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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Lamentos e lamentos ...

Hugo Gomes, 19.05.23

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Na manhã de segunda-feira, antes do visionamento de imprensa de “Fast X”, alguém que costuma presença neles (sinceramente nem sei se é jornalista ou o que faz na vida, se calhar é só mascote) dirige-se ao enviado do Público, com dedo em riste, reclamando sobre o fraco destaque do seu jornal perante filmes como aqueles que iríamos ver a poucos minutos. “Só querem saber de ciclo de japonês sei lá o quê [óbvia alusão à Kinuyo Tanaka], e esquecem dos filmes que as pessoas realmente querem ver”. Perante as provocações deste ser, o representante do jornal do P vermelho aponta para o cartaz gigante com Vin Diesel estampado e responde: “Estes filmes já estão vendidos antes de sequer estrear”.

Como podemos ver, 90% dos órgãos de comunicação falam de “Velocidade Furiosa”, de Daniela Melchior (das enésimas entrevistas exclusivas) e como Portugal deve-se sentir “orgulhoso” por integrar a trama de um produção hollywoodesca e bilionária. Ninguém quer saber do resto, como Cannes, onde só notícias de Johnny Depp e Indiana Jones parecem preencher as grelhas mais genéricas. Porquê de não passarmos disto?

Relembro de um ano, 2018 para ser preciso, em Cannes, na fila para ver “já não sei o quê” (em homenagem ao ser do parágrafo acima), em que ouvia a conversa de dois distribuidores que comentavam a qualidade do, na altura, último filme de Jafar Panahi ["3 Faces"], até que um deles lamenta: “Estamos aqui a ver estes filmes, muitos deles maravilhosos, e o Mundo só quer saber e falar de ‘Infinity War’.

Lamentos e lamentos ... é a vida! O romantismo do Cinema é resiliente, o mercado é outra ‘coisa’.

Entre família e carros não se mete a "colher" ... nem argumentista

Hugo Gomes, 16.05.23

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A greve dos argumentistas que recentemente “abalou” Hollywood reivindicava melhores condições de trabalho, estabilidade e segurança no ofício, acusando o streaming de ter alterado a estrutura produtiva da indústria e possivelmente as preocupações em relação aos avanços da IA. Nesse aspecto, solidarizo-me com as suas lutas, pois deixar o ChatGPT escrever guiões resulta nisto... não é verdade? Existe mão humana por detrás disto? Neste caso, realmente é necessário melhores condições de trabalho, sem dúvida.

"Fast X", desta vez com Louis Leterrier (um dos antigos "pupilos" de Luc Besson), é uma ambiciosa aberração frankensteiniana que tenta resumir toda uma saga que nos acompanha há mais de 20 anos. O que começou como um remake de "Point Break" (Kathryn Bigelow, 1991), substituindo surfistas por “street racers”, acabou por se tornar numa trama global embrionária digna dos enésimos filmes de James Bond ou "Missões Impossíveis", com carros executando o impossível enquanto Vin Diesel assume o papel de padroeiro da família, da forma mais tradicional e devota possível. Justin Lin, que entrou nessa jornada com o terceiro e depreciado filme ["Tokyo Drift", que saudades dessa simplicidade e exotismo], trouxe um certo absurdismo, fisicalidade e espetacularidade que culminaram em um “epopeico” quinto episódio no Rio de Janeiro, e é a partir desse ponto que começamos esse "X".

Aqui, a palavra de ordem é "família", soando como um clipe para os argumentistas trabalharem numa novela mexicana disfarçada, onde todos são parentes de alguém, não importa quem, e Jason Momoa, o vilão (cheesy até a quinta casa, mas não importa, fica claro que ele se diverte com tudo isso, e acaba se revelando o melhor em mais de 2 horas e meia de filme), é o "terrorista" cético em relação aos princípios de Vin Diesel e a sua pregação aos peixes. Milhões gastos no circo mais básico, onde Lin, o anterior salvador da saga, é colocado em segundo plano (como produtor e suposto roteirista), testemunhando a franquia de se tornar refém dos drones e da planificação extremamente decoupada, uma criatura carpinteira criada em nome da vibração, essa falsa-sensação que cativa espectadores com mentes irrequietas. Fica a pergunta: se o público está acostumado com temas adultos nas suas plataformas de streaming, por que alimentá-los com infantilidades na grande tela? "Desligar o cérebro" não pode ser mais uma desculpa, se as expectativas são tão baixas assim. "Fast X" resume uma saga em círculos, onde ninguém "morre", exceto Paul Walker, que por motivos trágicos (obviamente) e pela incapacidade dos argumentistas, se revela num estorvo nesta trama “salta-pocinhas”.

PS: Mas para muitos a questão das questões é se Portugal está representado aqui. Quase meia-hora de ação na A24 com direito a legendas gordas para localizar-nos e Daniela Melchior em destaque (mas sinceramente, esperemos que a atriz lusa receba ou procure papéis mais desafiantes nesses cantos hollywoodescos). Respondido?

Entre Mágicos e Ladrões!

Hugo Gomes, 17.09.14

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The more you look, the less you see.

O francês Louis Leterrier revelou recentemente que a sua passagem por terras americanas não tem sido muito feliz em termos profissionais. Descontente com o resultado final do seu Hulk e da reimaginação tecnológica “Clash of the Titans”, o qual o realizador culpa a pressão dos estúdios e as complicações do argumento, o anterior “afilhado” de Luc Besson decide vergar por um cinema mais modesto e menos colossal em termos orçamentais, porém sem fugas possível ao mainstream norte-americano (está-lhe no sangue!). “Now You See Me” é um misto de cinema de golpe à lá “Ocean’s Eleven com um show de David Copperfield, a história de quatro ilusionistas de elite tido como principais suspeitos de um roubo a um grande banco francês, contudo, o quarteto tem como álibi um espectáculo em Las Vegas visto por milhares de pessoas.

Muitos truques de magia na manga e eventuais malhas de ilusão são os tópicos de interesse de uma fita que se resume a uma autêntica farsa. Tendo como título traduzido de “Mestres da Ilusão”, este é um filme em modo 200 à hora onde a suposta “magia” do argumento dissipa-se perante as artimanhas mais baratas do cinema comercial, onde parecia ser um ensaio de estilo erguido com astúcia automaticamente cede a um conjunto de perseguições, tiroteios e acção à moda de um trivial policial norte-americano. Depois de terminada a trama, “Now You See Me” ainda possui o descaramento para justificar tudo e todos através de reviravoltas, algumas necessárias outras não, dando uma sensação de um final “fake”, como se a experiência se resumisse a um simples truque de ilusionismo. É que até certo ponto, uma obra que supostamente poderia vingar pela imprevisibilidade torna-se o oposto, apenas disfarçado pelo facto de Louis Leterrier ser, de facto, dos maiores ilusionistas aqui.

Por fim o elenco, um articulado de luxo, e que são meramentes ‘fogo de vista’, correspondendo aos seus personagens-tipos desassociáveis. Só que no meio disto tudo são eles que acabam por ser vítimas desta imensa “vigarice”. Desequilibrado, desperdiçado e banal (a realização de Louis Leterrier é idêntico a um esticado videoclipe), “Now You See Me” é pura metáfora de Hollywood: um puro espectáculo de brilho e truques, onde a fórmula se converte numa verdadeira ilusão, por outras palavras – desilusão.