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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O Fim do Mundo em cuecas!

Hugo Gomes, 25.12.21

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Ao encontro da sua contemporaneidade, Adam McKay “abocanha” elementos pitorescos para um caldeirão de caricaturas a fim de condensar a receita dos nossos dias. É de facto que a indicação de “uma comédia da nossa atualidade” e todas as suas derivações, ou sinónimos, são (a esta “altura do campeonato”) clichés atrás de clichés que não adiantam nem afrontam em nada neste “Don’t look Up”, uma tragédia de inúmero caudais, ora certeira, ora disparada, que revela um dos melhores trabalhos de um realizador tão dado a “chico-espertices” como McKay. Por vezes, há que desejar o armagedão como solução final para a futilidade e cinismo (adicionando a fórmula de “estupidez” em todas elas) no qual virou a raça humana, e é nessa interpretação que conseguimos lidar com a sátira hipócrita aqui descrita (um elenco demasiado luxuosos para não conseguirmos afastar-nos do seu lado de produto de prestígio hollywoodesco).

Felizmente, a grande viragem deste novo ensaio reflexivo perante os outros pelo qual McKay deseja ser reconhecido (“Vice” ou "The Big Short”), afastando-o das comédias estapafúrdias e de êxito improvável (salva-se alguma astúcia nas indignação de Ron Burgundy ou na acefalia “americanada” de Ricky Bobby). É que, na verdade, o realizador ri-se com o espectador e não ri-se dele. A superioridade, pelo menos a sua dedução como tal, é por fim inibida com pé de igualdade. Se o derradeiro destino do planeta Terra é este … então despachemos esses “cavaleiros do Apocalipse" de uma vez por todas.

Steven Soderbergh tenta ultrapassar o bloqueio ... com Meryl Streep e companhia

Hugo Gomes, 11.12.20

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Estamos entre os que defendem que Steven Soderbergh não é um "autor", mantendo-o longe do sentido mais romântico da palavra. Porque o que vemos nele é uma aptidão invulgar para embarcar em qualquer género, estilos e formato (o prolífero realizador até já filmou inteiramente em iPhone). A palavra mais adequada para ele é superdotado. Alguém isento de personalidade, mas nato o suficiente para nunca se reduzir ao anonimato.

Mas deixemos de falar de Soderbergh para nos concentrarmos neste Soderbergh em concreto: rodado em agosto de 2019 com a totalidade dos atores sob improviso constante (o guião era somente composto por esboços), “Let Them All Talk” é quase como um exercício levado da breca aos territórios comuns de um Woody Allen, mas formalmente centrado nos tiques e toques do subgénero "mumblecore".

A história desta escritora com bloqueios criativos e um grupo próximo de pessoas que se banham nas suas inspirações (ou na falta dela), no luxuoso paquete Queen Mary II, parece ter o efeito de um espelho para um realizador em constante experimentação. Talvez uma busca com o objetivo de resolver o seu próprio bloqueio, mas é através desse modus operandi que se vê a particularidade deste seu trabalho: o de fazer mais com menos.

Filme estilisticamente despido, onde os atores se encarregam de demonstrar as suas destrezas e preencher os espaços vazios deixados por um realizador mentalmente hipertensivo, esta "brincadeira" de encenação acaba por separar o “trigo do joio” no elenco.

Por um lado, veteranas como Meryl Streep (três Óscares) ou Dianne Wiest (dois) exibem aquilo pelo qual são reconhecidas – experiência e como usá-la a seu favor –, mas o “verdinho” Lucas Hedges sai prejudicado nesta “fotografia” e, sem conseguir acompanhar as colegas, partem de si alguns embaraços involuntários.

Mas nada disso realmente importa, "Let Them All Talk" é um filme-teste e não uma derradeira prova de fogo. Tal como a protagonista, está apenas de passagem e tem um objetivo, o de recuperar as palavras certas. Esperemos que o cineasta de "Sex, Lies and Videotape", "Haywire" ou "Side Effects" as tenha encontrado para que nos possa entregar algo mais entusiasmante da próxima vez…

Nem tudo são rosas ...

Hugo Gomes, 19.10.19

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Na Netflix, nem tudo é originalidade e primor! Numa só semana contamos com o lançamento de dois graus de “obras falhadas”, de um lado Wounds, da suposta revelação Babak Anvari, terror sob contornos lovecraftianos que produz um clima de mistério para depois lançar-se “às urtigas” e com ele levando Armie Hammer e Dakota Johnson (possivelmente das piores atrizes da atualidade) ao abismo. Do outro canto, possivelmente a mais alarmante, The Laundromat, o prolifero Steven Soderbergh na denúncia dos Panamá Papers, num objeto sabichão ou diria antes “chico-esperto”, a replicar as tendências da economia para totós de Adam McKay e apresentar a pior das Meryl Streeps. Armado em Robin dos Bosques versão caviar.

Que venham mas é esse Marriage Story e o tão badalado The Irishman, do “verdadeiro” Scorsese, porque a Netflix precisa urgentemente de Cinema nos seus cantos próprios.