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16.5.15

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O quarto da mãe!

 

Com Mia Madreuma coisa podemos ter a certeza: Nanni Moretti perdeu o seu toque e mesmo quando invoca o seu estilo sentimo-nos defraudados com o seu (não confirmado) cansaço. Nesta sua nova obra, somos apresentados a Margherita (Margherita Buy), uma realizadora cuja sua vida ultimamente tem levado violentos golpes. A sua mãe sofre com uma doença terminal, a morte é eminente, mas Margherita prefere não aceitar isso. Para além do mais, a sua filha adolescente está demasiado confusa e perdida, e o filme, que se encontra a rodar, está a tornar-se num autêntico caos, um cenário que piora ainda mais com a vinda de Barry (John Turturro), uma estrela de Hollywood egocêntrica, dotada de muita conversa e pouca acção.

 

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Nanni Moretti transformou Mia Madre num objecto pessoal, personificando-se numa mulher que parece ter perdido o controlo na sua vida. Margherita interpreta um alter-ego do próprio Moretti e a sua anterior "capa" Michele Apicella, mas o drama incutido pelo cineasta parece sufocar a personagem, mais do que as tramas nas quais ela está envolvida. Muitas delas soam mesmo a evocações a um dos êxitos passados do autor, O Quarto do Filho, no qual aborda a ausência como um estado de espírito atormentado. Demasiado anoréctico para a sua veia existencialista, Mia Madre parece apenas ter encontrado a sua força no desempenho de John Turturro, um "comic relief" que se transforma num must. O actor desencadeia um dos momentos musicais mais deliciosos dos últimos tempos, muito devido ao seu carisma, aqui em pleno estado de graça.

 

Mia-Madre.jpg

 

De resto, tudo é empacotado com as referências de Moretti, que aqui surge também na interpretação como se tratasse do "grilo-consciência" do Pinóquio. Nisto, Mia Madre vale a visualização por dois motivos únicos: um actor secundário com uma estima igual ou maior que o próprio filme, e a confirmação de que até mesmo um dos realizadores mais frontais de Itália tem o seu "quê" de bloqueio criativo.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Nanni Moretti / Int.: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti

 

 MargheritaBuyNanniMoretti.jpg

 

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Habemus Papam (2011)

5/10

publicado por Hugo Gomes às 11:09
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19.12.11

Quem quer ser o próximo Papa?

 

Pouco tempo depois, desde a beatificação do papa João Paulo II, eis que surge a nova obra de Nanni Moretti, Habemus Papam, uma clara alusão à mítica frase do Vaticano (Temos Papa) proferida antes do anúncio de um novo papa. A fita é um retrato algo ácido, mas ao mesmo tempo singelo e refeito com uma calma sarcástica digna do frontal autor de La Stanza del Figlio.

 

 

A história nos remete pouco tempo depois do falecimento do antigo papa, sendo o qual decorre o conclave e é assim eleito o elemento máximo da Igreja Cristã. A escolha recaiu na personagem de Michel Piccoli, e no preciso momento em que é anunciado como o novo papa, este sofre um extremo ataque de pânico que o evita de comparecer na célebre varanda da Praça de S. Pedro, “congelando” então todo o processo de ascensão do mais alto representante de uma religião. Estas consequências levam a uma crise existencial do Vaticano, onde os fiéis desesperam pela divulgação do novo papa e os conselheiros sem mais nenhuma solução decidem recorrer à psicanálise, confrontando dois ideais numa era moderna cheia de dúvidas.

 

 

Nanni Moretti compõe assim uma das suas mais ousadas obras, um intelecto sobre as fraquezas de uma religião que não consegue evoluir e do medo de responsabilidades, alusão talvez algo metafórica do empenho da Igreja Cristã ao longo dos tempos. A ironia e a arrogância, de certa maneira estabelecida na personagem encarnada por Moretti, encontra-se estampada na narrativa que segue um sensível e terno Piccoli até conduzir a um final algo trágico e apocalíptico. Pelo meio ainda temos sequências deliciosas a não perder, como por exemplo um torneio de voleibol entre os cardeais “prisioneiros”.

 

 

Vaticano poderá ter corado face a tal retrato de certa forma anti-clerical, mas ninguém nega o realismo com que o autor reproduz um ritual tão misterioso que é o conclave. Habemus Papam é algo que recria o medo da extinção de ideais, processos e credibilidades, sem medo de ser directo nem objectivo. É a metáfora de uma ansiedade inerente de uma instituição religiosa, onde o apetecido cargo máximo já não é visto como uma bênção, mas sim uma maldição pelo qual ninguém deseja estar preso. A ver esta psicanálise cinematográfico de um dos maiores medos a nível global, a descrença de uma das mais poderosas religiões do mundo.

 

Real.: Nanni Moretti / Int.: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr

 

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 22:17
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Habemus Papam (2011)

últ. comentários
Gritos 3: 5*Que filme excelente e fenomenal, adore...
Um dos meus favoritos 5*
Gritos 2: 5*Sidney, Dewey e Gale estão de regresso...
Para mim é um dos melhores estreados em 2018, amo ...
É já de domínio público que João Botelho adaptou, ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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