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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Ainda podemos acreditar na magia de Hollywood?

Hugo Gomes, 24.11.25

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O quarto está a caminho! Não há como fugir: o caderno de encargos é quem mais ordena. Enquanto isso, deixamo-nos “encantar” pelo espectáculo de ilusionismo, dos pobres até, dos efémeros porém, óptimos para se adaptarem a uma pequena tela, a ser transmitida num serão de um qualquer fim-de-semana.

Ruben Fleischer, realizador promissor em tempos, reduzido a tarefeiro de segunda, sem visão, sem enquadramento, sem opinião para os chamamentos que o seu lugar na indústria poderia invocar. Assim sendo, na saga “Now You See Me”, cada filme entregue a um realizador distinto (Louis Leterrier inaugurou, Jon M. Chu continuou, hoje “querido” do seu meio pelo díptico “Wicked”), sem que estes mostrem mais do que a sua mera operacionalidade. Virou rito de passagem, de colheitas fáceis, pois o público não se revela mais exigente do que o uso do cinema enquanto escapismo … e apenas escapismo.

Voltam as caras antigas (até Morgan Freeman, cada mais velho, a sua aveludada voz é a primeira vítima), juntam-se outras, reúnem-se os cheques, ergue-se o enredo em pleno truque de magia, vingam-se nos ares do tempo, provoca a ingenuidade do próprio tema (politicas a três pancadas, bem e mal, capitalismo de faćil compreensão e moralismos samaritanos, só quem acredita como quem acredita em fadas). Preparem-se… vem plot twist, portanto, tentem adivinhar. Pouco, ou quase nada, há a dizer de “Now You See Me: Now You Don’t”, além de ser sintoma de uma Hollywood anestesiada (incapaz de muito mais entre as lutas do streaming e a IA a entrar pela porta dentro, somado à fraca adesão do público a produções minimamente originais), é  é a maior cartada esperada daquele canto e recanto.

O cinema importa pouco — ou nada — nestes tempos inquietos. Estamos no limbo. Ouçamos o tilintar da máquina registadora: milhões para o cofre sem o mínimo esforço, e isso, sim, é o melhor dos truques de magia … simplesmente enganar-nos a todos.

"É esta a tua carta?"

Hugo Gomes, 15.06.16

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Juntamente com o recente “Alice Through the Looking Glass", este “Now You See Me 2” é já um dos fortes candidatos ao título de “sequela não pedida de 2016”, um filme cujo título português (“Mestres da Ilusão”) adequa-se perfeitamente à sua natureza.

Mais do que um filme, este é um verdadeiro truque de ilusionismo, que procura convencer o espectador de que todo este espetáculo é no mínimo saudável para a massa cinzenta de cada um. Contudo, a verdade está longe de ser mágica – tudo se resume a um argumento reciclável que utiliza como desculpa “o ilusionismo” para explicar o inverosímil. A prequela podia seguir os mesmos erros, mas no caso da sequela, o registo é insuportavelmente longo, atrapalhado com o excesso de informação e precocemente reprimido em consequências de “milésimos” falsos twists, engodos lançados para a audiência como se de burlas se tratassem.

Nem mesmo a ironia o filme consegue suportar. Aliás, temos aqui um enredo sobre mágicos e ilusionistas com Daniel “Harry Potter” Radcliffe como o vilão em cena, o “ateu” nesta ordem apocalíptica de coelhos e cartolas, infelizmente uma piada digna de “stand up comedy” desvanecida por um tom hiperativo e exaustivamente industrial. Continuando com o fracasso de todo o tamanho, “Mestres da Ilusão 2” ostenta um visual de brilhantismo que afoga qualquer indício provocado de “filme de golpe”, e quanto toca a explicações de planos intermináveis, o “cenário” torna-se ainda mais desesperado por atenção (verifica-se na entediante e demasiado longa sequência no laboratório).

Por fim, o elenco poderia ajudar a tornar esta experiência mais capaz na sua entrega mais cinematográfica e menos “videoclippeira“, mas a esta altura do texto o leitor já deve ter percebido que são mais um … fracasso. Um Jesse Eisenberg nos seus piores dias, um Woody Harrelson mais preocupado com o cheque (provavelmente a dobrar neste produto), um Dave Franco sem expressão e uma Lizzy Caplan como pneu suplente em modo “Kat Dennings wanna be“, não são certamente os anfitriões que queremos no nosso serão.

Entre Mágicos e Ladrões!

Hugo Gomes, 17.09.14

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The more you look, the less you see.

O francês Louis Leterrier revelou recentemente que a sua passagem por terras americanas não tem sido muito feliz em termos profissionais. Descontente com o resultado final do seu Hulk e da reimaginação tecnológica “Clash of the Titans”, o qual o realizador culpa a pressão dos estúdios e as complicações do argumento, o anterior “afilhado” de Luc Besson decide vergar por um cinema mais modesto e menos colossal em termos orçamentais, porém sem fugas possível ao mainstream norte-americano (está-lhe no sangue!). “Now You See Me” é um misto de cinema de golpe à lá “Ocean’s Eleven com um show de David Copperfield, a história de quatro ilusionistas de elite tido como principais suspeitos de um roubo a um grande banco francês, contudo, o quarteto tem como álibi um espectáculo em Las Vegas visto por milhares de pessoas.

Muitos truques de magia na manga e eventuais malhas de ilusão são os tópicos de interesse de uma fita que se resume a uma autêntica farsa. Tendo como título traduzido de “Mestres da Ilusão”, este é um filme em modo 200 à hora onde a suposta “magia” do argumento dissipa-se perante as artimanhas mais baratas do cinema comercial, onde parecia ser um ensaio de estilo erguido com astúcia automaticamente cede a um conjunto de perseguições, tiroteios e acção à moda de um trivial policial norte-americano. Depois de terminada a trama, “Now You See Me” ainda possui o descaramento para justificar tudo e todos através de reviravoltas, algumas necessárias outras não, dando uma sensação de um final “fake”, como se a experiência se resumisse a um simples truque de ilusionismo. É que até certo ponto, uma obra que supostamente poderia vingar pela imprevisibilidade torna-se o oposto, apenas disfarçado pelo facto de Louis Leterrier ser, de facto, dos maiores ilusionistas aqui.

Por fim o elenco, um articulado de luxo, e que são meramentes ‘fogo de vista’, correspondendo aos seus personagens-tipos desassociáveis. Só que no meio disto tudo são eles que acabam por ser vítimas desta imensa “vigarice”. Desequilibrado, desperdiçado e banal (a realização de Louis Leterrier é idêntico a um esticado videoclipe), “Now You See Me” é pura metáfora de Hollywood: um puro espectáculo de brilho e truques, onde a fórmula se converte numa verdadeira ilusão, por outras palavras – desilusão.