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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Encaixotado e armazenado

Hugo Gomes, 29.01.26

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Eis um exercício sem nunca uma ideia fresca no horizonte, para além de um cozido de referências e fórmulas bem empregues num trabalho de género. “Cold Storage” é exactamente aquilo que promete: nem uma vírgula a mais, nem uma vírgula a menos. Talvez seja precisamente disso que estamos a precisar, deixarmo-nos encantar por uma estrutura pré-fabricada e simples, macaqueando o perfil epidémico, com zombies (sort of), cinema de cerco e conspirações à antiga (hoje entendidas e integradas neste mundo pós-verdade e pós-História como certezas adquiridas).

Isso nota-se nas atitudes do jovem Joe Keery (“Stranger Things”), a repetir o seu papel-tipo; em Liam Neeson, com algumas piscadelas à sua idade, ainda assim resgatado na capa de homem-canivete suíço, carregando uma “longa e acumulada experiência”, e também em Georgina Campbell, saída de “Barbarian” (o filme-sensação daquele realizador bem provido de nome Zach Cregger), sem esquecer Leslie Manville, uma das heroínas da galeria Mike Leigh, aqui a embarcar na sessão (nota ainda para uma breve passagem de Vanessa Redgrave). O resto, decorrido em grande percentagem num “cold storage” (leia-se, armazéns, empresas cada vez mais comuns nesta modernidade sem propriedade, onde o espaço se torna um demarcador de privilégio face à precariedade disseminada pelo desvalor), resulta nesses “rodriguinhos” habituais: sem grandes catarse ou complexidades, um grotesco lúdico e algumas peças a encaixar para nos envolver no “segredo dos deuses”. Trata-se de contenção, somente isto, e orbitando nisto, mesmo que a abertura quase apocalíptica aponte para uma outra ambição (mas só engodo, até o CGI de pouca qualidade demonstra esse efeito).

Um argumento, e por arrasto um livro de David Koepp (assinando guiões de “Snake Eyes”, “Mission: Impossible” e “Jurassic Park”), levado ao grande ecrã por Jonny Campbell ( assinante da série “Dracula”, com Claes Bang como vampiro transilvânico), é uma pequena madalena de certo cinema oitentista, com Joe Dante ou John Landis à cabeça, sempre atento ao género e, por sua vez, com apelo familiar. Já vimos bem, mas bem (!), pior!

Pistolas nuas, corujas e cafés "everywhere"

Hugo Gomes, 30.07.25

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A comédia, enquanto género definido e emancipado, encontra-se realmente nas ruas da amargura, ou será apenas um estratagema para reavivar um estilo que David Zucker e Jim Abrahams consagraram como prova infalível de sucesso? De “Airplane!” ao tríptico “Naked Gun”, estes spoof movies de piadas literais (hoje facilmente catalogadas como “dad jokes”) exalam um charme datado, um produto museológico para ser admirado à distância.

Zucker, enfurecido com o seu guião de ressurreição da fórmula deitado ao lixo, vê agora Seth MacFarlane, auto-proclamado guardião da comédia americana, apoderar-se da projecção deste “Police Squad: New Version”, ou como bem o conhecemos, “Naked Gun”. Sem Leslie Nielsen, como é evidente, e com Liam Neeson, com 73 anos, já saturado do estereótipo de herói de ação que lhe caiu em cima após o desgaste do drama, viu nas oportunidades de MacFarlane como potencial sucessor neste registo hilariante. A verdade é que Neeson, tal como Nielsen, provém do mesmo lote: actores dramáticos que, por um motivo ou outro, encontram refúgio na comédia. No caso de Leslie, virou-lhe o paycheck; para Liam, uma experiência a ser defendida (ou não!).

Não vamos mentir, nem cair na reacção mercantilista: este “Naked Gun”, apesar de oferecer momentos de nostalgia por um estilo cómico hoje quase extinto, carece não só de frescura, mas também do timing dos gags, esses que, em tempos, foram a verdadeira genialidade de Leslie Nielsen ao serviço de Zucker. Aqui, o problema reside precisamente na persuasão do gag, um maneirismo tão típico de MacFarlane nas suas criações e dos spoofs da última, e fracassada, geração: o esforço hercúleo de provocar riso a todo o custo, mesmo que no ridículo não haja qualquer pensamento investido.

É verdade que é dos filmes da franquia, ou melhor, o bastardo que aspira a entrar na família (escolham vocês), o que se apoia excessivamente no argumento, no “plot device” como se pretende apelidar (emprestado a custo de uma saga spoof da vaga recente - “The Kingsman”), enquanto que, na era Leslie Nielsen, o tom era outro: a historieta era apenas desculpa esfarrapada e descartável para que os gags se amontoassem com uma naturalidade palhacenta.

Realizado por Akiva Schaffer (“Hot Rod”, “Chip ’n Dale: Rescue Rangers” e aquela alcagoita estranha de nome “Michael Bolton’s Big, Sexy Valentine’s Day”), este “Naked Gun” é, acima de tudo, uma encomenda à imagem do seu produtor, Seth MacFarlane, e não, como forçosamente quer ser, um “catch-up do legado”. Por vezes oportunista, não deixa, aqui e ali, de trazer umas quantas deixas de saudade.

Oh, Leslie Nielsen… manda-nos uma coruja para nos tirar daqui!