Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Ainda podemos acreditar na magia de Hollywood?

Hugo Gomes, 24.11.25

NOMAD_Unit_240920_00195R3C.webp

O quarto está a caminho! Não há como fugir: o caderno de encargos é quem mais ordena. Enquanto isso, deixamo-nos “encantar” pelo espectáculo de ilusionismo, dos pobres até, dos efémeros porém, óptimos para se adaptarem a uma pequena tela, a ser transmitida num serão de um qualquer fim-de-semana.

Ruben Fleischer, realizador promissor em tempos, reduzido a tarefeiro de segunda, sem visão, sem enquadramento, sem opinião para os chamamentos que o seu lugar na indústria poderia invocar. Assim sendo, na saga “Now You See Me”, cada filme entregue a um realizador distinto (Louis Leterrier inaugurou, Jon M. Chu continuou, hoje “querido” do seu meio pelo díptico “Wicked”), sem que estes mostrem mais do que a sua mera operacionalidade. Virou rito de passagem, de colheitas fáceis, pois o público não se revela mais exigente do que o uso do cinema enquanto escapismo … e apenas escapismo.

Voltam as caras antigas (até Morgan Freeman, cada mais velho, a sua aveludada voz é a primeira vítima), juntam-se outras, reúnem-se os cheques, ergue-se o enredo em pleno truque de magia, vingam-se nos ares do tempo, provoca a ingenuidade do próprio tema (politicas a três pancadas, bem e mal, capitalismo de faćil compreensão e moralismos samaritanos, só quem acredita como quem acredita em fadas). Preparem-se… vem plot twist, portanto, tentem adivinhar. Pouco, ou quase nada, há a dizer de “Now You See Me: Now You Don’t”, além de ser sintoma de uma Hollywood anestesiada (incapaz de muito mais entre as lutas do streaming e a IA a entrar pela porta dentro, somado à fraca adesão do público a produções minimamente originais), é  é a maior cartada esperada daquele canto e recanto.

O cinema importa pouco — ou nada — nestes tempos inquietos. Estamos no limbo. Ouçamos o tilintar da máquina registadora: milhões para o cofre sem o mínimo esforço, e isso, sim, é o melhor dos truques de magia … simplesmente enganar-nos a todos.

"Qual é a sensação de morrer?"

Hugo Gomes, 28.02.25

Mickey-17.webp

Num vaivém pelos cantos prazerosos de Hollywood, Bong Joon-ho, após ser condecorado com o Óscar, regressa a uma estância há muito apetecida: a ficção científica, a distopia e aos seus “monstros” – sejam eles de feições grotescas ou de “faces” humanas, e determina esses elementos em cadência na adaptação do livro de Edward Ashton. Por isso, não vamos mentir: havia alguma expectativa em torno deste novo gesto do realizador de “Parasite”, até porque a sua contribuição sociológica surge com uma coincidência diabólica para o mundo em transformação que presenciamos.

Também palco para Robert Pattinson, já habituado às andanças espaciais [“High Life”], mostrar a sua versatilidade, tendo no papel do “descartável" Mickey Barnes o seu exercício performativo tragicómico e por vezes com queda para contido slapstick. Perseguido por um implacável agiota, candidata-se a uma expedição de colonialismo espacial - liderada por um político falhado, populista e desprovido de qualquer noção de estadismo (um cruzamento bizarro entre Trump, Musk e Oprah) vivido por um dentudo Mark Ruffalo - como passaporte de fuga à sua eventual destino. Para tal, Mickey inscreve-se para esse tal cargo - descartáveis. Ou melhor, sacrifícios humanos, literalmente “carne para canhão" nos primeiros passos da humanidade em territórios interespaciais desconhecidos. Para isso, cedem corpo e mente a uma impressora humana que, após cada morte, os recria, perpetuando um ciclo mórbido e absurdo. 

Devido a essa sua voluntária condição, Mickey é encarado como um sub-humano a bordo da nave, um pedaço de carne reciclada, constantemente questionado pelos curiosos – "Qual é a sensação de morrer?". Sem nenhum desígnio de vida para além de manter-se longe do cobrador e vivo pós-morte, algo em Mickey encontra na relação com Nasha (Naomi Ackie), uma das responsáveis pela segurança da missão, num apoio, quem sabe, a um futuro alcançável. O filme arranca sob a perspectiva da cópia 17, a tal que dá título, só que a sua morte não acontece como havia sido esperado e devido a isso, este ser recalcado adquire um estranho apreço à vida – ou o que resta dela –, e o medo da morte, numa dança epifânica para com o existencialismo.

robert-pattinson-em-mickey-17.webp

Dito assim, parece uma ficção científica entusiasmada, com os louros habituais que Bong Joon-ho coloca nos cabeçalhos: a eterna luta de classes, agora envolta num neo-colonialismo com um humanismo valorizadamente ingénuo. De um lado, temos um cinema político disfarçado de grande produção; do outro, um entretenimento descaradamente político, e mais: quando nos preparamos para uma Hollywood MAGA-friendly, o sul-coreano viu aqui a oportunidade de refletir uma sociedade americana vendida à política messiânica, teatralizada e belicista. Mas, para isso, torturou a narrativa, desorientou-a, trocou-lhe as voltas, violentou-a no aristotélico, até restar apenas uma sensação arrastada e tardia. O seu tom existencialista é infantilizado, simplificado, higienizado ao ponto de adequar à estratégia mercantilizada da produção - não podemos esquecer que Joon-ho está aqui a trabalhar para os norte-americano, e as majors abraçaram intensamente o algorítmico processo de “dumb down” (parafraseando James Mangold)

“Snowpiercer”, “Okja ou “The Host”: a trindade à qual “Mickey 17” se aproxima, só que de menor fôlego. Cansado do seu circuito de mortes experimentais, recita letra gasta sem o primor de outrora. Porém, mesmo fracassando, talvez tenhamos à nossa frente um último dos supra-dispensiosos filmes politizados de uma Hollywood pré-Trump 2.0 (a produção de Brad Pitt também tem os seus feitos).

Com isto resta apenas a pergunta: "Qual é a sensação de morrer?" Fica para a audiência …

Filme das Feias-Artes

Hugo Gomes, 25.01.24

010_040_PoorThings_OV_V30464704_FP_DPO_ProHQ_UHD-S

Numa Lisboa steampunk-retrofuturista, com pasteis de nata em abundância e um fado entoado em cada borda, Emma Stone, aqui a frankensteiniana Bela, criatura de fabricos e remendos, procura nestes lugares “exóticos” um elo que a une à humanização que tanto ouviu discursar na sua residência / esconderijo em Londres. O que vai encontrar, não só na imaginária capital portuguesa, como também algures no Mediterrâneo e numa Paris lasciva e sexualmente libertária, são “pobre criaturas” em vestas humanas, fealdades ou beldades, heroicas ou vilãs, corajosas ou cobardes, somente viventes sem noção. 

A adaptação do  bestseller de Alasdair Gray resulta nas mãos do helénico Yorgos Lanthimos numa comédia negra e algo burlesca com refinações existencialistas, pomposa num desfile de grostecidade e monstruosidades, o filme entra em conflito com a própria definição generalizada do Belo, aliás Bela, esse atalho, o nome, mantém-se na protagonista como uma provocação, e se essa beldade, seja estética ou cromática, validada numa sociedade como a de hoje, que perante tantas obras das mais diferentes artes, definidas em absoluto, caiu numa banalidade ou num axioma embutido. O conceito de Belo, associa-se a uma resposta harmónica aos nossos sensos e sentidos, há uma exaltação desse apaziguamento perante determinada melodia, imagem ou coloração, ou até na esquadra renascentista que surge ordenado pela régua e a sua simetria, o Belo está na ordem (daí um filósofo ultra-conservador como Roger Scruton tentar arregimentar uma validação da beleza e lamentar a sua decadência no século XX e XXI), e quanto ao oposto, a desordem, tendemos em encaixá-lo no desengonçado, no feio, nas feias-artes. “Poor Things” não nos leva a reflexões filosóficas ou esmiuçamento de qualquer género, só que a sua não-graciosidade, a sua não-subtileza, a reação dela extraída, faz-nos conduzir a esse dilema do belo e do feio. Ou será que perante esta modernidade que nos acompanha, o feio torna-se num novo belo e o belo no obsoleto? 

Poor-Things-Willem-Dafoe-and-Emma-Stone.webp

Contudo, há aqui conflito devido à escola de Lanthimos, realizador e argumentista dotado em distorcer a sua realidade em semi-distopias várias (basta ver o caminho percorrido de “Canino” a “The Lobster” e assim sequencialmente para entendermos essa marginalização das leis básicas da “narrativa física”, diremos) e igualmente aproximando duma estética kubrickiana, perfeccionista e imperativamente esmagadora com tudo o resto. “Poor Things” tem essas tendências que nos levam a uma igualmente liberdade cénica ou de uma fantasia molhada borisviana com cruzamentos de um vitoriano orgásticamente feliz. Só as opções de como filmá-la leva-nos a essa bizarra aliança ao grotesco da sua narração e argumentação, a cor, perde ocasionalmente, tentando, previsivelmente criar um espaço temporal (e mimetizando os 'passos' de uma criança que vai reconhecendo gradualamnete a coloração do seu redor), e cujas as angulares histriónicas, a profundidade vertiginosa e embriagada, tendem em incentivar uma repudia imediata. Lanthimos está encarregue de repudiar-nos, e não falamos do “body horror” bastardamente cronenberguiano que por vezes sugere nestas imagens da bestialidade ou da Bela [personagem] a caminho da sua empatia (ou o pragmatismo que leva à sua anulação), mas na sua concepção enquanto filmica. 

Estranhamente, esta obra do realizador espiritualmente vai ao encontro de um dos propósitos de “Canino”, que é o de desejar não ser amado, portanto acredito que nesse sentido, “Poor Things” é mais desafiante do que se propriamente se vai inferir na cinefilia ainda detida desse conforto visual. Se isso é bom ou não, cabe ao espectador posicionar-se nesta questão de belo ou nada …

Tudo bons "fanboys" ...

Hugo Gomes, 25.04.19

avengers_GTqWmtw.webp

Fugindo do conceito de super-heróis e consequentemente do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) abraçado pelo produtor e presidente dos estúdios Kevin Feige, deveremos referir-nos a "The Avengers: Endgame" como uma afirmação dos chamados "filmes-evento". Algo que Hollywood fazia com frequência na sua época de ouro e entretanto se tornou escasso (só filmes como "The Lord of the Rings", “Avatar”, “Jurassic World” e “Star Wars: Force Awaken” podem ser inseridos neste grupo no século XXI).

Nesses termos, os Vingadores (e companhia) contrariaram a tendência da queda de espectadores, levando milhões às salas e perpetuando um legado que se torna num círculo íntimo para quem o vive com tamanha dedicação: a chamada "base de fãs". E podemos apontar para uma geração "marvelesca", que atende a cada episódio como um ritual religioso.

Porém, nem tudo são “rosas” neste panorama. Existe um agravamento de monocultura, desde a corrida aos bilhetes que deixam outras propostas sem receção (os multiplexes acabaram por preferir estes filmes com receitas garantidas), à generalização de uma produção industrial que se baseia (e baseará) nos moldes vencedores deste franchise, condensando as fórmulas vencidas. Sim, o Universo Marvel tem tanto de virtuoso como de perigoso para a diversidade e difusão cinematográfica. Mas neste momento, o leitor, que provavelmente acompanha este universo desde o "Iron Man" em 2008, pergunta com algum desprezo “o que é que isso me interessa?”. Até porque o presente tem que ser vivido e como tal, cumprindo a cultura do “no-spoiler” (que não é dos tempos atuais, visto que em 1960, para “Psycho” de Alfred Hitchcock, também existiam normas especiais), aqui vai uma tacada neste encerramento de uma fase que prolongou por 11 anos e 22 filmes.

A verdade é o que tornará para muitos “The Avengers: Endgame” numa “obra-prima” é essa afinidade e acompanhamento por parte do seu público fiel. Os super-heróis deixam de ser meras personagens, são agora família. Os conflitos ultrapassam a narrativa e tornam-se seus. Vivem, choram e riem com eles. Tudo isto atribui um senso de exclusividade a estes fãs... que se sentem especiais nestes seus mundos. Obviamente que em torno deste carinho pelos filmes existe uma tendência de proclamar o cinema como uma só hélice - a oleada máquina (aliás, bem-sucedida) que a MCU conquistou nos últimos anos, principalmente a partir de "The Avengers" (2012). E este “Endgame” tinha todas as razões para contradizer a formatação dessa máquina, por ser o anunciado fim de um ciclo, sem deixar igualmente de ser fiel à sua tradição, o que consegue através de calculadas jogadas para completar o seu “grandioso” puzzle, num malabarismo temporal que nos guia por ondas antológicas e nostálgicas em relação a toda a saga.

Avengers-Endgame-Review.webp

Nesse equilíbrio criativo nada original, “Endgame” funciona como um evento por si só. Infelizmente, a sua pausada postura, que se saúda e beneficia claramente algumas personagens e relações (Chris Hemsworth é triunfal como um Thor que ganha tragicomédia a olhos vistos), é abandonada, como aconteceu noutros filmes do Universo, com a chegada de um terceiro ato.

Um pecaminoso terceiro tomo que nos revela as fraquezas deste género. Desde o “fan-service” que espezinha qualquer subtileza no seu clímax (por vezes as batalhas cruciais são as menos épicas e isso é lição que a Marvel nunca estudou) à mudança brusca das motivações do vilão Thanos (o seu “ativismo” era o motor de engrenagem de Infinity War), que nos levam a um aborrecido e pouco subtil (ou original) festim de efeitos visuais, ao nível dos mais sofisticados videojogos.

Por fim, uma elipse que alimenta ainda mais do saudosismo, essa sensação que começa a tomar conta do espectador que também é fã: a despedida é amarga, por vezes doce e tende a assumir-se como uma lamechice embirrenta, como a de uma criança que não deseja partilhar o seu brinquedo predileto. Mas “Endgame” encerra um ciclo, possivelmente um reinado, e é capaz de fazê-lo de uma maneira honesta, dentro do pretensiosismo capitalista da sua megalómana produção.

Neste "embrulho", que cada vez mais anuncia a saturação dos seus modelos (“Captain Marvel” foi a premonição), os irmãos Anthony e Joe Russo contornam o automatismo e constroem um espetáculo previsível, mas também sincero para com as expectativas destes milhões de “fanboys”. E isso... é o que mais interessa neste momento. O cinema, esse, discute-se depois...

O desejo megalómano do crossover cinematográfico

Hugo Gomes, 25.04.18

Avengers_Infinity_War__Large.jpg-1024x587.jpeg

Em 2012, a Marvel Studios conquistaria o seu grande objetivo até então, consolidar os seus universos num filme só – “The Avengers” – entretenimento corriqueiro que conflituaria o seu lado camp (direto da alma de Joss Whedon) e da “lubrificação” produtiva que o estúdio estaria a promover. A manobra foi um sucesso global, 1500 milhões de dólares rendidos para ser exato, o que levaria a Marvel a preparar uma outra visão. “Make it bigger” alguém terá dito ao produtor executivo Kevin Feige de modo a preparar com muita antemão este “Infinity War”, o totalizado crossover dos sucessos garantidos deste universo.

Até à chegada desta Guerra Infinita, muito a Marvel experimentou (sem sair dos parâmetros estabelecidos do estúdio). Aí nesse espaço decorreu de tudo, desde os altos (“Guardians of the Galaxy”, “Thor: Ragnarok” e “Black Panther”) a pontos baixos (“Thor: Dark World”, “Captain America: Civil War”), não apenas forma a expandir um universo partilhado (a definição literal de world building cinematográfico), mas como encontrar um realizador capaz de segurar tão ambicioso projeto. Com o despacho de Whedon num segundo e tremelico “The Avengers”, a Marvel arranjou, não um, mas dois realizadores pronto a abordar a mais arriscada missão dos “mightiest heroes of earth”, e eles são os irmãos Russo. Infelizmente, essa dupla, a nível dos artesãos que passaram pelas “garras” desta megalómana casa, são de facto os mais despersonalizados e desinteressantes. Resultado, operar todo um filme na concordância dos seus apetites tecnológicos (relembrando que James Gunn conseguiu lidar com o frenesim visual através da trabalhada química dos seus atores).

“Infinity War” é aquilo que se esperava nos cantos interestelares do estúdio, um longo (sublinho, longo) episódio a servir de coletânea ao ainda tão fresco legado do grande ecrã. Pensando nos Russos e toda a equipa por detrás do projeto como os “verdadeiros super-heróis”, encaramos a seguinte missão: como colocar em duas horas e meia toda a “bonecada” deixada pelos 18 filmes anteriores, narrar uma intriga formulaica e ainda desenvolver o vilão que andou 10 anos sentado numa cadeira sem qualquer preocupação nessa composição?

Não é impossível, é sim extremamente inconsequente juntar tudo no mesmo fosso. Em suma, um filme em constante resistência com as suas afinidades mercantis, informação intensa e exaustiva que dilui ao nada. Sim, existe muito a acontecer, há um clímax suspenso ao longo de duas horas como se fosse o director’s cut de um terceiro ato (malditos terceiros atos) da aristotélica distorção em Hollywood. Todos os diálogos, ora afrontam-se na emergência (temos que salvar o Mundo, temos que recuperar as pedras, temos que destruir a luva … temos … temos), ora deixam-se levar em falsas elipses para injetar no espectador as habituais graçolas marvelescas (poderemos incluir isso como uma nova definição de humor?).

Aliás, querendo resumir “Infinity War” numa palavra, esta seria: fórmula. É simples e concretamente uma fórmula aplicada, porém, tal já se sabia de antemão. O que não se previa era que a Marvel, consumida pela sua grande ambição, revelasse um Universo Partilhado insustentável (e atenção, apesar de tudo é o estúdio que conseguiu aplicar bem-sucessivamente tal plataforma numa saga). É uma boleia pela Galáxia, personagens a interagirem com as outras e easter eggs minados, elementos que encaixam uma nas outras como peças de um puzzle cuja concretização ilustrada encontra-se no anterior modelo a seguir.

disneyplusaprilavengersinfinitywarimg_r_86e4d3f8.j

Thanos, o novo Hitler alienígena, é acorrentado a um extremo síntese de caracter, confundindo isso com complexidade. Todavia, este Infinity War difere dos outros capítulos por centralizar na sua força antagónica, ao invés nos heroicos vingadores, o resultado dessa mudança de olhar poderá fascinar os fãs que tem nos últimos tempos desiludidos nesse ramo. Mas a tragédia invocada nesta personificação digital de Josh Brolin é puro engodo (para além do “boneco”, em conjunto com o congénere de “Justice League”, são medonhamente artificiais), um arrasto, ou antes, uma desculpa para as inúmeras batalhas “apocalípticas” que pontuam em todo o seu esplendor nesta narrativa saturada. Porém, a tragédia acaba por ser outra, e nesse termo há que dar uma vénia ao trabalho de composição que Chris Hemsworth tem atribuído ao seu personagem Thor, cada vez sob cadências mais negras.

Mas se este episódio tem as aspirações, ao seu modo, da perfeita Tragédia Grega, é certo que no cair do pano apercebemos que já vimos este filme sob iguais conjunturas. Aliás, George Lucas havia feito em 2005 - “Revenge of the Sith” - a queda de um império, de uma ideologia, de um modo, revelando o ascensão do Lado Negro e a humilhante derrota da Força (“O mal triunfa quando os homens de bem nada fazem para o impedir”, Edmund Burke). Contudo, o resultado está longe da epopeia, e os sinais demonstrados são de cansaço, o mero e pesaroso cansaço.

"É esta a tua carta?"

Hugo Gomes, 15.06.16

nysm2_d023_05101_r2-1.webp

Juntamente com o recente “Alice Through the Looking Glass", este “Now You See Me 2” é já um dos fortes candidatos ao título de “sequela não pedida de 2016”, um filme cujo título português (“Mestres da Ilusão”) adequa-se perfeitamente à sua natureza.

Mais do que um filme, este é um verdadeiro truque de ilusionismo, que procura convencer o espectador de que todo este espetáculo é no mínimo saudável para a massa cinzenta de cada um. Contudo, a verdade está longe de ser mágica – tudo se resume a um argumento reciclável que utiliza como desculpa “o ilusionismo” para explicar o inverosímil. A prequela podia seguir os mesmos erros, mas no caso da sequela, o registo é insuportavelmente longo, atrapalhado com o excesso de informação e precocemente reprimido em consequências de “milésimos” falsos twists, engodos lançados para a audiência como se de burlas se tratassem.

Nem mesmo a ironia o filme consegue suportar. Aliás, temos aqui um enredo sobre mágicos e ilusionistas com Daniel “Harry Potter” Radcliffe como o vilão em cena, o “ateu” nesta ordem apocalíptica de coelhos e cartolas, infelizmente uma piada digna de “stand up comedy” desvanecida por um tom hiperativo e exaustivamente industrial. Continuando com o fracasso de todo o tamanho, “Mestres da Ilusão 2” ostenta um visual de brilhantismo que afoga qualquer indício provocado de “filme de golpe”, e quanto toca a explicações de planos intermináveis, o “cenário” torna-se ainda mais desesperado por atenção (verifica-se na entediante e demasiado longa sequência no laboratório).

Por fim, o elenco poderia ajudar a tornar esta experiência mais capaz na sua entrega mais cinematográfica e menos “videoclippeira“, mas a esta altura do texto o leitor já deve ter percebido que são mais um … fracasso. Um Jesse Eisenberg nos seus piores dias, um Woody Harrelson mais preocupado com o cheque (provavelmente a dobrar neste produto), um Dave Franco sem expressão e uma Lizzy Caplan como pneu suplente em modo “Kat Dennings wanna be“, não são certamente os anfitriões que queremos no nosso serão.

Salvando o Mundo! Outra Vez!

Hugo Gomes, 24.04.15

avengersaou1-1280x720.jpg

Depois de “Guardians of the Galaxy” ter expandido o Universo Cinematográfico da Marvel, expondo uma outra equipa de super-heróis, voltemos agora à "velha" trupe num confronto directo com um inimigo comum, ou por outras palavras, mais do mesmo. 

Joss Whedon novamente no leme, contagia toda uma narrativa com as suas intervenções cómicas porém, enquanto que o primeiro "joint event" resultou numa "experiência modesta" (não sejamos esquecidos quanto ao mastodôntico orçamento) e nervosa, com “Age of Ultron”, a confiança está ao rubro. Em consequência disso temos um extensivo prolongamento do enredo, no qual se concentram mais personagens (talvez demasiadas) e respectivos subenredos (acontece tanta "coisa" em simultâneo), apostando assim, numa ênfase dramática mais acentuada. 

É um entretenimento que resistirá no teste dos espectadores, mas infelizmente é povoado por concertantes lugares-comuns geográficos e etnográficos, estereótipos servidos para simplificar todo um Mundo criado. Se prestarmos atenção aos propósitos subliminares do filme, encontramos na iniciativa “The Avengers” um excesso de militarismo, apenas descaindo na figura do mais anedótico dos vingadores, Hawkeye (Jeremy Renner), que comporta-se como um autêntico Tio Sam: "we want you to join in our cause". Mas claro, fazer leituras políticas aqui é quase tão descabido como ir a um restaurante de fast food pedir uma sopa. Avancemos para o próximo episódio. 

Pago para Esquecer

Hugo Gomes, 23.11.14

eternal_sunshine_of_the_spotless_mind_-_kate_winsl

Quem procurava as habituais “caretas” e outros portes simiescos providos pelo ator, bem podem "tirar o cavalinho da chuva", até porque “Eternal Sunshine of a Spotless Mind” (“O Despertar da Mente”) funciona como um veículo da versatilidade que Jim Carrey detém na sua construção de personagens. Completamente subvalorizado pela Academia e pelo público que assume "venerá-lo", mas que somente espera pelo óbvio replicar dos seus êxitos na comédia, Carrey é agora o servo de uma distopia sobre paradigmas de espaços, tempos e emoções.

Aliás, este é mais que um simples exercício de ficção científica ou de romance, como as etiquetas atribuídas pela "esfomeada" indústria cinematográfica tendem a inserir. Não, Michel Gondry, "acabadinho" de sair do seu desastre crítico e financeiro - “Human Nature” (2001) - que porventura fora a sua primeira longa-metragem, oferece-nos um filme sobre a inteligência emocional, e a emancipação desta das recordações e memórias que nos estabelecem. Sob um argumento de Charlie Kaufman, novamente intrometido em assaltos cerebrais (relembramos o seu “Being John Malkovich”, sob a batuta de Spike Jonze), “Eternal Sunshine of a Spotless Mind” revela-nos sob a brisa da habitual fórmula "boy meet girl", tão recorrente a qualquer comédia romântica. Felizmente, não estamos perante um produto deste género ou estilo, como quiserem apelidar, mas sim do arranque para uma aventura que nos leva ao encontro da própria medula do romance propriamente dito.

Aqui o sentido poético e romantizado de catalisar todas as emoções deste foro para as aurículas e ventrículos do coração são descartados, até porque o cérebro comanda a vida e as nossas emoções, ligadas às respectivas memórias, operando como combustões essenciais para um "motor" constantemente alimentado. Imaginem, se alguém ou alguma coisa, tal e qual um "heist", penetrar nessa mesma massa cinzenta e extrair esses pensamentos, ligados às pessoas pelo qual nutrimos de relações afetuosas, sentiríamos defraudados? Pelo que parece existe quem queira esquecer esses "déjà vus" vincados, e Jim Carrey é um deles.

Sob a pele de Joel, o “coração-em-pedaços” contrata uma empresa especializada em "apagar" memórias. O objectivo deste serviço é a destruição de qualquer vestígio da sua antiga relação - Clementine (infelizmente uma desaproveitada Kate Winslet) - uma mulher instintiva, cuja sua ausência tem feito Joel "gato-sapato", e o esquecimento seria, segundo este, um convite para prosseguir saudavelmente na vida que lhe resta … e que muito lhe resta. Contudo, e durante o processo de "erase", ironicamente transformando-se em epifanías, o protagonista se apercebe, por fim, do inevitável … um dia ele foi feliz com essa agora “infelicidade” sinalizada.  

descarregar.jpg

A luta, literalmente intrínseca, envolve na preservação de qualquer resíduo desta paixão, nas memórias que o enriqueceram e que o tornaram no homem de hoje. A importância emocional é relevante não só para a construção e para as elipses embutidas no protagonista, mas sobretudo para a própria conduta de uma obra que se adivinha fria, sublinho, tecnologicamente fria. Todo o clímax decorre no interior da cabeça de Joel, um confronto visível entre a emocionalidade adquirida pelas ocorrências impostas no filme e o automatismo do enredo. Uma batalha que requisita o melhor de Gondry, no sentido visual, ilustrando toda esta catarse aos pensamentos de Joel e da sua derradeira luta para manter Clementine na sua mente sob um jeito onírico e inventivamente estético. Esta reinvenção torna a experiência fora dos parâmetros do "faz-de-conta" e segue-se no registo do qual o cinema é veterano, atribuindo às ditas imagens um simbolismo de impulso emocional. O uso tecnológico do CGI encontra-se estampado na narrativa, não como uma cobertura autodidacta que muitas produções hollywoodescas de grande orçamento parecem manifestar, mas servido de bandeja para a concepção de tais ideias, eventualmente transmitidas acima do conceito.

“Eternal Sunshine of a Spotless Mind” é um filme independente até mesmo na sua forma de pensar, na instalação da sua narrativa e na recontagem dos parâmetros românticos que Michel Gondry assume odiar. Nesse sentido, temos uma obra que reúne dois futuros artesãos; Kaufman de um lado, a demonstrar a criativa manobragem em intrigas existencialistas e dotadas de um pálido humor, neste caso a existência está na própria natureza da inteligência emocional, e Gondry do outro, como um VJ que tenta preencher as lacunas da sua imagem (curiosamente Lacuna é o nome da empresa contratada por Jim Carrey) e compensar os seus erros anteriores (o realizador enumerou todos os fatores que conduziram o seu “Human Nature” para o conhecido fracasso). Uma dupla que adopta a febril experimentalidade da encarnação do amor platónico no grande ecrã, sucedendo, em certa parte, ao trabalho inspirado de Sofia Coppola em “Lost in Translation''. E como jeito de curiosidade, ambos os filmes vêm no "sussurro" um forma de twist!

Mas no seio deste confronto de egos artísticos e sede de criação, Jim Carrey a batalhar por um lugar na reminiscência do espectador, possivelmente fazendo-o esquecer que foi em tempos o denominado sucessor de Jerry Lewis. Apesar da sua estrutura anárquica aos modelos do romance estabelecido e estagnado, “Eternal Sunshine of a Spotless Mind” tem tudo para ser considerado um dos mais ricos do seu tempo.

Entre Mágicos e Ladrões!

Hugo Gomes, 17.09.14

Now-You-See-Me-trailer-630x336.jpg

The more you look, the less you see.

O francês Louis Leterrier revelou recentemente que a sua passagem por terras americanas não tem sido muito feliz em termos profissionais. Descontente com o resultado final do seu Hulk e da reimaginação tecnológica “Clash of the Titans”, o qual o realizador culpa a pressão dos estúdios e as complicações do argumento, o anterior “afilhado” de Luc Besson decide vergar por um cinema mais modesto e menos colossal em termos orçamentais, porém sem fugas possível ao mainstream norte-americano (está-lhe no sangue!). “Now You See Me” é um misto de cinema de golpe à lá “Ocean’s Eleven com um show de David Copperfield, a história de quatro ilusionistas de elite tido como principais suspeitos de um roubo a um grande banco francês, contudo, o quarteto tem como álibi um espectáculo em Las Vegas visto por milhares de pessoas.

Muitos truques de magia na manga e eventuais malhas de ilusão são os tópicos de interesse de uma fita que se resume a uma autêntica farsa. Tendo como título traduzido de “Mestres da Ilusão”, este é um filme em modo 200 à hora onde a suposta “magia” do argumento dissipa-se perante as artimanhas mais baratas do cinema comercial, onde parecia ser um ensaio de estilo erguido com astúcia automaticamente cede a um conjunto de perseguições, tiroteios e acção à moda de um trivial policial norte-americano. Depois de terminada a trama, “Now You See Me” ainda possui o descaramento para justificar tudo e todos através de reviravoltas, algumas necessárias outras não, dando uma sensação de um final “fake”, como se a experiência se resumisse a um simples truque de ilusionismo. É que até certo ponto, uma obra que supostamente poderia vingar pela imprevisibilidade torna-se o oposto, apenas disfarçado pelo facto de Louis Leterrier ser, de facto, dos maiores ilusionistas aqui.

Por fim o elenco, um articulado de luxo, e que são meramentes ‘fogo de vista’, correspondendo aos seus personagens-tipos desassociáveis. Só que no meio disto tudo são eles que acabam por ser vítimas desta imensa “vigarice”. Desequilibrado, desperdiçado e banal (a realização de Louis Leterrier é idêntico a um esticado videoclipe), “Now You See Me” é pura metáfora de Hollywood: um puro espectáculo de brilho e truques, onde a fórmula se converte numa verdadeira ilusão, por outras palavras – desilusão.