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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Arranca o Close-Up, Observatório de Cinema em Vila Nova de Famalicão

Hugo Gomes, 16.10.16

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Steamboat Bill, Jr. (Charles Reisner & Buster Keaton, 1928)

Vila Nova de Famalicão será, durante os próximos quatro dias, o derradeiro Observatório de Cinema, o Close-Up, para ser mais exato. E é já a partir de amanhã (27 de outubro), que esta iniciativa projetada pelo Cineclube de Joane, arrancará com uma impressionante programação de filmes e eventos paralelos, que ligam o passado, presente e futuro do Cinema. Reflexões sobre a Sétima Arte, os primórdios em jeito de arqueologia, assim como os caminhos a seguir ou previsivelmente a instalar-se, muitos convidados e uma mostra selecionada de filmes, com principal ênfase às produções nacionais, dividido em oito sessões temáticas, preencherão a Casa das Artes da cidade.

Temos como principal destaque o ciclo “Noite e Nevoeiro – 70 anos de Imagens do Holocausto“, que tal como o título focará sobretudo no registo cinematográfico e documental dos horrores cometidos na Segunda Guerra Mundial. Inserido na sessão Paisagens Temáticas, neste espaço serão exibidos filmes, que vão desde o recente e premiado “Saul Fia”, de László Nemes, sobre um prisioneiro de Auschwitz que reencontra a sua Humanidade até ao mais novo trabalho de Sérgio Tréfaut, “Treblinka”, um testemunho materializado daqueles que partiram contra em comboios cujos destinos são impensáveis. Passando pelo biográfico “Hannah Arendt”, de Margarethe Von Trotta, sobre a mulher por detrás dos pensamentos da Banalidade do Mal, até chegar, por fim, ao documentário “The Decent One”, de Vanessa Lapa, que retrata a vida de Heinrich Himmler, o mentor da chamada “Solução Final”, o extermínio dos judeus. Elena Piatok, diretora do Judaica: Festival de Cinema e Cultura, e a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves, serão as oradoras.

Em “Fantasia Lusitana “, espera-nos sete filmes que no seu todo formam um quadro, quer etnográfico, quer artístico de um país. É uma seleção de documentários nacionais sobre pessoas, animais, lugares e estados, escolhidos a dedo e interligados de alguma forma. Destaca-se as exibições do filme-testamento de Manoel de Oliveira, “Visita ou Memórias e Confissões”, seguido pela homenagem de João Botelho ao “mestre” em “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”.

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Saul Fia (László Nemes, 2015)

Dois dos mais venerados autores japoneses, Yasujiro Ozu e Isao Takahata, serão analisados e reavaliados nesta edição de Histórias de Cinema. De um lado, o dramático e emocionalmente expoente Ozu, um realizador marcado pela sua maneira inconfundível de filmar, planificar e dirigir os seus atores sobre um conjunto de falsos raccords. E do outro “canto”, Takahata, um dos mestres da animação nipónica, que poderá não ter gozado da mesma aclamação que o seu colega Hayao Miyazaki desfrutou, mas que mesmo assim, se apresenta como o criador de algumas das mais emotivas obras da Ghibli Studios. Animação e ação real, duas dimensões entrepostas neste olhar pelo cinema japonês.

Um dos mais ascendentes cineastas brasileiros da atualidade será homenageado no Close-Up. Serão cinco, as obras exibidas nesta secção Cinema do Mundo, dedicada ao “outro Brasil” de Gabriel Mascaro. Nesta retrospetiva poderemos encontrar os muito aclamados “Ventos de Agosto”, um atípico romance de verão, e o recente Boi Neon, que nos leva ao outro lado dos rodeos brasileiros sob uma confrontação com a própria ode da masculinidade.

O resto da programação será constituída por sessões direcionadas para escolas, com foco principal no tema da juventude. Vale a pena salientar que a primeira longa-metragem de Andrei Tarkovsky, "Ivan 's Childhood”, encontra-se integrada no programa. Para além disso, está agendado uma Oficina de Animação dedicada aos mais novos. Close-Up ainda exibirá uma sessão especial de O Ornitólogo”, a quinta longa de João Pedro Rodrigues que remete o espectador a uma viagem esotérica de um observador de pássaros, perdido nas encostas do Douro.

Por fim, como sessão de abertura, temos um “double bill” constituído pelo filme-concerto “Steamboat Bill, Jr”., um dos grandes clássicos do “rei do slapstickBuster Keaton, será transformado sob a vertente musical de Bruno Pernadas. E “Cinco para Kiarostami”, o filme-homenagem a Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano que infelizmente nos deixou recentemente, uma produção da Casa das Artes e do Cineclube de Joane, com direção de Vítor Ribeiro e Mário Macedo.

Falando com Ziad Doueiri, o libanês que deseja mais do que ser o "protegido de Tarantino"

Hugo Gomes, 28.03.14

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O Cinematograficamente Falando … conversou com o cineasta libanês Ziad Doueiri, que se encontra em Portugal para apresentar a sua última obra, “L'Attentat” (“O Atentado”), o filme de abertura do Judaica: 2º Mostra de Cinema e Cultura (27 - 30 de Março) para depois estrear nas nossas salas de cinemas a partir do dia 3 de abril. Oriundo da capital libanesa, Beirute, Doueiri seguiu com 20 anos para os EUA para formar-se em Cinema pela Universidade de San Diego.

Iniciou-se no ramo em 1987 como electricista na comédia de Tina Hirsch, “Munchies”, para depois destacar como operador e primeiro assistente de câmara em inúmeras produções de Hollywood, nomeadamente os diversos filmes de Quentin Tarantino, o qual é diversas vezes denominado por "Tarantino Protégé" (The Hollywood Reporter). Face a tal título, o autor pediu para não o associarem ao realizador de “Pulp Fiction”, chegando a sugerir a utilização de uma t-shirt com "I'm not associated to Tarantino" impresso para as futuras entrevistas, contudo confrontando com a questão "como foi trabalhar com o cineasta norte-americano", Doueiri revelou que era apenas um "tecnical guy", mas que adquiriu boas experiências nessa sua fase. 

Depois dos referidos trabalhos técnicos, Ziad Doueiri estreou-se como realizador a solo em 1998 com “West Beirut”, uma obra tremendamente elogiada que contou com um vistoso currículo no circuito dos festivais de cinema, tendo consagrado com o Prémio François Chalais no Festival de Cannes desse mesmo ano. O realizador voltaria a dirigir em 2004 com “Lila Says”, também ele bastante elogiado, ambas as obras o tornaram confiante e possivelmente apto de adaptar um livro tão delicado como “L'Attentat” de Yasmina Khadra, a história de um médico palestino, Amin Jaafari (Ali Suliman, “Paradise Now”), que tenta provar a inocência da sua falecida mulher, acusada de atentado suicida, nem que para isso tenha que descer às "profundezas" do fanatismo religioso.

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L'Attentat (2012)

O filme que se assume como um drama intimista com toques de thriller, expõe ao espectador inúmeros dilemas do foro social, político e religioso, mas Ziad Doueiri desaprova essa "perspectiva política", ao invés disso, o autor refere uma visão dramática, a criação de uma ênfase dramática arrebatadora sobre um homem em busca das várias vertentes da verdade, nada mais. Salienta a força do enredo e do ator em conjunto com a sua personagem, que de optimista se converte num "moralmente falecido", sendo possível "sentir o personagem face à sua decrescente jornada". Em relação ao optimismo inicial do protagonista, Ziad Doueiri não partilha a tal visão em relação ao seu país de origem, porém esta foi a única sugestão político-social que declarou durante toda a conversa, tendo negado as supostas segundas intenções no seu drama.

O realizador afirma que o seu trabalho foi sincero, incapaz de enviar tais mensagens ao espectador, aliás como o próprio acrescenta "nem eu sei que mensagem devo enviar". Segundo este, a ideologia que muitos espectadores, críticos e jornalistas constataram no seu filme advém simplesmente das personagens e da trama forte que conseguiu construir, referindo Oliver Stone como um dos exemplos deste seu modus operandis, "uma sólida história e personagens frente a uma mensagem". O realizador ainda abdica da coragem de que foi apontado, "não sou corajoso, nem é a coragem que preenche a minha agenda como realizador", mas adianta que "filmes como estes não são fáceis de fazer", e confrontando com o facto de vir a surgir eventuais consequências em remexer sensibilidade sociais, a religião é e sempre será uma "dor de cabeça", revela não sentir qualquer receio em relação a isso.

Quanto aos estereótipos árabes nos filmes ocidentais, Ziad Doueiri afirma que os "americanos estão a mudar a sua perspectiva em relação aos árabes" e que por isso a invocação de tais estereótipos é completamente descabida mesmo em Hollywood. Para finalizar o realizador anunciou, sem aprofundar, pormenores acerca do seu futuro projecto, “L'Insulte”, que será filmado em Beirut, "um drama de tribunal que estou a escrever com a minha mãe", sendo o Direito algo geracional para ele, revelando as suas origens, uma família quase toda ela ligada ao ramo (a mãe é advogada e os tios que são juízes).

Era uma vez ... um atentado

Hugo Gomes, 27.03.14

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O já muitas vezes apelidado de “prodígio de Tarantino” (devido ao trabalho que exerceu como assistente de câmara em inúmeros filmes do realizador nos anos 90), Ziad Doueiri adapta o polémico best-seller de Yasmina Khadra para o grande ecrã, convertendo a jornada de um homem às profundezas de uma sociedade regida pela religião fervorosa e pelo ódio entre culturas num thriller intimista que apela pertinentes questões e que nos outorga respostas através da emoção.

A terceira longa-metragem de Doueiri enquanto realizador-a-solo (marcando 14 anos desde a sua aclamada estreia com “West Beirute”, abordando a Guerra Civil do Líbano, a nacionalidade do realizador, nos anos 70), é um filme arranca sob um signo esperançoso, retratando a cidade israelita Tel Aviv como um último reduto utópico para israelitas e palestinos. Mas com o desenrolar de um enredo que nos alude ao thriller mainstream, “L’Attentat” nos atenta (gosto do “trocadilho”!) num vazio existencialista enquanto o espectador em cumplicidade com o protagonista “abraça” o derrotismo que surge após um "choque" com um "mundo subliminar". Ali Suliman (“Paradise Now”) desempenha assim um médico cirurgião palestino que renega as suas raízes para sobreviver numa sociedade cada vez mais no limiar, mas que é forçado a invoca-las para entender com que razões levaram a sua amada mulher a cometer um atentado suicida que vitimou uma dezena de israelitas. Uma verdade crua e dura que integra como "fraca" na alma deste homem atormentado, deixado ao abandono e marginalizado pelos dois lados da sociedade que habita. A utopia é só uma miragem.

O olhar de Doueiri não é denunciante, nem sequer engendra o panfletarismo ou usufrui do tema para requisitar maniqueísmo. É um quadro neutral, porém, forte nas suas convicções e na sua mostra, iniciando debates mas nunca terminá-los com opiniões definidas. “L'Attentat” joga com a sugestão das ocorrências e dos actos, mas no fundo o filme funciona como um potente drama sobre um homem em busca da consciência. Uma obra corajosa que encontra-se de momento proibida de ser exibido em grande parte dos países árabes incluindo a de origem do realizador, Líbano.