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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

MDOC 2025: Como filmar a Guerra? [Parte 3]

Hugo Gomes, 16.08.25

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Apesar da hegemonia mediática do genocídio (sim, a palavra é política, mas de uso correcto) palestiniano, a guerra na Ucrânia ainda acontece no horizonte. Talvez por via da sua ‘frescura’, grande parte do que nos chega em conteúdo documental são despachos com o intuito de exaltar a causa e a resistência ucraniana contra um inimigo que é Grande, seja em território, poder bélico ou em infantaria. De facto, muitos desses filmes não são interessantes do ponto de vista cinematográfico. Cedem ao facilmente ao seu próprio propagandismo: engrandecem a resiliência do seu povo ou expõem a miserabilidade a que hoje estão submetidos, testes de consciência ou apelos.

Mas no MDOC 2025 houve um ‘insider’ do lado inimigo do Ocidente. Da Rússia, deparamo-nos com Pavel Talankin, que nos avisa desde cedo: sempre se sentiu diferente dos outros homens da sua pacata cidade, junto aos Montes Urais. Talvez delicado demais, ou simplesmente dotado de um faro para mudanças inconvenientes. Jovem professor, testemunhou, a partir da data de 22 de Fevereiro de 2022 (a oficialização do conflito armado), a infiltração da propaganda político-bélica nas suas aulas — recitações patrióticas, história soviética revisada, apelos à morte pela Pátria, e com todos os descaramentos que isso traz, a presença dos mercenários [Grupo Wagner] em missão de “educação”. Assim se convertem alunos, rebentos de um futuro promissor, em “carne para canhão” num conflito de ditames: “desmilitarização e desnazificação”.

As imagens desta transição foram recolhidas clandestinamente por Talankin, e, com a sua fuga do país que prometia conhecer de ginjeira, constrói este documentário (supervisionado pelo americano David Borenstein) sobre a sua experiência que não é mais do que um retrato de uma Nação dedicada ao seu poderio e aos passados saudosos. "Mr. Nobody Against Putin" entra no vasto lote de obras geradas pela guerra Ucrânia-Rússia, mas, ao contrário do muito que se vê do lado ucraniano — onde muitos filmes resultam de um desespero genuíno e da necessidade de sensibilizar para a causa, numa espécie de cinema de guerrilha —, o infiltrado, o "traidor", reflete-se, incontestavelmente, numa elegia à Mãe-Rússia, aos “filhos” sacrificados, e à desfragmentação social que o jovem professor observa, impotente.

Há um foro emocional, de primeira pessoa, que o agora activista explicita com clareza. Mais do que denúncia ou desumanização do outro, Talankin olha à volta e vê um país entorpecido, sem um pingo de raiva nem de repúdio. Refere o seu colega de História, completamente vidrado nos mitos dos metralhas de Estaline: “vítima de uma lavagem cerebral”. A propaganda em plena operação, e a recompensa, um apartamento de luxo como prova dos serviços prestados a doutrinar os seus alunos. Não há monstros nesta Terra de Putin. Há juventude iludida, velhos castigados por memórias vendidas (o olhar despedida da mãe, que silenciosamente identifica o ‘adeus’ censurado do seu filho), e umas quantas lições a serem dadas com o maniqueísmo no centro. "Vocês vão morrer, mas não se esqueçam: as vossas campas terão flores durante séculos. A Pátria nunca vos esquecerá."

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Filmou-se uma guerra à distância, no quartel-general da massa humana. “Mr. Nobody Against Putin" poderá não ser o exemplar mais gratificante na estética bélico-documental que vivemos, subjuga-se à palavra do “eu” como conexão ao espectador. Contudo, não nos limitarmos à Rússia, há em neste relato documental algo que podemos associar na apropriação propagandista ao vivo, e quem sabe, já estar em curso em outros territórios.

Quanto a Talankin o filme desfecha com a promessa da sua segurança … devemos acreditar nisso? Ou o poderemos encarar como um homem identitariamente fragmentado?

MDOC 2025: Como filmar a Guerra? [Parte 2]

Hugo Gomes, 03.08.25

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Voltamos à questão … Em Melgaço, o cinema é uma janela para estes conflitos mundiais, alguns expirados fisicamente, mas nunca desvanecidos na memória de quem os viveu, e consequentemente na herança cultural dos seus “pueblos”. Cicatrizes difíceis de cicatrizar, é o que é. Ou melhor, a “Guerra infinita”, nunca várias, nem variações, tudo integra uma uniformidade que é essa crise bélica. Os filmes desta seleção levam-nos a esses caminhos, e por um lado ou outro, implementar a semente do questionamento estético … e ético: Como filmar a Guerra?

Todos os movimentos, todas as temáticas, tecem a sua experimentação e prosseguem na sua emancipação (encontra-se um encadeamento, um clarão antes do apagamento criativo), até a irrelevância conduzi-los ao questionamento das suas devidas naturezas. Aconteceu com o neorrealismo. Aconteceu com a porno-miséria (que o colombiano Luis Ospina, perante o erro cometido pelo fácil puxar a alavanca que é filmar ‘Pobreza’, reconheceu esse voyeurismo vampírico). Portanto, chegamos à guerra, e o porquê agora questioná-la? Com a vinda do digital, a produção saturou-se, os canais 24 hour news enchem os nossos confortos domésticos com directs ou sob o salivar do reality show do miserabilismo - a Guerra em directo, o sonho de qualquer órgão de comunicação. Em luta contra o deferido, em favor ao imediatismo. É o facto que com novo foco conflitual a surgir são imensas as obras que nos encostam à parede, uns para nos relembrar, outros para denunciar, outros para aproveitar. 

“Como filmar a Guerra?”, talvez devemos trabalhar e operar um código deontológico ou (re)conquistar as linhas-guias para as produções, da sua abordagem e da sua postura moral. Como o “travelling de Kapo”, o título do texto-crítico de Rivette, mais tarde repescada e ecoada por Serge Daney, como emprego de uma abjeção estética. “Este realizador apenas merece o nosso mais profundo desprezo”, lê-se após o retrato da cena da morte da personagem de Emmanuelle Riva no infame filme de Gillo Pontecorvo. Por outro, impondo uma ética ou um conceito consensualizado da mesma, restringimos a sua potencialidade de reinvenção? Quem sabe?

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Voltando ao propósito do Festival de Melgaço, a dinamarquesa Birgitte Stærmose decidiu olhar para uma guerra esquecida, o conflito bósnio-servio, não num retrato ao sangue e destruição cometido nas suas arestas, mas às feridas abertas, aos ditos “filhos da guerra”. Filmou “Afterwar” durante 15 anos, e nesse espaço descobriu a importância de se guiar por três tempos: Passado, Presente e Futuro. Aproveitando esses “órfãos”, somos reconduzidos (sob o cunho do Passado), aos sussurros destas “crianças perdidas”: vendendo ilegalmente tabaco, prostituindo-se, envolvendo-se em furtos e miserabilidades, a caminho da soturnidade impestosa, na sonoplastia envolvente (que nunca se cala, porque não o deve por intuitos manipuladores), da montagem “ao Deus dará”, das constantes quebras da quarta parede. É uma história a ser contada, pensou a realizadora quanto ao estratagema performativo. Um Malick sem as suas imitáveis maliquices, apenas na essência de uma teologia interior que confronta estes enfants um requisito de salvação, ou redenção. 

No Presente, os ‘miúdos’ cresceram, são agora adultos, são “putas tristes” (citando Gabriel Garcia Marquez). Continuam no ilícito, no precário, no desmotivacional, deixam o tabaco vendido banca a banca, balcão a balcão, são os amendoins a nova contrafacção. Prometem não ceder aos erros dos progenitores, prometem lutar pelo futuro. O malickiano prossegue como envolvência na sua montagem encavalitada, a música estabelece-se como catalisador emocional. Já não sussurram, o emudecimento voluntário das crianças era medo, agora falam e também rappam, sonoramente, mas quanto ao medo? Esse, não os larga, nem despede, ocupa espaço-tempo-coordenação e recusa a sair. 

Dirigem-se ao público, acto sempre constante, repetidamente, trovando a desgraça das suas vidas desperdiçadas, frutos dos traumas da sua identidade dilacerada pela Guerra, essa que o Cinema nunca retratou devidamente além do abstracto … e Jean-Luc Godard, esse traquinas, levou a memória desse conflito para esse campo metamorfoseado, alegórico [“Je vous salue, Sarajevo”, “For Ever Mozart”], a ele também poderemos inquirir a questão: como filmar a Guerra?

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Afterwar” conserva esse retrato martirológico e a serve como a sua interpretação, aqueles ‘não-actores’ são obrigados a mentir, não por via da encenação, mas também quanto à sua natureza. “Isto não é um filme, são vidas reais”, dirigem-se novamente ao público. Deste lado da bancado, sussurramos: “Que mentira!”. A vossa história pode ser verdadeira, mas no preciso momento em que o filme indicia essa vertente estética, performática, arte plastificada e “malickiada”, aqueles ‘não-actores’ estão ao serviço de uma ficção, docuficção talvez, viram ‘bonecos’, com violinos estridentes de fundo.

Como se filma a guerra? perguntamos nós em Melgaço. Não há resposta devida nem pré-feita, mas digamos, está na hora de começar a pensar nisso. 

MDOC 2025: Como filmar a Guerra? [Parte 1]

Hugo Gomes, 02.08.25

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Nas ruínas de uma cidade, entre o “fingimento” de quem ainda conduz o seu quotidiano como réstia da Humanidade que lhe sobra, a História não parece entender-se. “My Memory is Full of Ghosts”, do palestiniano radicado na Síria, Anas Zawahri, é o auto-retrato de gente com relatos para entregar como munição a uma cidade síria, hoje quase imaginária — Homs — que, respeitando a condição atual do país (desalmado na abstracção da sua castradora realidade) é o “e se” metropolitano: uma alternativa arquitectónica onde uma sociedade prosperaria no limiar do sonho ocidental e da identidade oriental. O filme ressoa nesses espaços vazios, nessas pessoas disponíveis e aptas para contar o que se deu, na absurdidade do que se dá, juntando-se a uma coralidade que, como mosaico, recompõe um painel: a guerra das guerras, a tragédia embebida nessa impregnada melancolia.

Visto em Melgaço, no Festival Internacional de Documentário, nas encostas com Galiza, ou parcialmente citando um certo Manoel de Oliveira filmado por estas bandas “O Princípio do Mundo”, falou-se, em tertúlias acidentais, de outros “affairs” e de outras passagens (ou paisagens) fílmicas. Alguém evocava, por outros motivos (mais autobiográficos até) a influência de “Ruínas”, de Manuel Mozos (o realizador a vaguear no festival, naquele momento integrado numa das mesas de esplanada da Casa da Cultura do município, aguardando pela próxima sessão de cinema) na sua vida biblio-cinematográfica, e de como esse filme, através do destroçado e do ruinoso, emanava o encantatório de uma projecção: o que teria sido, o que teria palmilhado, que guarda aqueles rastos da decadência? A regra é de ouro e inevitável: da criação vem sempre a destruição, e, porventura, o esquecimento (“o tempo destroi tudo”, já dizia o outro que vocês bem sabem quem é), e, tal como o esforço hercúleo de “Ruínas” (2009) em revitalizar uma memória, Zawahri faz o mesmo, contando com os esforços e a vontade de uma população condenada ao seu limbo.

É cinema do relato, da imagem em falta e da memória que calha. O arquivo fílmico de testemunhos e testamentos, dos “dias melhores” que vieram e daqueles que nunca viram. Sim, o pessimismo perdura, há que manter a serenidade para com e o aonde chegamos. “My Memory is Full of Ghosts” pede a outros, aos de contacto cheio com a realidade, a veracidade do seu ambiente e não a instrumentalização oposta.

MDOC 2025: na fronteira do ser e do saber. Um festival de identidades e memórias em Melgaço!

Hugo Gomes, 27.07.25

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My memory is full of ghosts (Anas Zawahri, 2024)

Melgaço, um ponto de encontro, uma fronteira, uma utopia. A norte, na possibilidade de um país (a menos de 5 minutos da Galiza), há um festival de documentário que celebra a identidade cultural, a construção, proposta nunca escondida, de um arquivo. É o MDOC, a chegar às suas 11.ª memórias, ou melhor, edição. De 28 de julho a 3 de agosto de 2025, são trazidos mais de trinta e três documentários oriundos de vinte e três países, disputando os prémios Jean‑Loup Passek, D. Quixote e, pela primeira vez, o FIPRESCI Prize.

Este ano, o MDOC 2025 estende-se não apenas ao auditório, mas também ao imaginar coletivo: residências Plano Frontal em cinema e fotografia, oficinas com Margarida Cardoso, uma masterclass com Sandra Ruesga e o emblemático X‑RAY DOC, moderado por Jorge Campos, a revisitar clássicos de Chris Marker e Joris Ivens.

Em Melgaço, onde o legado cultural se entrelaça com a ruralidade raiana e o universo sonoro de lendas antigas, o festival revela-se cada vez mais como um gesto de reinvenção cultural capaz de traduzir o real em imagens e narrativas que ecoam para além das fronteiras físicas. E é com essa consciência poética e política que o Cinematograficamente Falando … convida Carlos Eduardo Viana, um dos diretores do festival, para nos desvendar o que está detrás do ecrã e do cartaz, o que move, inspira e transforma este MDOC 2025.

O MDOC afirma privilegiar documentários sobre identidade, memória e fronteira. De que forma considera que estes temas dialogam com a identidade cultural de Melgaço e da região Alto Minho?

Os temas que norteiam o MDOC– identidade, memória e fronteira – dialogam com a identidade cultural de Melgaço e da região do Alto Minho, refletindo tanto a sua história como as dinâmicas socioculturais contemporâneas. A região tem uma memória coletiva ligada às migrações (um grande número de alto-minhotos emigraram para França ou Brasil no século XX), e Melgaço é um território de fronteira (com a Galiza), o que influencia questões contemporâneas (migrações, contrabando histórico, identidade europeia). O tema da fronteira no MDOC pode explorar tanto a geopolítica quanto as metáforas de limites, ou questões pessoais. 

O MDOC, ao focar a identidade, memória e fronteira, não só celebra a cultura da região, mas também questiona como essas raízes dialogam com um mundo em mudança. 

A seleção oficial conta com mais de 30 documentários em competição, incluindo longa, média e curta-metragens. Como funciona a seleção destes filmes e de que forma procuram construir uma narrativa coerente em torno de "Identidade, Memória e Fronteira"?

A seleção de filmes é feita com a preocupação de oferecer obras que expressem o olhar dos autores sobre temas sociais, individuais e culturais, focando os eixos temáticos referidos.

A construção de uma narrativa coerente em torno de "Identidade, Memória e Fronteira" é alcançada através da seleção de longas e curtas-metragens que contribuem para uma abordagem da condição humana face a desafios globais e pessoais. Os filmes mostram como indivíduos e comunidades navegam e reagem a desafios sociais, políticos e existenciais, revelando uma preocupação com questões contemporâneas, como conflitos geopolíticos e lutas por identidade e justiça social. A seleção privilegia abordagens críticas e experimentais, muitas vezes explorando realidades marginalizadas.

O festival integra o programa “Plano Frontal” com residências cinematográficas e fotográficas em contexto local. Como avalia o impacto dessas residências na relação entre cineastas e comunidade local?

O projeto envolve equipas de jovens realizadores, técnicos de som e câmara, que, durante dez dias, produzem documentários e projetos fotográficos sobre temas locais. Essa abordagem garante que as narrativas sejam construídas com os habitantes, refletindo as suas vivências, memórias e identidades. Até agora, 38 documentários foram realizados, todos disponíveis no portal Lugar do Real, criando um arquivo vivo da cultura local.

Os filmes são exibidos durante o festival em diversos espaços de Melgaço, como a Casa da Cultura e várias freguesias, permitindo que a comunidade se reveja nas narrativas e participe do processo cultural. Além disso, a projeção no MDOC/São Paulo (mostra brasileira do festival) amplia o alcance dessas histórias, transformando-as em pontes interculturais. A seleção de obras como "Raiano" para festivais internacionais (ex.: Olhares do Mediterrâneo) reforça o reconhecimento externo do trabalho desenvolvido. 

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Filhos do vosso amor (Rui Pedro Lamy, 2025)

O MDOC está incluído na rede europeia VIVODOC em 2025, num encontro com festivais de Espanha, França, Itália e Roménia. Que oportunidades concretas de coprodução, circulação ou partilha de projetos este enquadramento oferece ao festival e aos seus participantes portugueses?

O MDOC faz parte do VIVODOC, um coletivo recente de festivais de documentários europeus que inclui parcerias com Espanha, França, Itália e Roménia. Essa rede, que integra festivais como o Majordocs, Escales Documentaires, Frontdoc e One World Romania, tem como objetivo principal promover a circulação e o visionamento de documentários europeus.

Em 2025, o MDOC será o anfitrião de um Encontro VIVODOC em Melgaço. O evento vai discutir o futuro e potenciais projetos da rede, além de explorar novas parcerias e colaborações com outros agentes do cinema documental internacional.

A 11.ª edição inclui um workshop com Margarida Cardoso e uma masterclass com Sandra Ruesga. Com que critérios foram utilizados para escolher estes nomes e em que medida estas sessões potenciam o desenvolvimento profissional dos participantes?

As realizadoras convidadas para as atividades formativas do MDOC são cineastas que têm um corpo de trabalho cinematográfico significativo e reconhecido, que dialoga com os temas e os objetivos do festival. As sessões podem contribuir para o desenvolvimento profissional dos participantes de diversas formas, uma vez que as realizadoras partilharão o processo criativo, como trabalham as histórias e lhes dão forma. Serão oportunidades para refletir sobre o trabalho criativo, explorar a forma como documentários e ficções se interligam e influenciam mutuamente, como se transformam observações quotidianas em potencial narrativo, e será um convite para cada participante a refletir sobre a sua própria identidade e lugar na sociedade.

A masterclass com Sandra Ruesga intitula-se “Explorar o Eu: Cinema Autorreferencial e Identidade”. Como espera que esta sessão influencie os formandos do MDOC — especialmente no que respeita à relação entre a dimensão íntima e a construção de narrativas sociais?

Esta masterclass pode influenciar os participantes ao mostrar como a dimensão íntima (experiências pessoais, introspecção e identidade individual) pode ser uma ferramenta para a construção de narrativas sociais mais amplas. Através da obra de Sandra Ruesga os participantes verão como a abordagem da cineasta mostra que histórias íntimas podem refletir questões sociais, culturais e políticas, revelando como as suas próprias vivências podem dialogar com realidades mais amplas. Ao esbater os limites entre o individual e o coletivo, a masterclass desafia a pensar como as histórias pessoais podem contribuir para debates públicos e transformações sociais.

MDOC combina projeções em Melgaço com sessões “Off Screen” e XRAYDOC. Como equacionar o equilíbrio entre conteúdos académicos/profissionais e o envolvimento do público geral?

O MDOC faz-se de várias ligações e públicos. Ao criar o Fora de Campo (Off Screen), a intenção é ligar o festival ao mundo académico e da investigação, assegurando uma programação que atinja um público disponível para pensar assuntos ligados aos eixos temáticos do festival: agentes culturais e coletivos locais, professores e animadores culturais, documentaristas, estudantes, investigadores e outros participantes interessados pelas temáticas escolhidas. O X-RAYDOC, ao divulgar e analisar filmes importantes para uma História do Documentário, já atinge um público mais vasto e liga a história do cinema ao mundo contemporâneo. 

A sessão XRAYDOC coordenada por Jorge Campos propõe o visionamento e análise de dois clássicos: "Lettre de Sibérie" e "... À Valparaíso". Que aprendizagens concretas espera extrair destes títulos para enriquecer o debate sobre ética, representação e história do documentário em Melgaço?

"Lettre de Sibérie" (Chris Marker) e "…À Valparaíso" (Joris Ivens) são obras importantes para discutir o eixo temático Cinema e Território também proposto no FORA de CAMPO – Curso de Verão 2025. Ambos exploram, de formas distintas, as dimensões física, vivida e representada do espaço, articulando paisagens geográficas com narrativas políticas, sociais e poéticas. 

Chris Marker utiliza “Lettre de Sibérie” para nos transportar a uma vasta e complexa região da União Soviética. No filme, o território siberiano não é apenas um cenário geográfico; ele é um espelho das transformações sociais e políticas, das vidas quotidianas dos seus habitantes e das ideologias que os moldam.

Marker emprega uma narrativa em voz off, misturando observações poéticas, factos históricos e reflexões filosóficas sobre as imagens que vemos. Esta abordagem permite que o espectador compreenda como o ambiente físico (o território) e a experiência humana se interligam de forma indissociável. A Sibéria, através do olhar de Marker, torna-se um território em constante diálogo com a identidade e a memória dos seus povos, sublinhando como o cinema pode ir além da mera representação para explorar a alma de um lugar.

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Lettre de Sibérie (Chris Marker, 1957)

O festival propõe debates sobre questões sociais e culturais. Como assegurar que as vozes do Alto Minho, sejam escutadas e representadas nestes fóruns?

Como foi referido a propósito do Plano Frontal, os documentários e os projetos fotográficos que resultam das residências artísticas fazem uma ligação às comunidades locais e dão voz a protagonistas da região. Além do Plano Frontal, a Associação AO NORTE, que organiza o festival, em colaboração com uma equipa multidisciplinar, desenvolve o projeto “Quem somos os que aqui estamos?”. Este projeto exige um trabalho de campo durante cerca de cinco meses, e convida à escuta e ao olhar atento para as histórias de quem vive, viveu ou sente a sua terra como parte da sua vida através de registo audiovisual; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; exposição fotográfica e publicação em livro do trabalho realizado.

Com estas iniciativas, o festival não só dá voz às comunidades locais, como também contribui para a preservação da sua identidade e para uma compreensão mais rica e complexa da cultura popular portuguesa. 

Sabendo que o Jean Loup Passek Award distingue filmes com abordagem autoral, como define a linha editorial do júri oficial e dos critérios de seleção para esta competição?

De forma sucinta, os filmes selecionados oferecem um vasto leque de perspectivas sobre como a identidade é moldada por experiências pessoais e coletivas, como a memória atua como força de preservação, resistência e mudança, e como as fronteiras – sejam elas geográficas, culturais, sociais ou pessoais – definem e desafiam a existência humana.

Que planos há para potenciar a sustentabilidade ambiental e turística de Melgaço com este festival?

A propósito deste propósito, refira-se que a EarthCheck, órgão acreditado pela Global Sustainable Tourism Council (GSTC), renovou o selo prata (nível 3) que certifica o concelho de Melgaço como destino turístico sustentável. O festival tem procurado assegurar práticas ligadas à sustentabilidade, nomeadamente: Procura eliminar materiais impressos desnecessários, optando por comunicação digital, ou o uso de materiais reutilizáveis (credenciais, copos, sacos); encoraja a partilha de carros entre staff e participantes. Os colaboradores utilizam alguns veículos híbridos; as refeições para todos os participantes do festival são cozinhadas e servidas numa cantina, o que permite planear as quantidades para evitar sobras; a cantina do festival oferece uma boa variedade de opções vegetarianas, que geralmente têm um menor impacto ambiental; para confecionar as refeições dá preferência a fornecedores de alimentos que utilizem produtos locais e sazonais, reduzindo a pegada de carbono do transporte.