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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Quando o cinema tomou a pílula vermelha ...

Hugo Gomes, 21.12.21

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The Matrix (Lilly & Lana Wachowski, 1999)

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Matrix Resurrections (Lilly & Lana Wachowski, 2021)
 
Na saída do visionamento, alguém insinuava que Matrix [o original] tinha sido um filme fora do seu tempo, enquanto o mais recente e lazariano capítulo resumia-se a um integrante desta mesma época. Não poderia estar mais de acordo, e sem querer apontar o marco tecnológico e cultural de 1999 (a passos do “determinante” “bug” de 2000) como um poço de originalidade (é mais que certo que esse cyberpunk abastecia nos mais diferentes fontes para gerar o seu enredo “frankensteineano”), “The Matrix” (na altura ainda merecedor do seu “The”) foi o tipo de obra que aprendi amar, enquanto entusiasta da História do Cinema, e convenhamos, amante dela (sem se entregar a estandartes ideologicamente faccionários), porque nela concentra-se muito do sumo da “pontinha” vivenciada do século XXI (a nível sociológico, cultural, tecnologia e até mesmo teológicos).
 
Negar isto é reduzirmos ao nosso cantinho de “cinema confortável" e fugirmos das nossas responsabilidades de testemunhas das mudanças demarcadas de década para década, a compreensão do nosso Mundo. É cuspir até mesmo nas ancestralidades da Sétima Arte, naquela lendária e remota aposta sucedida a "jigajogas" fotográficas projetadas por Muybridge - a captação do movimento tal como ele é - traduzido 120 anos depois como solução para o slogan desta criação dos (ou das) Wachowski, o seu “bullet time”. Depois de “Matrix” o cinema nunca mais foi o mesmo, da mesma maneira que aconteceu com … e exemplos são muitos, mas cá vai … “The Birth of a Nation”, “The Jazz Singer”, “Psycho”, “Hiroshima Mon Amour”, entre outros. Também vamos negar esses filmes?
 
Quanto ao “Matrix Resurrections”, é a tendência do pós-modernismo a se concentrar numa desculpa industrial ou até como defesa de uma sequela sem grande razão de existência.

Keanu Reeves continua como Escolhido para ressuscitar sagas

Hugo Gomes, 16.12.21

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É no meio de uma reunião “brainstorm” para determinar os novos trilhos do legado “Matrix” que alguém retoricamente questiona - “Que palavra hoje define ‘Matrix’?” De seguida, a resposta surge como contraditório, visto não ser uma mas duas palavras - “bullet time”. 

The Matrix Resurrections", o novo acordar de uma saga milionária da Warner Bros., é hoje tida como um mero e progressista brinquedo visual, uma referência estética que redefiniu uma linha de montagem cinematográfica nos inícios do século XXI, como sua, ironicamente, passagem de testemunho. Nesse sentido, se o vamos ver como uma continuação dos portentos técnicos ou desafiadores do cinema de ação, então esta sequela / reboot órfã de um dos seus realizadores (fica Lana, vai-se Lily Wachowski), é uma tremenda desilusão.  

Por sua vez "Resurrections" brinca com a relevância cultural e até mesmo teológico que contaminou o mundo atual com o inaugural episódio de 1999, um caso de sucesso que bebeu das mais diferentes fontes e mesclou uma originalidade frankensteiniana. E funciona, até ao seu segundo ato, como um exercício metalinguístico do referido fenómeno, um ensaio de auto-reflexão daquilo que o Matrix representa e continua a representar numa sociedade moderna (tendo mesmo encontrado alguns pontos comuns com a contemporaneidade pandémica).  

Porém, o frenesim dissipa-se, revelando os calcanhares de Aquiles de muito cinema pós-Matrix que os (ou as) Wachowski produziram até hoje, a dependência do sentimentalismo como Deus Ex Machina. Se bem que "Resurrections" brinca com essa dualidade como um advogado do Diabo, cometendo as mesmas tropeções e de seguida troçando desse igual passo, este efeito Lazarus nada acrescenta à mitologia e até mesmo ao contexto fílmico atual. 

Enquanto em 1999, o cyberpunk minado de dicotomias entre luz e escuridão, bem e mal, prisão e liberdade, conformismo e risco, carne e máquina, foi um filme fora do seu tempo, esta “versãozita” é substituída por um colorido, artificial (se bem que este adjetivo soa irónico numa saga que sempre aprimorou o seu lado digitalizado) e esgotadamente estrutura sem ideias, aliás, a prática da inequívoca associação do “bullet time”. Uma reencarnação despreparada.