Arranca o 19º MOTELX! As novidades do festival de terror de Lisboa em cinco 'golpes'.

A um passo de duas décadas de existência, o MOTELX celebra a sua 19.ª edição com o fulgor de uma nova vida: novas secções, um novo prémio, mais apostas em produções nacionais e, claro, a preservação das tradições a que nos habituámos no Cinema São Jorge. Arranca hoje (09/09) e, durante mais de seis dias, o cinema de terror e de género tudo fará para transformar aquele pedaço de Lisboa num espaço incontornável. Haverá convidados, para além dos filmes, e, como sempre, outros eventos paralelos. O lounge… adivinha-se… a abarrotar.
"O terror mora aqui", assim nos prometem, e quem o promete melhor que ninguém, são João Monteiro e Pedro Souto, os directores como também dois dos programadores do evento que, ao longo de 19 anos, conquistou a capital e agora sob o desafio do Cinematograficamente Falando … descortinam as principais novidades desta véspera da 20.ª edição.
Sim, já se vislumbra no horizonte… mas, por enquanto, vivemos os ímpetos desta proposta fresquinha e terrífica!

Noémia Delgado
Prémio Noémia Delgado e Gale Anne Hurd
Há muito tempo que tínhamos esta ideia de criar um prémio e começar a distinguir vozes que, de certa forma, estiveram silenciadas ao longo de cem anos de cinema de terror … e no cinema em geral. Uma das coisas interessantes que o século XXI trouxe ao género foi precisamente o surgimento de autoras, algo que praticamente não existia. Queríamos, portanto, criar um prémio que desse atenção e destaque a estas novas autoras, sem esquecer, obviamente, quem ficou para trás e foi esquecido, como é o caso da Noémia Delgado (1933 - 2016).
Ela foi alguém que nos deixou uma marca, até porque, quando passámos os seus filmes, ficou-nos a sensação de que algo ficou por fazer. Esteve quase a estar presente numa edição do MOTELX, mas as suas condições de saúde não o permitiram. Ficou-nos essa mágoa, tanto nossa como dela. Por isso decidimos homenageá-la com este prémio. Não houve, no caso dela, aquele resgate público que, por exemplo, aconteceu com o António Macedo. De certa forma, queremos fazer o mesmo: todos os anos dar um prémio, falar dela, relembrar o nome dela. Mantê-la viva na cinefilia de alguma maneira.
Depois houve uma conjugação de factores que nos permitiu, este ano, ter connosco a nossa primeira Convidada de Honra: Gale Anne Hurd, uma das melhores produtoras de Hollywood, sem dúvida a pessoa ideal para entregar um prémio desta natureza. Alguém que construiu e consolidou uma carreira de sucesso, trabalhou muito com realizadores como James Cameron [“The Terminator”, “Aliens”] ou Brian De Palma [“Raising Cain”], e que continua ativa. Não ficou no passado: está agora envolvida na série “The Walking Dead”, que, curiosamente, é ainda mais conhecido do que muitos dos trabalhos que fez antes.

O Crime da Aldeia Velha (Manuel Guimarães, 1964)
Bruxas e o Quarto Perdido … e novamente “O Crime da Aldeia Velha”!
Diria que os filmes do passado começam a aproximar-se de um certo limite [referente à secção ‘Quarto Perdido’ e a “repetição” de “O Crime da Aldeia Velha” de Manuel Guimarães], sendo que ‘A Sala de Culto”, por exemplo, parece oferecer mais possibilidades. Há aquelas pessoas que são muito valorizadas fora de Portugal, mas que cá ainda não têm o mesmo reconhecimento. Achámos também que não podíamos fazer um programa sobre bruxas sem incluir “O Crime da Aldeia Velha”. E antes da sessão vai passar um documentário feito pelo Jorge Cramez [“Outros Lugares”]. Ele viu o filme no MOTELX, na altura [edição de 2013], e disse que queria fazer um documentário sobre a história que inspirou a obra.
Mas voltando ao limite do 'Quarto Perdido', quer dizer, não faz sentido para nós terminar uma secção só porque já passámos alguns desses filmes. Principalmente num festival que está prestes a celebrar 20 anos, e muitos desses títulos passaram cá há mais de 10 anos. O nosso dever é recuperá-los, reenquadrá-los, dar-lhes nova vida e puxar por eles de outras maneiras.
Na altura em que mostrámos pela primeira vez o “Crime da Aldeia Velha”, a escolha estava ligada à questão da censura do que propriamente ao tema das bruxaria. Mas, neste caso, o filme encaixa-se perfeitamente, como uma luva. São, no fundo, dois tipos de bruxas, uma contra a outra.

2551.01 - The Kid (Norbert Pfaffenbichler, 2021)
Secção X e Norbert Pfaffenbichler, a trilogia do experimental
Nós já tínhamos visto o seu primeiro filme há uns anos, e, por várias razões — até porque a Secção X começou muito dedicada às curtas — achávamos que talvez não houvesse ainda espaço para uma longa. Depois, passado um ou dois anos, vimos o segundo e pensámos: “Ok, mas não passámos o primeiro… mas vamos passar este.” Agora, com a estreia do terceiro no Festival de Roterdão deste ano, decidimos, por fim, avançar. É um daqueles casos interessantes em que tens um artista no sentido mais clássico: vem das artes plásticas, arte contemporânea, escultura, e é também curador de exposições… faz um cinema que é experimental do princípio ao fim, mas que, ao mesmo tempo, tem narrativa e uma série de homenagens.
O primeiro, por exemplo, é claramente uma homenagem ao Chaplin, até o título é “The Kid”. O filme coloca-nos num mundo underground onde toda a gente usa máscara, misturando géneros de várias formas. Tens o slapstick, muito bem ligado ao cinema mudo, com gags que aparecem de vez em quando, e também elementos mais performativos. Logo no primeiro há, por exemplo, uma espécie de manifestação contra as forças autoritárias. É um mundo distópico, onde ninguém é realmente livre. Há uma polícia que patrulha os subterrâneos, perseguindo pessoas, e aquelas concentrações de agentes a formar barreiras contra manifestantes, e nesses movimentos das várias personagens notas detalhes performativos muito interessantes.
Portanto, há muito para explorar nestes três filmes. Achámos que seria uma boa homenagem e, pela primeira vez, teremos também um convidado associado à secção. Algo que já ambicionávamos há algum tempo. Uma espécie de embaixador para o futuro, que até nos poderá ajudar.
Porque uma das coisas que sentimos ao longo destes anos é que ainda há algum preconceito, ou até medo, em relação à palavra experimental. Nós temos filmes experimentais de princípio ao fim, que não são narrativos, isso existe, e é um dos objetivos. Mas não é só isso. Queremos também obras underground, filmes que experimentem na forma e no conteúdo. Achamos que esta secção tem espaço para isso, e tem espaço para mostrar que cinema não é só “experimental”: é também underground, político, social…
Norbert Pfaffenbichler é um autor que junta tudo isso, e a sua trilogia o resume.

Hallow Road (Babak Anvari, 2025)
Anos de Ouro para o terror de estúdio?
Não acho que haja mais qualidade este ano [confrontados com os artigos entusiásticos sobre um ano de ouro de cinema de terror, mais concretamente o de estúdio]. No ano passado até tivemos mais sorte, acho que é mesmo uma questão de calendário e de oportunidade: se conseguimos chegar a tempo, óptimo; se não, é impossível.
Este ano tínhamos esperança em filmes como “Bring Her Back”, mas acabam por cair nas mãos das distribuidoras americanas, que impõem datas de estreia. Não podemos fazer nada. Só quando conseguimos justificar que, em Portugal, esses filmes não vão ter grande impacto é que, às vezes, eles abrem exceções. Mas há títulos que nos interessam sempre. Só não nos interessa, por exemplo, ter um “Jeeper Creepers 4" se for uma coisa muito fraca. O que pedimos às majors são filmes que tenham potencial. Já o cinema independente é mais fácil de negociar, mas, por outro lado, não é esse que o grande público procura. O público quer é os títulos mais mediáticos, e isso vemos logo pelo hype online.
No ano passado tivemos o exemplo do “MaXXXine”: os dois filmes anteriores não tinham feito nada de especial em sala, mas connosco enchemos duas sessões. Há ali um culto, claramente. O “X” foi o único que estreou em sala cá e a prequela, o “Pearl”, nem estreou comercialmente, só passou no IndieLisboa. O “MaXXXine” até atraiu, mas não teve o impacto que teve lá fora. Para o público especialista, sim, foi uma loucura. Há também casos como o “The Substance”: não sei se o facto de ter passado no MOTELX e de ter ganho o prémio do público não ajudou muito à carreira dele cá.
O importante é termos uma programação que seja atrativa para vários públicos. Se conseguimos trazer o público mais mainstream, melhor, porque, depois, ao virem ver um desses títulos, acabam por descobrir o resto da programação. Nunca sentimos que houvesse “falta” de filmes. Pelo contrário: há sempre filmes a mais, e temos de deixar alguns de fora. O que noto, isso sim, são duas coisas: Estão a estrear mais filmes de terror em sala, em Portugal e os grandes estúdios (majors) estão a apostar mais em quantidade e qualidade neste género.
É uma aposta segura: investem relativamente pouco e podem ter retorno rápido. Claro que nem sempre acertam num bom realizador ou num bom argumento, mas nos últimos dois ou três anos tem havido boas junções. A A24 contribuiu muito para esta mudança. Tiveste o Ari Aster com o “Hereditary”, o Robert Eggers com o “The Witch”, o Jordan Peele com o “Get Out” e o “Us”. Todos eles já ganharam Oscars e ajudaram a legitimar o terror. Estamos provavelmente na melhor altura para o género em termos de visibilidade mundial.
E, olhando para a nossa seleção deste ano, notámos algumas tendências. Por exemplo: muitos filmes passados em lares e casas de repouso, com personagens idosas. Há também histórias de jovens que vão para centros de terapia e descobrem que o problema é o centro em si. Outro tema recorrente é o aquecimento global: mesmo quando não é central, aparece sempre de alguma forma, nem que seja em tom satírico. E, claro, continuamos a ver muito folk horror! Todos os anos há vários. É um género que traz sempre aquela camada moralista de refletir sobre o que está mal no mundo de hoje. Um exemplo é um filme em competição, do realizador de “Under the Shadow”, Babak Anvari, intitulado de “Hallow Road”, e é uma espécie de folk horror todo passado dentro de um carro.

Blood Feast (Herschell Gordon Lewis, 1963)
MOTELX a motivar a (nossa) crítica de cinema com a sua programação
Desde o início que a criação do MOTELX trouxe o desafio de pensar um festival dedicado apenas a um género — o terror — e de mostrar a sua riqueza e diversidade de abordagens no mundo inteiro. Foi isso que nos levou a criar tantas secções, algumas delas mais intelectualizadas, como a ‘Suite 13’, que este ano terá um vídeo-ensaio e uma discussão sobre o cinema gore de Herschell Gordon Lewis, estabelecendo pontes com o mundo atual e com diferentes leituras possíveis do género. Também temos espaço para apresentações de livros, teses e reflexões críticas. Este lado de pensamento e análise do terror acaba por atrair críticos e investigadores.
No passado, houve em Portugal quem escrevesse sobre cinema fantástico, como o Lauro António, mas sempre sentimos que o género nunca foi ignorado, apenas raramente teve grande destaque. Dependeu muitas vezes do interesse de críticos individuais. Felizmente, críticos mais recentes têm apresentado uma abordagem mais aberta, tanto para elogiar como para criticar, sem preconceito por ser terror. O problema, às vezes, é que alguns textos ainda recorrem sempre aos mesmos clássicos — Romero, Carpenter, Argento — como se o terror tivesse ficado congelado nos anos 70 ou 80. Essa ideia de que hoje tudo é reciclagem é injusta, porque acontece em qualquer género de cinema. Uma das funções do festival é precisamente mostrar que o terror continua a reinventar-se artisticamente.
E isso verifica-se em todo o mundo. Mesmo em países sem tradição cinematográfica forte, há produções de terror surpreendentes. No Brasil, por exemplo, há um verdadeiro “mini-boom” recente. Também no Cazaquistão, no Irão ou em vários países africanos encontramos exemplos interessantes. O caso africano é particularmente revelador: não se limita a revisitar folclore ou mitos ancestrais, mas inscreve a realidade contemporânea (urbana, social e política) dentro das próprias narrativas.
Esse é um dos papéis do MOTELX: procurar obras de geografias inesperadas, dar-lhes visibilidade e abrir espaço a novos olhares sobre o género. Quem sabe um dia até convidamos um especialista em cinema de terror nigeriano, uma indústria gigantesca e pouco explorada por cá, ou exploramos mais a fundo fenómenos vindos de Bollywood, onde o terror aparece muitas vezes misturado com outros géneros populares.
Toda a programação pode ser consultada aqui.
















