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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Amor e uma Cabana (mais 'Fim do Mundo' como taxa)

Hugo Gomes, 05.02.23

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“Truz … Truz”

A fé sempre foi tema recorrente no cinema de M. Night Shyamalan. Nunca escondeu isso, nem mesmo a religiosidade envolto dessa característica esperançosa … cegamente esperançosa digamos. A fé que nos motiva a combater invasores de outras galáxias, a fé que desencadeia o sobre-humano existente no nosso interior ou até mesmo a fé que nos faz “empurra” para fora do nosso conformismo ao encontro de um desconhecido libertador (fora das Vilas ou dos condomínios). Neste caso é a fé que “cola” a missa do sétimo dia nesta comitiva de boas-vindas ao armagedão. 

“Quem é?”

Inspirado no livro de Paul Tremblay, Shyamalan presta-se ao enredo de visitas (mais uma vez), com quatro desconhecidos que “batem” à porta de uma cabana no seio da floresta, residida por um casal gay e a sua adoptada filha. Após atos de resistência, o casal, literalmente de “mãos atadas”, é forçado a escolher entre salvar o Mundo (a Humanidade como quiserem especificar) ou salvar a família. Enquanto a derradeira decisão vem ou não vê, uma cerimónia de destruição é encenada no hall de entrada da “cabine”, um rito em invocação da prescrita praga, cada uma delas libertada após a “queda” de uns dos seus anjos. 

“O Apocalipse”

É uma história de contornos bíblicos, requisitado ares do Livro das Revelações ou até mesmo o Sacrifício de Isaac por Abraão, só que desta vez não existe alados salvadores de última hora, existe sim, um clima em constante joguete com o espectador, entre a realidade aí “fabricada” ou a negação com vias de embeber o pior da Humanidade, a sua auto-destruidora loucura. Através desta estância entramos em um outro tema, constantemente referido de forma latente, que é o contacto de Shyamalan com a pós-verdade e as suas vertentes mais delirantes. Na ante-descida da cortina em “Glass” - onde a viralidade das “imagens reais” enviadas e divulgadas nos telejornais revelam ao Mundo uma “outra realidade” - somos impingidos por um paralelismo involuntário ao fenómeno das “fake news” e a dicotómica resistência / assistência - em “Knock at the Cabin”, por sua vez, leva-nos ao desconforto desse choque entre realidades, ora cedendo à “mitologia” cristã de destruição e criação, anjos e demónios, ou persistência no esqueleto da crença enquanto paranóia colectiva (que bem sabemos ser fruto das inúmeras teorias da conspiração). 

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“O Apocalipse quê?”

Mesmo que a obra seja um “filme fechado” (aliás, Shyamalan nunca é aberto a sugestões, somente a representações ou alegorias), “Knock at the Cabin” pode encarnar essa leitura pertinente, sem nunca iludir o espectador para o que “lhe bate à porta”. E o que realmente vem não é o “Fim do Mundo”, mas a encenação do apocalipse como manda a bitola de Shyamalan através da sua constante teatralidade em prol da subversão do género (sejas a mitologia imposta de Glass a Dunn a "Unbreakable", ou as regras de segurança em “The Village”, ou até mesma a desconstrução em modo “livro de manual” de “Lady in the Water”). Há com isto uma plasticidade, ou será antes embuste, para com a própria matéria, até porque o realizador trata os seus filmes como ensaios, seja de género ou da ginástica do “plot twist”, contudo, convém afirmar que "Knock at the Cabin” não é dependente do seu final, este, cuja “surpresa”, joga consoante a fé do espectador em relação ao enredo ou à farsa. 

O Apocalipse ou o sacrifício?"

Obviamente, que a crença em Shyamalan não ‘renascerá’ aqui caso tenha-se dissipado há muito, ou até mesmo o cético não sairá daqui “convertido”, isso é paleio para outra conversa e para outra ocasião. Porque às “portas” do trágico desfecho do mundo, o realizador demonstra a capacidade em arquitetar a obra para a sua iminente destruição, portanto, crentes, os seus travellings de percepção encontram-se “vivos”, não vale a pena desesperar. É preciso muito para que tais gestos desapareçam ao ritmo da Humanidade aqui condenada.

A "Coisa" de Jordan Peele ...

Hugo Gomes, 18.08.22

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Nope (Jordan Peele, 2022)

Ao terceiro filme e com o sucesso garantido nos dois anteriores (seja de crítica, público e do culto entretanto gerado), Jordan Peele adquiriu um cognome de “mestre do terror”, automaticamente contestado pelo próprio, que respondeu com John Carpenter como o merecido detentor do título. Nesta instância, tornou-se fácil a comparação de ambos os cineastas nas diferentes resenhas, principalmente quanto à mistela de elementos (o western no coração de tudo) em função de um terror aparentemente descomprometido (no caso de Peele o tal júbilo opera sempre em concordância com as suas preocupações sociais). 

Contudo, deparei-me com “Nope”, um exercício em terreno da ficção científica (ou será antes uma distopia americana à imagem do que tem construído até então), numa linhagem à lá Spielberg, trazendo o certo minimalismo e transfusões hitchcockianas dos primeiros filmes desse realizador (refiro a “Duel” e obviamente a“Jaws”). E não é por menos que muitos dos “catchphrases” envoltos do marketing deste filme “vendem” a ideia de uma criação de fobia cinematográfica (““Nope” faz dos céus, aquilo que “Jaws” fez com as praias” é o que tem-se banalizado por aí). Porém, é cedo para cair nessas “armadilhas mediáticas”, não negando com isto a aproximação desses dois mundos. E é em equivalências spielbergeanas que entra o terceiro e mais próximo “parentesco” de Peele - M. Night Shyamalan (dos últimos cineastas que levava o lendário Bénard da Costa a deslocar-se para uma sala de cinema mais próxima) . 

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Nope (Jordan Peele, 2022)

E sabendo que no Cinema nada se cria, tudo é reformulado e apropriado através de uma cadeia de influências atrás de influências, é em Shyamalan no qual deparávamos, em tempos, com o genuíno Spielberg perdido, principalmente nessa tendência de criar ameaças minimalistas, conduzindo as suas personagens a uma aliança cívica em "detê-las". Não é por menos que “Signs” (2022) e “Nope” ressoam pertencer ao mesmo universo, estabelecendo esse "heroísmo" - a “americana” jornada do herói - em que um viúvo agricultor (Mel Gibson) instalou como derradeira parte da sua existência (assim como Henry Fonda assumiu a luta entre classes nas “The Grapes of Wrath” de John Ford) na óptica de Shyamalan, partilhada para com um criador de cavalos (Daniel Kaluuya) na mão de Peele

Mas não é só essa inerência que nos faz sonhar com um herdeiro “shyamaliano”, o realizador demonstra com “Nope” abordagens ainda mais vincadas com o imediato através de uma planificação em concordância com a natureza do olhar. Se Shyamalan utilizou tal artifício na sequência do comboio em “Unbreakable” (2000) - com a câmara a responder aos chamamentos de duas personagens a bordo [Bruce Willis e Leslie Stefanson] e assim induzindo um travelling que mimetizava a posição de uma “terceira figura” [Samantha Savino], ou nas inúmeras passagens no seu último “Old” (2021), cujo tempo relativo era acompanhado por um jogo de “fora-de-campo” - Peele no “flashback” de Gordy reproduz essa aliança do olhar com o travelling aí executado. 

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O efeito ping-pong reproduzido pela câmara na sequência de "Unbreakable" (M. Night Shyamalan, 2000)

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O travelling desfeito e a revelação da perspetiva em "Unbreakable" (M. Night Shyamalan, 2000)

Embora a convergência, existe uma característica bem reconhecível em Shyamalan que Peele não partilha aqui. Sim, esse mesmo … o “twist”, a reviravolta em bom português … nesse aspecto deixa-se levar pelo mistério, pela não-resolução e como tal, reforça o seu tom respeitavelmente minimalista. O resto, o espectador poderá fazer as somas como trabalho de casa. Só que não é longínqua essa perda do “explicadinho”, recordo que Peele condenou a narrativa da sua metáfora em “Us” (2019) ao criar uma lógica com o seu “twist final”, o “ganchinho” desnecessário sabendo que o mistério prevalece em condições mais saudáveis (já em “Get Out”, o “twist” nunca é totalmente consolidado, visto que desde o início do filme o espectador tem a percepção de que o aparente é somente isso, aparência).

Como tal, “Nope” funciona como esse exercício de terror, simples, direto e sem “espertices” para mais do que o dado, apenas o orbitar da sua proposta é que somos fomentados com um universo em construção (mais do que apenas pistas para resolver o enigma). E como não poderia deixar de ser, o realizador deixa a sua própria marca, respeitando, e muito, nos propósitos do género do terror - abordagens a problemas sociais formuladas em alegorias - e talvez seja isso que as comparações com o Carpenter são trazidas “à baila”. Aqui, em “Nope”, é o discurso de uma desconstrução social envolto na génese do cinema: "Did you know that the very first assembly of photographs to create a motion picture was a two-second clip of a Black man on a horse?". 

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Horse in Motion (Eadweard Muybridge, 1878)

Eadweard Muybridge e o “Horse in Motion” [1878 - conjunto de fotografias que projetadas em sequência demonstravam um cavalo em movimento], o berço da própria “imagem em movimento” são à luz de Peele desvendadas a um espectador que as esqueceu (é para isto que deve ser utilizado o dito “cinema popular”!). Embora o seu uso revele um ativismo de punho encerrado às declarações do Cinema enquanto “arte parida por brancos”, sem o encarar com a imunidade crítica (conhecemos o nome do cavalo, Sallie Gardner, só que desconhecemos a do jóquei negro imortalizado para posteridade, eis o slogan captado). 

Nessa prol (e para a prole), Jordan Peele ostenta a sua natureza, fertiliza o hype envolto à sua figura, solidificando como o artesão do terror (rasuro, substituo por “cinema de género”). Curioso que a atenção que tem conquistado, filme após filme, advenha dos temas que invoca, mas felizmente, as sabe trabalhar como material simbólico, criando as tais e referidas metáforas, distopias, ou simplesmente americanos. “Nope” é parte desse hectare, como bem refere o seu protagonista: “What's a bad miracle?”.

Nunca gostei de domingos, porque por vezes eles "doem"

Hugo Gomes, 13.03.22

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The Accidental Tourist (Lawrence Kasdan, 1988)

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Kiss of the Spider Woman (Hector Babenco, 1985)

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The Village (M. Night Shyamalan, 2004)

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Altered States (Ken Russell, 1980)

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A History of Violence (David Cronenberg, 2005)

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A.I. Artificial Intelligence (Steven Spielberg, 2001)

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Body Heat (Lawrence Kasdan, 1981)

 

William Hurt (1950 - 2022)

Estará Shyamalan fora de tempo?

Hugo Gomes, 26.07.21

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M. Night Shyamalan perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem e a resposta alcançada é esta série B que não assume totalmente a sua natureza absurdista. Inspirado na BD “Sandcastle” [Pierre-Oscar Lévy e Frederick Peeters], “Old” é uma construção arenosa que se apoia na incoerência e nos pesadelos comuns e coletivos como uma suposta metáfora visual. Contudo, o vento e as marés derrubam castelos e outros edifícios moldados pela areia humedecida (há mão de produtor aqui, assim acreditamos), porque se senão fosse isso a invocação se manteria até ao fim. Não podemos negar que é um filme à lá Shyamalan … sem dúvida! Agora se era o idealizado, bem, isso é outra história e em outro tempo.

Cada um com a sua infância, cada um com o seu Cinema

Hugo Gomes, 01.06.21

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Good Morning (Yasujiro Ozu, 1959)

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The Childhood of a Leader (Brady Corbet, 2015)

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Capernaum (Nadine Labaki, 2018)

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Wadjda (Haifaa Al-Mansour, 2012)

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Home Alone (Chris Columbus, 1990)

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The White Ribbon (Michael Haneke, 2009)

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Let the Right One in (Thomas Alfredson, 2008)

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Little Fugitive (Ray Ashley & Morris Engel, 1953)

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The Florida Project (Sean Baker, 2017)

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The Sixth Sense (M. Night Shyamalan, 1999)

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The 400 Blows / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

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The Kid (Charlie Chaplin, 1921)

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The Last Emperor (Bernardo Bertolucci, 1987)

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Zero to Conduite / Zéro de conduite: Jeunes diables au collège (Jean Vigo, 1933)

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Bicycle Thieves / Ladri di Biciclette (Vittorio di Sica, 1948)

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Village of the Damned (John Carpenter, 1995)

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My Life as a Zucchini / Ma vie de Courgette (Claude Barras, 2016)

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The Boy with Green Hair (Joseph Losey, 1948)

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Aniki Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Cinema Paradiso / Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

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Come and See (Elem Klimov, 1985)

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Pather Panchali (Satyajit Ray, 1955)

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E.T. the Extra-Terrestrial (Steven Spielberg, 1982)

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André Valente (Catarina Ruivo, 2004)

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Ivan's Childhood (Andrei Tarkovsky, 1962)

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Nana (Valérie Massadian, 2011)

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Pixote, a Lei do Mais Fraco (Hector Babenco, 1981)

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Poltergeist (Tobe Hooper, 1982)

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800 Balas (Álex de la Iglésia, 2002)

Quem são os Críticos para definir o que é divertido?

Hugo Gomes, 04.03.21

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Lady in the Water (M. Night Shyamalan, 2006)

Não existem palavras mais nocivas para a Crítica de Cinema do que "divertido" e "aborrecido". Ambas condicionam o pensamento e criam uma sensação de definir por via da consensualidade os dois estados de espírito. Além do mais, o uso das mesmas são sintoma da falta de ideias e argumentação.

 

Os Melhores Filmes de 2019, segundo o Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 02.01.20

O ano 2019 foi marcado por uma disputa mais renhida entre a distribuição tradicional e os lançamentos de streaming. Nesse último ponto, dando o exemplo da megalómana plataforma Netflix, houve uma forte aposta nos autores que se encontravam (devido a questões criativas, orçamentais e até logísticas) ausentes nas majors hollywoodescas como é o caso de Martin Scorsese e o seu épico gangster The Irishman ou o intimismo de Marriage Story, um dos melhores trabalhos do nova-iorquino Noah Baumbach. Enquanto isso, o cinema fora EUA continua a dar as suas cartas em relação a histórias universais e motivadoras para estas gerações de sofá. E mais uma vez … o cinema português lidera o pódio deste estaminé.

 

#10) Leto

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Sem romances escandalosos, as biografias de cantores de rock seriam inúteis", ouve-se a certa altura nesta não convencional cinebiografia sobre a criação da banda de rock soviético Kino. Do dissidente russo Kiril Serebrennikov, eis um filme intrinsecamente poético (são bandas de Leninegrado que tocam rock que não é rock, mas que pretende ser rock) e expostamente revoltado sobre a resistência jovial e punk perante uma ideologia em queda no gradual contacto com o acidente.

 

#09) Marriage Story

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Embora ele o negue, há quem diga que Noah Baumbach se baseou no seu processo de divórcio para este filme emocionalmente cortante sobre o desgaste amoroso e as eternas batalhas judiciais e sentimentais de uma separação. Desempenhos impactantes e cuidadosamente explosivos fazem deste drama (e produção Netflix) um dos mais certeiros filmes sobre o tema do divórcio no panorama norte-americano, onde a distância é, por si, um alvo de foco.

 

#08) Joker

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Uma génesis anti-canónica embrulhada em maneirismos e referências do cinema de Scorsese. Um fenomenal Joaquin Phoenix e Todd Phillips compõem uma obra cruel que dialoga com a atualidade, dos movimentos populistas até à marginalização das minorias e dos incapacitados numa sociedade que cada vez mais os despreza. Um filme ambíguo que nos faz temer pela sua capacidade e recusa de empatia. Uma das mais interessantes e sólidas incursões do cinema de super-heróis.

 

#07) L'Empire de la Perfection

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Julien Faraut arranca com um texto do crítico Serge Daney em que comparava o Cinema com o desporto, nomeadamente o ténis, para partir numa busca pela perfeição nas posturas e gestos destes jogadores. Nesta sua investigação, esbarra no improvável, em John McEnroe e os seus movimentos desengonçados, na postura imprópria e no seu feitio que motivavam constantes paragens da partida. Através da imperfeição, tenta-se decifrar a perfeição.

 

#06) Once Upon Time in Hollywood

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Deambulamos pelas avenidas solarengas de Los Angeles, ou passeamos por um rancho cercado pelo culto Manson, trilhos e esperas que nos levam a um cinema dotado de paciência, mas percorrido com o amor à Sétima Arte, esse, oriundo de um dos seus entusiastas. Absolutamente "tarantinesco" e longe dos quadrantes do politicamente correto, um filme que é um espelho da nossa realidade e condição social, refletidas numa permanente fábula.

 

#05) Dolor y Gloria

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Após algumas revisitações falhadas, Almodóvar regressa ao passado, fonte de inspiração de algumas das suas melhores obras, para exorcizar as suas memórias num retrato de vitórias e derrotas. O “Pedrito” tem aqui o seu grande pseudónimo na pele de António Banderas, aquele que é possivelmente a seu papel mais rigoroso. Certamente sereno, consciente do seu percurso e sabiamente maduro, o filme é o melhor de dois mundos, a sensibilidade e a maturidade.

 

#04) Mektoub, My Love: Canto Uno

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Para as acusações de misoginia e de voyeurismo, respondemos com uma espécie de efeito proustiano no preciso momento em que Abdellatif Kechiche revisita as suas memórias de juventude numa distorção ficcional. A câmara assume diversa vezes o olhar de um jovem propício à descoberta sexual e emocional, e o filme acompanha essa libertação como um mero turista por entre praias, ruralidade e noites enfrascadas em álcool.

 

#03) Glass

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Nesta secretamente trabalhada trilogia do realizador de “O Sexto Sentido” e “O Protegido”, eis uma analogia ao nosso mundo, dominado pelo universo dos "comics" e super-heróis, desafiando a formatação cinematográfica a partir de uma impingida desconstrução. Mesmo sendo disperso na mensagem, M. Night Shyamalan nunca pretendeu fazer o mesmo que outros com materiais familiares, mas sim olhar à volta e repensar essa mesma paisagem. Será fruto de reavaliações no futuro.

 

#02) Parasite

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O sul-coreano Bong Joon-ho sempre requisitou a luta entre classes, seja de forma evidente ou subliminar, durante a sua carreira. Aqui segue uma família que sobrevive à conta de esquemas e subsídios e tenta infiltrar-se num seio mais avantajado. A sua obra narrativamente e tematicamente mais convencional, mas nem por isso inferior, pelo contrário: é a sua acessibilidade comunicacional que o torna universal e igualmente pontuado de pormenores deliciosos e fraturantes sobre as pirâmides hierarquizadas das nossas sociedades (ocidental ou oriental).

 

#01) Vitalina Varela

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Premiado com a distinção máxima no Festival de Locarno, mais o prémio de atriz, eis mais um feito do cineasta português Pedro Costa no seu percurso de constante reinvenção artística. Uma jornada por entre fantasmas e viúvas numa Lisboa soturna e condenada à marginalização onde, pelo meio, há todo um investimento estético que proclama o filme como um livro de ilustrações aberto para cada um de nós apreciar (nota ao diretor de fotografia Leonardo Simões). Uma experiência sensorial.

 

Menção honrosa: Ash is the Purest White, If Beale Street Could Talk, Los Pájaros de Verano, Alice et le Maire, 3 Faces

Glass: procurando um autor em M. Night Shyamalan

Hugo Gomes, 21.01.19

50849900_10213186891963764_7810904352880590848_o.jM. Night Shyamalan é um dos últimos autores norte-americanos do qual temos conhecimento … sim, autor (que venham então os enésimos artigos abaixo deste estatuto fora dos ditos “veteranos”, porque os sinais estão lá) … e Glass é perpetuamente um olhar autoral à massificação do cinema de super-heróis e o faz através da desconstrução. Essa, apoiada numa metalinguagem que evidencia a mitologia hoje atestada para ponto de partida nesta aproximação/afastamento desses mesmos universos.

É um filme inteligente … sim, é … que desafia até a própria pedagogia hoje alicerçada aos pseudos-“críticos” norte-americanos, habituados (ou melhor, mal-habituados), às fórmulas disnescas e ao fun check que a indústria proporciona. Glass é sobretudo esse dedo médio à falta de reflexão no Cinema de hoje. Contudo, é Cinema, fora dos modelos academicamente aceites da narrativa, ou seja, é mais que simples “historietas”, que te contempla com um técnica sinónima a uma emancipação por parte de Shyamalan. A fim de evitar o automatismo de Split, o realizador se assume rigoroso não no guião, mas no como entregá-lo através de uma narrativa visual, exemplo disso, a sala cor-de-rosa picotada com grandes planos de cada um destes peões, o substituto digno da vitrine prisional de Silence of the Lambs, as reavaliadas lições de suspense de Hitchcock.

Da categoria: filmes que tem vindo a crescer e o cinema é mais que telenovela

A personalidade não é um dom, é uma maldição

Hugo Gomes, 03.02.17

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Depois do sucesso contido de “The Visit”, era com tamanha expectativa que se aguardava este retorno de M. Night Shyamalan à sua zona de conforto – o thriller convencional – sem com isto insinuar que o género adquire banalidade nas suas mãos. 

"Split" é o típico filme que o realizador poderia ter feito anos atrás, na altura em que banhava dos “raios de sol” transmitidos pelo frenesim de “The Sixth Sense” e do ameno sucesso de “Unbreakable”. É um projeto limpo, longe das “invenções” que condenariam o autor aos olhos do público e da crítica mais generalizada. Porém, foram essas transcendências, pelo qual vislumbramos a melhor das facetas de Shyamalan, o conhecimento dos códigos do thriller de estúdio e a vontade de desmontá-los para depois reconstruí-los de forma desafiante. Nesse ponto, salientamos a parábola de “The Village” (hoje visto como a sua “obra-prima“) e o “condenável” “Lady in the Water”, a análise corporal da fábula que resultou num dos seus filmes mais criticados (mas dos mais resistentes em questões de revisionismos temporais). 

Mas em “Split”, o que evidenciamos é uma jogada segura, onde a ousadia é apenas uma “provocação” míope. A intriga de um psicopata de 23 personalidades, tendo como base uma história verídica de Billy Milligan, daria facilmente numa obra complexa e formidavelmente agressiva. As primeiras notícias em relação a este projecto apontavam para Leonardo DiCaprio como um eventual protagonista, um ator de método Strasberg que facilmente direcionaria a obra para campos psicologicamente, como também, fisicamente improváveis. A alternativa encontrada foi James McAvoy, que nunca encontra o “norte” nesta multifacetada tendência ao improviso, ou a personificação automática, falhando redondamente na atribuída credibilidade na(s) sua(s) personagem(ns). 

É um rapto que nos transporta directamente para os confins do “exercício de cerco”, para depois incendiar-se como uma catarse de contornos sobrenaturais aos limites da mente humana, da mesma maneira que Scarlett Johansson foi vítima em “Lucy”, de Luc Besson. Mas Shyamalan faz desta sobrenaturalidade, um equinócio de dois teores, uma sugestão a ser abordada com o maior dos ceticismo por parte do espectador. Um banalizado jogo de gato e rato que serve como prosseguimento neste pesadelo “freudiano“. Uma “roda furada” apenas sustentada pela constante oposição de Anya Taylor-Joy (“The Witch”) e pelos toques “shyamalanos” (poderemos chamar assim) que nos faz respirar ocasionalmente de alívio (a evidenciar mais um “conto” de fé e superação individual). O autor encontra-se novamente confiante e como tal, esperemos que este medíocre episódio sirva de apelo para um novo universo que aí avizinha-se chegar. 

Enquanto “The Visit”, onde o found footage demonstrou a sua medula óssea, em “Split”, “saboreamos” o regresso de um realizador acima da industrialização, porém, cedido a esta para sua própria sobrevivência. Sim, Shyamalan, temos que falar … seriamente … porque o teu futuro não se resume somente a sobreviver.