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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"As Cidades e as Trocas": e as baldrocas da transição

Hugo Gomes, 20.10.14

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Pelo vistos a temática de “As Cidades e as Trocas” era de construir um registo silencioso da transformação social e arquitetónica que tem como base a globalização e a exploração empresarial, utilizando como amostra de ensaio uma pequena região de Cabo Verde.

Porém nesta obra cooperativa entre os documentaristas Luísa Homem e Pedro Pinho – este último até responsável há dois anos por um interessante - “Um Fim de Mundo” – o que supostamente seria uma tarefa simples para qualquer académico saído da universidade, é convertido num extenso registo cuja objetividade é pretensiosa e, simultaneamente, vaga demais. Se uma narrativa visual de um documentário como este equivalesse a uma linguagem e se “As Cidades e as Trocas” falasse, o resultado seria um jeito demasiado divagado e recorrente a pormenores fúteis de uma inutilidade exagerada, quase como uma transcrição do louco da Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, porém sem paraíso à vista.

Pois bem, a dita viagem silenciosa é descrita como um anexo de filmagens sem o uso necessário de edição nem sequer de seleção. Homem e Pinho enfrentam o espectador com vários planos inúteis como, por exemplo, uma sequência demorada em que é focada a transmissão de um filme numa velha televisão ou os inúmeros showcases musicais, integrais e quase aleatórios, que pouca emoção transferem às mesmas imagens. Tudo evidencia um medo enorme em editar, em construir um fio condutor narrativamente visual. É como se os seus envolvidos tivessem medo ou simplesmente estima em “dispensar” conteúdo filmado.

Uma das características que revelam um grande realizador encontra-se na montagem, na escolha do material e a disposição desta, e é essa mesma edição que funciona como o idioma do filme, a comunicação com o espectador. Visto o documentário ser dos géneros mais criativos do Cinema, é esse “dialeto” que se deve manter. Para dizer a verdade, “As Cidades e as Trocas” reunia excelente material filmado, só faltava mesmo a direção deste … e assim a mensagem ficou dispersada no oblívio. Um pretensioso desperdício de duas horas e tal!