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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Norman Jewison (1926 - 2024) e os seus atores

Hugo Gomes, 24.01.24

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Doris Day em "The Thrill of It All" (1963)

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Al Pacino em "...And Justice for All" (1979)

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James Caan em "Rollerball" (1975)

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Ted Neeley em "Jesus Christ Superstar" (1973)

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Denzel Washington em "Hurricane" (1999)

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Michael Caine em "The Statement" (2003)

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Steve McQueen em "The Thomas Crown Affair" (1968)

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Sidney Poiter em "In the Heat of the Night" (1967)

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Cher em "Moonstruck" (1987)

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Topol em "Fiddler on the Roof" (1971)

A Mulher que Morreu Duas Vezes

Hugo Gomes, 10.10.21

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Para muitos foi somente o pretexto para seguirmos na proposta de suspense e de alusões hitchockianas de Brian De Palma, mas, deste lado, relembro com alguma tristeza, aquela que é a segunda morte de uma mulher desesperada. 

O filme que vos trago é “Vestida Para Matar” ("Dressed to Kill”, 1980), um dos meus prediletos do realizador, ainda na tradição do legado deixado pelo mestre de suspense de Hollywood [Alfred Hitchcock], nascendo aqui um fôlego, ora antigo, ora moderno, duma estética de Nova Hollywood, daquele cinema aprendido e recitado com as paixões e as desconstruções devidas. Sim, os ditos “movie brats” (Spielberg, Lucas, Scorsese, Coppola), cineastas com uma consciência do cinema enquanto arte em plena mudança estética, narrativa e performativa. 

Para quem desconhece, ou cuja memória não é o seu forte, a obra parte de uma assassina em série na sede do seu mortal vício que persegue uma “call girl” (Nancy Allen) que porventura testemunhou um dos seus crimes. No centro está Michael Caine como psiquiatra, e ainda mais a fundo uma paciente sua, loira de meia-idade, enclausurada no aborrecimento que não é mais que a sua vida de dona de casa. As evasões desta mulher, o nosso primeiro contacto neste mesmo universo, acontecem exclusivamente na sua mente, os devaneios que a fazem desesperar e suspirar pela fuga possível, partindo de um pressuposto sexual. Segredos íntimos acompanhados por carícias libertadoras, fantasias projetadas apenas confiadas ao seu psiquiatra. Esta mulher (Angie Dickinson naquele que é possivelmente o seu último papel relevante) cede à sua fervorosa loucura, à febre que a corrói no seu interior profundo, e encontra essa oportunidade numa das icónicas sequências no cinema de De Palma, um calculado passeio no Museu de Arte de Filadélfia, um desfrear do seu psicológico em pleno tormento que se transforma numa correria pela cultura do sexo. 

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Os encontros que tornam-se desencontros e por fim num instintivo reencontro, culminando no seio dos lençóis e de uma almofada amarrotada numa cama desconhecida. A nossa mulher atingiu o seu pleno prazer por via de braços estranhos, o conforto que não revia nos gestos frios do seu marido. Uma noite apenas, era o prometido e tal ficou registado. No momento da saída de cena, discreta assim quis, Dickinson sorrateiramente evade o apartamento daquele homem incógnito e sem face (apenas o corpo como moeda de troca), mas a sua curiosidade domina. Na tentativa de adiar a sua nova “fuga” (a da fantasia para o seu enfadonho real), a mulher lança-se na jornada de conhecer este companheiro temporário, com isso confrontado com o seu fim, a sentença de um adultério satisfatório, a luxúria consequencial. Perante esse novo e revelado “veneno” que corre pelas suas veias, a loira é subitamente “atropelada” pelo seu carrasco. Nada relacionado com a sua anterior condenação, mas foi com a fria lâmina do facalhão utilizado por esta entidade assassina que Dickinson cede ao seu eterno descanso. 

Esta foi a loira que morreu duas vezes, a morte definitiva pelo vilão da história e a outra, pelo seu escape à realidade que a afrontava diariamente. Porém, pensando bem, esta sua segunda morte soou mais com uma salvação, até porque nesta sociedade regida pela convencionalidade, os desejos nunca são prazeres inocentes.

Ser ou não ser Sean Connery

Hugo Gomes, 31.10.20

Hoje morreu um dos meus heróis de ação, uma das grandes estrelas de cinema da minha contemporaneidade. Tinha 90 anos, eu sei, idade o qual já se perdoa a morte, mas não deixa ser uma perda das minhas, mais que percurso cinéfilo, memórias de infância. Sean Connery era uma lenda viva, um sinal de persistência no seu modo de interpretação, recusando alterar o seu sotaque escocês ferrenho e fugindo da indústria dececionado com o rumo desta. Grato pela tua existência, Sir.

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Apesar do fato ridículo, Zardoz (John Boorman, 1974) tornou-se um delicioso filme de culto

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O fracasso de The League of Extraordinary Gentlemen (Stephen Norrington, 2003) foi a gota de água que motivou o seu "divórcio" para com a indústria

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The Untouchables (Brian De Palma, 1987) o levou ao seu primeiro e único Óscar.

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O bélico The Hill (1965), foi uma das suas colaborações com o cineasta Sidney Lumet.

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Uma pausa durante as filmagens de Highlander (Russell Mulcahy, 1986).

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Um dos seus filmes mais populares nos anos 90, The Hunt for Red October (John McTiernan, 1990)

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Ao lado de Michael Caine na adaptação de Rudyard Kipling, The Man Who Would be King (John Huston, 1975)

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Durante as rodagens de Marnie (Alfred Hitchcock, 1964)

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Foi o primeiro 007 no cinema! Interpretou James Bond em 6 filmes e um tributo intitulado de Never Say Never Again (Irvin Kershner, 1983)

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A outra colaboração com o cineasta Sidney Lumet - The Offence (1973)

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Em Finding Forrester (Gus Van Sant, 2000) conseguiu uma das suas interpretações mais elogiadas

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Ao lado de um jovem Christian Slater no The Name of the Rose (Jean-Jacques Annaud, 1986), uma adaptação (ou será mais interpretação) do livro de Umberto Eco

 

10 Anos depois ... Nolan sonhou, a obra concretizou

Hugo Gomes, 12.08.20

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A regressar aos cinemas antes da estreia do novo "Tenet", o primeiro "blockbuster" da era COVID-19, “Inception” (“A Origem”) parte da extensão de um certo gesto autoral vindo do realizador Christopher Nolan, que dentro de um sistema industrial megalómano tem vindo a demonstrar um toque pessoal conciso na ressurreição da grande produção "hollywoodesca", que vem da trilogia “The Dark Knight”.

Estamos a referir-nos à sua temática de tempo & memória, aqui evidentemente esboçada no contexto dos sonhos servidos de objetivo a um mímico "filme de golpe". E assim começamos com o plano engendrado num elenco de luxo (Leonardo DiCaprio, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Ellen Page, Michael Caine, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe), que funciona no seu coletivo enquanto Nolan trabalha para lhes conceder um cenário de ação física e hiperativa, jogando igualmente com as equações matemáticas que se difundem na narrativa.

Passados 10 anos, “A Origem” continua a demonstrar a força convicta de uma produção arriscada, de um uso generoso de efeitos visuais (nunca cedendo à artificialidade computadorizada) e da banda sonora de fulgor épico-pop, como parece ser habitual vindo da assinatura de Hans Zimmer. Não nos enganemos: esta megaprodução opera os lugares cobiçados do cinema espetáculo a grande escala, mas assume essa grandeza sem nunca perder um norte.

Há uma década, vimos em “A Origem” um tipo de ensaio operático que não se testemunhava há “séculos” na Sétima Arte. Chegou no preciso momento em que o facilitismo entrou porta adentro na cadeia produtiva (sublinhamos a “pornografia” CGI, mas também a exploração do filão 3D pós-"Avatar"), com os autores no cinema, estivessem ou não sincronizados com as tendências de público, a serem esmagados pelos ditames do marketing planeado por comités anónimos. Nesse sentido, é fácil de encontrar o ponto de fascínio deste tremendo "blockbuster" que é "A Origem": nunca ceder à padronização do espectador e tentar, mesmo dentro dos acordes do que encaramos como espetáculo, criar um exercício de engenho pronto a ser interpretado ou encriptado.

O seu dúbio final continua a suscitar debates, teorias e fórmulas para o tentar decifrar. Ao fim destes anos, não tenhamos dúvidas que o filme mantém o seu impacto, nos espectadores e na indústria, uma raridade que se destaca entre as cada vez mais débeis produções de grande escala das "majors" de Hollywood. Sem negar a importância de “A Origem” no rumo do cinema atual (na conceção circense ou meramente na moldável natureza da indústria, além da estética de epopeia agora cobiçada até à sua exaustão), como aconteceu com o "Jaws" de Spielberg há 45 anos, Christopher Nolan revolucionou uma forma de se fazer e vender filmes para massas, sem nunca desprezar o seu intelecto.

Essa tem sido a sua grande obra, mesmo que o ego tenha caído para a exibição pura nas posteriores “escapadelas” por diferentes géneros, da ficção espacial de “Interstellar” ao bélico frenético de “Dunkirk”. No balanço, “A Origem” continua a ser um dos belíssimos "blockbusters" do século XXI.

Juventude ... para quê te quero?

Hugo Gomes, 18.05.15

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“Intellectuals have no taste”

É verdade que todos esperavam que Paolo Sorrentino fosse reciclar o estilo vencedor de “La Grande Bellezza” num filme próximo, e ei-lo: “Youth” (“La giovinezza”), o seu olhar luxurioso à segunda juventude de cada um, onde Michael Caine e o “ressuscitado” Harvey Keitel compõem um par de amigos de longa data (a caminhos dos 80) que passam férias num requintado hotel situado nos Alpes. Entre spas e saunas, “Youth” converte-se gradualmente numa poesia industrializada sobre a velhice e a confrontação com o passado, num registo que por si já parece “velho” no grande ecrã.

Mas Sorrentino revela-se ainda, aquilo que já fora considerado na obra anterior: um VJ, apostando num filme sob um visual estilizado e de uma riqueza acolhedora. Se o realizador filma bonito, isso já se sabia, mas em “Youth” revela-se mais livre, confiante e sim … egocêntrico. Porém, nem tudo o que vemos é realmente dispensável. É fácil emocionar com “Youth” (até certo momento uma das personagens expressa o quão subvalorizado estão os sentimentos) com toda aquela revisão dos nossos medos íntimos desconhecidos, mas sobretudo devemos louvar o facto do nosso realizador, que é também o argumentista, acertar com as suas cartadas nos diálogos, surgindo frases deliciosas, alguns dos quais incutindo uma filosofia popularmente identificável, talvez mesmo concentrando aí a única sinceridade da obra.

Existe ainda outra aposta vencedora neste novo filme de Sorrentino, o seu humor digno de “buddy movie“, como que – de certa maneira – Caine e Keytel fossem reencarnações antípodas de Jack Lemmon e Walter Matthau. A química transmitida por ambos pode ser demasiado rígida para os parâmetros estilísticos do filme, mas mesmo assim eles respondem com exatidão aos requisitos. Salienta-se ainda as participações de Paul Dano, que demonstra novamente o seu talento de difícil reconhecimento, sendo o responsável por uma das sequências que revela o quanto “infantil” podem-se também tornar essas filosofias de Sorrentino, que aqui reflete sobre os horrores da vida na personificação de uma óbvia personagem histórica.

Por outro lado, eis que também surge Jane Fonda (no melhor papel em anos), que encoraja, ao lado de Keitel, a inserção de um dos diálogos mais acutilantes e frontais deste “Youth”, um debate irónico sobre um tema bem atual , a proclamada morte do cinema e a “vingança” da televisão no futuro. Sim, há muito por onde gostar nesta obra de fragrâncias vaidosas, nem que seja para matar as saudades de uma certa “beleza”. Desde o desempenho de Michael Caine, ao bom regresso de Harvey Keitel, passando pelo hedonismo, até chegar ao glorioso momento final, acompanhado por uma música que assombra a narrativa: “The Simple Songs“.

"Youth" pode não ser a obra que se esperava de Sorrentino depois de “La Grande Bellezza”, e até seja de (mais) fácil apelação, mas para todos os efeitos é pura e sedutora viagem ao ego de um realizador contra o Mundo.