Data
Título
Take
10.11.18
10.11.18

transferir.jpg

Uma questão de excessos … ou suspirando pelos mesmo!

 

Luca Guadagnino quis chocar e prometeu através de mais uma aventura pelas readaptações … lembram-se de A Bigger Splash, essa leitura ao Le Piscine de Jacques Deray? … Bem, a matéria-prima desta vez é de contornos mais controversos, até porque o alvo foi um auge da estética e da edição, Suspiria, hoje visto como uma das joias da coroa de Dario Argento. Pegar no filme de 1977 e refazê-lo, acima de tudo, demonstra um certo sentido de risco e uma coragem sem precedentes e o realizador de Call me By Your Name adequa-se a esses requisitos. Ao contrário do barroco proposto do original, este Suspiria encaminha exagero para o seu interior, endorsando um tom mais negro, grotesco e sobretudo contemporâneo, não em contexto histórico, até porque a história-narrativa reside no ano em que o filme de Argento foi produzido, mas sim pela tendenciosa espreitadela aos anacronismos politizados.

MV5BYzc2NmNkMDAtZDA5My00Y2E4LWI2NmYtY2E1MzJkNWZmNG

Numa Alemanha dividida no rescaldo do Muro de Berlim, pelos atentados do Baader Meinhof e pelos fantasmas da Segunda Guerra (e anexos) que não teimam em desaparecer, é nos contada uma história de bruxaria e dança contemporânea. Aqui as bruxas são seres milenares, os haxans como designam na língua germânica, “criaturas” sábias que desprezam a Humanidade e o fazem sob as recordações dos seus tempos gloriosos, desejando a tão ambiciosa ressurreição. Tendo a escola de dança como fachada, surge a promessa de abalar toda uma instituição através do acolhimento de uma nova aluna americana, levando-as cada vez mais perto dos seus tenebrosos objetivos.

MV5BMWQ1MTkyOGItZDBhYy00MGJkLTlhMTMtMjNhNjgyOGU0Mz

Lucas Guadagnino utiliza a estrutura do guião de ’77 para se providenciar de um filme atento às questões identitárias da Alemanha de ontem, hoje e do amanhã. O constante sublinhar das temáticas recorrentes à identidade da mesma guiam o espectador num subliminar gesto politizado, fazendo com que o ninho de bruxas aluda a outras organizações de pensamentos e doutrinas. Por palavras mais precisas e explicitas, as bruxas confundem se com o nazismo, e o nazismo confunde se com as irmandades de bruxarias, o orgulho alemão levado na composição de tais atitudes, os feitos erguidos pela consciência e a inconsciência com que assume como retornar a essas mesmas “provocações”. Suspiria opera assim como uma fábula dessa politização social, o que nos torna ideologicamente unidos e pretensiosos nas audácias da proliferação da mensagem.

MV5BYmI5YmEwYjAtYTJhOS00M2U5LTg0OTQtNTZmMzI1NzM0ZT

Obviamente que os filmes de outrora não eram despidos dessa imensa leitura politica, mas no caso da obra de Argento, este era um simples invocar de um folclore em um bandeja série B que tão bem funcionou graças à dedicação e compostura do realizador nos seus tempos áureos. Luca Guadagnino herda essa fome pela imersão visual e sonora (definida e por fim livre no último dos oitos atos), mas distorce o lúdico da intriga e a converte numa seriedade "bigger than life" que aufere um pesado clima de desespero. Sente-se a vibração dos corpos quase desnudos em sintonia com a edição cronometrada e intercalada e a orgânica da dança improvisada sob a mimetização dos horrores cometidos sala fora (o espectador só sente e vê aquilo que a narrativa lhe dá, e uma delas é a dedicação corporal de Dakota Johnson … porque de resto … bem, nem vale a pena falar).

MV5BMjkyMjg3M2MtZGM3Ni00N2IyLTk1YzQtZmY5OGQzMTU1ZW

Se os bailados concretizam o que de melhor este Suspiria tem para oferecer, não referindo tal como os arquétipos de dança que muitos cometem pelo prazer jubilante do olhar, mas porque, quer queira, quer não, Luca Guadagnino construiu um falso musical no processo em que a dança em si possui um papel de desenrolar na narrativa e na construção dramática. Possivelmente foi através disto que o realizador encontrou a inspiração para regressar a Suspiria, deixando o resto à mercê das referencias dos provocadores. Ken Russell, Pier Paolo Pasolini, Lars Von Trier (será racional afirmar que Suspiria tem um esqueleto narrativo tão vontriano) e até mesmo Argento pós-90 (época em que abraça o grotesco, a recordar Mother of Tears, terceiro capitulo da trilogia iniciada por Suspiria, em que detém em paralelo com esta nova versão um fetiche pelo explicito da tortura), compõem a pauta desta orquestra vazia.

MV5BZGMxNzI4ZDctY2ZiMi00OTFkLTlmMGUtYTQ2ZDIyZjQwYT

Contudo, o resultado não deslumbra pela “diabrice”, condensando todo esse desejo para providenciar o prolixo e sobretudo a coesão narrativa. É um objeto de camadas gordurosas (não há contenção da mesma forma que Tilda Swinton desempenha três papéis diferentes), que enaltece um exercício de estilo ocasional e uma trapalhona mescla por vezes. Entre o amor e o ódio, Guadagnino ficou-se pelo marketing e o subliminar gesto politizado. Não estamos convencidos de facto (e nem vamos falar da sonsice da Dakota Johnson … nós juramos não falar).

 

Real.: Luca Guadagnino / Int.: Dakota Johnson, Tilda Swinton, Doris Hick, Mia Goth, Chloë Grace Moretz

 

MV5BMDBjZDAwOWEtNDhjMS00YmEzLWE1N2YtZWNmYzg1ZDUyNW

5/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 20:17
link do post | comentar | partilhar

20.3.18

71afdfbf6cced8ccd704014863b94a3bebc21fc2.jpg

Os capitães desta vida!

 

Os prisioneiros alinham-se em frente à vala que lhes servirá de derradeiro leito. A artilharia-carrasca encontra-se apontada a estes corpos condenados. Do outro lado do eixo, um capitão observa serenamente todos estes preliminares. Ordena-se Fogo, o rompante mecanismo dispara furtivamente. Os corpos cedem a este tremor, caem na fossa, já sem vida. São nanossegundos que marcam a transição entre vida e morte. O Capitão berra, expressando a sua repugna pela “valsa de horrores” que presenceia. O espectador vê-o gritar, mas na verdade não grita. Momentaneamente está novamente sereno, olhando friamente para aquele monte de carne que se vai apinhando em terra de ninguém. O que vimos, aliás, o que o espectador viu, foi somente um lapso, uma impressão, ou quem sabe, uma expressão oculta, travada por uma capa. Sim, a capa que separa os monstros dos homens. Falando em capas, porque não fardas.

MV5BZWRlZDIxZTctNmI0MS00YmJiLWIxZGItZjM2MWU5YWJkMD

De outro modo, O Capitão, o filme de Robert Schwentke (o realizador alemão que se aventurou em Hollywood para se embarcar em produtos como Insurgent e R.I.P.D.) relata os finais da Guerra com tamanha anarquia que uma farda simboliza a ordem alcançada nesta profunda entropia humana, ou a fonte de um mal imperativo, desculpada pela "banalidade” arendteana. Momentos antes do cair do pano do grande episódio bélico, um soldado desertor (Max Hubacher), fugindo à sua própria condenação, alcança o seu Deus Ex Machina, uma “miraculosa” farda oficial, a de um Capitão, para ser mais claro. Ao vesti-la, este soldado raso deixa de ser um soldado e transforma-se numa personagem até então inexistente, a do Capitão. Esse desencadear metamórfico irá despertar-lhe uma faceta anteriormente adormecida (ou provavelmente negligenciada).

MV5BNTBiZDQ2ZjQtY2ZmYi00NTdlLThkODItN2I5MDg1MDA2YT

Não se trata de hora marcada com a raiz do mal, a farda não descreve o nazismo fechado a conceito implantado (mesmo que fascínio entre uniformes e alemães seja algo mais interiorizado e já citado no Cinema, a ter em conta O Último dos Homens, de F.W. Murnau). Sim, as divisas de capitão funcionam como o mais recente acordo do demónio Mefistófeles, oriundo do romance de Goethe. A sua escapatória e, ao mesmo tempo, a agendada descida aos infernos existencialistas, o animalesco da sua própria vivência.

 

MV5BZjdmNmFjOWMtMzUxNi00NGQ1LWI2YjMtODljODE0YzE2ZG

 

O Capitão é esse embarque pelo  contido maligno, pelo despertar antagónico no qual concentra o inicio e desfecho de Guerra, e, quem sabe, repercutido pela modernidade da nossa Europa velha e cansada que anseia explodir, expondo o seu primitivismo emocional. Sim, um conto de Segunda Guerra Mundial que mimetiza a expansão (se alguma vez estivesse escondido) de um certo pensamento discriminatório e extremista. Robert Schwentke percebe dessas facetas e humoriza acidamente nos créditos finais, filmando a surpresa do século XXI perante Nazis de um tempo passado (quase como um “parque jurássico” antropológico).

 

MV5BMmRkZjJjYTgtZjU5My00MjQ0LWI5NWMtMmM2ZGQ5ZGZhOD

 

Uma obra emocionalmente caótica que revela a sua corrupção humanista perante o Poder, ou a sensação deste. E perante tal exercício de reflexão, Robert Schwentke veste a sua farda. Pensando melhor, despiu-a. Refiro-me a de tarefeiro desperdiçado na indústria norte-americana, de forma a regressar à sua terra natal com um incisivo olhar aos tempos atuais, invocando como moral o passado que desejamos esquecer. E falando em capas, a fotografia de Florian Ballhaus é de certa forma uma brilhante enclausuramento destes horrores cometidos e ilustrados.

 

Real.: Robert Schwentke / Int.: Max Hubacher, Milan Peschel, Frederick Lau

 

MV5BZGNjZDFmZTAtN2Y4Zi00OGYyLWE2NWQtZjExYWJlMWQyMW

 

9/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 18:17
link do post | comentar | partilhar

1.3.18
1.3.18

13a1eaa7de0db92d0c060ff52883a2f47a670fb3.jpg

Viagem à Ucrânia!

 

Para poder dialogar com este Frost, a última longa-metragem do lituano Sharunas Bartas, necessitamos revisitar um outro filme, Maidan, de Serge Loznitsa. Ao contrário de Bartas, o bielorrusso é, como evidente na sua filmografia, um provocador ideológico que se concentrou na multidão do Kiev, em fevereiro de 2014, a fim de traçar uma catarse romântica ao movimento insurgente que ali despoletou. É óbvio que mesmo sendo a nós apresentado imagens captadas dos eventos e tumultos que sucedera, essa fascinação pela força em massa a relembrar os hinos cinematográficos de Sergei Eisenstein possuía um caracter algo tendencioso quanto à natureza deparada neste cenário.

 

frost (1).jpg

 

Frost parte inicialmente dessas imagens, dessa “romantização” para responder, não no sentido concreto, mas subversivo, ao que acontecera à Ucrânia pós-Kiev, como ela sobrevive ou resiste à sua devastadora divisão e à ilusão do sonho de massas. Sharunas Bartas utiliza tal visão profética para induzir-se como uma espécie de macguffin, não um objeto, mas um destino que levará o seu par de protagonistas “on the road”. Pelo caminho, o filme vai adquirindo um certo gosto pelo cinema de contemplação, onde os cenários ecoam como silenciosos testemunhos do que se avizinhara e Bartas é meticuloso, paciente e submisso a tais jornadas na vastidão. A ficção, a distância encontrada num casal que espera-se ressurgir com a força de outrora, funciona como uma metaforização da dita fragmentação ucraniana, porém, este coming-to-age “terapêutico” vai sendo destituído para segundo plano da mesma forma que o filme vai atingido um outro patamar, o da reportagem.

 

frost_bs_ok.jpg

 

Se é certo que Bartas não anseia criar um documentário puro ou a invocação do chamado cinema verité que Loznitsa havia manifestado no seu olhar à praça, Frost abandona a sua caloricidade ficcional para embarcar num gélido registo de jornalismo participativo. Mas primeiro, existe o estágio, um prolongado workshop retalhado em diálogos ocasionais e frases soltas. Os nossos protagonistas reúnem-se com jornalistas e personagens de caracter aburguesado a meio do seu caminho, de forma a recolher as ferramentas necessárias para a investigação.

 

image-w1280.jpg

 

Primeiro vemos o lado Ucrânia”, refere um desses “instrutores”, farpas lançada a muito da perspetiva ocidental que descortina maniqueísmos nas manifestações Maidan e pós, como posição fundamentalista e radical ao lado russo (com a disputa da Crimeia à cabeça). Podemos até garantir que no cinema, não existe tal coisa que é a ambiguidade politica pura, mas Bartas frisa a curiosidade como veiculo a tal, o espectador será a projeção moralista e politico-ideológica do resto da estrada. E é então que Frost enviusa o seu lado jornalístico e abandona por completo as personagens à sua sorte, e novamente citando os seus anteriores “instrutores” – “Jornalismo não é mais uma vocação, tornou-se numa oportunidade” – o lituano oportunista tende em iniciar a sua própria inquirição, a informação de um jornalismo democrático dos tempos que decorrem. Assim, o filme emancipa-se da comité road trip para envergar a linguagem da reportagem, abordando através do material alcançado, questões como o patriotismo e a militarização (neste último ponto fugindo da inevitável demonização).

 

get.do

 

E ao assumir-se como um cinema-reportagem, uma docuficção sem discursos evidentes de género, Sharuna Bartas condena a sua narrativa e deixa em suspenso a imunidade das suas personagens-criação. Um dos casos em que o lado documental engloba por completo qualquer ambição ficcional, trazendo à tona nos últimos minutos a delicada estética pelo qual o realizador nos deliciou em filmes como o tarkovskiano Try Dienos ou Few of Us, encerrando num belíssimo plano-zénite, onde a geada acaba por cobrir os olhares curiosos oriundos do outro lado – nós enquanto espectadores.

 

1261360_Frost-Web.jpg

 

De certa forma, Frost enchem-nos com essas duas realidades, aludido ao discurso da francesa Vanessa Paradis, a única estrela embutida no projeto, onde o amor e a tristeza integram o mesmo universo. Nesse sentido, é de esperar que o Cinema como motor de historietas e o jornalismo na busca da sua própria verdade, coexistem num mesmo e pleno seio.

 

Real.: Sharunas Bartas / Int.: Andrzej Chyra, Mantas Janciauskas, Lyja Maknaviciute, Vanessa Paradis

 

frost.jpg

8/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 00:17
link do post | comentar | partilhar

8.1.18

transferir (2).jpg

A Guerra, ali ao lado!

 

A esta altura do campeonato torna-se difícil separar Darkest Hour de um outro olhar sobre a crise de Dunquerque. Sim, refiro ao homónimo filme de Christopher Nolan, o qual tantas maravilhas foram dirigidas por esse Mundo fora. E nesse “concurso opinativo”, o mais recente filme de Joe Wright sai a perder no senso comum por simplesmente emanar a dita biografia classicista, erguido, como é o costume, pela omnipresença do seu ator principal.

 

MV5BMjE2ODY3NzA4MF5BMl5BanBnXkFtZTgwMzQwNjg2MzI@._

O conflito bélico em si, encontra-se visualmente ausente, mas verbalmente presente nos discursos dos seus lideres, um campo de batalha torna-se terreno politico que se vislumbra em “horas mais negras”. A assombração da guerra e um homem, o belicista primeiro-ministro Winston Churchill, que se torna na figura-chave de uma nação a passos largos a essa mesma “escuridão”, parecem não ser par para o explicito pomposo de Nolan. Porém, é aí que se enganam. Darkest Hour é em toda a sua condução (e perdoam-se as aventuras no cinema mais clássico a puxar pela Hollywood “banhada” pelos seus ídolos de ocasião), um filme pacifico com a nossa imaginação. Um retrato de um Reino Unido como uma ilha em pés de guerra, onde as verdadeiras “trincheiras” residem a milhas de distancia, mas é com as suas invocações verbais que o espectador é engolido por esse cenário sugestivo (apenas relembrado por pequenos detalhes sem a afiambrada explicitude).

 

MV5BMTg1NDQ5NjAwNF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTgzODA1NDM@._

 

Enquanto isso, Wright deixa-nos antever um aprumo técnico, a começar pela primeira sequência onde um picado navega por entre o parlamento inglês, causando uma extensão à sensação de conflito interno, o plano geralizado que dá lugar a um dinâmico conjunto a servir de preparativos para a enésima esquematização biográfica (recordamos a natureza teatral injetada num outro parlamento em Lincoln, de Spielberg). A luz, as sombras, tudo incluindo na fotografia de Bruno Delbonnel jogam a favor da avizinhada ansiedade e, em conformidade, a banda sonora rompante de Dario Marianelli assume o inicio de batalha como um rufar dos tambores (o tão profético confronto encontra-se ao virar da esquina). Obviamente, que Darkest Hour funciona como um objeto de requinte e de alguma classe no seu vigor vintage, e Gary Oldman é par para esse desafio, não fosse o facto da obra o apropriar como a sua força-motora. Apesar do “boneco imitador” que o ator contrai nesta sua composição (como os votantes e academistas tanto adoram premiar), é nessa coerência histórica indiciada na sua interpretação o qual Joe Wright trabalha como um vetor, o resto vem por acréscimo.

 

1ecd1ccb86a8bebdb67f117bff701e32117f1aa5067aa6284a

 

A certo ponto, sentimos esse classicismo a estorvar a seriedade do filme. Vejamos a sequência decorrida no metro, onde Churchill entra em contacto com os seus eleitores, acompanhado por um “belo” discurso de empório patriótico, e de inspirada manipulação para nos dar a ideia de que o “povo é quem mais ordena” naquele cenário sociopolítico. Enfim, rasteiras e mais rasteiras que não condenam de todo este Darkest Hour, mas o enfraquecem frente ao leque de biopics da award season. Mas em relação ao outro Dunkirk, a dominância das palavras e o uso sugestivo do trabalho de Wright adquirem uma dimensão fulcral e menos jubiloso em relação a tão proclamada obra de Nolan. E, verdade seja dita, puxando para trás, em 2007, Joe Wright conseguiu em 5 minutos aquilo que o outro não conseguiu em hora e meia. Nem sempre a quantidade é sinonimo de qualidade. 

 

Real.: Joe Wright / Int.: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane

 

lead_960.jpg

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 16:45
link do post | comentar | partilhar

4.1.18

transferir (3).jpg

Um desastre que não se resume a um desastre de filme!

 

Primeiro de tudo, The Room, o filme original de 2003, produzido, dirigido, escrito e protagonizado por Tommy Wiseau, é um desastre por inteiro, a questão é como encaramos esse mesmo acidente. Alguns afirmam que é o pior filme da História da Sétima Arte, outros vão mais longe garantindo que apesar de “mau” (um rótulo algo oligárquico para qualquer crítico de cinema), trata-se de uma espécie de obra-prima nesse mesmo sentido, e quiçá, uma transgressão da arte narrativa.

 

MV5BMDY5ZDUwOTEtOGQ1MS00MTNhLWJlYWEtMTEyOGI1YWE4ZD

 

Não falamos de reavaliação ou revisionismo, mas sim de um “cult” que estabeleceu o filme como um sucesso de matinés, uma troça involuntária que se metamorfoseou para uma espécie de comédia negra. E como todos os “descarrilamentos” existe um enredo a ser absorvido por detrás disto tudo, e tal aconteceu em 2013 com o livro The Disaster Artist, onde Greg Sesteros aborda todas as atribulações de uma produção “arriscada”, assim como a misteriosa figura de Wiseau. Foi essa mesma matéria que serviu de base para esta homónima adaptação de James Franco (que realiza e protagoniza), que a certo momento cita Titanic para espelhar a sua verdadeira natureza – uma iminente “catástrofe” a servir de cenário para o amor entre dois seres – neste caso especifico a amizade entre dois aspirantes a atores. Inadaptados envolvidos em fracassos contínuos que decidem traçar as suas próprias regras, por outras palavras, o seu próprio filme.

 

MV5BMzBmYTZmMTktODYyNS00N2U1LTk3MDktMWI3NzljNmM4Yj

 

Mas em relação a Titanic de Cameron, ficamos somente por esta sintaxe enviusada. O filme de Franco tende em ser um prolongado making of dramatizado que bem tenta conquistar os que de fora estão deste fenómeno “The Room”. Infelizmente, a própria fenomenologia é falhada. A matéria-prima é demasiado nicho para o mainstream e de forma a conservar essa atmosfera bizarra que entra em paralelo com o objeto real, Franco emancipa-se dessa habitual tendência do “contado a principiantes” e aventura-se na sua própria jornada pessoal. Com isto afirma-se que não encontraremos nenhuma experiência de qualquer estado, nem algo arriscado em termos de storytelling clássico. Nada disso, os marcos narrativos aristotélicos mantém-se como manda o cinema de entretenimento, mas a vénia a este Quarto de Wiseau, que é constantemente indicado como o objetivo definitivo.

 

MV5BMWNlODk4ZTgtNzMwYS00OWYxLWE3M2QtYTA2MTZiOTBmZT

 

E todo este jeito de homenagem faz bem à saúde de Franco, que para além de um ator em constante mimetização (o mesmo se pode apontar ao seu irmão e co-protagonista Dave Franco como Sesteros), é como realizador que deparamos com o seu melhor trabalho. Sim, este é o seu filme mais contido, o menos intimista e egocêntrico e sobretudo mais competente para fins comerciais, resultando numa compaixão terna entre criação e criador. Afastando-se da mera anedota, ou a caricatura de algo que por si merece a ridicularização, de que maneira funciona essa mesma? Tal depende do espectador. The Disaster Artist é um complemento dotado de carinho. É para ver, e desta vez sem a companhia de colheres.   

 

I did not hit her. It's not true. It's bullshit! I did not hit her. I did not. Oh, hi Mark!”

 

Real.: James Franco / Int.: James Franco, Dave Franco, Ari Graynor, Seth Rogen, Alison Brie, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Melanie Griffith, Sharon Stone, Tommy Wiseau, Danny McBride, Adam Scott, J.J. Abrams, Lizzy Caplan, Kevin Smith, Kristen Bell, Bryan Cranston, Zach Braff, Judd Apatow

 

MV5BMTk4N2UwMzAtY2UwMC00Y2ZmLThlNTMtNzQwOGUyYjlmMT

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 15:57
link do post | comentar | partilhar

3.1.18

transferir (1).jpg

A violência como estado de alma!

 

Três cartazes são implantados à beira de uma estrada para nenhures com o objetivo de desafiar as autoridades de uma cidade local. Cidade, essa, assombrada por um misterioso rapto e violação que terminou em tragédia para uma adolescente. O alvoroço desses placares é simultaneamente instalado nos habitantes dessa mesma localidade, cada um deles se colocando na posição dos agentes, liderados pelo carismático Xerife Willoughby, ou do outro lado, em minoria, pela mãe da vitima, e autora dos badalados “três cartazes à beira da estrada”.

 

MV5BNjc0Y2YwM2EtNDMwMy00M2JlLTgzYjgtY2U3NGQzNTRmMj

 

Eis um novo trabalho de Martin McDonagh enquanto realizador e argumentista, convocando mais um ensaio de violência, nesse caso emanando um caos silencioso (talvez recorrendo ao lugar-comum da avaliação de obras americanas atuais), um retrato de uma América sufocada pela sua mesma agressividade. Não é a Trumplândia que se tornou habitual abordar, mas a consolidação de um país imaginário, a dita Terra de Oportunidades de Tio Sam, espelhada como um território de morte e de condenados. São misfits, personagens puramente idolatradas pela violência do seu meio, esquecidas pelo regulamento do maniqueísmo fácil.

 

MV5BNTkxNzgwZTMtYmZhMS00YWQ1LWIyY2UtNmRmMDk2N2FjZT

 

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri remexe nesse leque de personagens. McDonagh aprendeu truques fáceis de escrita coenesca para persuadir e iludir o espectador neste seu ecossistema, principalmente na descartabilidade das figuras de fácil amor, erradicando a compaixão e desafiando-o a posicionar a favor daqueles que tudo menos fazem para conquistar-nos. Assim, como na vida real, nem todos os seres merecem a nossa comiseração, McDonagh reincide numa comunidade para esse mesmo feito. Porém, a violência transmitida na sua filmografia leva-nos a uma obra que cede facilmente a esse atos de primitividade. Em certo jeito, é como se fossemos transportados para a década de 70 no auge das missões de Dirty Harry e os seus métodos radicais. Os punhos que “calam políticos” e as balas que “exterminam” criminosos. Em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri deparamos com a mesma natureza, a crueldade reina em todo o seu esplendor, porém, nunca somos realmente envolvidos numa catarse, numa reflexão desses mesmos atos, ao invés disso numa prolongada cumplicidade.

 

MV5BNDFjNGRhNjAtOTJjMi00ZjFkLWExZjUtMWEwZTBlNTM5Nz

 

O final é perverso nessa mesma imperatividade, onde alianças forjam em prol de um ativismo brutalizado e determinado. Mas para as boas graças de McDonagh, a sua nova criação é um portento argumentativo invejável, mesmo que as temáticas estejam em desencontro com a ideia do público, estas são indiciadas pelo bem da escrita e pela confiança nestas personagens que são insuflados com vida por atores de requinte (Frances McDormand como não víamos desde os tempos de Fargo, Woody Harrelson e Sam Rockwell). Provavelmente, seja por incompreensão da nossa parte, acreditamos que apesar dos facilitismos ideológicos, este Três Cartazes à Beira da Estrada revela uma imagem de uma época. Quem sabe.

 

Real.: Martin McDonagh / Int.: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Kerry Condon, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Peter Dinklage, John Hawkes

 

MV5BMTk4NzE3NTY4NV5BMl5BanBnXkFtZTgwNTMwMDYxMzI@._

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:55
link do post | comentar | partilhar

23.12.17

83ea144249147a6fa08b2b639c25a152710f3ecc.jpg

A Máscara do Medo

 

A violência adquire um só rosto, uma face sem particularidades e características que se confunde na cara dos outros, assim como na nossa. Essa mesma máscara é adaptável a qualquer uma, basta as palavras proferidas serem mais leves que as memórias que essa mesma guarda. Do México, esse cenário de violência provinda de uma guerra narcótica e tribal, a corrupção do sistema e a negligencia quer dos silenciosos, quer dos silenciados, é matéria finita no cinema. O documentarista Everardo Gonzalez somente abandona a ficção e as suas armadinhas e abraça a primeira pessoa do panorama. La Liberdade del Diabo é um registo de histórias que nunca chegam a espelhar a total patologia social mexicana, mas são inacreditáveis as palavras de dor, rancor ou somente os testemunhos dessa mesma realidade que se ouvem através de um sistema de Fregoli.

 

laliberta_f02cor_2017110218.jpg

 

Pois, que se lixe a ficção a servir de “sala de pânico”, este “cinema verité” contido em talking heads encontra refúgio no anonimato de uma máscara comum. Esta experiência adquire a sua farsa, um tipo de farsa que Joshua Oppenheimer executara no seu díptico The Act of Killing / The Look of Silence, uma encenação utilitária para a invocação de uma verdade de difícil extração. Em La Liberdade del Diabo, a farsa é simbolizada pelo disfarce facial, o lado ficcional dessa coletiva de memórias infelizes. O sofrimento e a crueldade estão de mãos dadas para a conceção de uma narrativa, neste documentário que conduz-se com emergência e choque para todos aqueles que encontram a segurança no conforto do lar (ou da sala de cinema).

 

la-libertad-del-diablo.jpg

 

Existe em Gonzalez um certo ar de perverso voyeurista, mas essa curiosidade que “por vezes mata o gato” indicia um ativismo. Se é eficaz ou não para com o espectador, isso advém da sua perspetiva e sensibilidade. Contudo, quem nos dera que o tão “conceituado” Wang Bing fosse assim. Tão urgente e menos ocidentalizado. Enfim…

 

Filme visualizado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Everardo Gonzalez

 

 

La-libertad-del-Diablo (1).jpg

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 16:14
link do post | comentar | partilhar

13.12.17

Roda Gigante.jpg

Na roda da desventura!

 

Podemos reconhecer, a partir do ano 2000, dois factores benéficos para a “sobrevivência” do cinema de Woody Allen. A primeira, Scarlet Johansson impulsionou um novo fôlego e dinâmica na cooperação entre actor/autor. É evidente que um dos melhores trabalhos do nova-iorquino nasceu daí, Match Point, um revisitar aos temas de adultério e crimes passionais que havia estabelecido no seu Another Woman(Uma Outra Mulher). E como segundo ponto temos a vinda do director de fotografia Vittorio Storaro, cuja  entrada no universo Woody enriqueceu esses emaranhados de histórias com uma visão preparada, cuidada ,e sobretudo, atribuindo a artificialidade que o seu cinema há muito desesperava.

 

MV5BMTQ0NWY5MDMtZDNhNC00NTBiLWFlODgtNzAwYjcxMDc2Ym

 

Nesse sentido, depois de Café Society, este Wonder Wheel (Roda Gigante) é, até à data, o filme que estabelece esse bem cooperativo, a fotografia que enquadra-se no ambiente pseudo-fantasioso de Coney Island e que respira por vontade própria. O artificialismo referido assinala-se como uma leitura dessa mesma fantasia, o escapismo visual que indicia uma transformação. Deste modo, a fotografia de Storaro converte-se do dito requinte estético, o clima que nos transporta ao seu ambiente natural, para uma tendência de expressionismo. Os atores respiram através desta mesma imagem, das cores que nos transmitem, enquanto espectadores, uma atitude reactiva em relação às suas emoções, pensamentos e, porque não, devaneios.

 

MV5BMTg3MDZlNmYtMzdhNC00MWRkLWJjOTMtZDA2YThhYzY2OT

 

Mas fora do ponto visual, que nos saliva, Wonder Wheel é um filme que curiosamente esclarece a veia de Woody Allen enquanto, sobretudo, argumentista. O seu apetite pela tragédia e a forma como a nos entrega, um exercício de dispositivos narrativos que maltrata as suas personagens. Estas, indiciadas como cobaias desse mesmo tubo de ensaio – a busca pela tragédia propriamente dita e de que forma atingi-la. Se é bem verdade que encontramos na personagem-guia (um nadador salvador com apetite pelo dramático personalizado por Justin Timberlake) um espelho do Allen voyeurista, é também indiscutível que essa mesma raiz o condensa num marco de direcção para o arranque desta desventura. As personagens vivem uma mentira, insinua a certa altura Timberlake, código genético destes peões que habitam no mais “fraudulento” dos locais, Coney Island.

 

MV5BNDJmNGM3ZTQtZmFhOC00OWMyLWFiMGUtYTQ2YzdkMTNlZT

 

Existe sobretudo uma rivalidade entre essas “mentiras” que disputam pelo quotidiano dos viventes, a feira que assume o decor e o cinema, constantemente trazido à baila, como uma alternativa aquela matéria algo circense. Estas feiras temáticas eram em tempos a prioridade na distracção dos habitantes de Nova Iorque, porém, encontraram-se condenadas pela popularidade crescente das salas de cinema, pelo facilitismo da projecção e pela qualidade da experiência que se poderia experienciar aí.

 

MV5BZTE2NGQ2ZTItMjhmZC00Mzk3LWE4YTEtOGFhOWY3NGI5OD

 

Apesar da aparente extinção dessa Coney Island levada da breca, o Cinema poupou-o do esquecimento, conservou-o nas suas fitas, um tributo de um entretenimento ao seu antepassado. E acrescento, foi com Coney Island que o cinema norte-americano seguiu em passos  na sua linguagem ao encontro do real, com Little Fugitive (Ray Ashley e Morris Engel, 1953). Contudo, em Wonder Wheel, a narrativa declara o seu fascínio trágico no qual circula ao encontro dessa mesma “ferida”. A tragédia assim proclamada como um substantivo sólido é a combustão dessa mesma trama, e a rainha desta, Kate Winslet, prova ser a maravilha disputada. Talvez em Wonder Wheel deparamos com o inicio de uma nova faceta de Woody Allen. A ver vamos.

 

Real.: Woody Allen / Int.: Kate Winslet, Jim Belushi, Juno Temple, Justin Timberlake

MV5BODRiYWQ4MjEtYjdmYy00YTY4LTllZjctYWE4NWZjMGNmZm

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:58
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Jogo da Alta-Roda.jpg

Que o jogo comece …

 

Existe uma imagem (uma das muitas é claro) definida naquilo o qual chamamos de senso comum do Cinema. Essa, de que a mulher é vista como uma espécie de engodo, uma distracção útil nas mesas de poker. Assim como o ilusionista precisa da sua assistente para “controlar” os olhos do público, no poker, a mulher instala uma certa desestabilização na mente dos oponentes do baralho. Em Molly’s Game, tendo como base o livro da “intitulada princesa do pokerMolly Bloom, a distracção encontra-se na actriz Jessica Chastain, para além da sua colecção de decotes que pavoneiam como desestabilizadores do olhar do espectador, o seu desempenho serve com isso, deixar em aberto a própria opinião do mesmo em relação do espectáculo que indiciamos.

 

MV5BNmJmNDUyZTAtMWQ0Yi00NTZhLWFiOTctZjYzODY1ODNhYm

 

Porque aquilo que deparamos não é mais que a primeira experiência de Aaron Sorkin (possivelmente o mais conceituado dos argumentistas do activo em Hollywood), no cargo de realizador, o resultado era tudo que se poderia esperar de alguém que dá uso à sua imaginação para idealizar um storytelling, mas nunca a capacidade de materializa-lo no grande ecrã. Nota-se, não o nervosismo, mas a transferência de experiências que condensam a sua noção de narrativa visual. Há uma tendência ao conto “chico-esperto” à lá Scorsese (talvez a pretensão maior de arte cinematográfica fecundada para os lados de Hollywood), atravessando um registo de flashbacks sob o apoio da voz-off que não deixa pormenor algum ao espectador, a abordagem de um negócio ilícito levado como uma doutrina de etapas indulgentes, soando um livro da colecção “para totós” do que relato de vivências. 

 

MV5BMTU2NjY4NjM2OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNDcyMzIyMzI@._

 

Esta suposta transparência tenta dar a Molly’s Game um ar de irreverência, ousadia e rebeldia social em relação à temática, mero engodo que nos encaminha à cedência de uma profunda fábula moralista, com pé carregado no “preto-e-branco”, na lavagem ética da sua protagonista e nas costuras do seu passado, dando uma ênfase psicanalítica das suas ações. Dito isto, Molly’s Game é um mero produto autobiográfico sem condução para mais do que o aproveitamento do “verídico” como marketing ganho.

 

MV5BMTYzNjczMTkyM15BMl5BanBnXkFtZTgwODcyMzIyMzI@._

 

Em relação à sua protagonista-engodo, Jessica Chastain encontra-se, de facto, em plena forma; porém, mais uma vez referindo, uma distracção que nos atraiçoa, colocando o espectador como um “cego”, frente às irregularidades desta grande “aposta” (o avanço para realizador do argumentista de The Social Network e de Steve Jobs). No final, fica o conselho: Aaron Sorkin … continua como argumentista e mantêm-te nessa posição, se faz favor. 

 

Filme visualizado no âmbito do 11º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Aaron Sorkin / Int.: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Jeremy Strong, Michael Cera, Chris O'Dowd

 

MV5BMTUzMTAzNDk5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwNjcyMzIyMzI@._

4/10

publicado por Hugo Gomes às 15:45
link do post | comentar | partilhar

30.11.17

ows_150724296789141.jpg

Um cowboy de boxers a regar o seu cacto, uma imagem que marca qualquer cinéfilo que recorda precisamente deste homem situado algures entre Paris e Texas. Trata-se de Harry Dean Stanton, naquele que é o seu desempenho final, o derradeiro filme que começou como uma celebração e terminou numa marcha fúnebre.

 

John Carroll Lynch desconhecia essa transformação. O actor conhecido por filmes como Zodiac, Gran Torino e da série American Horror Story: Cult, avança para o cargo de realização numa primeira, mas emocionalmente desafiante obra. A experiência adquirida, a sabedoria recolhida através dos seus protagonistas, das memórias guardadas e da vontade alimentada de estar no outro lado da câmara. O Cinematograficamente Falando … falou com John Carroll Lynch, o realizador de Lucky.

 

Como descreve esta sua primeira experiência como realizador numa longa-metragem?

 

Tentei trazer a minha experiência para esta nova experiência. Na altura que estava a filmar tinha 32 anos como ator e isso influenciou bastante a minha abordagem com os atores, desde a nível de vocabulário até à confiança que depositava e recebia deles. Acreditava que o meus atores eram capazes de atingir os seus objetivos de representação através dos métodos que selecionavam. Contudo, como primeira experiência como realizador, tive que aprender bastante sobre o oficio, e consegui através do processo de rodagem. O filme estimulou o meu intelecto e com isso descobri capacidades que desconhecia. Enquanto actor, a minha experiência adquirida proporcionou-me uma boa perceção a nível narrativo, mas ainda encontrava-me na curva da aprendizagem. Respondendo à tua pergunta, não consigo concretamente descrever esta minha iniciação na realização, porque foi exatamente isso, uma iniciação … uma experiência nova.

 

Durante o processo de rodagem descobriu algo de si que desconhecia” … o quê exatamente?

 

Descobri alguns aspetos surpreendentes em relação à minha pessoa. Por exemplo, desconhecia o facto de ser bastante paciente, algo que apenas notei durante esta minha experiência. Outro fator que descobri sobre mim foi, até certo ponto, a capacidade de decisão. Obviamente que tinha colaboradores que sugeriam, e com isso debatíamos ideias, mas a minha palavra enquanto realizador era a definitiva. Fiquei surpreso por deparar-me com essa aptidão pela decisão. Como acréscimo, a minha diplomacia. Mas alguém teria que decidir, e essa pessoa era eu. Isso revelou-se crucial na maneira como lidei com este projecto.

 

lucky-1300x867.jpg

Como surgiu a escolha de Harry Dean Stanton? O filme mudou com a sua chegada ao elenco ou já estava tudo definido no argumento?

 

Obviamente. Não existia mais ninguém para o papel. Este projeto nasceu e idealizou-se através da imagem de Harry. Quando debati com os dois argumentistas e com os produtores que “embarcaram” neste projeto, todos nós, por unanimidade, afirmávamos que este papel era exclusivo para ele. Se Harry dissesse que não, ou se Deus quisesse, ou o levasse antes do tempo,  este filme nunca seria feito. Não havia, nem haveria, substituto.

 

Deparamos aqui com um caso de um filme que se transformou com a tragédia de Harry Dean Stanton. Acredito que Lucky não foi concebido para ser uma homenagem.

 

Infelizmente, não estou num universo onde Harry Dean Stanton vivesse tempo suficiente para ver o filme, por isso não tenho nenhuma noção acerca dos seus pensamentos e sentimentos acerca deste. Mas sim, o filme mudou, simplesmente porque os espectadores trazem essa informação com eles quando o veem. A obra alterou com essa perceção, principalmente com a maneira como encerra e até mesmo nalguns diálogos. É a realidade, ou como Lucky diz, “realism is a thing” [realismo é algo].

 

A verdade é que quando terminamos de filmar, nenhum nós preveria que Harry Dean Stanton morresse antes da estreia do filme. Ele encontrava-se completamente saudável. Quer dizer, estava nos seus 90 anos mas continuava com uma “saúde de ferro”. Só depois, quando a saúde dele começou a fraquejar, aí sim, pensei no inevitável: “ele não vai sobreviver até à première”. Foi a primeira e única vez, porque como nós sabemos ele faleceu duas semanas antes da estreia.

 

Com aquela idade, a morte é algo que já faz parte do nosso pensamento. Não era impensável. Mas ninguém previa. Acreditávamos que ele duraria mais. Contudo, o que quero dizer é que Lucky foi concebido uma celebração à sua pessoa, não uma elegia.

 

Em Lucky reparamos que a personagem principal foi escrita exclusivamente para Harry Dean Stanton. Apesar da transformação, e tentando abstrair desse contexto, nota-se uma espécie de saudação ao ator nesta personagem. Desde a sua caracterização até às reuniões com outras personagens.

 

Sim, e isso está implícito no filme assim como esteve no argumento. Não só apenas reuniões, mas também à sua “personagem”. Acho impossível termos o Harry Dean Stanton a vaguear no deserto e não, automaticamente, pensar em Paris, Texas, por exemplo. Encarei toda esta homenagem direta e indiretamente como algo verdadeiramente interessante. Poucos filmes conseguem isso.

 

harry-dean-stanton-lucky.jpg

 

Mas também é verdade que o filme recupera outra personalidade. James Darren, que não entrava numa produção cinematográfica desde 2001.

 

Foi incrível o facto de o termos no filme. James Darren trabalhou com um dos produtores de Lucky na série Star Trek: Deep Space Nine. Contudo, a entrada dele no projeto foi bastante curiosa. O actor que inicialmente iria fazer o seu papel teve que sair devido a conflitos de agenda, sendo que, como não tínhamos nenhum para interpretar a personagem e que continuávamos a procura do ator certo, combinei com Harry filmar as sequencias de casa todo o domingo. Certo Domingo, a caminho do local, encontro o carro do James Darren avariado à beira da estrada. Encosto e pergunto-lhe o que aconteceu. Ele respondeu que o carro tinha avariado e eu disse o seguinte: “olha, eu sei que este não é o momento indicado, mas estou a rodar um filme e um dos atores teve que abandonar. Se quiseres eu envio-te o guião e a partir daí, aceitas ou não

 

Darren aceitou a proposta e quarta-feira já estávamos a contar com ele nas filmagens. Mas a maneira com que ele “agarrou” aquele papel, alterou para sempre a personagem, e a química desta com os restantes atores. Ele trouxe uma variação de dureza e ao mesmo tempo doçura à personagem. Alterou por completo a via do filme.

 

Mas existe algum teor autobiográfico na sua personagem? Eu senti isso.

 

Julgo que a personagem dele nada tem de relacionado com material autobiográfico, até porque já estava escrito. O feito dele foi transformar esses diálogos, essa aura, em algo próprio da sua figura. O contexto de “nicles” que a sua personagem até a certa altura diz, veio com ele. Agora, falando disso, recordo-me da confusão que houve em tentar traduzir aquilo para legendas. Em Locarno, houve uma espécie de “lost in translation” com a palavra “nicles” (ugatz), julgo que foi traduzido para “il cazzo”, que tem um significado completamente diferente, o que não deixou muito feliz os próprios italianos que assistiam o festival.

 

Mas voltando ao ponto da personagem que se confundia com Harry Dean Stanton, e tendo em conta, não o filme, que nos leva à dúvida, mas a sinopse oficial de Lucky que refere a crise existencialista de um ateu. Pela sua experiência com o ator, consegue dizer se essa “fé” é partilhada pelo homenageado, ou simplesmente pela homenagem?

 

Quer dizer, ele como Harry acreditam 100% que não existia Deus. Que depois da vida não existia nada. A personagem lida com isso enquanto questiona os seus termos de mortalidade. Lucky detém uma visão distinta do fim da vida que os cristãos, por exemplo, ou os budistas, que acreditam na reencarnação, não têm. O que tentei fazer aqui não foi uma demanda pelo divino e dessa vida pós-morte. O que fiz foi transmitir a visão de quem acredita no nada. No nascer, viver e morrer simplesmente.

 

lucky_harry_dean_stanton_courtesy_magnolia.jpg

 

Mas é curioso o facto da personagem principal ser um ateu, visto que em Hollywood e muito do outro cinema norte-americano, eles são vistos como “ferramentas morais”.  Seres impuros que no final encontram o castigo ou a discórdia daquilo que sempre acreditaram. Você trouxe dignidade a essa faixa.

 

Sim, o ateísmo niilístico não é pessimismo, é realismo. Eles podem não acreditar em nada, mas se não houver “fé” na Humanidade ou  simplesmente no próximo, não podem existir. Acredito que o ateísmo é o equivalente ao aumentar a expetativa, a equação da noção de mortalidade, e isso não muda aquilo que queremos fazer, como viveremos na verdade ou na realidade. Não basta visitar Deus no seu templo diário. O ateísmo como as outras religião tem como base a escolha. Como nós, escolhemos viver a vida tendo noção da nossa própria mortalidade.

 

Para Lucky, o seu templo era a sua rotina quotidiana, desde o dinner onde almoçava até ao bar que frequentava todas as noites.

 

Obviamente, mas tudo é uma fachada. Quando algo lhe atinge, Lucky começa a questionar essa mesma rotina, essa sua crença. Esse templo.

 

Quanto a novos projectos? Irá se manter como realizador?

 

Bem, estou bastante “apaixonado” por uma história. Tenho um amigo meu que é escritor e não faz qualquer questão que adapte a sua história, a qual gostei imensamente. Quero alargar sobretudo a minha experiência na realização.

 

Curiosamente, o que levou a apostar na direção foi que há 16 anos atrás fiz uma curta com um ator chamado Drago Sumonja [risos]. Ninguém esperava por isso. A verdade é que, no ponto-de-vista de Harry, não fazemos as coisas acontecer. As coisas acontecem. Ponto. E para ser sincero, neste aspeto, ele está absolutamente certo. 

 

lucky-trailer-820x550.jpg

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 19:04
link do post | comentar | partilhar

26.11.17

thumb_52638_media_image_1144x724.jpg

Tesnota, do jovem realizador russo Kantemir Balagov, torna-se no grande vencedor da 11ª edição do Lisbon & Sintra Filme Festival.

 

Balagov é considerado um dos autores mais promissores de 2017, o seu Tesnota foi apresentado pela primeira vez na secção Un Certain Regard do último Festival de Cannes tendo sido laureado com o Prémio FIPRESCI. Tendo como enredo um rapto numa comunidade judaica na Rússia, a longa-metragem conquista o Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre, e ainda o Prémio Revelação TAP atribuído à actriz Olga Dragunova. Cocote, de Nelson Carlo de Los Santos Arias, recebe Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa. O júri da Competição Oficial foi composto pelos cineastas David Cronenberg, Ildikó Enyedi, a pianista Momo Kodama e as escritoras Hanan Al-Shaykh e Ersi Sotiropoulos.

 

Visto como uma das grandes apostas para os Óscares, Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome), de Luca Guadagnino, foi o escolhido pelo público para o respetivo Prémio. Em relação às curta-metragens, A Man, My Son, de Florent Gouëlou (La Femis - Paris), triunfa o Prémio, enquanto  que Les Yeux Fermés, de Léopold Legrand (Institut National Supérieur Des Arts Du Spectacule - Bruxelas), e Heimat, de Emi Buchwald (The Polish National Film Television And Theater) recebem uma menção honrosa. O júri era composto pelas realizadoras Bette Gordon, Stéphanie Argerich e Olga Roriz.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 10:30
link do post | comentar | partilhar

25.11.17
25.11.17

transferir (1).jpg

Gipso-realismo!

 

Abram alas!! Temos um novo universo partilhado cinematográfico, conceito nada de novo, digamos, nem sequer devedor do mercado glutão dos super-heróis e monstros ambulante. A utopia aqui descrita em A Ciambra, que interliga com Mediterranea, é uma réplica social e étnica de uma Itália sob as crises existenciais e identitárias.

pio-amato-a-ciambra-01-600x350.jpg

Porém, avança-se que Jonas Carpignano não se interessa em criar panfletos de reinserção social, ao invés disso preenche a tela com outra tela, um reflexo da nossa realidade, sem filtros nem moralidades enxertadas. A Ciambra, que segue um jovem de etnia cigana perante uma reafirmação de status, o da sua comunidade, assumindo como um elemento patriarcal e da sociedade que o rodeia e o rejeita, é a atualização de uma homónima curta da autoria do próprio Carpignano, um revisitar aos elos e às hospitalidades por vezes hostis.

 

18-a-ciambra-2.w600.h315.2x.jpg

 

Assim como o coming to age vivido pelo protagonista, de criança a adulto forçado, esta curta a longa desvia a atenção de qualquer compaixão ou solidariedade por parte do espectador. Filma-se a seco, invocando as raízes do neorrealismo italiano, deixa previsível por aqueles ares de contexto social, mas é nas infâncias renegadas de um Zero em Comportamento de Jean Vigo ou das delinquências escapistas de Antoine em 400 Golpes do nosso amigo Truffaut, que A Ciambra bebe diretamente da fonte. Fora as particularidades étnicas e sim, também eles, éticas, Jonas Carpignano retrata a adolescência tortuosa de qualquer um, sem cor, sem divergência cultural e sobretudo sem os maniqueísmos pedagógicos que atormentam o cinema (para) jovens.

 

MV5BOWE3NTI4MGYtOThjMC00NDA0LWEzZGYtYjUzYmY1NjFkMW

 

Portanto esse formalismo do real, o culminar de 100 anos de aproximação da Sétima Arte com a nossa visão estandardizado do mundo envolvo, A Ciambra funciona como um dos rebentos dessa inteiração, se alguns apelidam na ressurreição do novo realismo conterrâneo, outros falaram na maturidade da câmara em lidar com o verité (verdade) das suas ações. Assim como um rapaz que conheceu uma rapariga é imbativelmente na maior das odisseias cinematográficas, a criança em linha direta ao mundo adulto não fica atrás.

 

Filme visionado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Jonas Carpignano / Int.: Pio Amato, Koudous Seihon, Damiano Amato

 

Poster_part.jpeg

7/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 01:28
link do post | comentar | partilhar

24.11.17
24.11.17

Lucky.jpg

Harry Dean Stanton morreu! Longa vida a Harry!

 

Lucky metamorfoseou, não durante o seu processo de criação e idealização, mas adaptando locucionariamente o seu discurso para os tempos que o abrangem. E quem o confirma é o próprio realizador, John Carroll Lynch, actor de longa carreira aventurosa na sua primeira longa-metragem. Este concebeu a obra como uma celebração ao actor Harry Dean Stanton, porque em todo ele, uma personagem-tipo, concentrava todos os elementos e aspecto no qual o identificamos acima da ficção, e sobretudo fora da realidade desconhecida, a figura que a cinéfilia nos impôs - o Harry Dean Stanton que o cinema criara.

harry-dean-stanton-lucky.jpg

Mas a tragédia bateu à porta do ano 2017. O célebre actor de Paris, Texas deixou-nos; uma despedida que transforma o célebre numa melancolia prolongada, a celebração torna-se assim numa homenagem fúnebre, e a personagem-tipo num esboço da memória cinéfila. Provavelmente, com o infortúnio, Lucky adquire uma dimensão que o favorece, o “cowboy” solitário que vive a sua rotina como um “safe place” e que perante o primeiro sinal vindo do ceifeiro questiona todo esse ciclo, é agora uma cuspidela” na cara da Morte”, um sorriso malicioso perante os desfechos incutidos pela sociedade.

lucky2-716x485.jpg

Haverá vida depois da morte?” Para Lucky a vida é única e sem acréscimos, a Morte é o fim e imperativamente aceite. “The only thing worse than awkward silence: small talk” (Pior que o silêncio constrangedor é a conversa barata). Harry Dean Stanton projecta o seu eu” num sofrimento invisível, uma espécie de solipsismo que adereça o seu quotidiano, encarado com uma automatização sacra e uma ironia crescente.

lucky-trailer-820x550.jpg

Sentimos que o actor não esmera em criar algo novo na sua partitura interpretativa, nem há sentido para tal, é a memória funcional a insuflar com vida este “farrapo humano”, um homem posicionado entre a sugestão e o segredo, a coragem e o medo, que tende em ceder por entre fissuras em relação à maior das doenças da Humanidade: a velhice, consequencialmente a solidão e o fim de um legado. A personagem é só, mas o filme não acolhe um sentido miserabilista perante a sua pessoa; é só porque assim o espectador o sente, mais do que as palavras proferida ocasionalmente sobre o assunto. “There's a difference between lonely and being alone" (Há uma diferença entre solidão e estar só), ou dos temas quase paradoxais induzidos num bar de esquina, tendo como parceiros do crime", um ressuscitado James Darren e um David Lynch como consolo da tão referida memória.

filmlucky_2017_harry_dean_stanton1.59c169b752511.j

E em orquestração com essa, o encontro com outro parceiro, Tom Skerritt, 38 anos depois de Alien, a invocar a Morte como um vilão pelo qual escaparam e que mesmo assim vivem no receio da eventual riposta. O sorriso aqui aludido que será transmitido nas proximidades do final - a essência que pedíamos após a desintegração completa da rotina vivente. Apela-se à anarquia tardia. Ou será antes rebeldia? O olhar matreiro de Stanton proferindo um último discurso, uma última resposta para o seu fim. Para depois seguir ao seu Paraíso, o leito dos laicos, o deserto que o acolhera no seu apogeu e que tanta vida reminiscente oculta.

lucky-600x338.jpg

Mesmo que Stanton aposte no “realismo” que acabara de definir (“realism is a thing”), e nas verdades entre indivíduos que nunca corresponde uma verdade absoluta, este cantinho transforma-se o seu Éden, prevalecendo memórias e garantido o merecedor descanso eterno. Isto acontece porque o sentido alterou com o contexto, a celebração aos vivos é agora uma dedicada canção para os mortos. 

 

Real.: John Carroll Lynch / Int.: Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston, James Darren, Beth Grant, Tom Skerritt

 

Lucky.jpg

8/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 14:46
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

image004.jpg

Robert Pattinson estará presente na 11ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival. O actor que se tornou mundialmente famoso com o fenómeno Twilight irá apresentar duas sessões do festival. Hoje, pelas 21h00, estará presente no Centro Cultural Olga Cadaval, ao lado do escritor Don Delillo, para apresentar Cosmopolis, a sua colaboração com David Cronenberg que resultou numa atípica versão de um mundo à beira de uma apocalipse económico.

 

No dia 25, Pattinson estará no Cinema Medeia Monumental para a projeção de Good Time, dos irmãos Safdie, obra que concorreu à Palma de Ouro do último Festival de Cannes e cujo seu desempenho foi, acima de tudo, elogiado. A sessão será seguida por um Q&A com o actor.

 

O 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, decorre em Lisboa (Cinemas Monumental, Nimas, Amoreiras; Teatro Nacional D.Maria II) e Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval, Palácio de Queluz, MU.SA-Museu das Artes de Sintra), até dia 26 de Novembro.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 07:36
link do post | comentar | partilhar

22.11.17

transferir.jpg

As Guardiãs do Mundo Moderno!

 

A adaptação do livro de Ernest Pérochon remete-nos a uma Guerra de sombras, invisível e igualmente furtiva. Depois dos homens partirem para as batalhas longínquas, as mulheres permanecem nas suas residências, mantendo, para além do negocio familiar, as réstias do quotidiano em “tempos de pacificidade”. Xavier Beauvois é dotado em dar visibilidade a conflitos invisíveis, mesmo que neste Les Gardiennes a questão do não-visível é por vezes traída pela dimensão onírica, “prisões traumáticas” nos retornados, cujo espirito continua refém dos horrores da Guerra infestada. Contudo, é na reconstituição histórica e sobretudo social que o filme vinga como um diálogo do passado em relação ao presente dominado por movimentos e ativismos - é a causa das Mulheres em inverter o enganado estatuto de “sexo fraco” e a confirmação da sua importância para o funcionamento das estruturas sociais.

MV5BZmQ1YmM5NmMtYjE0My00Yjk1LTg4Y2QtNjRiZDE0ZDQ0OD

Todo este discurso parece saído de fora, como um estrangeiro que observa a cultura de outrem, mas é nessa “estranheza” perante a força destas mulheres que o filme adquire um tom quase lisonjeador, admirando de perto como de longe uma distorcida alusão às comunidades de O Senhor das Moscas (ou diríamos as Amazonas do século XX). Este retrato pseudo-bélico é trabalhado não só no sentido das personagens, como do cenário criado. Sim, por vezes Beauvois abdica do lado ficcional para orquestrar um ensaio de História recontada, desde os avanços tecno-agrícolas que faz questão de inserir em prominentes travellings (paralelismo com o mesmo processo de O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira) até às tendências bucólicas desta outra-França.

Iris-Bry-saca-partido-gardiennes_1188491209_745188

Mesmo soando a rigor nessa “réplica de costumes”, Les Gardiennes expõe uma faca de dois gumes, é simplista (ora que bem, ora que infelicidade). Essa modéstia, talvez melhor adjetivo, implica um tratado de cortesia entre realizador e a sua matéria, sem nunca transgredir, nem sequer atraiçoar as mensagens e moralidade aplicadas. Se é a força das mulheres que queremos mostrar, é a forças das mulheres que terão (manifestada desde a veterana Nathalie Baye como topo de uma hierarquia improvisada, em contraste pela novata Iris Bry em vestes de marginalidade).

as-guardias.jpg

Contudo, a técnica encontra-se presente - realçamos a fotografia de Caroline Champetier (hipnotizada pela secura dos campos e da poeira emanada pela terra fértil) – o espelho-refletor desta ruralidade e as aptidões brutas de um campestre a servir de invocação aos primórdios do Cinema. Como sabem, ELE nasceu como captação da vida de “ninguém”, do trabalho árduo desses “escravos da terra" e das ritualizações hoje semi-extintas pela modernidade dos nossos meios.

 

Filme visualizado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Xavier Beauvois / Int.: Nathalie Baye, Laura Smet, Iris Bry, Cyril Descours

 

Les-Gardiennes-Feature.jpg

 

 

7/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 13:43
link do post | comentar | partilhar

21.11.17

MV5BZmQ1YmM5NmMtYjE0My00Yjk1LTg4Y2QtNjRiZDE0ZDQ0OD

Para a ‘novata’ Iris Bry, a sorte bateu-lhe à porta quando o seu primeiro papel no cinema é num filme de Xavier Beauvois, o aclamado realizador Dos Homens e dos Deuses, que se aventura numa outra Guerra numa outra França em As Guardiãs (Les Gardienners).

 

Adaptado do livro de Ernest Pérochon, este é um filme sobre as mulheres a assumirem o papel dos seus ausentes maridos, que são forçados a travar uma guerra global. A atriz reconhece que estas ditas mulheres tornaram-se verdadeiras feministas, porém, sem elas realmente o saberem, exibindo a força de um sexo sempre assumido como “fraco”, aqui capazes de equilibrar e fortalecer uma comunidade em risco de “desabar” perante conflitos bélicos a quilómetros de distancia.

 

O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com a jovem atriz, deslumbrada por um primeiro papel que foi mero acaso e pelas mulheres que se resumiram como verdadeiras Amazonas do século XX.

 

Tradução de Jorge Pereira (C7nema.net)

 

Esta é a sua primeira experiência na atuação. Como correu toda esta experiência?

 

Efetivamente sim, esta é a minha primeira experiência, principalmente porque eu não estava predestinada a fazer Cinema, nem sequer fiz a escola de Teatro nem tinha o sonho de ser atriz. Foi bom porque foi um primeiro filme com um primeiro papel e com um realizador como Xavier Beauvois, para além de uma produtora incrível, um famoso diretor de fotografia. E o mais incrível foi ter sido encontrada por uma diretora de casting na rua, que me pediu para ir a um casting. Disse que sim, um pouco por curiosidade, pois tinha uma outra profissão um pouco diferente antes disso. Fui e dois ou três meses mais tarde estava envolvida nesta aventura.

 

Sendo este um filme preenchido mulheres fortes, o qual têm de sobreviver na ausência dos homens, como se enquadrou com esse tema?

 

Nós abordamos o assunto de uma forma histórica. Tudo isto realmente aconteceu durante a Guerra. As mulheres tiveram de assumir todos os trabalhos dos homens, tanto nas cidades como no campo. O Xavier tinha um historiador com ele a toda a hora, principalmente durante a escrita do guião, mas depois também, durante as filmagens. Na verdade, este filme é adaptado de um livro que o realizador não quis que eu lesse, pois ele achava que isso iria-me condicionar.

 

Iris-Bry-saca-partido-gardiennes_1188491209_745188

 

Depois foi seguir a ideia histórica, os homens estão na frente [da Guerra], as mulheres devem-se desenrascar sozinhas. Informei-me sobre o assunto. Li um livro de uma historiadora, Françoise Thébaud, Les femmes au temps de la guerre de 14-18, mas não fiz um trabalho intenso de pesquisa, deixei-me surpreender. Claro que com a ausência dos homens, para as mulheres foi muito difícil, mas este é um filme onde a ação não é desencadeada forçosamente pela Guerra. É um filme sobre a Guerra, sem ser sobre a Guerra [em si, dos combates]. Mas quanto a mim, sinceramente, fui para os sets para me deixar surpreender pela aventura das filmagens..

 

E historicamente, sim, é incrível, depois dessa Guerra muita coisa mudou entre homens e mulheres, pois o nosso direito de voto chegou logo depois. As mulheres deixaram de ter de fazer apenas “as suas coisas”. Elas fizeram um trabalho gigantesco nesse período. Não temos dados certos, mas é um facto que muitas dessas mulheres nos trabalhos rurais morreram de tuberculose. Nos monumentos aos mortos, em toda a França, em todas as vilas, há estátuas ao soldado desaparecido da Primeira Guerra Mundial, mas às mulheres, não existe rigorosamente nada. Existem [memoriais] a algumas enfermeiras, duas ou três figuras femininas, mas nada mais.

 

E como se preparou para esse papel?

 

Fisicamente, treinamos como tratar dos animais, conduzir as carroças, cortar a madeira, etc. Treinei durante três meses antes das filmagens para dar credibilidade, mas para o papel em si… o guião mudava todas as semanas e para o Xavier o guião é um trabalho constante. Na verdade, não tivemos discussões de horas e horas com o Xavier para saber mais sobre a psicologia da Francine. Não é de todo a sua maneira de trabalhar. Ele sabia que era a minha primeira experiência nos sets, e como tal dava-me confiança. Ele dirige muito bem os atores. Mostra-nos aquilo que devemos dizer, fazer, transmitir.

 

Resumindo, houve duas partes da preparação: uma primeira física e uma segunda mental, de reflexão sobre a personagem.

 

as-guardias.jpg

 

Nota-se que houve uma evolução psicológica na sua personagem ao longo do filme…

 

Nós não filmamos as cenas da Francine cronologicamente, mas quase. A primeira cena que filmamos foi a chegada da Francine à quinta de Le Paridier, a última foi a cena do baile, em que ela canta. Por isso, era a vontade do Xavier em fazer evoluir a personagem. Nós fizemos duas sessões de filmagens, para filmar o verão e o inverno. E esta segunda parte das filmagens concentrava-se nos momentos em que a Francine está grávida.

 

Se pegarmos simplesmente na história de Francine do filme temos um bom exemplo como pela força das coisas, certas mulheres tornam-se feministas sem fazer nada por isso, apenas tornam-se pela força das circunstâncias, como as mães solteiras, que têm de tratar de tudo sozinhas. A grande particularidade da Francine e do seu filho é que ela diz que quer tomar conta dele sozinho e quer-lhe dar o seu nome. E isso era algo importante na época porque as mulheres queriam dar um nome mais importante aos filhos para poder aceder a condições melhores.

 

Novos projetos no cinema?

 

De momento nada. Oficialmente, nada assinado. Vamos ver. O filme ainda não estreou, estreia só em dezembro [2017, em França]. Espero chegar a um novo projeto e um novo papel antes [dessa estreia]. Veremos o que vai acontecer. É tudo incerto [para já]

 

Algum realizador com quem queira trabalhar?

 

Demasiados (risos). Posso dar alguns nomes, como Bouli Lanners, Dennis Villeneuve ...Em França há imensos... adoro Ozon, a Maiwenn, são muito ecléticos e não têm nada a ver uns com os outros...

 

Les-Gardiennes-Feature.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:59
link do post | comentar | partilhar

17.11.17

b5e2af7b158355e20ae4578b65e396f7.jpg

Arranca hoje o 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, que decorrerá entre Lisboa (Cinemas Monumental, Nimas, Amoreiras; Teatro Nacional D.Maria II) e Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval, Palácio de Queluz, MU.SA-Museu das Artes de Sintra), de 17 a 26 de Novembro. Nesta nova edição contaremos com grandes destaques a homenagem a Isabelle Huppert, uma das grandes donzelas do cinema francês, e retrospetivas dedicadas aos cineastas Abel Ferrara, Alain Tanner e o português João Mário Grilo.

 

O mais recente filme de Richard Linklater, Last Flag Flying, terá as honras de oficializar a abertura do festival no Monumental. A história de luto e reunião de velhos camaradas tem sido visto como um dos potenciais filmes para a temporada de prémios. Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Steve Carrell compõem o elenco desta nova façanha do mesmo realizador de Boyhood e da amada trilogia Antes do Amanhecer. Em paralelo teremos as primeiras obras das ditas retrospetivas, desde a obsessão fetichista de Michael Haneke (A Pianista), inserido no ciclo Isabelle Huppert, ou a projeção das cópias restauradas de A Salamandra, de Alain Tanner, um cocktail de proletariado e fascinação criminal, e ainda a vingança que vira vigilância no feminino com MS. 45, de Ferrara.

 

A contar ainda nesta abertura, agora no Amoreiras que estreia este como espaço para o festival, o regresso da dupla de realizadores Olivier Nakache e Eric Toledano, do muito popularizado Amigos Improváveis, que nos trazem um casamento recheado de surpresas com O Espirito da Festa.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 11:56
link do post | comentar | partilhar

16.11.17

Quadrado.jpg

O quadrado, objecto de provocação!

 

Ruben Östlund filma os seus filmes com uma certa intenção, uma provocação no qual tenta debater-se com a consciência moral do espectador. Se em Force Majeure (Força Maior), especificaria o medo como uma catarse ao rompimento de uma relação, em The Square (O Quadrado) somos ainda levados ao extremos nessa encruzilhada de decisões. “E se fosse consigo?” - mais do que um programa pedagógico, Östlund perpetua uma tragédia cómica minada de experiências que vai de encontro aos nossos próprios medos, provavelmente o maior dos medos sociais, o de agir na altura certa.

 

thumb_53109_film_film_big.jpeg

 

Em paralelo com a avalanche de Força Maior, em O Quadrado assistimos a uma particular sequência de uma arte performativa levada ao extremo, a besta que encarna no homem-artista e a manada indefesa que encarna numa multidão intelectualmente homogénea. A situação torna-se tão drástica que nós próprios [espectadores] questionamos a nossa experiência, a impotência nos nossos activismos, e o desprezo pelo próximo como um mecanismo de defesa. Nessas ditas situações, O Quadrado envolve-nos com uma tese psicológica desafiadora, um filme revoltante … silenciosamente revoltante que poderá dizer mais de nós que qualquer divã. E esse quadrado, engenho simetricamente perfeito que reflecte a igualdade de quem o penetra, um produto de museu no qual Östlund manipula como objecto de estudo a outra das questões da sua obra. Até que ponto a arte pode ser considerada arte? Ou simplificando, o que é a arte?

 

the-square-poster.jpg

 

E toda essa arte tem consequências, assim como os actos do protagonista, Christian (Claes Bang), que concentram todos esses confrontos invocados numa só persona. Aquele, e já referido, medo social, âncora das nossas relações afectivas assim como comunicativas, que elevam a um certo grau de passividade. Até porque existe dentro de nós um certo Christian, que se esconde em plataformas para expressar os seus sentimentos mais primários, no sentido em que essas emoções são eventualmente subvalorizadas por uma comunidade artística, pensante que anseia atingir o pedestal da racionalidade, quer do real, quer do abstracto.

 

The-Square.jpg

 

O Quadrado é um exemplar de um filme subjugado ao debate dele próprio, pronto para o dialogo com o espectador, entre espectadores e sobretudo depois do seu visionamento. São as questões sugeridas pela obra que nos tornam aptos para as suas interpretações; porém, Östlund tenta acima de tudo obter essa função, fugindo da pedagogia infantil e da essência solipsista que invade a comunidade arthouse, mas foge, também, da objectividade.

 

the-circle.jpg

 

O Quadrado prolonga-se até não possuir mais uma questão nova a indicar, torna-se com o tempo obtuso, fácil e previsivelmente moralista, como se toda esta galeria resumisse a uma fábula, citadina e moderna que exorciza a realidade como a vemos. Depois vem a obsessão de Östlund pelas escadas, a técnica e como filmá-las, uma tese na qual não procuramos aqui dar respostas, mas que preenche em demasia uma obra sobretudo comunicativa que oscila pelo simples ilustrativo.

 

 

Real.: Ruben Östlund / Int.: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West

 

MV5BMTk1NDc5NTM5NV5BMl5BanBnXkFtZTgwOTM4MTAzMjI@._

7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:22
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

19.5.17

transferir (2).jpg

Amantes inconstantes!

 

A esta altura, perguntamos sinceramente até quando terminará a dita trilogia dos Amantes. É que mesmo sob essa desculpa, Philippe Garrel não tem rigorosamente mais nada para nos dizer. É a triste realidade, mas o seu novo filme L'Amant d'un jour (Amante por um Dia) é a resposta às suas limitações, quer criativas, quer, acima de tudo, ideológicas. Ciúme (La Jelousie) levou-nos a crer que essa mesma barreira criativa era possível existir na carreira do autor, enquanto que A Sombra das Mulheres (L'Ombre de Femmes), que representava um refrescante sopro, ficou-se pelo impasse ideológico.

 

amant_d_un_jour_3_h_2017.jpg

 

Este L'Amant' sofre dos dois males: primeiro pela falta de personalidade, visto que voltamos às cores monocromáticas, à edição angustiante (onde cada plano não tem a sua necessária expiração) e aos casais rompidos pelo adultério. Quanto ao segundo ponto, a ideologia de um burguês do arco-da-velha que discursa liberalmente uma espécie de poligamia secreta, pois, tudo contado no feminino para não sofrer com eventuais acusações de misoginia. Nesses termos, Garrel parece engraçar com a causa feminista, o direito das mulheres "perseguirem" as suas fantasias sexuais, os seus desejos instantâneos pela luxúria, o que mostra ser um avanço curioso frente à glorificação sentimentalista de As Sombras das Mulheres (a confundir sensibilidade com feminismo).

 

5135902_7_37a4_les-deux-heroines-du-film-francais-

 

Mas L'Amant' é mesmo assim uma pretensão, uma máscara na qual Garrel se esconde, de forma a escapar aos seus fantasmas, os quais que de alguma forma o alcançam. Assim, somos confrontados com um terceiro ato completamente previsível, "garrelianamente" falando. Afinal, a libertação sexual era uma fraude, pois o homem torna-se um elemento em sofrimento sem razão (por incentivo seu) e a mulher caí nas "boas graças" da praça pública.

 

351052.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

Fácil ceder-se a reacções primitivas e de pura misoginia por aqui. Está no nosso sangue! Como está no sangue de Garrel. Existem realizadores que nunca deveriam filmar um filme por ano: o prolifico não é sinónimo de qualidade e Garrel prova isso, sendo um autor que vai sobrevivendo à custa do seu estatuto.

 

Filme visualizado na 49º Quinzena de Realizadores

 

Real.: Philippe Garrel / Int.: Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte

 

170420221415.jpg

 

 

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
link do post | comentar | partilhar

23.11.16

bac-2.jpg

Premiado com o Prémio de Realização na 69ª edição do Festival de Cannes, Cristian Mungiu apresenta Bacalaureat (O Exame), a sua última obra que remexe novamente em consciências morais e em fantasmas do regime de Ceauseascu. O filme, novamente rígido na sua natureza replicada de realismo, chega às nossas salas após uma passagem pelo Lisbon & Estoril Film Festival. O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com um dos grandes nomes da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.

 

Como surgiu o argumento deste O Exame?

 

Foi uma combinação de vários temas. Durante algum tempo estava determinado em fazer um filme sobre o "envelhecimento", aquele que só acontece quando olhamos para trás e apercebemos que esse mesmo passado não nos agrada, assim encaramos o futuro com outro objectivo. Na altura, não encontrei automaticamente a história certa.

 

Em simultâneo, reflectia sobre a paternidade, a educação, nas minhas crianças e foi então que me surgia em mente, questões como: "o que posso dizer aos meus filhos sobre a sociedade que vivemos? Qual o tipo de futuro que queremos para elas e pode ser proporcionado?" Depois, procurei a melhor forma de expor a sociedade actual, uma relação que compromete-se através de uma sociedade corrosiva. Todos estes temas borbulhavam na minha cabeça, a partir daí decidi combiná-las num só filme, porém, como não tinha a narrativa nem a temática escolhida, peguei no meu computador e lancei-me numa pesquisa por inúmeros artigos de acontecimentos que marcaram a nossa sociedade nos últimos 5 anos.

 

Foram notícias, jornais, revistas, o qual rabisquei, cortei e colei, até conseguir criar um argumento que falasse de todos esses problemas sociais e que tivesse uma certa ligação real, mas que não fosse totalmente baseado em factos verídicos. Como tal nasceu O Exame, um filme que fala sobre o futuro, o crescimento e as nossas próprias decisões.

 

bacalaureat.jpg

 

Bacalaureat

 

É possível educar as nossas crianças com uma educação diferente daquela que obtivemos?

 

Não sei, foi graças a essa questão, pelo qual, eu fiz este filme. Através desse dilema tentei fazer com que O Exame me respondesse. Será possível que o Mundo mude através de uma nova geração, sabendo que essa mesma é educada pelos mesmos ideais e valores de uma geração anterior? Sinceramente, não sei. Só sei que tal não é racional, para o Mundo realmente mudar, era preciso que essa nova geração afastasse dos seus antecessores, teria que haver um espaço ininterrupto que pudesse quebrar a corrente. Quando falo nisto, não digo que devemos negligenciar os nossos filhos, não, teríamos que sim educá-las consoante o mais adequado para uma eventual mudança, e não para o que achamos correcto. Obviamente que com isto não quero afirmar que sou um mau pai, porque uma coisa é fazer da maneira mais racional possível, a outra é comprometer as nossas ligações emocionais com as pessoas que mais amamos.

 

Penso também que fiz este filme sobre as pessoas que são incapazes de lidar com as situações de forma racional, que se deixam levar pelas emoções. Até porque não somos personagens, somos seres humanos que dificilmente acreditamos ou questionamos aquilo que nos acontece em vida.

 

castigatori_cannes_2016_cristian_mungiu_actori_bac

 

Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus e Cristian Mingu

 

O Exame, é no geral, uma reflexão sobre os limites da paternidade?

 

Sim, pode ser um filme sobre os limites da paternidade, sabendo que com a paternidade surgem vários dilemas, muitos deles, não com as respostas correctas. Sabes, por vezes é fácil, enquanto pais, causar danos às nossas crianças, mesmo que isso não seja totalmente intencional, como o encarar a sabedoria como algo hereditário, que passe de geração a geração. É evidente que mesmo com a educação atenta dos nossos pais, praticamos as nossas próprias decisões e cometemos os nossos próprios erros, mas é ao tornar-nos pais que afrontamos a ideia de que podemos realmente moldar os nosso filhos consoante a nossa "educação", ou seja, acabamos por cometer os mesmos erros que os nosso pais, e assim sucessivamente. É uma corrente.  

 

Educamos as nossas crianças tendo como base a educação que os nossos pais nos deram, chegando mesmo a afirmar as mesmas afirmações que os nossos progenitores proclamaram certo dia. Pensamos "nem acredito que estou a dizer isto?". Obviamente, que também pensas como seria bom que as coisas acontecem desta maneira, mas ao mesmo tempo sabemos que não vai seguir o previsto.

 

Se nós estamos a preparar as crianças para a vida real, temos que parar com o habitual discurso moralista de "não mentir", "não roubar", "não trair", "não pisar os outros", esses moldes de doutrinas são, de certa maneira, vistas como ideais de um "falhado nesta sociedade", por outro lado, ensiná-las a ser lutadoras poderia, de certa forma, alterar essa mesma. Mas isso cabe a nós decidir, quais são os verdadeiros limites da paternidade. Conforme seja a nossa decisão, andamos de "mãos dadas" com as alterações da nossa sociedade.

 

bacalaureat-3.jpg

 

Bacalaureat

 

Em O Exame, ficamos com a sensação de que a corrupção, por mais pequena e involuntária que seja, é um acto profundamente natural do Homem moderno.

 

Para responder a essas questões, eu cito inúmeras vezes a realidade, sem necessariamente julgá-la, nem explicá-la por demasiadas palavras. Mas julgo que essa corrupção é muitas vezes confundida com o compromisso, uma espécie de mecanismo de sobrevivência, uma adaptação aos obstáculos que nos surgem, mas ao mesmo tempo, quando somos pais, temos que carregar este "fardo". É essa a diferença do mundo idealista, aquele, pelo qual, preparamos a nossa criança, e o mundo real.

 

O filme tenta investigar aos poucos esta relação, gradualmente aborda as causas da complexidade deste fenómeno [corrupção], que é algo tão fácil de julgar. O Exame diz que nem tudo isto é errado, até porque quando queremos ajudar alguém ou até mesmo combater um regime, praticamos estes actos "imorais", no entanto, os encaramos como uma espécie de luta, até porque as nossas intenções são boas. Nos dias de hoje, o regime já não é mais o inimigo número um, ao invés disso, nós é que nos tornamos a grande ameaça. Nós é que redefinimos os limites da nossa consciência moral.

 

De regresso à sua questão, julgo que as pessoas encontram-se desapontadas devido à dificuldade, ou quase impossibilidade, de mudar algo. As coisas são o que são, e é preciso imensa energia para uma pequena mudança. Quanto à mudança total, é quase "o impossível", que é apenas resolvida com soluções colectivas. O filme refere bastantes essas divergências entre decisões individuais, aquelas que fazemos para nós ou para a nossa família. A imigração é um bom exemplo sobre soluções individuais. Todavia, é necessário existir as ditas soluções colectivas, se não, o "barco" naufraga.

 

000_aw69d.70d84142635.original.jpg

 

Cristian Mingu

 

O Exame entra em paralelismo com um êxito seu, 4 Months, 3 Weeks and 2 Days onde um especifico evento abala e altera toda a personagem. É este o seu modo de narrar as suas histórias, pegar em acontecimentos que drasticamente marcam as suas personagens?

 

Não sabemos o que vai acontecer a estas personagens após o desfecho do filme. Quem sabe? Sim, eu pego em eventos drásticos que as suas personagens vivem, mas se estas vão mudar a conta disso, sinceramente, não sei responder. Julgo que isso não acontece muito na vida real e penso que nós próprios não mudamos assim tanto, mas é com as experiências que aprendemos algo. Algo sobre a vida, sobre si mesmo, sobre a situação, sobre a sociedade, até mesmo de integração. Mas julgo que tal não nos altera em longo termo, ao invés disso, algo morre em nós, perdemos algo muito próximo, e compreendemos que vivemos uma vida, e ta evento poderá ser importante, mas que só durará 3 dias, e depois regressas à tua vida.

 

Por isso, não sei realmente o que vai acontecer a estas personagens, mas o espectador deve entender que eu falo sobre as suas respectivas vidas reais. Por vezes, chegamos a entender o que vivemos através de vidas encenadas no grande ecrã.  

 

No final das sessões dos meus filmes, mais concretamente nos QaA, ouço imensas experiências vividas pelos espectadores. Ou seja, eles, de certa maneira, identificam-se com o que está retratado. É por essas e por outras que existe o Cinema.

 

4-Months-3-Weeks-And-2-Days.jpg

 4 Months, 3 Weeks and 2 Months

 

Então é, em derivação dessa aproximação, o motivo pelo qual os seus filmes deverem muito ao realismo?

 

 

Faço esse estilo, porque é a minha definição de Cinema. Porque acredito que o Cinema pode ajudar, não só, a conhecermo-nos, mas também a entender os outros, as nossas vidas, o nosso redor, e para isso temos que praticar um Cinema mais vinculado no realismo, apesar da vida real não ser tão espectacular, nem entusiasmante.

 

E ao seguir esse mesmo estilo, temos que ponderar alguns artifícios bem valiosos no Cinema, um dos exemplos é a edição. Na vida real não há edição, por isso, o meu Cinema tem que possuir o menor uso desse mesmo artificio, toda a cena deve ser filmada num só take. Outro exemplo é a música, não existe bandas sonoras na vida real, tal não poderá existir no meu Cinema. O que tento fazer é captar a emoção através da situação, é uma tarefa árdua, eu sei, sem a utilização desses artifícios, mas é sim que pretendo continuar a fazer Cinema.

 

As edições rápidas, as músicas que entram e saem, as cenas de acção, são tudo factores sedutores. Principalmente para quem deseja fazer entretenimento. Para os meus filmes que falam sobre as vida das pessoas, não pode existir esses meios de manipulação. Para tal, tenho que abdicar desses mesmos artifícios narrativos.

 

Por vezes eu sinto que os meus filmes adquirem um certo padrão de thriller, mas isso é a forma com que sinto em relação à vida. As pessoas estão cada vez mais stressadas, angustiados e decepcionadas.  

 

graduation-bacalaureat-cristian-mungiu.jpg

Bacalaureat

 

É complicado filmar tudo num só take?

 

Por onde devo começar. Primeiro analiso e escolho a luz, abordo a cena e tento ver qual o ângulo que a filmar, atesto através da perspectiva que anseio contar esta determinada acção. Penso num cenário, durante a escrita, e procuro algo que corresponda ao imaginado. Se não encontro, construo-o. Obviamente que aquilo que imaginas não se aproxima da realidade, mas enquanto não houver mais nada a fazer, adaptas.

 

Depois trazes a equipa técnica, que trazem equipamentos de variados tamanhos e feitos. O Cinema é um processo bastante técnico que parece criativo. A partir daqui, posicionamos todos nos seus devidos lugares, apontamos a câmara para o ângulo desejado, e os actores decoram os seus diálogos e gestos em cenas de 10 a 15 minutos, pelo qual devem efectuar na perfeição. Todo este processo, só numa cena, demora … deixa lá ver … 20 a 40 takes.

 

É cansativo, complicado e no final do dia sentimos absolutamente exaustos, mas igualmente realizados. Todos os dias acabo por falar com cada um dos membros da minha equipa, encorajando-os para mais um round ou reparando certos pormenores. Todo os dias é uma luta, se não conseguimos filmar mais que uma cena num dia, tudo bem, alteramos o  cronograma, e recomeçamos no dia seguinte. Eu consigo fazer isto, até porque sou o produtor dos meus próprios filmes, o que me dá o direito de usufruir esta liberdade.

 

tales_from_the_golden_age_3.jpg

Tales from the Golden Age

 

Quanto a novos projectos?

 

Não falo sobre novos projectos, porque nunca tenho novos projectos. Penso demasiadas vezes nos meus filmes, naquilo que fiz bem, no que correu não tão lindamente, no que foi importante referir ou o que precisa ser referido. Mas também penso nas pessoas, mais concretamente naquilo que as deprime, que as deixa angustiadas. Tento compreender as suas naturezas, as suas causas, e em consequência disso, por vezes, acabo de encontrar o filme certo, o ritmo certo e a história certa.

 

Muitos pensam que tudo se resume a direcção, mas para mim o mais relevante é o argumento. Procuro sempre o tópico, o tema e como o abordar, e como deve ser abordado.

 

08BEYOND1_SPAN-jumbo-v2.jpg

Beyond the Hills

 


publicado por Hugo Gomes às 20:36
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2019:

 J F M A M J J A S O N D


2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Suspiria (2018)

Der Hauptmann (2017)

Frost (2017)

Darkest Hour (2017)

The Disaster Artist (2017...

Three Billboards Outside ...

La Liberdad del Diablo (2...

Wonder Wheel (2017)

Molly's Game (2017)

Falando com John Carroll ...

últ. comentários
Batkid. It'll be fun. Hugo, won't you list the bes...
Desculpe mas isso não faz qualquer sentido...Quand...
Acabei de ver. O de 1998 beneficiava-se do grande ...
Não percebi merda nenhuma do que escreveste, e olh...
Neste caso o director de fotografia não teve qualq...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
2 comentários
1 comentário
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs