobrenatural relatado na casa que serve de cenário, pontualmente presente na hora indicada no título, debatem sobre a veracidade dos fantasmas, espíritos, ou lá o que fossem. Nesse quarteto encontramos um céptico, um homem de ciência e de lógica que ministra uma improvisada masterclass sobre a origem das assombrações, focando na questão do medo e a sua grande importância humana. Segundo ele, o Homem era composto por três tipos de “cérebro”, o “cérebro-macaco” [razão], o “cérebro-cão” [emoção] e o por fim, o “cérebro-lagarto” [instinto], e neste último integrava o sintoma do medo, porque é na base dele que é possível sobreviver aos perigos iminentes e, segundo a peça, até o facto de “cagarmos de medo” não é mais que um ato primitivo para nos tornar numa refeição nada apelativa a eventuais predadores. 

Portanto, o medo não é uma cobardia ditada pela sociedade que deseja agrupar humanos pela sua dominância social, pelo contrário, uma ligação espectral com o nosso “eu” selvagem, o “homem das cavernas” que optou por refugiar-se nas grutas como abrigo a desconhecidos fenómenos naturais (as tempestades, por exemplo), ou a manutenção do fogo, não como uma somente forma exequível de se aquecerem, como também de afugentar as imensas ameaças noturnas. Por outro lado, não há que negar que o medo e todo o seu “sistema orbital” é deveras apelativo, ou até sensual na maneira como somos magnetizados pelas suas “ramificações”. Desde a génese do Homem dito moderno que o medo fascina; criamos ficções e fabulações à volta dele, e procuramos morais a sua base, escrevemos livros sobre ele e mais que tudo, o vendemos, seja nos jornais ou outros medias enquanto sustento financeiro. E o Cinema é cúmplice dessa “prostitução” em relação ao medo, e que melhor género para falar dele do que o terror? Todo este sujeito a um único propósito, fazer do medo a sua causa, o seu entretém e a sua arte. 

O terror brotou em mim desde os meus “verdes anos”. Recordo dos tv spots de “The Exorcist” ou “Child’s Play” o qual me amedrontavam e igualmente alimentavam a minha curiosidade, arquitetando a partir daí planos para escapar da imperativa “hora de dormir” e espreitar tais obras na televisão genérica. Ou do poster de Freddy Krueger colado numa das paredes do quarto de uma prima minha, cujo seu vislumbre trazia-me pesadelos na minha tenra idade ou, e de forma tão marcante, “Shining” de Kubrick, na coleção de VHS(s) que o meu pai ostentava nas sua estante. Foi o intitulado “meu primeiro filme de terror”, e os traumas ainda hoje instalados (o quarto 237 continua a provocar palpitações). Apesar de hoje em dia encontrar no cinema de terror o seu quê de “relaxante”, possivelmente como um escape do verdadeiro terror que é os nossos dias, foi por outros géneros, emoções ou formatos que procurei o tão esquecido medo, e tendo por vezes resultados triunfais. 

Quanto mais velas de aniversário sopro, mais amedrontado fico perante a ideia de envelhecimento, da decadência que o meu corpo e mente poderão revelar ou até na solidão consolada ao testemunhar as repentinas despedidas de todos em meu redor, esse medo, o encontro num outro tipo de cinema; num “Amour” de Haneke (ver o nosso(a) companheiro(a) de uma vida a desaparecer gradualmente aos nossos olhos), num “The Father” de Florian Zeller (Anthony Hopkins sentindo abandonado e chorando pela sua mãe) ou até mesmo num “Venus” de Roger Michell (Peter O’Toole impontente em defender a sua honra, mazelas temporais no seu corpo é óbvio). É o “Forever Young” dos Alphaville tocado numa triste e inconclusiva melodia, o tempo não volta atrás e por mais “lagartos” que sejamos, não conseguimos sobreviver a esse derradeiro medo, o medo de morrer, mas antes, a sua descida infernal.

Se a montanha-russa não vai a Pedro, não vai Pedro à montanha-russa

Hugo Gomes, 30.10.23

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La Morte Rouge (Victor Erice, 2006)

No célebre "Filme que em Portugal tem de ser intitulado outra vez", o detetive John "Scottie" Ferguson perde o medo das alturas quando Judy, que afinal era Madeleine, que afinal era Carlotta, que afinal era Kim, morre outra vez. Sempre que revejo esse filme (que não era o melhor de sempre, que afinal passou a ser, que afinal voltou a não ser), fico com imensa pena de Scottie. Pois, como o cavalheiro chega ao fim da história sem a couraça das vertigens, vai por certo tornar-se um leviano e expor-se a todos aqueles riscos indecorosos que só nós, do alto da nossa acrofobia, sabemos devidamente reconhecer e, em consequência, evitar.

Nunca gostei do medo. Para cumprir o mandamento novo "Sai da tua zona de conforto!", limito-me a abandonar o sofá e a sentar-me na cadeira um pouco mais dura da mesa da sala, onde só me permito deglutir alimentos que estejam dramaticamente assassinados, tragicamente cozinhados e em absoluto fora da zona de influência dos militantes da entomofagia. Como Alexandre O’Neill, não me sinto suficientemente conde para querer corar com uma insígnia, muito menos a da coragem. E também nunca procuro descobrir a minha verdadeira natureza ao ser posto à prova numa situação-limite: não tenho os sete pés necessários para fugir com a graça de um Fred Astaire. O medo simplesmente não me atrai (chamem o Freud, se quiserem: disso não tenho medo).

O próprio Hitchcock nunca me apanhou por esse prisma. Conhecedor das rigorosíssimas estatísticas que provam que o tráfego rodoviário comporta muito mais risco de morte do que o cuidado com a higiene, tenho muito mais medo de ver a Janet Leigh a conduzir do que a tomar banho. Não, o Englishman in Los Angeles interessa-me na medida da sua ininterrupta erupção de formas audiovisuais que sempre convergem para nos falar da necessidade do negrume na formação ou solidificação do par amoroso. Aí, sim, Toto, I’ve a feeling we’re in Kansas again…

Não estou nisto em consonância com os meus parceiros de quarto escuro. Ao que parece, o filme de terror é uma das ervas daninhas, perdão, um dos géneros que mais tem crescido (numericamente falando, claro) ao longo da história do cinema, afugentando quem gostava mais de cantar, de namorar com estilo ou até de usar as imagens fúngicas, mas não fungíveis, da guerra para combater a bactéria da guerra real que, como se sabe, se tem revelado multirresistente (sobre isto, não haja grandes ilusões).

Cada vez que vejo um filme cujo desígnio é meter-me medo, eu fico efetivamente transido de medo (pois, como recusar uma oferta calculadamente elaborada para ser irrecusável?), ao mesmo tempo que um outro, que é eu, despreza aristocraticamente a infantilidade e a tacanhez daqueles truques que, numericamente falando, não dariam para mais do que um rato perante a montanha do Kama Sutra. Sempre dei bolinha preta àquele monstro debaixo da minha cama que é especificamente devido à infinita mediocridade do cinema.

O mais curioso é que, se um meliante me colocasse diante da célebre alternativa “o teu filme favorito ou a vida”, transido de medo, eu diria: “O espírito da colmeia”. Ora, a obra-prima ficcional de Victor Erice narra precisamente o efeito que, na Espanha após a sua Guerra Civil, um filme de terror tem sobre uma criança, fazendo-a intuir que os moinhos talvez sejam muito mais assustadores do que os gigantes. Por que carga de água ou vinho é que eu consigo tomar esta evocação do elo entre cinema e medo como estrela polar?

Julgo que a resposta é dada pelo próprio Erice em “La Morte Rouge”, uma curta-metragem ensaística que ele estreou já no presente século. Ao colocar a situação narrativa de “O espírito da colmeia” sob a aparência da autobiografia, a evocação do medo que se terá entranhado num menino após o visionamento do filme “A garra vermelha” é filtrada pela música de Federico Mompou. Em busca desse tempo que para si nunca se perdeu, Erice já não consegue fazer-nos sentir a ameaça das mãos assassinas do filme que o traumatizou, tem menos poder para as mostrar como sombras expressionistas do que como garras melancólicas extraindo sons sem alvoroço de um piano, algures numa casa vizinha. O medo já só sobrevive como memória distanciada. Pensada. E assim também acontece, de certo modo, em “O espírito da colmeia”.

Agora a brincar, e para resumir, se o cinema quiser seduzir o meu coração pateta, pode jogar múltiplas cartas: beleza, humor, erotismo, compaixão…Sou Anna, sou Elvira, Zerlina, disponível para as 1003 formas com que se desmiola um corpo humano. Já o medo que, por muito que eu não queira,é claro que por vezes também me apanha na vida(o que aí acontece, aí fica), não lhe encontro o menor travo de prazer (nem mesmo o prazer catártico da tragédia) que me convença a ir procurá-lo numa sala de cinema. O medo parece-me coisa mais séria, é para casar… com o pensamento. Chamem o Cronenberg, se quiserem: o seu método não me parece suficientemente perigoso.

 

*Texto da autoria de Pedro Ludgero (Porto, 1972). Trabalha como pianista acompanhador. Escreve poesia, teatro, textos para a infância e comentário sobre cinema. Até ao momento, realizou cinco curtas-metragens.

O medo é um fantasma mais “penado” que Rebecca.

Hugo Gomes, 29.10.23

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Joan Fontaine em "Rebecca" (Alfred Hitchcock, 1940)

Sentir medo será à partida um lugar comum no dia a dia dos humanos, na verdade, senti-lo pode muito bem ser um dos clichês mais evocados na vida, não só naquilo a que chamamos de quotidiano, mas também na “vida do cinema”. A nossa existência está cheia de clichês que a sétima arte adotou, e viceversa, sim, porque, se por vezes eu tenho medo de tomar duche de cortina fechada, não foi porque o aprendi na serenidade da minha rotina, mas porque em algum momento, o cinema me mostrou que cenas em chuveiros, podem ser efetivamente dramáticas, e como já devem ter reparado, estou de forma muito clichê a referir-me ao plano do filme “Psycho”, em que a personagem de Janet Leigh é surpreendida por um assassino durante o banho. 

Os clichês foram roubados de um lado para o outro, e sinto que muitas vezes já não sei distinguir o que é que vem da realidade, ou o que é apenas ênfase da ficção. Por exemplo, nunca caminharam à noite e pensaram que a qualquer momento ia aparecer o Michael Myers? Já estiveram sozinhos num sótão e sentiram que a probabilidade do Ghostface surgir era altíssima? Ou ainda, numa sala de uma avó junto a um relógio daqueles que fazem muito barulho, nunca se perguntaram o que é que o Padre do “Exorcista”, diria naquela circunstância? O medo está em todo o lado, e acho que muitas vezes, ampliado por aquilo que o cinema nos deu. 

Por falar em atrizes nos filmes de Alfred Hitchcock, há vários depoimentos de personalidades da indústria, que partilharam várias situações sobre a falta de sensibilidade do realizador, em dirigir as atrizes que com ele trabalhavam. Muitos são os testemunhos, que apontam para o facto das mesmas terem sido terrivelmente manipuladas no set, para constantemente estarem em tensão, com o objetivo de tornar o medo, real nos seus rostos, tão real que a câmara o captaria implacavelmente. 

Medo, o realizador queria provocar medo nas intérpretes, queria juntar aos seus olhares intensos e doces, um ingrediente que nos provocasse a nós espectadores, pavor. A doçura do medo no olhar, tão perversamente perpetuada por Hitchcock, ficou consequentemente iconizada no cinema do século XX.

Embora mais conhecida pela sua leveza em comédias e romances, também Doris Day experienciou o medo nos filmes do senhor Alfred, em “The Man who Knew too Much”, com a sua complexa e delicada personagem Josephine Mckenna, provou os dissabores da intensidade de um homem, que queria realizar mais do que a ficção dos próprios filmes. 

A esplêndida Grace Kelly, também ela ao longo de três longas-metragens, mergulhou nas tensões de um realizador obcecado pela sua imagem, bom depois decidiu que afinal queria mesmo era ser princesa, o que também não deixa de ser um bocadinho assustador. Viram? Mais um momento em que não percebemos muito bem quem é que está a imitar quem, se a vida, se a ficção ou se todas ao mesmo tempo, de qualquer das formas, deixar de ser atriz para ser princesa do Mónaco, deve dar um medo dos diabos. 

Joan Fontaine em “Rebecca”, que a psicologia adotou para explicar mais um complexo, aqui relacionado com os medos do passado, medo dos fantasmas do passado, neste caso bem literal, já que o próprio do fantasma em questão, aqui é mesmo o espírito de uma ex-mulher que deambula pela casa, tentando terminar com a paz do casal. 

Se nunca tiveram que aturar uma assombração dessas, onde pessoas obcecadas pelos vossos companheiros vos tentam incendiar a vida (para quem viu o filme, perceberão a escolha do verbo incendiar), que bom para vocês, aqui Fontaine teve não só que aturar histórias do passado, como também um Hitchcock “passado”. 

O medo está em todo o lado, desenganem-se aqueles que pensam que o medo está só nos thrillers, filmes de terror e suspense, o medo vive até nas comédias mais românticas, ou acham que em “Love actually”,  a personagem de Colin Firth não sentiu medo de falhar, enquanto caminhava por um típico bairro Lisboeta, para declarar o seu amor? 

O medo vive entranhado nas nossas vidas e arrisco a dizer que até o mais feroz dos vilões, ainda que na ficção, o sentirá em grande escala, ou acham que os pesadelos do próprio Freddy Krueger, são mais leves que os das crianças que sonhavam com ele? Dada a circunstância da personagem, não me parece. Freddie Krueger tem medo, medo de si mesmo, medo de não trazer medo suficiente para a sua vingança, ele tem medo da sua própria história.

E o medo de não sentir medo? Bom, sobre esse atrevo-me sempre com muito cuidado, porque o medo é também ele uma medida exímia que nos livra muitas vezes de tantos males. Por hoje fico-me  pelo medo debruçado no cinema, porque quando a tela se apaga e as luzes se acendem, posso voltar tranquila para o meu quotidiano sereno e feliz, mas onde tantas vezes insisto para que seja efusivo, dramático e belo como aquele que aprendi a ver nos filmes. 



*Texto da autoria de Mia Tomé, atriz, voice artist e criadora, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar no The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova Iorque. É licenciada em Teatro pela ESTC, e Mestre em Educação Artística pela FBAUL, onde investigou o tema “Cinema e Educação”. Foi autora e apresentadora do programa “Querem Drama?” no Canal Q, mas também do “Por uma Canção” na Antena 3. Atualmente tem em mãos Projeto Natália, que celebra o centenário de Natália Correia. Desde 2021 que está a desenvolver um projeto no Arizona, sobre as mulheres do Oeste Norte Americano.

O terror da antecipação e o prazer da entrega: “Holocausto Canibal”

Hugo Gomes, 28.10.23

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Cannibal Holocaust (Ruggero Deodato, 1980)

Se não há horror maior que o do desconhecido, a ficção terrorífica há de ser o ponto onde as certezas da ciência e as aplicações da lógica se desvanecem perante os mundos temerários onde fragilizados humanos vão meter-se – muitas vezes sem o terem desejado, mas em outros momentos por pura “cusquice”. O mundo dos mortos é particularmente apelativo – o reino do invisível onde seres que eram supostos ficarem mortos decidem… não ficar. Por vezes dão-se a conhecer apenas em fenómenos telecinéticos; em outras se materializam em cadáveres que saem de caixões ou debaixo da terra para atazanar os vivos.

Em dimensões mais próximas, no entanto, os humanos podem meter-se em apuros a frequentar locais “exóticos”. Há mais de 100 anos a literatura deslumbrava-se com o cada vez mais (des)conhecido mundo de florestas verdejantes que podiam esconder criaturas estranhas e, em casos mais elaborados, até tornado credíveis por teorias “científicas” – como o anfíbio de “Creature of Black Lagoon” (1954), um ser de outras eras que tinha miraculosamente escapado à extinção e que podia ser explicado pela lei da evolução.

Hoje sabemos que os humanos destruíram, de facto, todas as possibilidades de seres gigantescos ou pouco conhecidos terem sobrevivido. Há episódios notórios como a ocupação da Austrália há 60 mil anos, onde a chegada por mar de homenzinhos aparentemente muito pouco apetrechados em termos tecnológicos “coincidiu” com o espantoso e maciço desaparecimento de uma vasta fauna de animais de grandes dimensões.

Quando o cinema resolveu dar vida, com os devidos valores de produção, à uma destas aventuras pelos trópicos – mais especificamente ao clássico de sir Arthur Conan Doyle, “The Lost World”, de 1911 – foram chamados os inovadores serviços de William O’Brien, o homem que popularizou o “stop motion” para oferecer ao público de 1925 uma leitura visual destas estranhas paragens; oito anos depois, ele estava de volta com ainda mais recursos para descrever as lutaradas colossais entre um macaco gigante e um mundo de bestas jurássicas em “King Kong”.

Mas o cinema de terror é a perda inocência e poucos haverão como os italianos para absolutamente forrar de “ketchup” praticamente todos os subgéneros nos quais tocaram a partir dos anos 60 – a começar pelo popularíssimo “Mondo Cane” (esse de fabrico próprio, os “mondo films”) e uma fornada de zombies, canibais, “serial killers” e a mais sensacional palete de atrocidades com que tentavam faturar em cima dos modelos americanos.

Entre antecipação e consequência, talvez não haja na história do cinema de terror uma iguaria mais satisfatória do que “Holocausto Canibal”, um filme a que já se começa a assistir com medo dada a sensacional fama adquirida e aos processos jurídicos que ultrapassaram as estratégias espertas de “marketeiros” engenhosos: Ruggero Deodato, o líder do gangue, foi efetivamente a tribunal dar conta dos atores que tinha pago para desparecer e que o deixaram em grandes apuros.

No filme, a partir da chegada à Amazónia da missão para resgatar outra expedição, desaparecida um ano antes, começam os calafrios: conforme exposto acima, ninguém que se tenha posto nestas andanças poderá alegar ignorância. E o que segue a partir daí é um pesadelo infernal, onde matanças, esfolamentos, empalamentos, esquartejamentos, incêndios postos e a famosa execução em direto de uma tartaruga gigante, não deixam nada por desejar.

No interior de tamanha simbiose entre expectativa e entrega, poderia não ser de mau tom reciclar o célebre aviso de Carl Laemmle no primeiro filme designado como “horror movie”, “Frankenstein” (1931): “I think it will thrill you.  It may shock you.  It might even horrify you. So, if any of you feel that you do not care to subject your nerves to such a strain, now’s your chance to uh, well, - we warned you!

Por fim, em meio à danação total, o sardónico comentário do filme sobre os “media” e a violência, aparentemente a justificar-se, soa irrelevante. Nesta experiência visceral, as palavras podem apenas danificar o festim.

 

*Texto da autoria de Roni Nunes, jornalista, editor do site CulturaXXI, colabora com o C7nema, encontra-se de momento a desenvolver um livro sobre cinema de terror. 

Medo, riso e masoquismo

Hugo Gomes, 27.10.23

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High Anxiety (Mel Brooks, 1977)

Sem conflito não há nada a contar. É o conflito que faz despoletar uma sucessão de eventos passíveis de configurar uma história, uma trama ou um ensaio.

Quando olhamos para a linguagem que o cinema nos apresenta, é o medo que está na base dos grandes conflitos. É normal associá-lo a géneros como o terror, o suspense ou o thriller, mas o medo apresenta-se sob várias formas, quer estejamos conscientes disso ou não.

Na primeira vez em que me senti completamente amedrontado, em frente a uma tela de cinema, as imagens eram coloridas, a música apaziguante e a personagem principal não passava de um veado fofo, mas foi a primeira vez que senti a inevitabilidade da morte e o quão democrática era. O “Bambi” provocou em mim um efeito equivalente ao “Pesadelo em Elm Street” uns anos mais tarde, livrando-me da minha prezada paz de espírito e da inocência, que esbofeteou sem tréguas.

Mas esquecendo os traumas de infância, que apenas abundam pela descoberta natural da experiência humana, podemos encontrar manifestações do medo em virtualmente todos os géneros cinematográficos.

Há quem defenda que a diferença entre a comédia e o terror é a música que os acompanha. O embrulho de uma tragédia vai ditar se rimos ou tememos, e a verdade é que não são raras as vezes onde uma comédia nos apresenta as atribulações motivadas pelo medo de uma personagem, ou de um conjunto de personagens, das quais somos motivados a rir pelo simples distanciamento. Caso o ponto de vista fosse transferido para os olhos dos protagonistas, talvez partilhássemos a ansiedade e o medo por estes vividos. Dos Irmãos Marx ao “Sozinho em Casa”, a agressão física é apresentada como a centelha para o riso, mas acreditem ou não, estar no lado receptor dessa agressão é uma experiência dolorosa e ser o emissário pressupõe defesa ou intenções nefastas.

Com isto dito, não há juízos de valor a fazer. Só é verdade no cinema porque também o é fora dele. Nada me provoca mais o riso do que uma queda bem aparatosa e planeada, ou uma desinteria de proporções bíblicas. Se as queria para a minha vida? Adianto que não, mas à distância parece hilariante.

É também fora do cinema que encontramos uma série de medos que não reconhecemos como tal no confinamento do ecrã. O medo de falhar, o medo de não conseguir pagar as contas, o medo de ter filhos, ou de não os poder ter.

É no género catalogado como “Drama” que surgem todos estes temas. Um género tão cruel e explorador que faz qualquer filme da franquia “Saw” ou “Hostel” parecer um aperitivo num banquete de desgraças. Mas o que leva a exploração da dor existencial a ser tão mais bem vista do que a exploração da dor física? A componente visual terá algo a ver com a resposta, mas não podemos deixar de excluir o masoquismo da empatia, de querermos ver o outro passar pelo mesmo que a vida já nos obrigou a sentir, ou de passar por uma versão controlada das adversidades pelas quais esperamos nunca passar. Se apanharmos com uma boa dose de validação intelectual nessa experiência, melhor um pouco.

O medo move todos os seres vivos e tem tanto de fascinante como de repelente. Sendo o ser-humano provido de raciocínio, somos capazes de o representar e somos naturalmente movidos nesse sentido. Uma das primeiras filmagens da História é a morte de um elefante por eletrocução, mas também o foi o corpo nú de uma mulher. O paralelo entre o sexo e a morte é lenha para outra fogueira. O cinema vai continuar a ser o veículo para os artistas moldarem o medo e para o público o poder sentir sem passar pela massada de sofrer. Digo tudo isto com o maior sorriso nos lábios e na ânsia da próxima sessão que me deixe de coração nas mãos ou a conter as lágrimas, a baba e o ranho.


* Texto da autoria de José Santiago, nascido em Coimbra, licenciado em Comunicação Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Em 2007 junta-se à Rádio Universidade de Coimbra (RUC), onde fez parte do departamento de informação, programação e foi também presidente. Foi também na RUC que participou em vários programas relacionados com o cinema (“Sala de Pânico”, “Os Suspeitos do Costume”, “Spinoff”), começando a escrever crítica de cinema no jornal universitário "A Cabra" e mais tarde na plataforma on-line Arte-Factos. Profissionalmente tem desempenhado funções de gestão de marketing em empresas relacionadas com distribuição de vídeos e artes digitais, sendo também curador da iniciativa Passos no Escuro, exibindo cinema de terror e culto, no Porto.

"House of the Devil": utopia do terror sem terror

Hugo Gomes, 26.10.23

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Este extraordinário filme de Ti West provoca-me, assim de repente, duas reacções de espanto, sobretudo tendo-me eu como seguidor, minimamente atento, das tendências do cinema de terror norte-americano. Em primeiro lugar, este filme começa muito significativamente "entre muros", com a câmara a mover-se numa casa que poderá ser "a casa do diabo", mas que acabará por se revelar numa antecâmara dessa casa que o título a(e)nuncia. O tradicional master shot é substituído por um plano de interior e é assim, preso à materialidade daquele tempo, algures no passado recente, que "The House of the Devil" nos apresenta a sua protagonista (Jocelin Donahue), uma jovem em busca de casa, em busca de dinheiro para pagar a renda, em busca de um emprego para arranjar dinheiro... e que vai parar àquela morada assaz suspeita.

No percurso até lá, a mesma câmara vai saboreando cada instante desse seu tempo incerto: não estamos no século XXI, nem tão-pouco nos anos 90... cenário a cenário, as roupas e os objectos vão-nos "deslocando" temporalmente para, no limite, meados dos anos 80; para, enfim, outra América e outros cinemas. É retro? É, mas sem grande deslumbramento. São os anos 80 filmados como se fossem 2011, mas num processo de degustação material muito lento, isto é, muito pouco contemporâneo - ou num ritmo que se impõe contemporaneamente, quando o melhor cinema de velhos masters of horror, tais como Carpenter, de Argento e de Hooper, nos deixa nostálgicos? Enfim, a reflexão sobre o tempo, a capacidade (maturidade mesmo) que Ti West revela em não se prender ao filme-homenagem-de-um-tempo-em-que-os-filmes-de-terror-eram-assim é notável.

Outra coisa espantosa: como em "Halloween", os sinais gráficos do género tardam em chegar ao ecrã, fazendo reverter todos os códigos pr(é)escritos do género institucionalizado do filme de terror CONTRA as próprias expectativas do espectador. Isto é, a certa altura, "The House of the Devil" leva-nos a interrogar: será isto mesmo um filme de terror ou um filme de terror que apenas (pré-)existe na nossa cabeça? "Halloween" continua a ser o mais radical objecto cinematográfico a explorar esta fronteira entre o género e a sua impossível, ou desnecessária, concretização, mas "The House of the Devil" é, dos filmes de terror contemporâneos, provavelmente o que leva mais longe esta ideia, ao ponto de a certa altura eu ter julgado ver pela primeira vez realizada uma das minhas mais velhas fantasias: um filme de terror sem verdadeiros sustos, sem violência ou sangue, um "quase" filme de terror, ou seja, um objecto propositadamente falho - isto é, treslendo em toda a linha as receitas do género - que apenas explore a paranóia do espectador de cinema, ela em si mesma material de sobra para se aguentar hora e meia de suspense puro, de um "what if?" angustiante, que, no final, soçobra. Isto é, como seria "The House of the Devil" sem os seus minutos finais? Ainda melhor, estou certo.

 

*Texto da autoria de Luís Mendonça, doutorado em Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH) com uma tese publicada em 2017 pela Edições Colibri, "Fotografia e Cinema Moderno: Os Cineastas Amadores do Pós-Guerra". Publicou recentemente "Majestosa Imobilidade: Contributo para uma Teoria do Fotograma" pela Edições 70. É coeditor do site À Pala de Walsh, programador na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e docente-precário na NOVA FCSH.

Cinema e Medo

Hugo Gomes, 25.10.23

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The Great Dictator (Charlie Chaplin, 1940)

Ao receber o convite do Hugo (um exemplo de resistência e perseverança na blogosfera portuguesa), dois sentimentos me tomaram. Inicialmente senti-me honrado pelo convite. De seguida... com medo!

Medo? Sim, medo da página em branco, medo de não ter o que dizer. Medo da inconsequência da escrita sobre cinema. Ou seja, estava no caminho certo. Afinal, a "Olhar o Medo" ando eu há mais de dois anos, com as voltas que a edição de um livro me tem feito dar e os filmes que me tem feito ver. Livro feito de amor ao cinema e carolice sem medo.

Ao pensar em medo e cinema, a primeira ideia que me ocorre é a reação de Massimo Gorki. Assistindo a uma projecção de filmes dos irmãos Lumière, em 1896, o escritor russo descreveu-a como assustadora, pelo novo poder das luzes e sombras. Foi, certamente, um medo mais intelectual que o sentido no ano anterior pelos espectadores que temeram o comboio de "L'arrivée du train en gare de la Ciotat". O denominador comum é que um e outros trouxeram o medo para o léxico do cinema logo à nascença. Não sabiam era o que esse medo ainda tinha para dar.

E se o cinema pode ser uma indústria do medo, com os filmes de terror a serem aposta segura para manter as salas abertas e os projectores a funcionar, e vampiros, zombies e lobisomens a tornarem-se nossos companheiros de insónias, esta espécie de contos modernos da carochinha empalidece perante outro medo.

Refiro-me, não ao medo de um filme, mas ao medo do cinema pelas vezes em que antecipou causas e lutas forçando a humanidade a olhar em frente, ou pior, a olhar para si mesma. Méliès não teve medo de brincar com o Diabo, Louise Brooks foi temerária ao dar nova expressão à feminilidade, Milestone ensinou-nos a ter medo do patriotismo, Chaplin não teve medo de desafiar o nazismo enquanto os EUA assobiavam para o lado, Sidney Poitier olhou o racismo norte-americano nos olhos, James Dean reformulou os desesperos e medos da juventude, Bergman atirou-nos à cara o silêncio de Deus, Antonioni assustou-nos com a nossa incapacidade de tocarmos os outros, Pakula, Zinnemann, Pollack ou Coppola ensinaram-nos a temer os nossos governos e até Scorsese enfrentou o terror de fanatismos religiosos. Hoje o cinema não tem medo de desafiar os nossos conceitos de género, os desafios virtuais e o papel do Homem no universo.

O cinema nunca teve medo de fazer as suas revoluções, nem de anunciar revoluções ou de documentar revoluções. A mais importante das artes, para Lenine, deu voz aos que não a tinham, deu novos horizontes aos que deles precisavam. O cinema transgrediu, ofendeu e amedrontou poderes instituídos, foi vítima de censura, foi manietado em grilhões por mentes medrosas e usado como propaganda para manipular opiniões. Mas sempre se superou e, como uma janela encantada, permitiu quebrar fronteiras, dando a ver mundos que alguns tentavam esconder do outro lado de muros e linhas artificiais.

E se o medo no cinema de hoje é o da sua irrelevância perante a mudança de paradigma no modo como as imagens em movimento nos chegam, é das mentes, vozes e rostos sem medo que ele triunfará, enquanto estas se lembrarem que o cinema veio para meter medo, não com monstros e assombrações, mas como um espelho indomável daquilo que nós somos.

Quanto a nós que aqui escrevemos, resta-nos não ter medo de o fazer nem de nos darmos um pouco também dessa forma, e de ainda conseguirmos a coragem de nos maravilharmos com o que nos chega do grande ecrã.

 

*Texto da autoria de José Carlos Maltez, cinéfilo desde que se conhece, iniciou-se em 2012 na escrita sobre cinema no seu blogue pessoal "A Janela Encantada", com mais de um milhar de análises de filmes, agrupando-as em temas e estéticas, numa viagem pela história do cinema. Seguiram-se a participação na revista online "Take Cinema Magazine" e, desde 2018, a co-autoria do podcast "Universos Paralelos". Em 2023 publicou o livro "Olhar o Medo - Visões sobre o Cinema de Terror" em parceria com António Araújo.

Como não deixei de ter medo mas passei a gostar de me assustar no cinema

Hugo Gomes, 24.10.23

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The Mask (Chuck Russell, 1994)

The Mask

O ano é 1995 e vou ao cinema com o meu pai e amigos meus ao cinema. É a primeira vez que vejo Jim Carrey no cinema, um ator cuja filmografia seguiria com intensa atenção durante vários anos. Tenho a certeza que nunca o vi antes — embora o Pet Detective (1994) se torne, assim que o vejo, um filme que revejo constantemente — porque não sei que o que me espera é uma comédia. Tenho 9 anos, um casaco tipo canadiana azul clarinho com debruados brancos e vou ao cinema com o meu pais e amigos um pouco sem saber o que me espera porque era isso que fazíamos na altura. Não percebo que é uma comédia inicialmente. Não percebo que é uma comédia até porque quando Stanley Ipkiss coloca pela primeira vez a epónima máscara na cara, eu coloco o capuz da minha canadiana a tapar-me a cara. Imagino que o mais terrível body horror esteja a acontecer perante os meus olhos e resolvo tapá-los (percebi, imediatamente a seguir, que era uma comédia). É uma reacção visceral que me acompanha sempre e é a primeira vez que penso conscientemente que não gosto de me sentir assustada.

 

Scream

O ano é 2001 e vejo o Scream (1996) com o meu pai. Vimos o primeiro mas também os filmes seguintes, completando o que era, na altura, apenas uma trilogia. O meu pai assegura-me que não são assustadores e têm mais de comédia do que de terror. Como já não tenho 9 anos, nem a minha canadiana azul, decido que tenho de ver mais coisas com ar assustador. O facto de Scary Movie (2000) ter estreado no cinema também faz com que comece a perceber o conceito não sei se spoof (Scary Movie), como o conceito mais sofisticado de objecto metatextual. Penso que um filme que junta a comédia ao horror e pisca o olho ao espectador é algo que consigo tolerar muito melhor do que filmes abertamente aterrorizantes. Continuo a não gostar de me assustar no cinema, mas rir-me a seguir a assustar-me é uma mistura potente.

 

The Others

O ano é 2001 e fui ao cinema ver o The Others apenas por um motivo: Nicole Kidman. Estou numa fase em que gosto de tudo o que ela faz. O filme estreia-se no mesmo ano de Moulin Rouge! e nem acredito na sorte que tenho. A meus olhos, tudo o que faz é ouro. Mas The Others é um filme de fantasmas e um filme de terror. De terror psicológico, sem sangue e sem vísceras. Digo a mim própria que esse é o pior tipo de filmes de terror e que não consigo aguentar o suspense e a ansiedade. Começo a evitar filmes de terror menos viscerais e mais conceptuais. Ou de um terror mais implícito.

 

Hostel

O ano é 2005 e fui ver o Hostel ao cinema porque vários amigos queriam ver também. Asseguro toda a gente com quem vou ver que não gosto de filmes de terror e certamente não verei quase nada do filme. Acabo por passar grande parte do filme a vê-lo entre dos dedos (ou a não olhando de todo, empregando a técnica da canadiana já sem a ter). Acabo, contudo, por ser apanhada pela trama do filme, mas sobretudo pela sua extravagância. Hostel é extremamente gory e completamente barroco na sua exuberância de crueldade e vísceras. Isso distancia-me, de certa forma, das coisas que poderiam ser mais assustadoras e a violência torna-se mais cartoons e suportável. Penso que filmes gory e barrocos são mais apelativos por isso mesmo e que, dentro do leque do horror, poderia ser pior.

 

It Follows

O ano é… depois de 2015. Um grupo de amigos tem uma tradição mais ou menos anual de ver um filme assustador no Halloween. Todos os anos tento sugerir, ou que seja aceita a sugestão, de algo mais campy e/ou temático como Hocus Pocus (1993) ou Rocky Horror Picture Show (1975). Neste, como em todos os anos, falho nesta tentativa. It Follows é o feliz contemplado. É visto num torpor de gomas e sono, já bem avançada vai a noite. É assim que começo a ver o filme, que me conquista na sua ideia de filme-de-terror-mas-non-troppo, encantada pelas suas imagens inquietantes, mas sobretudo pela atmosfera paranóica e pela direcção de fotografia onírica. Penso que aguentei o filme melhor que em muitos anos. Talvez já esteja crescida o suficiente para ver filmes de terror.

 

Hereditary

O ano é 2018. Três amigos estão a viver numa única casa com uma sala gigante e a tradição anual de Halloween mantém-se. Desenvolvi uma técnica para ver filmes que já sei que vão ser assustadores de uma maneira visceral ou psicológica que é: ler tudo sobre eles. Leio toda a entrada da Wikipédia sobre Hereditary, para saber os momentos em que devo afastar os olhos do ecrã ou para aguentar os olhos no ecrã já sabendo o que me espera, tentando eliminar o aspecto do suspense ou da surpresa, algo que tende a não me fazer gostar destas experiências cinematográficas. Apesar da minha estratégia, passo metade do filme a utilizar o método-da-canadiana, mas agora a canadiana são os meus dedos. Consigo evitar ver alguns momentos, outros apanham-me totalmente desprevenida e solto um grito de genuíno terror que faz os meus amigos rir. Penso, contudo, que o filme está tão bem feito que as sensações de terror já funcionam de uma maneira se não catártica, pelo menos mais apelativa. Talvez ajude a pensar e analisar filmes e cinema em geral de uma forma mais intelectual — ou não só empírica — e isso faz-me pensar que tenho de abrir ainda mais o meu leque de consumo.

 

Curtas da Boca do Inferno

O ano é 2020. Mais concretamente, estamos em março de 2020. É o primeiro ano em que faço programação de curtas-metragens no IndieLisboa. A última reunião implica o visionamento de uma data de filmes de terror, ou terror-adjacent, para a secção da Boca do Inferno. O convite para integrar esse comité é feito e estou a gostar tanto da experiência que ignoro o meu histórico medo de filmes de terror. Vejo várias curtas, de vários “sabores” diferentes dentro deste género. Do mais cómico ou meta, ao terror mais puro. A lente da programação faz-me analisar estes filmes de maneira mais pensada e faz-me gostar sinceramente de os ver. Foi-se o medo apreensivo, a sensação de ansiedade aterrorizante. Ainda há medo, vontade de afastar os olhos, genuíno afastar de olhos, todas essas reações. Mas já não as vejo como reações más a ter, ou que vão contra o que um aficionado deve experienciar. Agora fazem parte da experiência e a experiência é boa.

 

Pearl  

O ano é 2023 e reparo que o Pearl ainda não estreou em salas portuguesas. Tenho continuado a fazer programação das curtas da Boca do Inferno desde 2020 e este é o primeiro ano em que faço a secção na sua íntegra, ou seja, tanto curtas como longas metragens. Agora, o gosto por estes filmes e por esta secção é enfaticamente positivo. Num ano em que vejo muitos filmes em geral, mas também muitos de terror mais clássico a outras facetas mais genre-bending, o Pearl (2022) e o seu par X (2022) são filmes que procuro pelo buzz que criaram e que vejo totalmente fora do âmbito da programação do festival. Mas depois de os ver penso no âmbito da programação do festival. Reparo que o Pearl ainda não estreou em salas portuguesas. O festival acaba por conseguir passar o Pearl no dia de abertura, e, apesar de ter passado algum tempo depois da sua estreia americana e de ter rebentado pelos recantos mais litigiosos da internet, sinto a sua inclusão na secção como reflexo de um trabalho bem feito. Todos os filmes são filmes que veria por mim própria. Todas orgulhosas escolhas para uma secção querida. Considero-me convertida.

 

*Texto da autoria de Ana Cabral Martins, que acha que o filme Phantom Thread (2017, Paul Thomas Anderson) também é uma comédia. Tem um doutoramento em Media Digitais e já trabalhou no mundo académico estudando a indústria de Hollywood e o cinema no feminino. Fora do mundo académico, já escreveu para publicações nacionais, como o Público ou a Electra, e internacionais, como a Beneficial Shock e Shelf Heroes. Atualmente é programadora no festival internacional IndieLisboa e é crítica de cinema no website À Pala de Walsh. Sigam-na no Twitter.

O meu medo preferido

Hugo Gomes, 23.10.23

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Outubro genérico, galdéria do seguidismo que sou, aproveito para ver o que os meus compinchas vão vendo nesta época tão tipicamente lusitana que é o Halloween. Filme após filme, sem sucesso, tento procurar a chama do medo que me obrigava na juventude a acender todas as luzes a caminho do quarto, a temer o ranger de um barulho parasita que o empreiteiro prometeu resolver há duas décadas, de sentir o agigantar do silêncio que parecia querer saltar sobre mim na forma de uma entidade maléfica fugida do sétimo círculo do inferno. Que bom este medo irrealista que entretanto foi substituído pelo terror existencial de perder a capacidade de alimentar os filhos, manter uma vida digna ou um caroço num testículo que anuncie o princípio do fim. Como um junkie à procura da sensação daquela primeira dose, também eu percorro as internets de cabo a rabo à procura do filme que me ressuscite o medo de que esteja um demónio escondido na banheira com a cabeça ensanguentada do vizinho de baixo numa mão, gritando lamentos demoníacos ensurdecedores em várias línguas extintas em simultâneo. 

*harpa do flashback*

Corria o ano de 1987. Meados de Julho. Já havia passado mais de um mês de férias grandes e a euforia ia-se transformando num emergente imperceptível tédio. 4 da manhã. Eu, o meu amigo Zé  e o meu primo João regressávamos de um baile de uma aldeia vizinha, onde fomos na esperança de ver pelo menos uma cover de Judas Priest ou Ramones. Recusamos várias danças e o balanço da noite resumiu-se a dois apalpões e a promessa de linguados atrás dos arbustos da igreja. Diante da carência do deboche que tanto se aguardava e nunca se manifestou, fomos para casa decidimos meter um VHS alugado no dia anterior. “O Exorcista”, um filme alugado pelo meu pai porque o senhor do clube de vídeo não me deixou trazer sozinho. 

Duas horas depois, três teenagers apavorados jaziam imóveis num sofá, sem pestanejar, quase sem respirar, a esperar pela luz do dia. Só com os primeiros raios de sol ganhamos força nas pernas e o sangue voltou a fluir com naturalidade. Até hoje continua a ser a  experiência de cinema mais aterrorizante da minha vida. Seguida de perto pelo momento em que a Marta, no nono ano, me levantou a saia para me mostrar as cuecas mas infelizmente ninguém lhe havia falado da prática do aparamento púbico.

*harpa do flashback invertida*

Apesar de ter atribuído a experiência “borra-cueca” do Exorcista à idade e à falta de contactos com conteúdos assustadores, o certo é que vi várias vezes desde então o Exorcista e o resultado mantém-se bem aterrorizante e fiel ao dia em que o vi pela primeira vez. Eu mudei, é certo, o filme mantém-se rei indestronável do terror. Centenas de filmes que lidam com exorcismos ou possessões demoníacas seguem linearmente a sua fórmula, esta cadência rítmica ao estilo Friedkin que se tornou norma. 

Uma família normal, sem raízes religiosas, ausente do circuito das maldições e profecias, uma aproximação científica e clínica aos problemas, a esperança que desaparece de modo lento e descontrolado, a inevitabilidade do mal, a impotência do homem perante forças que cuja sua compreensão mal arranha, uma criança lidada como um trapilho descartável, a aproximação clara e objetiva de Friedkin e os dotes vocais Mercedes McCambridge. Apesar desta tour de force de McCambridge, eu diria que em Johnny Guitar ou na sua fugaz passagem por Touch of Evil, ela não é menos aterrorizante.

Friedkin revela aqui o segredo do medo, de assustar o cinéfilo, que sentado incrédulo com a sua coca-cola e as suas pipocas caríssimas, consegue sentir aquelas dores como suas. A identificação, aparente normalidade, como a de nossa casa. Como Kubrick fez em Shining, ao nos mostrar a facilidade como o mal se manifesta pelas razões mais inesperadas, aqui Friedkin explica que qualquer um pode ser escolhido porque o mal quer apenas mostrar o seu poder. De notar que existe uma cena colocada na versão de 2001, a explicar exatamente isto para quem não percebe pelo tom geral do filme.

Desde então vi e revi milhares de filmes, sempre em busca dessa sensação primordial. Não há mês em que não apareça “o filme mais assustador de sempre”, embocando sempre na frouxidão do costume, nos trejeitos e costumeiras regras que os denunciam logo no primeiro ato. Elevou-se o terror, com a tendência intelectual de materializar em monstros e entidades os traumas, fobias, fantasias ou culpas, como se isso já não existisse desde o início dos tempos sem a necessidade de o anunciar a megafone Depois os filmes meta para quem já viu tudo, enfim, uma panóplia infindável de cinema que consumo sem restrições por ser a minha principal fonte de dieta cinematográfica. Mas o exorcista, meus amigos, o exorcista e eu dançamos abraçados ao luar há quase 40 anos e somos felizes assim. 

Tirando isto, só aquele email do IMI me fazem tremer angústia e suores frios. 



*Texto da autoria de Pedro de Alarcão Lombarda. Reconhecido internacionalmente como “aquele blogger que foi perseguido durante uma noite inteira por um grupo de donas de casa enraivecidas à conta de uns reparos à virilidade do Leonardo DiCaprio em Titanic”, Pedro acumula o maior número de cargos inúteis de todo o ecossistema cinematográfico nacional. Engenheiro de profissão, sonhador por vocação, pode ser frequentemente encontrado a olhar pela janela a ponderar narrativas alternativas para o quarto Indiana Jones ou a ignorar chamadas dos seus compinchas das Nalgas do Mandarim quando lhe querem vender suplemento de Herbalife. Utilizador ativo de três leitores de VHS e recordista nacional de Pang e OutZone tem também a única cópia restante em VHS de “She, A Raínha da Guerra e do Amor”.