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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Norman Mailer e o Sonho Americano

Hugo Gomes, 28.07.25

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É quase impossível a nossa razão assimilar que um homenzinho solitário derrubasse um gigante no meio das suas limusinas, das suas legiões, da multidão e da segurança que o rodeavam. Se uma pessoa tão insignificante destruiu o dirigente da nação mais poderosa do planeta, então estamos mergulhados num mundo desproporcionado, e o universo em que vivemos é absurdo."

Norman Mailer (1)

 

A obra de Norman Mailer atravessou a História dos EUA na segunda metade do século XX, num diálogo, por vezes de forma estridente e mediática, com os solavancos e traumas desse período, questionando o modo de viver americano, como uma projeção de um escritor que desde a adolescência denotou atitudes de inconformismo e rebeldia. Pouco depois de se formar em Harvard em engenharia aeronáutica, Mailer foi mobilizado para a guerra no Pacifico, em 1944. Dessa experiência no conflito brota o seu primeiro romance – Os Nus e os Mortos – publicado em 1948 (tinha Mailer 25 anos). A obra, fortemente contaminada pelas “formas de escrita jornalística”, encontrou uma notável aclamação do público e da critica, tendo obtido o Prémio Pulitzer. Numa obra que também integrará, além dos romances, o ensaio, biografias e até realização de filmes (em Maidstone, que realizou em 1970, ensaiou uma candidatura a Presidente), Mailer cunhou uma obsessão de questionamento do sonho americano, com esboços de como a arte poderia lidar com a ideia da América e da relação com o individuo, na descoberta das “possibilidades criativas da violência e da marginalidade”, uma forma de catarse de recalcamentos e frustrações, válidas para o indivíduo e para a nação. Exemplos disso são os romances Um Sonho Americano (An American Dream, 1965) e Why Are We in Vietnam (1967), sendo que o conflito incompreensível para os americanos teve um grande envolvimento de Mailer que, além de o incorporar em várias obras, também participou de manifestações e até foi detido durante esses conflitos. Também se destaca, neste contexto, Marilyn Marilyn: A Biography (1973), uma biografia romanceada do grande ícone do sonho americano, da sua ascensão e colapso, engolida pelas tensões resultantes do seu relacionamento com John Kennedy e das especulações em volta do envolvimento do FBI ou da CIA na morte da atriz, que a colocaram no pedestal do escritor. Como sintetizou Eduardo Prado Coelho, os heróis de Mailer “são figuras extremas, assim como os mundos ou modelos que os habitam. Polarizados em torno de binómios como: Deus e o Diabo, o negro e o branco, o canibal e o cristão, a doença e a energia vital” (2).

Stephen Rojack é o protagonista de Um Sonho Americano. Rojack é um herói americano, condecorado pela participação na guerra, com passagem pelo Congresso dos EUA, a que somou a apresentação e direção de um programa de televisão. Além do estatuto de herói e de intelectual, o protagonista é casado com Deborah, filha de um dos homens mais poderosos da nação. O romance encontra o protagonista no declínio de uma montanha russa, expresso num casamento fracassado e corrupto, que impele Rojack a assassinar a mulher e a tentar encenar o suicídio dela.

Pierre Dommergues descreveu o protagonista de Um Sonho Americano como se fosse um alter ego de Mailer, “alguém que não se contenta em jogar com as palavras como o romancista com quem se identifica: age com a mesma facilidade com que se exprime”. O parapeito por onde Rojack desliza a 30 metros de altura é uma poderosa metáfora da pré-ruína do sonho americano, que o romance intensifica no encontro do protagonista com o sogro poderoso e rico, que “negoceia em drogas e política e que o convida a caminhar sobre um parapeito ainda mais alto que o anterior, com a secreta esperança de que ele perca o equilibro”. O personagem lida com demónios ora reais ora imaginários, onde se mescla violência e sexualidade, drogas e álcool, assassinatos e suicídios, com Mailer a “transformar em verdadeiros mitos estes elementos que fazem parte da vida (real ou sonhada) de todos os dias”, numa renovação das formas e das sensações, em que “a sirene dos carros da polícia ou odores de toda a espécie substituem os objetos e os sentimentos: odor de derrota ou de salvação” (3).

O romance abre com a frase – “Conheci Jack Kennedy em novembro de 1946(4), uma amizade com o futuro presidente cimentada com a partilha de uma mulher no banco de trás de um táxi, para celebrar a eleição dos dois para o congresso. Nessas primeiras páginas também despontam o tema do medo e da perceção da morte, com o protagonista a recordar a participação na guerra, sob o perfume da alienação e da sedução pela morte, num pelotão formado por “sulistas obstinados e jovens mafiosos do Bronx”: “(…) de tal modo que a morte, naquela noite, pareceu-me pela primeira vez uma possibilidade consideravelmente mais agradável que a minha situação nalguma futura desordem. (…) não me importava quanto tempo ainda continuaria vivo. Quando conduzi o grupo, colina acima (…), eu estava tão preparado para morrer de espanto que nem tive medo(5).

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Com as palavras homicídio e falhanço a espalharam-se pelas páginas do romance, a mulher, Deborah, é apresentada num contexto de atração por uma natureza primordial, de dentro de “uma floresta concebida por Rosseau”, um calor que depois se transformará em podridão e morte (6): “Quando sentia amor, era formidável; fazendo amor dava a sensação de ter mantido uma relação carnal com um animal preso. Não era apenas o odor, aquele cheiro (…) do javali selvagem no cio, aquele odor quente de uma galeria do Jardim Zoológico; não, havia alguma coisa mais, o seu perfume talvez, um quê de santidade (…)(7). A morte de Deborah provoca a abertura das portas da perceção, no explicitar de novas geometrias e cores, novos sons, novas realidades e novos odores, resultado do sacrifício do sonho americano, levado então ao seu extremo ou exposto no seu reverso, na devolução dos corpos a um estado selvagem e primordial, em que se junta a morte e o sexo, a criação e o diabo, no decorrer de uma caçada peculiar exposta numa literatura de sensações, à procura do desenho de realidades construídas pela imaginação, pela projeção dos mundos interiores das personagens.

A leitura do romance contamina o leitor de uma sensação de alienação, de indistinção entre a realidade e um patamar alternativo, com evidentes ecos da biografia de Mailer (que insistia em muitas vezes se colocar dentro dos seus romances), processado pela tentativa de assassinar a mulher, numa afinidade evidente com a literatura de J. G. Ballard, nessa procura de que a obra produzida dialogue com os traumas pessoais e coletivos e lhes introduza uma luz renovada e catártica, e daí a presença da guerra do Vietname, mas também a crise dos mísseis em Cuba. Nas contantes oscilações entre a realidade e as fantasias, o protagonista convoca a paisagem dos media, como num simulacro num cabaret, em que desfilam as loiras platinadas de Hollywood: “Não se parecia nada com Marlene Dietrich, mas exercia o mesmo fascínio, aquela curiosa sugestão de terra de ninguém, em que não podemos distinguir a exaustão da sombra da espionagem. Então o demónio, bom ou mau, dos poderes telepáticos, introduziu-se nela quando começou a cantar ‘The Lady Is a Tramp’, mas numa versão curiosamente rouca e menor, como se na verdade a Dietrich lhe tivesse tocado a laringe com o dedo(8).

Outra das características do romance é a cascata de diálogos entremeados pelo discurso interior do protagonista, numa expressão do seu mundo interior e dos seus demónios, que é tanto uma viagem pela mente, como pelo corpóreo. Essa expressão do corpo é especialmente notada nas sequências de sexo, em que se alia uma quebra das convenções com a presença de odores, que testemunham uma memória que vai para lá de relógios e calendários, como quando o protagonista interage sexualmente com Cherry, a criada: “Mas não nos unimos como amantes, antes como animais tranquilos que se cruzam numa nesga da selva para se copularem numa clareira; eramos iguais” (9). São apresentadas recorrentes analogias entre os personagens e o mundo animal, numa denúncia de que a civilização nos tolheu, nos incapacitou relativamente a um conjunto de características inatas, que os animais ainda conservam: “Segundo essa lógica, a civilização constitui o roubo mais bem-sucedido, embora imperfeito, de um aglomerado desses segredos, e o preço que temos pago é a aceleração do nosso senso particular de um desastre enorme embora indefinível, que nos espera(10).

Rojack encontra-se, então, num hotel com Kelly, o pai de Deborah, espécie de representação da América, símbolo do patrono da América, com ligações extensas, desde os muçulmanos ao New York Times, à Igreja, à CIA e à mafia, que nos remete também para as ligações promovidas em volta de JFK que atuava como um íman, que de repente, de forma trágica se quebrou em Dallas, mas que é ainda um mito bem vivo, o motor da narrativa da América, sendo que foi através do mártir que o protagonista conheceu a futura mulher. Rojack experimenta a metáfora do desejo da queda, da vertigem do fim do sonho americano, como um funâmbulo que caminha num estreito parapeito entre a queda e o medo, na expressão de um tempo, o dos anos 1960: “Abri as portas que davam para o terraço, e atravessei-as. Era um bom terraço, talvez de nove metros de largura por seis de comprimento, caminhei até à extremidade e olhei por cima do parapeito de pedra, de cerca de metro e meio de altura, lá para baixo, para a rua, trinta e tantos andares de queda vertical, uma queda e uma parada, pavimento molhado e comecei a sentir aquele desejo, novamente, leve como o primeiro acorde de um instrumento numa sala vazia(11). O confronto do protagonista com o sogro é como um encontro de duas criaturas mitológicas mergulhados numa escuridão, “como dois caçadores, na meia noite de uma selva” (12). Neste contexto, Kelly é a imagem do sucesso da América, da riqueza e da notoriedade, de alguém que pagou o preço mais elevado, de uma alma vendida ao diabo, que seduziu a filha (com quinze anos), por entre um vasto território de violência e insanidade, “até aos poços sombrios da Lua(13).

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O epílogo de Um Sonho Americano desenha-se em percursos pelas grandes estradas americanas, com passagens por oficinas e motéis, como uma autópsia da América, da sua paisagem e do seu glamour, como um corpo que fora outrora sadio e aromático para agora ser tomado pelo odor das vizinhanças da morte. O romance de Mailer e o seu carácter elegíaco antecipa Olá, América! de Ballard, na “viagem pelas terras secas e ásperas do Oklahoma, Norte do Texas, Novo México, pelos desertos do Arizona e pelo sul do Nevada, onde Las Vegas parece um espelho da Lua(14). Também os “cartazes do tamanho de uma montanha(15) parecem gerados pela escrita de Ballard numa Las Vegas tão enquadrada por um “céu de aspeto sombrio” como por “ruas tão iluminadas” que apresentavam “mais claridade que na Broadway na véspera de ano novo(16). Se a primeira linha do romance ecoava o presidente assassinado, o luar de Las Vegas, das últimas linhas do romance, e “o néon de anúncios de altura descomunal, de dez andares”, suspirava que “Marilyn manda lembranças”, como se fosse a porta-voz dos anjos sacrificados da América (17).

Nota: Texto reescrito a partir de um excerto da tese “Paisagens Cinemáticas para as Metáforas de J. G. Ballard”, no âmbito do doutoramento em Ciências da Literatura (Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho).

 

Texto da autoria de Vitor Ribeiro, doutorado pela Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH) da Universidade do Minho (UM), sob o tema “Paisagens Cinemáticas para as Metáforas de J. G. Ballard”, é programador de Cinema na Casa das Artes de Famalicão, com destaque para o Close-up – Observatório de Cinema, desde Maio de 2016, onde também exerce as funções de apoio à restante programação. Concluiu o Mestrado em “Mediação Cultural e Literária, Área de Especialização em Estudos de Cinema e Literatura” (ELACH/UM, 2011-2013) com uma tese sob a forma de Guião Cinematográfico, “Em Teu Ventre”, que cruzava ao sabor do tempo duas obras de Goethe, “As Afinidades Electivas” e “Werther”. Tem produzido trabalho na área da programação cinematográfica, com destaque para o projecto Cineclube de Joane, entidade financiada pelo Ministério da Cultura desde 2002, do qual é director e programador desde 1998. Tem também concretizado propostas de programação em parceria com outras estruturas. É membro do Júri dos concursos do Instituto do Cinema e do Audiovisual desde 2016. Tem escrito regularmente sobre cinema em várias publicações, das quais destaca o Jornal Publico e o site À pala de Walsh.

(1) A citação de Norman Mailer abre o romance 11/22/63 (2011), em que Stephen King usa uma viagem no tempo de um personagem, como um manifesto político para salvar John Kennedy e o sonho americano (p.9)

(2) Prefácio de Os Exércitos da Noite, por Eduardo Prado Coelho, p.6

(3) Prefácio de Um Sonho Americano, por Pierre Dommergues, p.2

(4) Um Sonho Americano, p.9

(5) Um Sonho Americano, p.11

(6) Um Sonho Americano, p.32

(7) Um Sonho Americano, p.46

(8) Um Sonho Americano, p.115

(9) Um Sonho Americano, p.149

(10) Um Sonho Americano, p.185

(11) Um Sonho Americano, p.258

(12) Um Sonho Americano, p.274

(13) Um Sonho Americano, p.292

(14) Um Sonho Americano, p.305

(15) Um Sonho Americano, p.307

(16) Um Sonho Americano, p.306

(17) Um Sonho Americano, p.308

Room Service!

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Chambre 212 (Christophe Honoré, 2019)

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Anomalisa (Duke Johnson & Charles Kaufman, 2015)

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The Best Exotic Marigold Hotel (John Madden, 2011)

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Don't Bother to Knock ( Roy Ward Baker, 1952)

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Four Rooms (Allison Anders, Alexandre Rockwell, Robert Rodriguez & Quentin Tarantino, 1995)

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The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson, 2014)

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Home Alone 2: Lost in New York (Chris Columbus, 1992)

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1408 (Mikael Håfström, 2007)

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2046 (Wong Kar-Wai, 2004)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Some Like It Hot! (Billy Wilder, 1959)

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Room 304 (Birgitte Stærmose, 2011)

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The Bellboy (Jerry Lewis, 1960)

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The Million Dollar Hotel (Wim Wenders, 2000)

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Chelsea on the Rocks (Abel Ferrara, 2008)

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Hotel (Jessica Hausner, 2004)

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Love Steaks (Jakob Lass, 2013)

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Mekong Hotel (Apichatpong Weerasethakul, 2011)

O meu Cinema é feito de Mulheres!

Hugo Gomes, 09.03.19

Não é só o dia 8 de Março que as mulheres devem celebradas, aliás, o dia da Mulher deve ser, sobretudo, normalizado. Todos os dias são dias de mulheres, e todas as mulheres fazem parte dos nossos dias. Como tal, eis o meu contributo, as mulheres especiais que integram o meu Cinema … digo por passagem, que são somente algumas.

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