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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Hoje é o teu primeiro dia ...

Hugo Gomes, 16.12.23

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Dentro deste caldo ocidental impregnado num capitalismo feroz, a “salvação” é vendida na disciplina, na ambição ou na aprendizagem gerida pela nossa resistência, milésimas dicas e truques hoje apoderadas pela classe “coach” (estes tutores da competição frenética e charlatães), são contrapontos com a sua antípoda, esses ensinamentos orientais, sobretudo japoneses, de consolidar a vida e contentar-se com os seus frutos suculentos, e nunca esperando algo mais adocicado. Muitos de nós ouvimos repetidamente, e talvez em jeito de troça, esse termo denominado ikigai, a busca do propósito vivente, ou de outro ponto, o wabi sabi, o de lidar com as imperfeições envolto, resignar a elas como nossas. 

Ao ver o último filme de Wim Wenders - “Perfect Days” - no qual me uno ao coro do “melhor trabalho do realizador alemão desde o longínquo [inserir latitude-título]”, deparo-me com essa imperfeita assunção, daí a lenta jornada de Hirayama (um sensibilizado Koji Yakusho, um dos ‘musos’ do cinema de Kiyoshi Kurosawa), homem dado e dedicado à sua própria rotina, não pretendendo mais do que a ‘mediania’ aí oferecida. De meia-idade, longe das promessas que a sua existência usufrui, limpa casas de banhos públicas por Tóquio adentro, ouve música através das suas estimáveis cassetes, alimenta-se nos mesmos ‘barrancos’ e presta-se às mesmas companhias mesmo que ele seja um homem lacónico (a verborreia persiste nesse desperdício que o nosso protagonista parece evitar a todo o custo), lê um livro todas as noites até os seus olhos se cansarem, cuidas das suas plantas, pequena vida com o carinho preciso e nutrindo um afecto inesgotável. Hirayama optou pela estabilidade, e para isso descarta qualquer projecção, qualquer objetivo, qualquer cobiça, mira o céus, as folhas “dançantes” nas árvores graças às prazerosas brisas que também desfruta, observa o seu redor, os desconhecidos que passam sem rasto, sob um olhar carinhoso, sem malícia, sem inveja. 

Nós, espectadores, somos convidados a esse recatado mundo, do eremita da mais populosa cidade por metro quadrado. “Perfect Days” é o “viver o momento”, frase feita de psicólogos e desses ‘malditos’ coaches em modo remixado e em loop, só que despido de qualquer “sonho capitalizado”, Hirayama ensina-nos a ser gratos pelo que conseguimos, o simples respirar, e em consequência sentir. É um filme de sentimentos, como é óbvio, embebido, e entranhado na sua serenidade zen. Wim Wenders parece seguir essa “escola de vida” com uma ternura inabalável. Porém, não nos quedamos pelo equilíbrio duradouro. Pouco a pouco, o ciclo ritualístico do protagonista começa a diferenciar-se: ora o colega fala-barato o faz desviar da rota, ora a sua sobrinha surge sem avisar, ora o seu cantinho de degustação gerido pela figura-gueixa alcunhada de “Mãe” (Sayuri Ishikawa) não abre portas naquele exacto momento, pequenas mudanças que por pouco faz Harayama duvidar da subsistência da sua então construída “fortaleza”. Mas a lição, longe da moralidade barata, é apenas constatação do óbvio - nada se mantém intacto; a mudança é inevitável. Edifícios erguidos e certo dia desabados cujo vazio observado e questionários pelos anciães ocasionais: “O que estava aqui? Já não me lembro. É o preço da velhice”. 

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Wim Wenders também está, como é claro e sucinto, a envelhecer, não é o realizador de antes (e quem poderá ser na verdade?), pegando nesta curta de encomenda - uma aclamação pelos banheiros públicos da capital japonesa - transformou-a numa longa em perseguição à sua própria sombra, a metáfora de reconhecer o inalcançável. A vida é de curta estadia, aproveitar o que dela contêm, os “pequenos prazeres” de dia a dia, ou simplesmente devagar e devagarinho, receber cada raio de Sol uma benção, um “perfect day” cantarolando pelo esperado single de Lou Reed. Soa-nos conversa motivacional, pois soa, mas garanto-vos que a obra nada tem de desbaratamento inspiracional, porque não passa de uma filosofia quotidiana constatada, o yang ao lufa-lufa e do sucesso enquanto objetivo vivente, pregado vezes sem conta pelos falsos-ídolos do Ocidente. No fim de contas, Wenders regressa a Ozu, o seu ídolo, não à sua arte de filmar, mas à sua arte de entender o seu redor - “A felicidade não se espera, cria-se” - debitado por Chishū Ryū em “Late Spring” (1949), a encarnação espiritual deste luminoso Koji Yakusho

Oh, it's such a perfect day

I'm glad I spent it with you

Oh, it's such a perfect day

You just keep me hanging on

Lou Reed