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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Pistolas nuas, corujas e cafés "everywhere"

Hugo Gomes, 30.07.25

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A comédia, enquanto género definido e emancipado, encontra-se realmente nas ruas da amargura, ou será apenas um estratagema para reavivar um estilo que David Zucker e Jim Abrahams consagraram como prova infalível de sucesso? De “Airplane!” ao tríptico “Naked Gun”, estes spoof movies de piadas literais (hoje facilmente catalogadas como “dad jokes”) exalam um charme datado, um produto museológico para ser admirado à distância.

Zucker, enfurecido com o seu guião de ressurreição da fórmula deitado ao lixo, vê agora Seth MacFarlane, auto-proclamado guardião da comédia americana, apoderar-se da projecção deste “Police Squad: New Version”, ou como bem o conhecemos, “Naked Gun”. Sem Leslie Nielsen, como é evidente, e com Liam Neeson, com 73 anos, já saturado do estereótipo de herói de ação que lhe caiu em cima após o desgaste do drama, viu nas oportunidades de MacFarlane como potencial sucessor neste registo hilariante. A verdade é que Neeson, tal como Nielsen, provém do mesmo lote: actores dramáticos que, por um motivo ou outro, encontram refúgio na comédia. No caso de Leslie, virou-lhe o paycheck; para Liam, uma experiência a ser defendida (ou não!).

Não vamos mentir, nem cair na reacção mercantilista: este “Naked Gun”, apesar de oferecer momentos de nostalgia por um estilo cómico hoje quase extinto, carece não só de frescura, mas também do timing dos gags, esses que, em tempos, foram a verdadeira genialidade de Leslie Nielsen ao serviço de Zucker. Aqui, o problema reside precisamente na persuasão do gag, um maneirismo tão típico de MacFarlane nas suas criações e dos spoofs da última, e fracassada, geração: o esforço hercúleo de provocar riso a todo o custo, mesmo que no ridículo não haja qualquer pensamento investido.

É verdade que é dos filmes da franquia, ou melhor, o bastardo que aspira a entrar na família (escolham vocês), o que se apoia excessivamente no argumento, no “plot device” como se pretende apelidar (emprestado a custo de uma saga spoof da vaga recente - “The Kingsman”), enquanto que, na era Leslie Nielsen, o tom era outro: a historieta era apenas desculpa esfarrapada e descartável para que os gags se amontoassem com uma naturalidade palhacenta.

Realizado por Akiva Schaffer (“Hot Rod”, “Chip ’n Dale: Rescue Rangers” e aquela alcagoita estranha de nome “Michael Bolton’s Big, Sexy Valentine’s Day”), este “Naked Gun” é, acima de tudo, uma encomenda à imagem do seu produtor, Seth MacFarlane, e não, como forçosamente quer ser, um “catch-up do legado”. Por vezes oportunista, não deixa, aqui e ali, de trazer umas quantas deixas de saudade.

Oh, Leslie Nielsen… manda-nos uma coruja para nos tirar daqui!