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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Hollywood precisa que acredites em fantasmas

Hugo Gomes, 03.09.25

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Agora que já não há dúvidas, cá vai: “The Conjuring” não é mais do que uma saga propagandista cuja ambição reside em limpar a imagem dos Warrens, casal de investigadores do paranormal cujos casos (discutidos, é óbvio) se revelaram, na maioria, mais burlas e engodos do que “coisas sobrenaturais”. Ao mesmo tempo, fomentam a crença na Igreja Católica, apontando para o Mal, para os demónios como prova irrefutável da existência do Inferno. Logo, como George S. Scott em “The Exorcist III” (William Peter Blatty, 1990), crer no Diabo leva automaticamente a crer em Deus.

É a Religião a operar nas sombras de Hollywood, servindo-se da graça do terror para propagar a sua ideia a um vasto público domesticado pelos clichés que apresenta. O eterno Bem contra o Mal sempre existiu em moldes teológicos, mas em “The Conjuring” o centro da conversação está mesmo naquela dupla. Lorraine, suposta médium, chegou a acompanhar a produção de dois filmes da saga, ambos sob a batuta do tecnicista James Wan (incluindo o segundo, baseado no “poltergeist de Enfield, provado como fraude, apenas contrariado pela narrativa do filme, que decide acrescentar: “afinal havia uma freira maldita”). Depois desta curva, que concentra toda a crítica ao franchise, foi a partir do terceiro — “The Devil Made Me Do It” — que Wan abandonou a realização. No seu lugar, qualquer um preenche com a mimetização e os resquícios das ideias, mas nada disso importa em Hollywood: nesta matéria de continuidade, basta “puxar a tinta” com trincha, não é preciso segunda de mão.

Esse terceiro filme cometia ainda mais a fundo o crime do branqueamento, pegando num melindroso caso real de um assassino ilibado em tribunal com o argumento “o Diabo obrigou-me a fazê-lo”. As cenas finais, com uma entrevista real em que o casal Warren é confrontado com as implicações de tal resultado judicial, são sintomáticas: nenhuma reação, corte abrupto, passou-se para outros, não interessa discutir, muito menos refletir, até porque o público destes filmes também pouco interesse demonstra, é na maioria acrítico, apenas consumindo terror com pipocas, desmesurado espectáculo pré-fabricado de Hollywood.

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Havia uma expressão, antes do rótulo inexistente de “elevated horror” (mero marketing que alguns críticos abraçaram para sobreviver no meio): “terror de estúdio”. Filmes oleados, pouco densos, sem voos que transgridam a sua própria fórmula, embalados em campanhas massivas de publicidade, inevitáveis ao “moviegoer”, o espectador casual. “The Conjuring: Last Rites” (novamente sob a batuta de Michael Chaves, do terceiro capítulo) encaixa nesse conceito: tudo nele é lugar-comum, sem espinhas nem gordura. Sustos fáceis de adivinhar, música ensurdecedora a denunciar qualquer evento, fantasmas e demónios reciclados, caracterizações repetidas até à náusea. Sem inovação (mais uma vez um terceiro acto estapafúrdio, “temos orçamento!”), sem vontade (até o velho truque de introduzir a família-vítima com uma câmara a passear pela casa para que o público não se desoriente, é repetido pela enésima vez, aprendido no segundo “Annabelle” e reencenado desde então).

Dito de outra forma: para além da propaganda, “The Conjuring” é uma boneca de trapos, cosida com retalhos diversos, formando um objeto aparentemente uniforme, mas essencialmente desconexo. E já que falamos de “trapos”: como levar a sério a ditadura do “baseado em factos verídicos” se, nos créditos finais, as fotografias e vídeos supostamente reais são manipulados para esconder a verdadeira Annabelle? (A boneca original, uma da linha das Raggedy Ann, é tudo menos semelhante à criatura sinistra construída para o filme.) Se nem aí há honestidade, que credibilidade pode esta saga alguma vez reclamar?

Burlões e diabos à tona

Hugo Gomes, 03.06.21

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Que consequência terá a legitimação “o Diabo obrigou-me a fazê-lo” na defesa de um assassino num sistema jurídico? A questão pertinente é colocada durante os créditos finais deste terceiro “The Conjuring” com as imagens reais de uma entrevista com os verdadeiros Ed e Lorraine Warren sobre as eventuais “portas abertas” que poderia suscitar o mediático caso de Arne Cheyenne Johnson, o jovem que, em 1981, alegou ter sido possuído por entidades demoníacos que o levaram a cometer um brutal homicídio.

Qualquer debate sobre esta reflexão no campo da justiça norte-americana é inexistente no filme, tanto mais que a saga sempre teve a “audácia” de branquear a ambiguidade do trabalho dos investigadores (muitos casos mediáticos comprovaram-se como farsas, como o do poltergeist de Enfield, ocorrido entre 1977 a 1979, que inspirou o segundo filme) e limita-se a um simples punhado de sustos. Ou, pelo menos, é o que nos prometem: sem James Wan na direção e com Michael Chaves, vindo da “The Curse of La Llorona” (também pertencente a este universo), a saga “Conjuring” parece estar a perder gás. A substituição de um realizador nota-se a léguas e já não existe aquele trabalho para com os espaços e o cálculo dos “jumpscares” como parte de um teatrinho de horrores com que Wan sempre nos brindara.

O que sobra? A mera condução formatada, aproximando a saga ao que sempre foi e que muitos têm negado ao recitar a chamada "política dos autores”: um genérico “filme de terror de estúdio”. Para além da previsibilidade, o mecanismo de sustos perdeu elegância, apoiando-se em montagens rápidas e amontoadas umas nas outras sem qualquer dicção, uma situação agravada patologicamente pelo estapafúrdio clímax (já tão habitual neste tipo de produções).

De resto, são as historietas dos costumes e de costureiras. Vera Farmiga e Patrick Wilson, os ditos Warren, são os únicos pontos de interesse nesta intriga (pudera, tiveram dois filmes de avanço para a construção das personagens). As sobras são meros adereços, bonecos e atalhos para as atrações fatais dos "sustos" com que bem estamos familiarizados. Depois disto, há que brandar aos céus e pedir a todos os “santinhos” que se encerre de uma vez o capítulo dos Warrens, investigadores do paranormal beato para alguns, burlões para outros.

Chora gringo, chora ...

Hugo Gomes, 19.04.19

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Michael Chaves estreia-se assim no universo das longas-metragens com este “The Curse of La Llorona”, um filme-teste para assumir o legado de James Wan no terceiro "Conjuring- A Evocação” (que chega em 2020). Mas esta obra é já por si parte desse mesmo universo sobrenatural que milhões tem rendido à Warner Bros. Contudo, devemos realmente “chorar” em cumplicidade com o espírito amaldiçoado em relação a como este franchise tem posicionado o dito terror de estúdio como a fórmula da régua e esquadro.

La Llorona, como é chamada, é uma “criatura” originária de uma lenda mexicana. Uma bela mulher que comete um ato horrendo, suicidando-se depois, convertendo-se numa alma penada condenada a coexistir na eternidade em busca dos filhos falecidos. A história é uma espécie de prolongação da lengalenga do “bicho-papão” no seu país de origem e, para além disso, esteve constantemente presente na sua cultura popular, nomeadamente no cinema. Por isso, esta invocação do mal não é novidade no grande ecrã, mas é a variação que atinge (e atingirá) um maior número de espectadores (a força de Hollywood), impondo os lugares-comuns com supremacias narrativas.

E esta apropriação cultural preocupa desde o momento em que tudo corre como planeado: a previsibilidade toma conta das audiências que apenas podem desfrutar da “engenhosidade” dos “jumpscares” e da morte súbita da atmosfera pelo excesso de CGI (será que a reprovação geral para com “The Nun” – o ponto mais baixo desta saga – não ensinou nada aos envolvidos?). Como a fórmula serve também para contornar erros anteriores, “The Curse of La Llorona” joga-se por um travelling que instala-se como topografia do cenário que albergará o catálogo de sustos dignos de “comboio-fantasma” (à imagem de Annabelle: Creation"), de maneira a não colocar o espectador “às aranhas” em relação ao espaço cénico, como aconteceu com o primeiro spin-off da boneca das trevas.

Resumindo e concluindo, é a competência de assustar gringos recorrendo ao requisitado manual de género. Um produto banal.