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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #5: Cinefilia, a abençoada anomalia … do obsessivo ao paranóico. Uma conversa com Luís Miguel Oliveira.

Hugo Gomes, 26.10.25

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Heaven's Gate (Michael Cimino, 1980)

Convite feito. Convite aceite. O crítico e programador da Cinemateca, Luís Miguel Oliveira, prepara a sua “Santa Trindade” como oferenda de uma paz cinéfila, e, ao mesmo tempo, sem harmonias nem consensos. Do meu lado, o cinema obsessivo a dar lugar ao cinema paranoico como resposta, dos autores à, realça o convidado, política dos autores (riscar autores se faz favor). Foi assim, naquela tarde rendida ao tempo chuvoso, no Bar 39 Degraus: um pé na boémia, o outro na Cinemateca. “Deveres chamam”, havia alertado Luís. O tempo era curto, mas não interessa, a conversa teria de nascer a qualquer custo. Não foi um combate de boxe, nem algo que valha. Foi, antes, um brinde com copos de imperial — “À decadência!” — porque, neste plano devastado, ou melhor, nas belíssimas ruínas que contemplamos, a cinefilia, a tal anomalia num mundo que nada presta à sua gerência, deve ser debatida, discutida e, muitas vezes, contestada. Contra a consensualidade. Contra o seriado dominante do quotidiano.

Material de Apoio

Por Entre Belíssimas Ruínas”, de Luís Miguel Oliveira, ler aqui

Crítica e Consenso”, da autoria de Filipe Furtado, no À Pala de Walsh

Ouvir episódio completo aqui

O Film Noir continua cool! Arranca o 4º Screenings Funchal Festival, na companhia de Bogart e Stanwick.

Hugo Gomes, 03.10.25

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In a Lonely Place (Nicholas Ray, 1950) / 4 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

A Madeira será, nas próximas semanas, uma ilha rodeada por neblina: ruas escuras, detetives privados de gabardine e poses cool, crime, castigo e mistério. Tudo a preto e branco, resguardado nas sombras e nos becos escuros. É o cliché do film noir o que descrevo, mas é precisamente aqui que o genuíno subgénero será apresentado, numa retrospectiva cuidadosamente selecionada.

Contratou-se o seu inspetor na capital do arquipelago: o Screenings Funchal Festival, que chega à quarta edição e a um novo caso, melindroso caso, talvez sob os olhares atentos daquela mulher de passado longínquo, a habitual femme fatale, em quem qualquer homem sonharia perder-se e igualmente temer. Armadilhas, diríamos.

Mas não nos desviemos. Voltemos ao ciclo: Humphrey Bogart e Barbara Stanwyck surgem como protagonistas num prolongado noir na Madeira, narrado por Pedro Pão, programador que rompe a lógica dos festivais de cinema e apresenta, de bandeja acinzentada … para não contrariar o monocromatismo … oito obras, a representar Hollywood no seu esplendor e intriga, a partir do dia 3 de outubro e prolongando pelo resto do mês.

O Cinematograficamente Falando… desafiou o programador a apresentar o seu caso… eis-lo:

O film noir surge na ribalta nesta 4.ª edição do Screenings Funchal Festival. Porquê este subgénero na programação? E, dentro dele, por que motivo estes títulos foram escolhidos como representantes desse universo tão vasto?

O noir não foi o ponto de partida, foi o de chegada. Gosto que haja uma razão estruturada para cada edição, mas às vezes as coisas surgem por acaso, e foi o caso desta. Durante a pandemia, descobri que ninguém do meu grupo próximo de amigos tinha visto o “Casablanca”. Tendo em conta as restrições em vigor, resisti à tentação de arranjar amigos novos, e organizou-se uma sessão privada com projector, Blu-ray num atelier bem amplo. Depois fui-me lembrando de outros filmes que gostava muito com o Bogart, e fiquei com uma ideia (muito embrionária) de um dia fazer um ciclo dedicado ao Bogart

Nesta fase as possibilidades eram demasiadas, e foi preciso pensar em restringir o tema. Assim que decidi que o ciclo não deveria ser exclusivamente focado no Bogart e que deveria ser partilhado com uma protagonista do género feminino achei que só poderia mesmo funcionar dentro do film noir, e a Barbara Stanwyck era a escolha óbvia. Desta forma, foi mais fácil escolher este conjunto de filmes, que apesar de se tratar de uma pequena amostra do noir, representa bem as histórias e personagens que me interessam, e que se encaixa na proposta do ciclo.

O ciclo parece orbitar em torno de dois espectros: Barbara Stanwyck e Humphrey Bogart. Acredita que um subgénero pode ser sintetizado em dois intérpretes? Ou foi antes um atalho para trazer obras prestigiadas, populares e que, ao mesmo tempo, sintetizam o estilo?

O ciclo orbita de facto em torno de Stanwyck e Bogart, mas nunca foi a minha intenção resumir o noir nem aos actores nem ao limitado número de filmes exibidos. Acho que a ideia de “atalho” é perfeita. Achei que eles representam os arquétipos mais emblemáticos do noir e quis usá-los para criar um fio condutor. Além disso, sendo figuras icónicas, (o Bogart provavelmente mais) quis aproveitar isso para que o ciclo fosse o mais apelativo possível. Outro objetivo foi dar visibilidade a uma actriz incrível, a Stanwyck, que creio ser muito menos reconhecida pelo público em geral.

No campo dos realizadores, encontramos nomes distintos e percursos muito diferentes, com exemplos de ecletismo dentro de Hollywood. Teve em conta este factor artístico? E, perante esta diversidade, considera o film noir um subgénero de transição mais do que um corpo coeso?

Depois de ter restringido o tema como referi anteriormente, fiquei com um painel de luxo, no que toca a realizadores, para selecionar obras. Achei a diversidade de realizadores muito interessante, e é por isso que se defende que o noir não é tanto um género, mas antes um estilo. Mesmo pela amostra reduzida dos que conheço, isso é notório e fascinante. Wilder, Ray e Lang, entre outros, mostram abordagens muito distintas dentro do noir, e ao longo da década de 40 o noir transformou-se através de experimentações formais, estéticas e influências diversas, tornando-se um território cinematográfico muito rico e interessante por essa diversidade.

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Clash by Night (Fritz Lang, 1952) / 24 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

Relativamente à masterclass de Luís Miguel Oliveira: não lhe peço apenas que fale das intenções de criar este “intervalo” reflexivo no meio da programação, mas também da importância (ou irrelevância) da crítica no papel da curadoria de festivais que, como este, não seguem a lógica dominante do mercado.

A masterclass parte de uma necessidade e lacuna muito grande, do contacto do público madeirense com especialistas, neste caso da área do cinema, mas que se aplicaria igualmente, a muitas outras áreas. Acredito que este esforço de complementar o ciclo com o contributo do LMO enriquecerá não só os espectadores, mas também o próprio festival. Esta lacuna não é exclusiva da insularidade, reflete uma condição de periferia cultural, que no nosso caso se agrava pela nossa condição ultraperiférica e que teria uma solução muito simples chamada: “investimento”.

No que diz respeito à crítica, é difícil imaginar alguém que desempenhe um papel de programador que lhe seja indiferente. Acho o trabalho da crítica inestimável e muitas vezes pouco valorizado. Socorri-me várias vezes dela para ajudar a organizar e justificar a escolha de alguns filmes neste ciclo e sou constantemente enriquecido por ela tanto como programador como espectador.

Enquanto programador e cinéfilo, houve algum filme que gostaria de incluir neste ciclo, por corresponder ao espírito do evento, mas que acabou por ficar de fora?

Falta-me descobrir, ver e aprender demasiadas coisas para me sentir bem com esse intimidante título de cinéfilo. Trabalhar neste ciclo, fez-me perceber que existem muitos mais filmes que ainda quero ver do que aqueles que já vi. Tem sido sempre assim, e isso é algo que eu aprecio imenso no processo. Gostava de ter incluído o “Casablanca”, que acabou por inspirar o festival, mas, não sendo um noir, não se enquadrava na proposta. Outro filme que considerei foi “The File on Thelma Jordon”, mas acabei por optar pelo “Clash by Night”. Apesar de ser um melodrama com elementos noir, pareceu-me mais pertinente para este ciclo, na medida em que explora não o arquétipo da femme fatale, mas uma mulher com consciência social, que procura autonomia e se sente insatisfeita com as expectativas que a sociedade lhe impõe.

É sabido que eventos culturais desta natureza dependem muitas vezes do apoio autárquico. Sente-se apreensivo sabendo que as eleições locais, a decorrer no mesmo mês, podem condicionar a continuidade de futuras edições do festival?

Essa dependência é real e, no nosso caso, decisiva. Este festival nunca poderia realizar-se nestes moldes sem o apoio fundamental da Câmara Municipal do Funchal, ao qual estamos muito agradecidos.

Não me sinto apreensivo por várias razões. Em primeiro lugar, porque o departamento de cultura da CMF é composto por uma equipa cujo trabalho fala por si e que, mesmo numa eventual mudança partidária, dificilmente deixaria de ser reconhecido e continuado. Além disso, acredito que aquilo que temos vindo a oferecer à cidade do Funchal é culturalmente significativo, e o facto de estarmos já na 4.ª edição parece indicar que essa convicção é partilhada. No pior cenário, iremos nos adaptar, como sempre fizemos até hoje, focando e reforçando as nossas sessões regulares.

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The Big Sleep (Howard Hawks, 1946) / 18 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

O Screenings Funchal Festival vai-se consolidando edição após edição. Que linhas de força gostaria de ver no seu futuro? E persistindo; John Waters continua na sua lista de desejos?

Gostaríamos que o festival crescesse (e não me refiro a after parties e cocktails) e tivesse mais condições para trazer com mais frequência realizadores e outros convidados, pois esse contacto direto com o público é importantíssimo. Mesmo fora do festival, na programação regular, seria possível ter cá com mais regularidade cineastas se tivéssemos algum tipo de apoio mais alargado. 

Em relação ao Pope of Trash, acho imensa piada que tenhas retido isso e que me relembres de vez em quando. É sinal que é uma excelente ideia, e se correr mal, posso sempre alegar ter sido incentivado e induzido em erro pelo crítico. Não sei se o Liarmouth ficou de vez na gaveta, mas poderia ser um incentivo adicional. Gostava mesmo muito de ter um festival dedicado ao John Waters. A Madeira é um dos sítios menos apropriados para o fazer e é exactamente isso que faz da ilha o sítio perfeito para o receber. Não será em 2026, e de forma a evitar que eventuais repercussões possam encurtar o tempo de vida da iniciativa, ainda gostava de ir ao Herzog primeiro. Mas continuo a achar que o “Pink Flamingos" seria o filme perfeito para a última sessão do Screenings Funchal. Um último gesto de celebração e provocação. Podem haver formas melhores de acabar, mas não me ocorre nenhuma de momento. 

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Toda a programação poderá ser consultada aqui.

A vida é um teatro vertiginoso.

Hugo Gomes, 06.01.23

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Não sou de Teatro, por isso perdoem-me a falta de menção quanto à sua, pelo que percebi, longa carreira teatral, mas é no Cinema (a minha arte, o meu mundo) que recordo Christine Laurent em pleno. Trabalhou como intérprete em “En haut des Marches” de Paul Vecchiali, foi colaboradora fundamental de Jacques Rivette (no fenomenal “La Belle Noiseuse”, por exemplo) em questão de argumentos, e ainda realizadora de quatro longa-metragens, entre as quais “Vertiges “(1985), com Magali Noël, a "crush" coletiva de uma cidade em “Amarcord” (Federico Fellini, 1973), o eternizado “Jim” (“Jules and Jim”, François Truffaut) Henri Serre, Luís Miguel Cintra, Maria de Medeiros (meio donzela, meio “boneca de trapos”), Jorge Silva Melo e um muito “patusco” Manuel Mozos.

Uma obra acima do “teatro-filme”, segundo a conotação redutora do termo, tratando-se de um longo travelling em redor de uma gerada e multinacional comunidade, uma comédia de enganos, um drama de verdades, um ensaio sobre as relações aí nutridas. Mas sobretudo um passeio pela nocturnidade lisboeta, por entre bares e cafés nos subúrbios de um teatro, esse seu mundo que apenas o vejo graças aos seus olhos cinematográficos, cuja ópera “As Bodas de Fígaro" é resumida numa espécie de “macguffin”, num esforço contínuo, quer de talentos, de criatividades ou de fisicalidades, transgredindo o palco, os seus bastidores (aquela divagação pelos camarins, pequenos “mundinhos” dentro de um complexo ecossistema) e fora desse território que Christine tão bem conheceu, um filme que relaciona arte e vida como mútuas influenciadoras.

Vi-o, pela primeira vez, na Cossoul, em 2018, numa sessão especial apresentada por Luís Miguel Oliveira, que me convenceu por uma razão, simples e apenas, “é um filme raro, não o encontrarás na 'internet' [foi o que bastou!]”. Fica o desejo, gostaria de rever essa raridade mais uma vez, novamente em sala, e novamente numa noite de domingo, esse maldito e melancólico dia. Soaria-nos diferente esse regresso, quem sabe, através da lente para o mundo de Christine nos deixou.

Christine Laurent (1944 - 2023)

15 Anos, Escritos de Resistência [Índice]

Hugo Gomes, 12.08.22

Por Entre Belíssimas Ruínas

Hugo Gomes, 14.07.22

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Serge Daney

O estado da cinefilia? Ui. Talvez pudesse começar este texto narrando uma situação que me acontece cada vez mais frequentemente em reuniões sociais e noites de imperiais. Invariavelmente, há uma altura em que alguém me interpela - “olha, li o teu texto sobre o filme X e fiquei muito curioso/a”. Às vezes tenho que fazer um esforço de memória, porque o filme X já estreou e saiu de exibição há meses. Mas comento sempre - “ah, óptimo” - e pergunto sempre - “e foste vê-lo?”. Também invariavelmente, a resposta é “não” - “não, mas vou ficar com atenção para quando passar na televisão”. É um pouco frustrante, mas em compensação saio sempre destes encontros com um molho de sugestões de séries que “eu tenho que ver”. Noto, na “sociedade”, esta obsessão: quer, com toda a força, por-me a ver “séries”. Como se a “sociedade” tivesse desistido do cinema e vislumbrasse uma espécie de triunfo, ou apenas de conforto para uma consciência apesar de tudo culpada, na ideia de converter um cinéfilo às “séries”. Já há muito que deixei de contrapor, balbuciando, que não percebo a lógica associativa, porque é que gostar de cinema faria de mim um espectador de séries se são coisas totalmente diferentes, é como sugerir a um leitor de romances que saiu agora um manual de economia que ele “tem que ler”. Mas já não digo nada, sorrio, faço um esforço sincero para reter os títulos das séries que tão benevolamente me recomendam, e suporto a coisa com o estoicismo de quem se submete a uma terapia de conversão que sabe à partida condenada ao fracasso.

Os mais novos – já posso dizer assim, mesmo se sem gosto nenhum nisso – costumam ficar irritados quando digo que o cinema – que é uma coisa que não se deve confundir com “os filmes” - já morreu e andamos a caminhar entre ruínas, ruínas belíssimas, mas ruínas. Eu percebo-os, porque já tive vinte anos e também me irritava quando ouvia os mais velhos dizer estas coisas ou coisas semelhantes. Tinha a sensação de que estavam a ilegitimar os meus vinte anos, a censurar-me por ter chegado tarde demais, a considerar que a minha obsessão, o meu prazer, o meu interesse, não contavam para nada. Depois, percebi que não estavam a falar de mim. Assim como eu não estou a falar de vocês. Não estou, certamente, a falar dos que vão ao cinema, vêem cinema, estudam cinema, escrevem sobre cinema, fazem do cinema uma forma de relacionamento com o mundo. Não estou a falar dos que estão presentes, estou a falar dos que se ausentaram. Estou a falar do espectador de cinema, espécie em extinção, digna de um documentário da National Geographic – e como num desses documentários sobre espécies ameaçadas de extinção, não se responsabilizam os poucos exemplares sobreviventes pelo destino da espécie. Eles são (não, mudo o pronome), nós somos o que resta, nós somos as ruínas, as lembranças vivas de algo – os linces ou os espectadores de cinema – que já foi maior, possivelmente melhor, certamente mais vivo, quase de certeza mais banal, mais comum, mais corriqueiro.

O que era o espectador de cinema? Podia ser muitas coisas, mas era um indivíduo activo. Saia de casa. Procurava os filmes e escolhia os filmes, em vez de ficar em casa, e ser procurado e escolhido pelos filmes que as televisões e as “plataformas” escolheram para ele. Note-se: não estou a diabolizar a televisão contra o angélico cinema. Sem a televisão, sem os videoclubes, o vírus do cinema não me teria mordido na adolescência, e em grande parte não teria tido como o alimentar. A cultura de cinema na televisão, ou no VHS, ou depois no DVD, ou agora no “streaming” ou nas “torrents”, não é o problema, ou não é o problema todo, porque nunca foi incompatível com a cultura do cinema na sala, e tudo isto gerou, e continua a gerar, espectadores de cinema, na televisão e na sala. O problema, que me parece inegável, é o crescente desaparecimento de uma cultura de cinema, tout court. A televisão, de facto, não ajuda, os anos 80 estão longe, dificilmente algum “zapper” correrá o risco de fortuitamente se cruzar nalgum canal com o Moisés e Arão ("Moses und Aron") apresentado pelo João Bénard da Costa. E sim, antes que mo digam com modos zangados, eu sei que a televisão (uns canais mais do que outros) passa bons filmes, e que agora até há vários canais que passam filmes 24 horas sobre 24 horas. Mas... onde é que está um clássico qualquer (o Citizen Kane, por exemplo cliché) às 9 da noite num canal generalista? Isto acontecia, pasmem, pelo menos uma vez por semana na televisão do tempo em que cresci – a “Noite de Cinema”, na RTP, se não me engano às quartas-feiras, passava clássicos em prime time. Isto tinha um efeito básico: familiarizava os telespectadores com o cinema, ao mesmo tempo que alimentava a familiaridade deles com o cinema, e reflectia outra coisa básica, o facto de o cinema fazer parte do dia a dia. Ver um filme na tv, ou ir ao cinema, eram gestos normais, banais, corriqueiros. Foi isto que desapareceu, foi a cultura do cinema, foi a horizontalidade da relação com a cultura do cinema. E atenção que, embora pareça, não estou a culpar a televisão por isto. Ela – aquilo em que ela se tornou, das infindáveis horas de conversa fiada sobre futebol aos reality shows – tem a sua parte de culpa (sem pedagogia elementar não nasce nada), mas sobretudo é especialmente eloquente como reflexo deste(s) desaparecimento(s).

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Moses und Aron (Danièle Huillet & Jean-Marie Straub, 1975)

O que é uma maneira de dizer que o mundo deixou de ter o equipamento para gerar espectadores de cinema (e não me refiro, mas até esse vive uma espécie de crise, ao equipamento para mobilizar consumidores de cinema em torno de um acontecimento especial e “vertical”, seja ele um “blockbuster” ou um festival). Os espectadores que existem ou ainda são um produto desse mundo (são os velhos, os velhos que não se esqueceram ou não se renderam) ou são de geração espontânea, fortuita (que haja gente de vinte anos interessada não só em ver, mas em saber ver, um filme do Ford ou do Hawks, comove-me sempre, porque existe muito pouco na superfície do mundo para lhes criar esse interesse). Mas todos são, todos somos, acidentes. Como mutantes saídos dum premir dos botões errados numa experiência laboratorial. E, como mutantes, vivemos underground, mesmo que nesse imenso underground que é a internet. Mas é um underground. Que o digam os gestores e exploradores de salas de cinema, os editores de DVD ou Blu-Ray, os editores das mais conceituadas publicações especializadas. Nos jornais ou nos blogs, falamos uns para os outros, esta língua dos mutantes é cada vez menos compreendida. “De quoi parle-t-il?”, perguntava alguém no Nouvelle Vague do Godard, até que alguém respondia: “du cinéma”. Uma língua, um assunto, cada vez mais incompreensíveis.

Lembro-me de uma coisa dita por Louis Skorecki quando veio à Cinemateca, no princípio de 2010. Que, na geração dele, em que todos se sentavam na primeira fila, o enquadramento era uma coisa totalmente desconhecida. “Nós nem o víamos” (cito de memória), “o écran era demasiado grande e nós estávamos demasiado perto para nos podermos aperceber do enquadramento”. Era outra coisa, “era tomar banho no filme, era estar lá dentro”. Na minha cabeça fiz um “raccord” com um artigo de Serge Daney, escrito algumas décadas depois deste tempo em que esta gente “tomava banho” nos filmes, na altura em que para o “Libération” ele escrevia sobretudo sobre filmes vistos ou revistos na televisão. Nesse artigo (não o encontrei, não me lembro do título, sei que está algures numa compilação de textos dele), Daney falava com entusiasmo da relação de alguns cineastas com o enquadramento, e parecia especialmente fascinado com os cineastas que punham uma atenção especial no trabalho sobre as margens do enquadramento. Quando ouvi o que disse Skorecki lembrei-me desse texto, porque imaginei que, se calhar, Daney precisou da televisão para finalmente descobrir o enquadramento, e sobretudo esse território misterioso que eram as margens do enquadramento. De uma maneira intuitiva e sem mais rigor nenhum do que o que o leitor lhe quiser atribuir, a articulação entre o que disse Skorecki e esse texto de Daney estabeleceu-me uma marcação, uma baliza, para duas idades da cinefilia: o tempo em que se vive o cinema, porque se “está lá dentro”; e o tempo em que se  o cinema, porque se encontrou a maneira de “estar fora” dele. A cinefilia aventurosa, romântica; e a cinefilia analítica, cerebral.

Penso que, irremediavelmente, já não estamos no tempo da primeira, e que ainda estamos no tempo, até capaz de algum viço, da segunda. Virá, ou já veio, outra idade da cinefilia? E que fazer com esta ideia? Não sei, e não sei.

 

*Texto da autoria de Luís Miguel Oliveira, crítico do jornal Público e programador da Cinemateca Portuguesa.