Hollywood precisa que acredites em fantasmas

Agora que já não há dúvidas, cá vai: “The Conjuring” não é mais do que uma saga propagandista cuja ambição reside em limpar a imagem dos Warrens, casal de investigadores do paranormal cujos casos (discutidos, é óbvio) se revelaram, na maioria, mais burlas e engodos do que “coisas sobrenaturais”. Ao mesmo tempo, fomentam a crença na Igreja Católica, apontando para o Mal, para os demónios como prova irrefutável da existência do Inferno. Logo, como George S. Scott em “The Exorcist III” (William Peter Blatty, 1990), crer no Diabo leva automaticamente a crer em Deus.
É a Religião a operar nas sombras de Hollywood, servindo-se da graça do terror para propagar a sua ideia a um vasto público domesticado pelos clichés que apresenta. O eterno Bem contra o Mal sempre existiu em moldes teológicos, mas em “The Conjuring” o centro da conversação está mesmo naquela dupla. Lorraine, suposta médium, chegou a acompanhar a produção de dois filmes da saga, ambos sob a batuta do tecnicista James Wan (incluindo o segundo, baseado no “poltergeist de Enfield”, provado como fraude, apenas contrariado pela narrativa do filme, que decide acrescentar: “afinal havia uma freira maldita”). Depois desta curva, que concentra toda a crítica ao franchise, foi a partir do terceiro — “The Devil Made Me Do It” — que Wan abandonou a realização. No seu lugar, qualquer um preenche com a mimetização e os resquícios das ideias, mas nada disso importa em Hollywood: nesta matéria de continuidade, basta “puxar a tinta” com trincha, não é preciso segunda de mão.
Esse terceiro filme cometia ainda mais a fundo o crime do branqueamento, pegando num melindroso caso real de um assassino ilibado em tribunal com o argumento “o Diabo obrigou-me a fazê-lo”. As cenas finais, com uma entrevista real em que o casal Warren é confrontado com as implicações de tal resultado judicial, são sintomáticas: nenhuma reação, corte abrupto, passou-se para outros, não interessa discutir, muito menos refletir, até porque o público destes filmes também pouco interesse demonstra, é na maioria acrítico, apenas consumindo terror com pipocas, desmesurado espectáculo pré-fabricado de Hollywood.

Havia uma expressão, antes do rótulo inexistente de “elevated horror” (mero marketing que alguns críticos abraçaram para sobreviver no meio): “terror de estúdio”. Filmes oleados, pouco densos, sem voos que transgridam a sua própria fórmula, embalados em campanhas massivas de publicidade, inevitáveis ao “moviegoer”, o espectador casual. “The Conjuring: Last Rites” (novamente sob a batuta de Michael Chaves, do terceiro capítulo) encaixa nesse conceito: tudo nele é lugar-comum, sem espinhas nem gordura. Sustos fáceis de adivinhar, música ensurdecedora a denunciar qualquer evento, fantasmas e demónios reciclados, caracterizações repetidas até à náusea. Sem inovação (mais uma vez um terceiro acto estapafúrdio, “temos orçamento!”), sem vontade (até o velho truque de introduzir a família-vítima com uma câmara a passear pela casa para que o público não se desoriente, é repetido pela enésima vez, aprendido no segundo “Annabelle” e reencenado desde então).
Dito de outra forma: para além da propaganda, “The Conjuring” é uma boneca de trapos, cosida com retalhos diversos, formando um objeto aparentemente uniforme, mas essencialmente desconexo. E já que falamos de “trapos”: como levar a sério a ditadura do “baseado em factos verídicos” se, nos créditos finais, as fotografias e vídeos supostamente reais são manipulados para esconder a verdadeira Annabelle? (A boneca original, uma da linha das Raggedy Ann, é tudo menos semelhante à criatura sinistra construída para o filme.) Se nem aí há honestidade, que credibilidade pode esta saga alguma vez reclamar?



