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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Do real para o imaginário cinematográfico ... com queimaduras nas mãos!

Hugo Gomes, 26.05.24

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O cinema de Margarida Gil tem caminhado para produções austeras, em jeito de resiliência e talvez um pouco de "carolice", que a faz avançar contra todas as adversidades. Há uns meses, uma curta e uma longa-metragem estrearam em modo double bill nos cinemas portugueses ["Cavaleiro Vento", "Perdida Mente"], de forma a relembrar a sua existência num meio que resiste aos apoios e aos júris que selecionam quem "filma" e "como deve filmar". Gil, por outro lado, calha a "sorte grande" com um filme de produção modesta, que a extrai dos trabalhos mais artesanais e, em todo o caso, amadores. O que encontra neste refúgio ao abrigo da Ar de Filmes é a sua aparentemente derradeira oportunidade de se reerguer. Daí que a realizadora se conquiste por meio de um cuidado técnico e uma planificação que a vincula às tradições, hoje em modo expiratório, do cinema que a viu nascer. Um cinema oliveriano em trajes de Henry James - "The Turn of the Screw" ("A Volta do Parafuso", na tradução portuguesa da editora Sistema Solar) - mas despido do seu horror gótico e encantado com as possibilidades da sobrenaturalidade trazida à arte de filmar, sobressaindo como relato gótico com vénias ao misticismo que o Cinema nos trouxe.

Ora, convém salientar que em "Mãos no Fogo", ao invés de amas enviadas para mansões remotas, é uma jovem estudante de cinema (Carolina Campanela, interpretando uma Maria do Mar, ligação com a donzela nazarena do homónimo filme de Leitão de Barros e com a última longa-metragem assinada por Gil, “Mar”, em 2019) com a tese do "Real no Cinema" na mente, que se depara com os habitantes do casarão - velha lógica de um cinema visto pela sua burguesia e de contos de realeza e bons costumes -, o qual é cedido por pensamentos de incerteza e de espectros que por lá habitam, tendo como única certeza a sua imortalização por via das imagens. É "filmar o real", mas é para além disso que a câmara e a sua narrativa subjacente captam, numa espécie de erotismo barroco e de mestres implícitos numa intelectualidade e cultura impermeável e intransponível (sob um snobismo vilipendiado de Marcello Urgeghe).

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Margarida Gil opera sob esses tópicos de perfuração do assombro residido naquela instância, cuja protagonista escreve e rasura com constância no seu bloco de apontamentos... isso mesmo, apontamentos sobre o testemunhado e captado numa intenção de se encontrar numa coesão de pensamentos, infelizmente atormentada por visões e presenças (Rita Durão na sua delirante forma) que a fazem desconfiar das suas próprias "crenças" (o peru, o vegetarianismo e a cozinheira Adelaide Teixeira [resgatada do primeiro filme de Gil - "Relação Fiel e Verdadeira" (1988) -, Mefistófeles de bata que a seduz ao pecado e à tentação]). É um filme de imagens, repito isto vezes sem conta, como oposição às acusações de teatralidade ou da narrativa fracassada numa percepção de storytelling aristotélico (sabendo também que é nesta declarada guerra para com tais “inimigos” que o filme nunca desfere a sua transgressividade). 

É a sugestão, o fantasmagórico que projeta como memorialismo de produções ‘tobiescas’ ou de um Manoel Oliveira de mão dada à sua comparsa Agustina Bessa-Luís. Aliás, é aí que entra o elemento crucial da jornada e de convocação de Gil: a casa, o seu efeito, a sua imponência, as histórias aí permanecidas, encobertas em pó ou imprimidas em esquecida película à espera de uma outra e nova projeção. A casa vira tradição, e é através dessa tradição que Margarida Gil deseja lançar o recado para o "mundo" - "Eu continuo aqui!". Visto que chegamos a um tempo de revisionismos e de recuperações - é preciso escrever a história do nosso cinema por linhas direitas - com Solveig Nordlund, António de Macedo, Carlos Vilardebó, Fernando Matos Silva, Monique Rutler e, recentemente, Rui Simões na esperança de um holofote há muito negado. Gil inveja tal salvação e, para tal, demonstra o quão é capaz de invocar cinema na sua pomposa e ostentada estética. Já não se fazem filmes assim! Aliás, este "Mãos no Fogo" poderá ser o último da sua espécie (basta constatar, por exemplo, como “Sibila” sucumbiu a um vazio lírico normalizado nestes novos tempos).

Para não perdermos Margarida Gil de vista ...

Hugo Gomes, 18.10.23

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Cavaleiro Vento (2022)

Sessão dupla de Margarida Gil chega aos cinemas portugueses, principalmente para nos lembrar da (ainda) presença da realizadora neste meio, especialmente em tempos como estes em que se clama por mais mulheres na direção de obras de ficção.

É muito difícil uma realizadora conseguir apoio para primeiras longas-metragens porque o ICA está construído como um sistema bastante patriarcal, os júris são maioritariamente constituído por homens.” A frase é de Ana Moreira, em outubro de 2021, ano em que protagoniza a segunda longa de Bruno Gascon (“Sombra”), e não é por acaso que tal declaração saiu dos seus lábios. A atriz prepara terreno seguro numa paralela carreira enquanto realizadora, simultaneamente ostenta um invejável percurso de intérprete como currículo, com algumas colaborações com cineastas de mais forte cariz no nosso cinema. Quem a consegue esquecer enquanto rosto de “Os Mutantes” de Teresa Villaverde, ou, neste contexto, como Adriana no homónimo trabalho de Margarida Gil

A atriz esteve ao lado dessas mulheres antes da questão da pluralidade se tornar um tema mais amplamente discutido, naquela época, esse 'ativismo' ainda era marginalizado, por vezes visto com indiferença, mas de forma alguma inexistente. É, portanto, à luz da atualidade, quando estamos ansiosos por novos nomes e perspetivas, que tendemos a negligenciar as heroínas do passado que ainda continuam ativas. Se Teresa Villaverde teve uma trajetória aparentemente “mais sortuda”, Margarida Gil resistiu em acordos para manter a sua operação artística, resultando em financiamentos cada vez mais escassos. As duas obras apresentadas em conjunto são evidentes exemplos dessa resiliência, duas experiências à parte, a curta - “Cavaleiro Vento” (2022) - e uma longa de 2010 - “Perdida Mente” - que não vira a luz da distribuição comercial. Curiosamente, ambos coincidem enquanto produções oriundas de pequenas produtoras, e geridas por mulheres. 

Perdida Mente”, apresentado no Festival Independente de Vídeo e Filme de Nova Iorque, leva-nos ao ator José Airosa, seis anos após ser-lhe atribuído a “cara que merece”. Na “carcaça” de Joaquim, um padeiro clownesco que em certo dia coloca inconsciente as botas no forno ao invés de pão, levando a um prejuízo que culmina no seu despedimento. Sem razão para este ato, a não ser da loucura que lhe vai apoderando a mente, uma doença neurológica degenerativa que o forçará a uma espécie de trágico arlequim, enquanto a sua filha, sonhando com danças e tutus, assume-se mártir, no aparo da sua eventual queda. 

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Perdida Mente (2010)

No cinema de Margarida Gil existe um constante dilema / conflito para com a figura paterna, seja ele ausente ou indigente, e no caso de “Perdida Mente” é um vazio quase espiritual a manifestar-se como antagonismo nesse quadrante parentesco, visto que o corpo de Joaquim expõe-se como uma presença embaraçosamente sem controlo, por vezes oca, designada à sua abstração. Palavras esquecidas, memórias turvas e desfeitas em uma realidade refém de uma alternativa sufocante e degradante. O comboio, aqui o da vida, alegoricamente, instala-se como elemento psico-onírico, a viagem em carris imaginários e de passageiros, testemunhos de uma existência em dissolução, que acenam ao fatídico, ao inevitável e ao total esquecimento de Joaquim perante si mesmo. 

Talvez as botas, essas “cozidas” em fornos alheios, seja a metáfora de um homem impossibilitado de andar, e os caminhos de ferro, apresentados pontualmente, seja um trilho carroleano para a sua própria loucura. Num dos momentos, o ator José Pinto, o “Malagueta”, amigo da família e acidental ‘Anjo da Guarda’ em toda esta situação, se deleita com uma pista circular de um comboio de brinquedo, o objeto inanimado, por mais velocidade que atinja não consegue “sair do seu circuito”. Aqui, o tal “Malagueta”, provinciano e modesto homem em que cada sílaba recorre ao conselho companheiro, uma espécie de alado enviado pelo Paraíso para acalentar dores iminentes, enquanto que José Wallenstein, o médico predatório que interrompe consultório adentro, com teses sociais em formato de tentações mefistotelicas, a amoralidade e por si, a vontade dos Homens acima dos seus vínculos. 

Perdida Mente” é um filme de resistências e cedências, quer a do protagonista à sua condição, da sua filha ao fado ou de Margarida Gil em construir o seu poema para lá das adversidades produtivas (nota-se os baixos recursos, os possibilitados pela produtora Ambar Filmes, tutorada por Solveig Nordlund). Mas apesar da sua aparência “barata”, exibe um lado de rebeldia para com a sua própria causa, por vezes desesperante, entre esses momentos, a de Maria do Céu Guerra, utente hospitalar que na angústia da sala de espera procura ser … simplesmente ouvida pela enfermeira de serviço. No fundo, Gil e o seu “Chaplin debilitado” desejam ser escutados, custe o que custar.

Já “Cavaleiro Vento”, a mais recente curta da realizadora, marca o seu retorno aos Açores, ao Pico especialmente (18 anos desde “Adriana”), conectando mitologias em tramas familiares. É como, segundo Gil, um sonho acordado: a paisagem única da ilha, com o vulcão adormecido no centro da paisagem, ordenando toda a atenção que o mundo pode reter, e um fantasmagórico cachalote levitando perante esse mesmo. Uma fantasia delirante, no entanto interrompido pelo drama que desenrola no ecrã, crónicas de famílias e de pais ausentes, onde a realidade emergente é distorcida pelo escapismo proporcionado pela mitologia que se repete. Através da lenda de Quetzalcóatl, a sagrada serpente de plumas que seguindo os cânones da mitologia tolteca, criador do mundo, somos desviados daquele mundo que Gil nos oferece através do mise-en-scene, conectando tragédias do mundano em narradas tragédias épicas. 

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Cavaleiro Vento (2022)

Assim como aconteceu com "Perdida Mente," o baixo orçamento apresenta desafios que requerem soluções criativas, no entanto, em "Cavaleiro Vento", o formato compacto da obra parece mitigar algumas dessas limitações. É na perspetiva de Margarida Gil que se destaca o afinco táctico-técnico, por exemplo, na câmara serpenteante que segue de perto estas personagens, como se estivessem "presas" a mitos de tempos passados, e igualmente imersas num ambiente familiar  a condizer ao gosto da realizadora. 

Ambas as obras refletem a urgência de não esquecer Margarida Gil, realizadora de mais de 40 anos de carreira, desviada das atenções e obrigada à precariedade dos seus trabalhos. Lembramos-a, antes que perdidamente a tenhamos de recuperar em futuros anos num tom de revisionismo histórico. 

Fica a minha homenagem: Os Filme!!

Hugo Gomes, 14.06.23

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A Filha da Mãe (João Canijo, 1991)

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Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro, 1989)

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Pesadelo Cor de Rosa (Fernando Fragata, 1998)

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Rosa Negra (Margarida Gil, 1992)

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O Sangue (Pedro Costa, 1990)

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O Convento (Manoel de Oliveira, 1995)

 

Teresa Ferreira (1940 - 2023) colorista