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Sou anónima na hoste cinéfila, por isso foi com alguma surpresa que recebi o convite do Hugo e com ainda mais assombro que anuí ao seu repto. Entre meia dúvida e meia hesitação nos entretantos, aqui estou eu a escrever. Dúvida e hesitação porque adoro ler e adoro cinema (cinema e literatura são indissociáveis, não é verdade?) mas não queria cair no óbvio e largar aqui um chorrilho de nomes e referências. A dificuldade nestes desafios será sempre sair do ordinário e ser original. Por essa razão, decidir seguir pelo caminho menos claro para toda a gente mas totalmente óbvio (e mais arriscado) para mim — a ideia primeira, imediata, que activou entusiasticamente o meu córtex pré-frontal assim que recebi o convite — qual a ordem ideal: ler o livro ou ver o filme?
E aqui entramos em níveis diferentes de rigor: há quem se recuse a ver um filme sem antes ter lido o livro que o inspirou; há quem dê preferência a ver o filme, em ler o livro e só depois comparar a obra literária à cinematográfica; ou quem não perca tempo com este tipo de questiúnculas pseudoexistencais e simplesmente desfrute das narrativas, independentemente do suporte de média em que estas tomam forma. Sou prova dessa ambiguidade. Continuo a recusar o visionamento d'A Estrada sem antes descobrir o romance de Cormac McCarthy, e no entanto vi Double Indemnity e tenho o homónimo literário de James M. Cain para ler há anos. Não existe em mim critério algum, nunca o defini nem sinto necessidade de o fazer, mas lembro-me do momento exacto em que tal dilema surgiu. Com oito anos, já bastante afoita nas lides literárias, tinha por hábito ler com o meu pai, antes de adormecer, os livros da saga Harry Potter. O "útil" era treinar a velocidade de leitura e aumentar o vocabulário, mas o que me entusiasmava era o "agradável", o facto de partilhar o momento e a história com o meu pai e de poder dar asas à imaginação (e isso J.K. Rowling sempre soube como fazê-lo). Era o quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo. Do capítulo não me recordo com exactidão, mas os meus preferidos eram aqueles em que os elfos apareciam, os que trabalhavam em Hogwarts e a minha personagem favorita era a Winky, a elfo amiga de Dobby. "Winky? Mas não me lembro de a ver nos filmes". E estão certos porque infelizmente a personagem nunca saiu das páginas e, por conseguinte, nunca chegou ao grande ecrã, nem mesmo numa mísera referência. Quando finalmente vi o filme, senti um desgosto enorme. Todo o meu imaginário parecia ter sido invalidado por aquela lacuna fatal. Demorei algum tempo até voltar a permitir-me sonhar ao ler alguma obra que tivesse sido, ou em vias de ser, adaptada para o cinema, sempre apreensiva com a inevitabilidade de uma nova desilusão.
O tempo passou e alguns vestígios desses receios permaneceram (não tenho nada contra ti, John Hillcoat, apenas quero mesmo ler o McCarthy primeiro) mas acho que estou a conseguir contrariá-los da melhor forma!
Vejamos o work in progress... Revi duas vezes o aborrecidíssimo (para a maioria) mas maravilhoso (para mim) Out of Africa, realizado por Sydney Pollack, e há dois anos decidi comprar o romance de Karen Blixen, no qual o filme é baseado; tenho o Gigi de Colette para ler, apesar de não ter adorado a adaptação de Vicente Minnelli (quem sabe, talvez precise da magia do suporte literário e de uma nova revisão para apreciá-lo); e tenho expectativas elevadíssimas para a leitura do Giant de Edna Farber (o livro pertence-me há quatro anos mas o medo da desilusão tem adiado o nosso encontro), adaptado por George Stevens ao grande ecrã e um dos meus filmes favoritos de sempre.
E um trabalho finalizado digno de menção? They Shoot Horses, Don't They?, quer a obra de Horace McCoy, quer a adaptação de Sydney Pollack (atenção, uma segunda referência não confirma predileções). Li-o em 2018, em duas tardes, na praia de Sesimbra — a paisagem idílica para minimizar os efeitos da violência daquela leitura — e quando terminei reparei no fantástico pôr do sol, quase como se quisesse dizer-me "nada temas, já passou". Dei graças pelo privilégio. Quanto ao filme, conhecemo-nos logo no início deste ano e foi uma revelação absoluta. Felizmente tinha ainda na memória grande parte do que li. A adaptação é bastante fiel à história, Jane Fonda transpõe para a tela o permanente desconsolo da sua Gloria Beatty e o ambiente desconcertante em que a história se desenrola e as personagens gravitam é semelhante ao do livro. Senti uma melancolia perturbadora em ambos os casos, do início ao fim. Quando uma obra nos inquieta, nos perturba, nos questiona, sabemos que estamos perante algo extraordinário, seja cinematográfico ou literário. Então, fará diferença ver um filme sem ter lido o livro? O prazer de um sem o outro é possível? Ou esbate-se? E, finalmente, não será o casamento entre literatura e cinema idêntico a um enlace com os ingredientes que o tornam feliz e duradouro — longe de ser perfeito, desafiador na inquietude que provoca e emocionante nas interrogações com que nos deixa?
* Texto da autoria de Manon Abrantes, jornalista/ex-copywriter, criadora da newsletter "A Dupla Vida de Manon" e curadora da página Chacun son Cinema