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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A morte do cisne ...

Hugo Gomes, 14.02.24

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Black Swan (Darren Aronofsky, 2010)

Ela levantou a cabeça. Era linda. O discreto decote da blusa deixava à mostra a textura reluzente da pele. E que pescoço! Não desses muitos longos. Para ser exato, o mesmo pescoço da Vênus de Praxíteles. Também estive lá. Em Roma. Tenho horror de pescoços longos. Eles me lembram cisnes. E cisnes me lembra morte. A morte do cisne. E a morte do cisne me faz lembrar que também vou morrer um dia. Espero que não seja no lago. Tenho horror de quando começo a pensar. É repugnante. Graças ao demo, dono do planeta, há muito pouca gente que pensa. Ainda bem.

Hilda Hilst, "A Obscena Senhora D e outras Histórias" (edição Companhia das Letras) - "Contos D’Escárnio - Textos Grotescos" / 1990

A 'kagemusha'

Hugo Gomes, 01.12.23

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Há uma evidente alusão à “Persona” e a “Clouds of Sils Maria”, de Olivier Assayas, quer no confronto de identidades, quer na essência performativa, no entanto, em "May December", a recente colaboração entre Todd Haynes e a sua “musa” Julianne Moore (dupla “unha” e “carne”, evidentemente), evoca inesperadamente, e espiritualmente, um dos últimos trabalhos de Akira Kurosawa: “Kagemusha” (1980). Esse épico kurosaweano, surgido na sua fase pós-consagração, destaca a transformação de um sósia para o seu falecido Senhor de Guerra. Os próximos ao círculo do anterior feudatário apercebem dessas semelhanças, salientes e confundíveis da 'cópia' ao original, até ao ponto em que se tornaria mais autêntico [sublinha-se] que o próprio Senhor. Mais tarde, somos conduzidos a esse duplo-sombra perseguido pelo vulto do seu defunto mestre, numa perseguição onírica, metaforizando a instabilidade e mutabilidade da identidade, que não é mais do que uma 'persona' em constante manutenção.

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Em "May December", Natalie Portman, assumindo o papel de Elizabeth Berry, uma atriz de renome do pequeno ecrã, imersa num novo e ambicioso telefilme, a adaptação da controversa história de Gracie Atherton-Yu (Julianne Moore), uma professora condenada por um relacionamento amoroso com um jovem de 13 anos nos anos 90, automaticamente virando uma figura mediática de tabloide. Portman estuda meticulosamente a personagem expressa em Moore, agora instalada e vivendo um matrimónio, aparentemente feliz, com o seu antigo “amante jovial” (Charles Melton), mimetizando-a para desvendar a sua psicologia, idiossincrasias e identidade, até mesmo invadindo momentos íntimos. A conexão entre o filme de Haynes e o de Kurosawa reside na transformação da(o) 'sósia' até atingir a réplica ambígua, chegando a transgredi-la. Aqui, em cena, a simulação do sexo no local, o ato 'pecaminoso' que dá mote à 'novela', do qual testemunhamos a fuga à crisálida por parte de Natalie Portman (o filme faz uso de um sub-subenredo de borboletas monarcas e as suas diferentes metamorfoses como imagem-guia), a sua tomada de posição, ou diria mesmo superação, a criação de uma nova autenticidade, de uma nova 'realidade'. A 'kagemusha', a 'sombra', aproxima-se do genuíno, desafiando a essência estabelecida pela 'persona original'.

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Quanto à natureza do próprio filme, desviando-se da abordagem clássica sirkeana (“Far from Heaven”) ou dos resquícios de David Lean (“Carol"), "May December" apronta-se num lado pindérico telenovelesco, com a abertura em jeito do 'jingle' de "The Go-Between" de Joseph Losey e os constantes dramas sumarentos com que expõe como rímel de um confronto entre verité e vanitas. Porém, é na sua teoria que se resume a um interessantíssimo ensaio.

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Música ... ¿Por qué no te callas?

Hugo Gomes, 10.05.17

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A música toca e toca em modo playlist, continuamente, imperativamente e ritmicamente perante as imagens que funcionam num vórtice de corpos vazios, que bailam ao som das mesmas de forma dessincronizada. A música, segundo Malick, é a alma de Austin, esse paraíso liberal num estado tão fechado como o Texas, e a única alma verdadeiramente sentida, por a arte invocada por estes ritmos diversos não engendrar com a narrativa visual que o realizador “tímido”, agora prometendo uma maior assiduidade na indústria, gera.

"Song to Song" é a sua nona longa-metragem, a terceira da fase pós-2011 (sem considerar o seu documentário "Voyage of Time"), e a nova evidência de que os autores, por mais inconfundíveis que sejam, também cedem ao mais profundo conformismo. O “culpado” desta presença repentinamente está no digital, a infinidade e o facilitismo que as tecnologias atribuíram ao Cinema, mas para Malick é o prenúncio do seu fim enquanto ser misterioso da indústria, é o cansaço em pessoa de quem não tem mais nada de novo para contar. Triste realidade, "Song to Song" é mais do mesmo em doses malickianas, são as “maliquices” levadas até ao fim e o seu cinema tão “autoral” converteu-se na mais perfeita caricatura, a loucura da repetição e dos problemas de primeiro mundo como base de um prolongado sofrimento de personagens. Esse sofrimento entra em loop, na persistência dos mesmos planos “over and over”, e das frases sussurrantes cada vez menos inspiradas e cedidas a uma lamechice de pacotilha. Será Malick o Pedro Chagas Freitas cinematográfico?

"Song to Song" começa com um triangulo amoroso (Michael Fassbender, Ryan Gosling e Rooney Mara), um ménage de "Dreamers", de Bertulocci, com os mesmos “joguinho” sexuais e de foro emocional. Tais vértices vão-se afastando dando origens a trilhos cada vez mais paralelos entre as diferentes personagens. Sim, é triste chamar isto de personagens, até porque Malick brinca com o vazio, com os movimentos erráticos e circulares destas, nos diálogos impostos num falso-raccord. Não existe espaço para personagens, tudo são bonecos que se pavoneiam perante um autor que se assume desorganizado, espontâneo e refém do seu instinto.

Será isso bom? Não será a Arte um veículo pensante? Ou um instinto humano de comunicar? Conforme seja a escolha, a verdade é que o sedentarismo é um veneno e para Malick esperemos que encontre a cura. "Song to Song" é um som incorrespondido com a narrativa visual, é a prova de depois de Tree of Life, Malick não demonstra qualquer sinal de revitalização, mas sim de preguiça no mais incurável sentido.

Precisávamos de Neruda para chegar a Jackie

Hugo Gomes, 07.02.17

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Neruda foi o esboço, Jackie foi "a prova dos nove". Neruda foi a desfragmentação, Jackie a fragmentação. Enquanto que um usufruía da liberdade em ficcionar, o outro tende em encontrar liberdade por entre a agenda de Hollywood. Mas Jackie, em todo os casos, é um oásis nesse deserto que têm sido os biopics da "award season". Pena é que Natalie Portman funcione como uma mimetização, algo representativo, onde serve de rebelião o olhar para com a rigidez da sua personalização.

 

Um 'conto' à maneira de Natalie Portman

Hugo Gomes, 18.03.16

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A primeira longa-metragem sob a batuta de Natalie Portman resume-se a um esforço hercúleo de uma estrela de Hollywood em “abraçar” as suas origens, enquanto procura dignidade artística dentro da indústria cinematográfica. Transcrevendo assim a autobiografia de um dos maiores escritores de Israel, Amos Oz, num registo que acaba por esboçar a sua infância como a relação com a progenitora, “A História de Amor e Trevas” (“A Tale of Love and Darkness”) é uma obra orquestrada pelas palavras do seu autor (readaptado pela própria realizadora).

Essa dita verborreia corresponde com etimologia ao visual descrito pelo filme, a fotografia pálida transmite convenientemente o estado espírito do protagonista, e essa relação entre a escrita e a imagem indicia os propósitos herdados pelo pai de Oz – “toma atenção à ligação entre palavras“. Falando em ligação, é evidente o paralelismo do crescimento do escritor, o menino de ontem, com o conflito israelo-palestino, um cenário bélico e de desolação que contribuirá para a afirmação do homem do amanhã.

O filme tende apresentar de forma quase orgástica a criação do “Estado Livre de Israel” (que no entretanto a narrativa cruza), ao mesmo tempo que “afia as facas” para uma catarse ambígua que determina um inimigo comum de dois povos rivais. Aqui a Europa é vista como uma terra maldita, lares de colonos e nazistas que deixaram à mercê um povo ao abandono de uma nação prometida. É sabido que Portman respeita a ideologia e o contexto histórico de cada palavra proferida por Oz. Todavia é certo, que esse escape através da língua de outro seja visto como uma desculpa para visualizar um lado da guerra, e assim incutir a tentativa de complexidade poética do lado biográfico da fita.

A atriz, que também protagoniza sob algumas dificuldades no dialeto, encarou imensos obstáculos até à concepção deste projeto, mas esse percurso “espinhoso” atribuiu a esta realizadora o seu “quê” de pretensiosismo. Aliás, essa ambição de interpretar os pensamentos de Amos Oz assumem-se como uma gratificante virtude e ao mesmo tempo um pecado carnal para o filme. Portman é uma “workaholic” empenhada, porém, esse dito compromisso se intromete nas “asas” que “A História de Amor e Trevas” poderia adquirir, para além de constantemente ceder a um ensaio narcisista da atriz / realizadora. Nota-se essa vontade de emancipação induzida nas trevas do ego, bem que longe de se tornar na maior “borrada” de um curriculum declara como uma obra atualmente menosprezada, provavelmente valorizada daqui a um par de anos. Talvez aí a ânsia de um estatuto artístico interrogado seja por fim encontrado.

Por enquanto, Natalie Portman estreia na realização dirigindo ela própria num dos seus melhores desempenhos recentes. “A História de Amor e Trevas” é um filme que queremos gostar a todo o custo. Infelizmente, é demasiado quebradiço e presunçoso para que nos atinja com o seu objetivo emocional. Esforçado, mas …