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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Natália e a cicatriz da sua ausência

Hugo Gomes, 07.09.25

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Recentemente, Eva Brás Pinho, jovem deputada do PSD, durante a sua intervenção na Assembleia da República sobre o enquadramento legal da violação enquanto crime público, leu algumas passagens do livro "A Cicatriz", da autoria de Maria Francisca Gama (publicado pela Suma de Letras), um fenómeno de vendas à portuguesa (impulsionando pelos ‘tik-toks desta vida’) que, no entanto, não se reflete na sua qualidade literária (mas isso são outros cinco tostões).

O que impressiona, hoje, é termos passado de Natália Correia (1923 - 1993) para isto, para a mediocridade que a direita elege como referência cultural, sem esquecer, porém, que também a deputada e poeta não foi sempre unanimemente agraciada pela ala esquerda. É precisamente nesse vazio que se inscreve o novo filme de Rosa Coutinho Cabral, realizadora do mais godardiano trabalho do cinema português ("Lavado em Lágrimas", 2006). "A Mulher que Morreu de Pé" não é apenas uma perspetiva esquemática sobre a vida, obra e carreira de Correia; é também a busca pela sua réstia neste mundo que se despediu da sua presença. Encena-se uma peça, e vários atores proclamam Natália Correia como sua … como unicamente sua. Cada um transmite as qualidades e feituras que a tornaram única, intrapessoal, irrepetível, e ao mesmo tempo pessoal, partilhável e a ser mimetizado no palco (“Qual é a tua Natália?”).

O filme prima por essa corda bamba entre documentário biográfico, ensaio performativo e demanda pessoal da cineasta: um cinéma vérité entre sombras e sósias de Natália, com o arquivo no apoio e na jornada da sua criação (encontrar a Natália de Rosa Coutinho Cabral em todo este espólio?). Entendemos o gesto (“o que aconteceria se a própria Natália fizesse um filme?”), e, sobretudo, a vontade de prosseguir ao encontro desta figura que, recordando a intenção de Eva Brás Pinho, deixou órfã a intelectualidade da Assembleia. Até porque "A Cicatriz", livro sobre uma mulher violada numa favela do Rio de Janeiro e que acaba por se suicidar, é tudo menos um provedor da resistência das vítimas de tão hediondo ato. Ai, se Natália estivesse viva! É por isso, e por outras, que "A Mulher que Morreu de Pé" funciona como lembrete e procura: a busca por uma mulher que, tal como o título indica, nunca se subjugou a quem quer que fosse.

Fidelidades, Abnegações

Hugo Gomes, 03.08.25

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Anteontem, estava na mesa do fundo do 39 Degraus, a explicar ao Hugo o que é que seria o meu texto, em vez de o escrever. Este tipo de sofrimento por antecipação é normal. Passa-se a maior parte do tempo nesta tensão antes do documento, que chega a durar semanas e que só se troca pela tensão na frente do documento, e nenhuma das duas é particularmente agradável. Não queria que o texto fosse muito grande. Queria aproveitar ao mesmo tempo a liberdade que decorre de um convite assim. Um par de frases, pelo menos, queria que fossem dedicadas a dar os parabéns ao Hugo e a este blog, o Cinematograficamente Falando …, que faz 18 aniversários. Saberia vagamente da existência do site no passado, mas só conheci o Hugo este ano, dia 3 de Janeiro de 2025, memorizado porque aterrei na Ilha do Pico, onde estávamos todos para a abertura do Festival Montanha. Cinema e Literatura: na Biblioteca da Vila da Madalena, na Ilha, existia uma mesa disposta com livros para oferta. Trouxe Jean Renoir, de André Bazin. Penso que o Hugo já tinha este — não me lembro qual é que ele escolheu. Tem sido um ano estranhamente maciço, apesar de simultaneamente o mais veloz de todos, como é o costume. Sinto que atravessei episódios importantes da minha vida e não me lembro com precisão de nenhum. Ainda assim, tenho encontrado o Hugo com frequência, seja na FCSH, na Feira do Livro, no 39 ou no Chapitô, e tem sido sempre alguém com quem é um gosto passar umas horas e beber umas cervejas. Por isso, obrigado, amigo, pelo convite, e parabéns pelos 18 anos.

O maior mistério na intersecção entre Cinema e Literatura reside nas adaptações concomitantes de Manoel de Oliveira e de Andrzej Żuławski do romance A Princesa de Clèves, de Madame La Fayette. Oliveira fez A Carta, que sai em 1999, protagonizado por Pedro Abrunhosa e Chiara Mastroianni, Żuławski faz La Fidélité, que sai em 2000, com Sophie Marceau e Guillaume Canet. Ambos produzidos por Paulo Branco, que ainda tem pelo meio Le Temps Retrouvé, de Raúl Ruiz, e outros. Começar a tocar neste assunto é uma demanda tão trabalhosa que poderíamos parar para descansar em qualquer planalto — a escolha do casal Abrunhosa-Mastroianni, por exemplo, que não tem semelhante em todo o cinema — e ter já alcançado suficientemente o sublime. 

Repara, em Lost, de J.J Abrams e Damon Lindelof, a personagem Desmond carrega com ele uma cópia de O Amigo Comum de Dickens, para ler por inteiro quando estiver perto de morrer. Para um tema “Ler Cinema, Ver Literatura”, a minha verdadeira contribuição seria o trabalho a fundo que a questão da Princesa de Clèves e dos seus dois filmes gémeos requer, e é uma contribuição que não posso ainda fazer. Esse trabalho, que existirá em mim em devir ou virtualidade desde que fiz eu os dezoito, ter-me-á tomado um dia provavelmente anos de vida, e resultado em dezenas ou centenas de páginas. Temo que o empreendimento me afectasse de forma severa, e que me acontecesse aquilo a que Lacan chama afânise, o desvanecimento do sujeito por detrás do significante. A ligação entre estes dois filmes é um dos grandes temas, a minha rosa-cruz. Pairam em termos simbólicos sobre a minha vida. Há uma fortíssima demanda para os explicar, pelo simples facto da intersecção existir; de resto, é evidente que parecem de algum modo poder explicar-me, e nesse sentido, uma vez publicado o trabalho, seria precisamente um desvanecimento meu que estaria em causa: quando o sujeito aparece algures como significado, é manifestado noutro lugar como desaparecimento.

Portanto, por ora, um outro apontamento: as minhas inesperadas leituras de Florbela Espanca levaram-me a imaginar o que seria realizar uma adaptação de contos seus verdadeiramente atenta e honrosa à sua prosa. Estamos a falar de uma mulher que escreve:

Silêncio. Um silêncio feito de fluidos rumorosos, do vago rastejar dum perfume, dum leve vapor de incenso pairando. Silêncio como um vago clarão de fogo fátuo, como o rasto, a poalha dum desejo imaterial, silêncio em torno da vasta catedral de sombras onde as sombras vestidas de branco pontificam pelas noites.” (“A Morta”)

Imaginei filmar-se com isso em mente. Ainda não foi feito. Gostava de fazê-lo. Do Diário da Florbela Espanca há uma versão fac-similada com prefácio da Natália Correia, poetisa sobre quem vimos um fabuloso filme da Rosa Coutinho Cabral, na Ilha do Pico. Comprei uma outra edição, barata, a um tipo do OLX que se encontrou comigo junto ao Hospital Pulido Valente. O Diário é extraordinário. Tem apenas doze páginas. Aproximei-me dele como Knausgård se aproximou do de Delacroix. O que me surpreendeu mais na prosa de Florbela foram as encenações de compaixão profunda, em sangramento até, que eu julgava ingenuamente incompatíveis com a afecção neurasténica. O Dominó Preto é um conto fabuloso, sobre um homem cujo escárnio e troça da mulher amada o conduzem a um final funesto: é de uma elegância e de uma generosidade assombrosa a forma como ela escreve este personagem. Amor de Outrora, que é um conto de uma abnegação extraordinária, uma abnegação com semelhanças e diferenças entre aquela do romance de Madame La Fayette, encontra a protagonista a renunciar a um grande amor para não roubar uma criança dos seus pais, por considerar “o ninho destruído, o pequenino sem pai, uma pobre mulher viúva da pior viuvez, sem o ter merecido”. Um grande amor que lhe escreve: “Pensa, pensa bem, mas só em nós, só em nós dois, que os outros são menos do que sombras, são nada, não existem”. É um trabalho notável que me apetecia adaptar com justiça um dia.

 

*Texto da autoria de Rafael Fonsecacrítico e realizador de cinema, com textos publicados em Tribuna do Cinema, À Pala de Walsh e Talking Shorts. O seu filme Quorum (2025) estreou recentemente na Cinemateca Portuguesa.

O Cinema da extinção, e dessa morte, a reinvenção.

Hugo Gomes, 09.01.25

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Em 2013, Raya Martin e Mark Peranson, numa proposta oscilante entre o experimental e o falso-documentário, contaram a jornada caótica e eclética de um realizador americano que se preparava para o seu derradeiro filme e, talvez, no contexto apocalíptico que o envolvia, o último filme de todos os tempos. “La última película”, exibido entre nós numa sessão competitiva do Leffest (nunca mais foi visto em território português), dividiu profundamente os poucos que o presenciaram: encantou alguns, enojou outros, mas sobretudo lançou os seus espectadores num malabarismo conceptual entre as infinitas possibilidades do cinema e as limitações que o ameaçam. Ao mesmo tempo, num tom quase sussurrado, debatia-se perante as portas do armagedão. Se a humanidade desaparecesse, o que restaria do cinema? Extinguir-se-ia como prova indissociável da nossa ligação carnal ao mundo, ou persistiria como algo alheio à nossa existência? Hipóteses delirantes, tingidas de surrealismo, sobre o que seria a última produção cinematográfica: como seria, e seria ela capaz de traduzir a nossa essência enquanto espécie?

Rafael Fonseca não se propõe a criar uma última obra antes do crepúsculo definitivo, mas “Quorum” surge como uma identidade em pura experimentação, como se fosse já tarde demais para o cinema progredir enquanto ato criativo futuro. Aqui, o cinema — apresentado sob a forma de um filme histórico em construção — é simultaneamente uma miragem e um gag prolongado, a busca incessante de um realizador pela sua obra, pela sua voz, num mundo que, em torno dele, parece recusar-se a oferecer as condições para tal descoberta. Filmado no Gerês, é a natureza que domina, soberana e implacável. Contudo, no meio da paisagem selvagem, um filme emerge subtilmente, através de uma narrativa esculpida em pedra, e pelo tempo - e mesmo assim respirando o imaginário.

Daí, como se pode ouvir através da leitura proclamada de Alice Ruiz (uma atriz que parece-nos saída do universo de Eugène Green), há um romance proibido entre uma freira e um soldado. Mas é apenas a imaginação que nos conduz até lá. Os atores, por sua vez, emprestam os seus corpos à encenação, mas as emoções, os gestos, os olhares — tudo parece pairar no limiar dessa fronteira, do romance e do não-romance. São os multi-terrenos da ficção a condizer com um cinema que se experimenta a si próprio. Fonseca não abdica da cinefilia que o atravessa; antes estica-a até ao limite, num ato de risco controlado de onde sai triunfante.

Quorum” é, simultaneamente, drama histórico, ficção científica, romance épico e ensaio memorialista — uma obra que celebra o ecletismo, desgastando os géneros, improvisando com ousadia. Funciona como tudo e funciona como nada. É um filme que se faz no prenúncio de um fim — um reflexo do mundo à beira do colapso. Mas Fonseca entrega-nos mais do que imagens ou sons: entrega-nos encantamento, muito deles pelo desconhecido como fenómenos do Entroncamento, aqui, rompendo os céus e iluminando de forma miraculosa as fases destes protagonistas (serão eles os três anjos do Apocalipse na espera do quarto?). Porque, no meio deste cataclismo silencioso, há o deslumbramento para com a natureza, é o que resta, e o que restará depois de nós, da nossa iminente ausência. Os garranos, selvagens e deslumbrantes, ecoam essa promessa do cinema como máquina de maravilhas. Fonseca captou-os num inventivo modo de distanciar-se da realidade, ou de acharmos dela a melhor representação. 

Há muito que o Fim do Mundo não parecia tão hipnotizante. Que últimos filmes nos trarão? Que últimas imagens guardaremos? Fonseca dá-nos uma resposta tangível: o cinema, mesmo nos seus estertores, continua a ser um gesto de criação, uma promessa de eternidade perante o inevitável.

No Pico, olha-se para o audiovisual com foco. Uma conversa com Terry Costa, diretor artístico do Montanha Pico Festival.

Hugo Gomes, 02.01.25

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"First Date", a curta de Luís Filipe Borges

É no ponto mais alto do território português que se dará lugar o Montanha Pico Festival (3 a 30 de janeiro), uma iniciativa da MiratecArts que visa transgredir a ideia convencional de festival como simples mostra de filmes, entendendo que, a partir deste lugar singular, há espaço para debater o futuro e explorar soluções para o universo audiovisual. Sob a vigilância do “gigante adormecido”, o Pico que empresta o nome à ilha, ao cinema e aos filmes, a tela será novamente palco para histórias que vão além do visual, incentivando tanto o público fiel quanto os recém-convertidos ao simples e poderoso ato de “ir ao cinema”. Um gesto cada vez mais desprezado no continente, onde o cinema se tornou um mero “despacha-tempo” momentâneo, e na ilha, onde a escassez de propostas de projeção transforma esse mesmo ato numa forma de resistência.

Nesta edição, temos a evocação de Natália Correia e o regresso da realizadora, muitas vezes esquecida, Rosa Coutinho Cabral, que abrirá as "honras da casa" [toda a programação aqui]. A grande atração será a estreia da curta-metragem “First Date”, de Luís Filipe Borges, com Cristóvão Campos e Ana Lopes (que não é estranha a este ambiente), e que será apresentada pela primeira vez ao grande público. Mas antes disso, de Correia por Cabral, de romances no Pico, teremos um encontro entre críticos e jornalistas de cinema (o Cinematograficamente Falando … estará presente) para debater o papel fundamental da crítica na divulgação e no percurso das suas obras, dos primeiros passos até os “altos voos”. Quem sabe o que surgirá dessa conversa?

O anfitrião Terry Costa, diretor artístico do Montanha Pico Festival, aceitou o convite do evento para partilhar as suas reflexões e revelar o que podemos esperar desta edição, que, embora tenha como epicentro a ilha cinematográfica do Pico, visa unificar os Açores no panorama audiovisual.

Terry, como director artístico do Festival Montanha, qual foi o maior desafio em criar e manter um festival tão singular como este, focado na montanha mais alta de Portugal e nas questões culturais e ambientais ligadas às montanhas?

O Montanha Pico Festival, ou simplesmente Festival Montanha, realiza-se desde 2015. Anualmente, no mês de janeiro, os ecrãs da ilha acolhem uma seleção diversificada de obras, desde curtas e longas-metragens a documentários, ficção e vídeos experimentais, todos com um tema em comum - a cultura das montanhas ou cenários montanhosos.

Desde 2022, o festival conta com um programa adicional intitulado “Made in Azores”, que celebra produções locais. Contudo, o maior desafio tem sido o financiamento, sobretudo no que toca a apoiar a presença de equipas de outras ilhas ou cineastas estrangeiros interessados em participar, algo que gostaríamos de fazer de forma mais consistente.

O festival é aberto ao público e com entrada gratuita, numa tentativa de atrair as audiências para descobrirem algo novo e inesperado. Sem grande apoio promocional, como anúncios televisivos, convencer as pessoas a saírem de casa e dirigirem-se aos auditórios da ilha para assistirem a obras desconhecidas é sempre um desafio, mas um que encaramos com entusiasmo e dedicação.

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"Os Caçadores", de David Pinheiro Vicente, será uma das muitas curtas exibidas no festival

O Montanha Pico Festival tem recebido atenção internacional, incluindo a nomeação para os Iberian Festival Awards. Que impacto tem esta visibilidade para o festival e, mais importante, para a ilha do Pico?

Sempre que somos mencionados fora do arquipélago, surge inevitavelmente a pergunta: Onde fica isso? Não importa quantos milhões sejam investidos na promoção das ilhas, haverá sempre quem ainda não as conheça. Os projetos culturais e artísticos, como os festivais, desempenham um papel crucial, não apenas em dar visibilidade às ilhas, mas também ao abrir portas para o mercado cultural, que cada vez mais valoriza e investe nos destinos que descobre. Quando um festival é destacado em listas de prémios internacionais, atrai a atenção de profissionais do setor, que pesquisam e, no processo, aprendem mais sobre os Açores.

Sendo o turismo de montanha um tema central nas discussões do festival, que papel acredita que o Montanha Pico Festival desempenha no incentivo ao turismo sustentável e no diálogo entre cultura e natureza?

Quando temos este tipo de conversa no festival, que alternamos ao longo dos anos, os pontos finais acabam sempre por convergir no mesmo resultado. Sim, queremos turismo. Sim, queremos preservar estes cantinhos do mundo que ainda se consideram paraísos. Mas como receber mais visitantes sem comprometer a natureza?

Nas conversas anteriores, discutiu-se bastante a ideia de implementar taxas para visitantes, algo que ainda não é generalizado nos Açores. Na ilha do Pico, por exemplo, já existe uma taxa significativa para quem pretende subir a montanha mais alta de Portugal, precisamente porque há limitações quanto ao número de pessoas que podem usufruir desse espaço. Será esse o caminho para todo o turismo? Cobrar mais e mais? Ou, talvez, devemos incentivar um turismo mais consciente, que valorize e invista em locais frágeis como ilhas, e especialmente numa montanha isolada no meio do Oceano Atlântico?

O festival levanta essas questões e apresenta filmes que provocam reflexão e estimulam conclusões sobre como garantir um futuro melhor. Se conseguirmos aprender com locais que já enfrentaram esta fase de aumento exponencial de turismo, talvez possamos adotar um caminho diferente, mais sustentável. Assim, será possível alcançar um sucesso duradouro sem comprometer irremediavelmente a natureza. 

O programa "Made in Azores" tornou-se um pilar do Montanha Pico Festival. O que o motivou a incluir esta secção, e como tem percebido a recepção do público em relação às produções açorianas?

Com o programa “Made in Azores”, criamos uma oportunidade para que os trabalhos produzidos nas ilhas conseguissem chegar aos grandes ecrãs na ilha. Ano após ano, mais produtoras participaram, e em 2023 produzimos o primeiro Encontro Audiovisual Açoriano devido à necessidade de as equipas conhecerem-se e desta forma aprenderem mais sobre o que se faz nos Açores

O II Encontro Audiovisual Açoriano traz à ribalta talentos regionais e as suas narrativas. Na sua opinião, quais os maiores desafios e oportunidades enfrentados pelo audiovisual açoriano atualmente?

Nas ilhas, há poucas infraestruturas e equipamentos dedicados ao cinema e ao audiovisual. Estamos melhores hoje do que há 10 anos, mas ainda assim, é sempre um desafio para produções maiores conseguirem realizar os seus projetos nos Açores. E, claro, temos o clima instável, que, por um lado, pode ser uma vantagem para a produção, mas também pode facilmente arruinar bons dias de trabalho. Na edição de 2025, apresentamos a segunda edição do Encontro Audiovisual, um evento no qual vamos tentar responder a algumas das questões mais prementes do setor, como, por exemplo, como levar trabalhos produzidos nos Açores, por açorianos, até o continente português. No Encontro, vamos explorar e debater muitos outros desafios. Tenho a certeza de que será um evento muito enriquecedor.

Com Rosa Coutinho Cabral a abrir a edição de 2025, como é feita a curadoria para garantir que filmes como “A Mulher que Morreu de Pé” dialoguem tanto com o público local como com as temáticas globais abordadas pelo festival?

Os projetos apresentados no programa “Made in Azores” podem não ter a temática diretamente ligada à montanha. No entanto, em termos artísticos e poéticos, todos são, de certa forma, “projetos montanhosos”, pois são criados por equipas da região.

Ao promover obras como “First Date”, de Luís Filipe Borges, como avalia a importância de contar histórias contemporâneas e diversificadas sobre o Pico, e gostaria que falasse da ilha enquanto cenário cinematográfico?

As ilhas são cenários fantásticos para todo o tipo de histórias, com ou sem sol, com ou sem bruma (chuviscos). Fundámos o Prémio Curta Pico especificamente para incentivar a criação de histórias que tenham a ilha-montanha como ponto central. O projeto de Luís Filipe Borges, “First Date”, venceu a primeira edição do prémio, pois a história só poderia ser realizada na ilha do Pico. Assim, a sua qualificação com nota alta foi essencial para garantir o apoio, e esperamos que o público abrace a sua antestreia, permitindo que o realizador receba um feedback valioso antes de lançar a obra para o mundo.

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Terry Costa (à direita) com o realizador Luís Filipe Borges (segunda pessoa à esquerda) na entrega do Prémio Curta Pico.

O festival celebra também o cinema como forma de diálogo entre crítica, jornalismo e público. Como é que este formato, com paineis e debates, enriquece a experiência dos participantes e cria impacto duradouro? Já agora, como vê a relação da crítica de cinema com a cinematografia açoriana?

As questões colocadas pelos colaboradores são o que incentivam os painéis. Este ano, conseguimos reunir um painel com representantes de órgãos de comunicação social, o que nos dará a oportunidade de conversar sobre esses temas e como eles se relacionam com as produtoras locais. Por que é que um filme recebe mais atenção do que outro? Como chegar aos críticos? Como pode uma obra independente, produzida numa ilha, chegar à capital? Estamos a falar de um setor ainda muito jovem nas ilhas. Como podemos ajudar a elevar e incentivar o desenvolvimento de um futuro mais próspero para esta indústria – essa é a questão.

Por fim, qual é a sua visão para o futuro do Montanha Pico Festival? Existem planos para expandir a programação, incluir novos formatos ou aprofundar ainda mais as questões ambientais e culturais globais?

Existem festivais deste género em todo o mundo. Ainda não fazemos parte da rede de festivais de montanha, mas esse é um dos nossos objetivos. Para alcançá-lo, precisamos de aumentar o orçamento dedicado ao projeto, de forma a expandir a nossa presença internacional. Já conseguimos garantir os filmes, mas ainda há muito trabalho a ser feito para atrair cineastas e documentaristas. Em termos locais, quando as produtoras começarem a produzir com o objetivo de fazer parte do programa principal do festival, com a temática montanha, então alcançaremos um patamar de sucesso similar ao que invejo no Festival de Trento, onde todos os italianos querem participar e produzem para o festival. Trento é o festival mais antigo de temática montanha, enquanto o nosso, na ilha do Pico, é o mais jovem, mas já estamos na décima primeira edição.

Do festival nasceu o Cineclube Montanha, e o nosso desejo é incentivar mais municípios a juntarem-se a nós, para apresentarmos cinema além de Hollywood. Passo a passo, estamos criando audiências. Lembro que grande parte dos jovens e crianças da ilha ainda não teve a oportunidade de ver um filme num grande ecrã, muito menos um documentário - estamos a trabalhar para mudar isso.

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