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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A moda do pisca-pisca

Hugo Gomes, 17.07.25

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28 anos depois … não, não é o filme de Danny Boyle … ainda pensamos no Verão passado. Será mesmo?

A verdade é que este franchise sem futuro, uma criação engavetada de Kevin Williamson (com repúdio declarado da autora original, Lois Duncan), funcionou em pleno 1997 como um produto em contraposição ao desconstrutivo “Scream”, cuja ‘febre’ o próprio argumentista ajudou a erguer ao lado de Wes Craven. I Know What you Did in Last Summer” tratava-se de um teen slasher preso à sua época, com adolescentes idiotas e whodunits preguiçosos, e ainda assim, foi um sucesso … e, com os dólares angariados, a sequela surgiu num piscar de olhos (estreando no ano seguinte). Mas o público fez-se ouvir: a continuação, com Bahamas e vudu à mistura, não agradou a ninguém. Fiasco em críticas e bilheteiras, levou os protagonistas sobreviventes (Jennifer Love Hewitt e Freddie Prinze Jr.) a fechar a porta a uma possível trilogia. Mesmo assim, contra as suas vontades, em 2006, no apogeu das sequelas direct-to-video: surge um “novo” filme, sem espinha dorsal, a beber do título sem qualquer relação com os eventos canónicos.

E já que falamos de cânone, convém dizer: esta requel, nascida em tempos de requels e nostalgias baratas, pouco importa fora da crença original. É o filme de 1997 que paira como fantasma sobre novas pegadas, novas caras e velhos convidados de traumas exacerbados. Alguém terá achado boa ideia transformar “I Know What You Did Last Summer” numa espécie de “Scream” pós-Wes Craven ou “Halloween” à David Gordon Green (qual dos dois o pior, venha o diabo e escolha), só que esqueceram-se de algo simples e eficaz: nem todas as memórias são dignas de ressurreições.

Mesmo que este objeto não-identificado funcione melhor como standalone do que como elo de um franchise abortado, é a sua patetice enquanto teen slasher (sim, com adolescentes burros que fazem de tudo para ser alvos do gancho) que nos arranca algum charme, sobretudo numa época em que se fala, com seriedade pomposa, de "elevate horror" ou "arthouse horror". O whodunnit continua desleixado, garanto-vos… e Jennifer Love Hewitt com razão neste seu desempenho enfadado (trazida do conforto do meio televisivo, onde está feliz) sai-se com a tirada de mestre: “Nostalgia is overrated.

Pois é, pois é. Os produtores é que parecem esquecer isso. Porque a moda é o pisca-pisca … pisca para os 90 como para os 80, pisca para a moderna audição, no meio pisca para a lei do menor esforço. 

Sei o que fizeste com esta saga no passado ...

Hugo Gomes, 15.07.25

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Afinal, o espírito de Ben “Capitão Gancho” Willis ainda paira ao longo destes anos, e, como estamos em tempos de legacy sequels em abundância, nada como capitalizar a nostalgia. Se os anos 80 já estão distantes, os 90 tornaram-se a nova mina de ouro… ou assim se acredita. Chegamos a "I Know What You Did Last Summer", êxito do terror de 1997 que, caso não o recordem, poderão lembrar do spoof no primeiro "Scary Movie", dos irmãos Wayans. Contudo, antes de avançarmos para o regresso de Jennifer Love Hewitt ao género — que abandonou firmemente em 1998 — e de Freddie Prinze Jr., percorremos este breve recap da saga: o original, a sequela… e o bastardo.

 

I Know What You Did Last Summer (1997)

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Na boa maré de "Scream", o argumentista Kevin Williamson achou por bem capitalizar o seu guião engavetado, que até então não conseguia vender, uma adaptação do livro de Lois Duncan, "I Know What You Did Last Summer" [publicado em 1973], que acabaria por ser lançado no mesmo ano de outro trabalho assinado por Williamson — a sequela musculada "Scream 2" — o que motivou comparações na altura entre o slasher desconstrutivo e este teen slasher certinho no regulamento. O filme dá continuidade à tendência do terror adolescente bem-comportado, feito para entreter acne e hormonas, receitas encorajoradoramente fáceis de peregrinações de jovens salivantes por aroma softcore sexual ou mortalidade criativas.

A autora original não gostou em nada da reconversão do seu livro num genérico exercício slasher movie: “Como mãe de uma filha morta, repudio veementemente”, declarou invocando a memória da sua filha mais nova, Kaitlyn Arquette, assassinada em 1989, tinha 18 anos. Quanto ao filme, com realização de Jim Gillespie, seguimos um quarteto juvenil a passo de entrar na universidade ou carreiras desejadas. Na noite de finalistas, após festejos privados na praia, regressam a casa… ou assim pretendiam. Pelo caminho, atropelam acidentalmente um pescador. Após ocultarem o corpo, pactuam o silêncio do crime, ainda que em constante oposição da protagonista (Jennifer Love Hewitt, a perder a virgindade logo no início do filme, como que a despistar os mais atentos ao arquétipo de “final girl”). Um ano depois, cada um dos envolvidos recebe uma mensagem anónima: “Eu sei o que fizeste no Verão passado.” Não é preciso muito para prever o rumo da história — nem quem será a próxima vítima neste descarrilar de uma suposta gangue à lá Scooby-Doo.

A ideia que serve de mote ao enredo rapidamente se vê embrulhada em clichés e numa certa risibilidade que não consegue evitar. A contar com isso, o elenco pouco contribui para qualquer credibilidade — com excepção de Sarah Michelle Gellar, nos intervalos de "Buffy", e a saudosa Anne Heche (1969 - 2022) num papel secundário e algo alucinado. É, aliás, a realização de Jim Gillespie, algo virtuosa para o material que tem em mãos, que confere alguma dignidade ao que é, no fundo, um filme redundante de facaria … ou neste caso “gancharia”?

Foi um sucesso (125 milhões de dólares angariados mundialmente). E daí? Passados uns dias, esquecemos mesmo do raio que eles fizeram no verão passado. Portanto, entre isto e “Scream”, Kevin Williamson não previu a passada de génio. 

 

I Still Know What You Did Last Summer (1998)

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Depois do sucesso a sequela não tardaria a surgir (bastou um ano, nem esperaram o corpo arrefecer). Desta vez, Kevin Williamson não assinaria o argumento, devido a conflitos de agenda (e ainda bem, com ‘coisas’ bem melhores para fazer), e Jim Gillespie desaparece do “mapa”, sendo substituído por Danny Cannon, saído do fracasso de "Judge Dredd", com Sylvester Stallone, e dividido entre a produção do corruptível policial “Phoenix”. 

Afinal, o pescador não estava morto, e o seu retorno aconteceu num misto de Bahamas com precipitação elevada e mais mortes, principalmente de secundários de passagem… e sim, Jack Black com “dreadlocks is a thing”.

No auge da efémera movimentação dos teen slashers, ressuscitados com o sucesso de "Scream", este "I Still Know What You Did Last Summer" perpetua os clichés e lugares-comuns contra os quais a saga de Wes Craven declarou guerra, evidenciando lições pregadas aos peixes (com a tal memória de 5 segundos que isso acarreta), lá pelos lados de Hollywood. Valha-nos os trópicos e um aroma de vudu para apimentar a correria de jovens sexualizados nesta parvoíce febril, pouco dados a usar neurónios nas horas cruciais. Hoje, visto em retrospectiva, é claramente um produto do seu tempo; com uma migração evidente de artistas musicais em tela, neste caso Brandy Norwood a nova coadjuvante da candidata scream queen, ou actores promissores embriagados pelas más decisões, Mekhi Phifer, que “brilhou” ao lado de Delroy Lindo em “Clockers” de Spike Lee e aqui ressoa os mesmos estereótipos deste subgénero. Ainda a sonoridade a tentar capitalizar colectâneas de artistas em ascensão ou no cunho MTV.

A verdade é que o boca-a-boca não ajudou ao seu sucesso. A estrela Freddie Prinze Jr., por exemplo, recusou-se durante anos a ver esta sua obra. Já Jennifer Love Hewitt, saturada de ganchos e gabardinas, avançou para outras decisões de carreira, não com muita sorte, visto que acabou por falar com fantasmas numa série de televisão ("Ghost Whisperer").

 

I’ll Always Know What You Did Last Summer (2006)

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Ao terceiro, o cânone é opcional. Estamos no auge do mercado de home video; o DVD popularizou o “cinema em casa” e, rapidamente, algumas produtoras viram na possibilidade de ir directamente para as prateleiras uma mina de ouro — vender milhões de cópias graças a um conceito de nostalgia “mal-amanhada”. A fórmula era simples: pegar numa saga ou num título, produziam à pressa uma sequela com esse único propósito (nem era necessário contar com elementos do projecto original, muito menos respeitar a coerência narrativa do franchise). Bastava um número no fim do título … valha-nos a numeração! "Hollow Man" teve, "The Butterfly Effect", também, e, inexplicavelmente, até "Donnie Darko", por isso… porque não "I Know What You Did Last Summer"?

Este "I'll Always Know What You Did Last Summer" estava inicialmente previsto para ser produzido por volta dos anos 2000 e retomaria a história onde o segundo filme terminou. Só que nem Jennifer, nem Freddie, quiseram regressar. O projecto foi para a gaveta e o que nos chega é uma recontagem da obra original que herda o título… sem o merecer.

Uma recauchutada cópia feita à pressa, sem o virtuosismo do primeiro, sem a ambiência exótica do segundo. Apenas existe porque, supostamente, respira … ofegante e desesperado, e que coloca (será essa a novidade), o pescador como uma assombração. O realizador deste “feito” é Sylvain White, mais tarde especializado em televisão ou série de streaming, que no fundo foi uma substituição de última hora. Ou seja, um simples “tapa-buracos”. 

 

Envelhecer como o último dos exorcistas ...

Hugo Gomes, 12.06.24

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O que lidamos é com uma nova vida na carreira do ator Russell Crowe, estrela que como muitas têm sido abandonadas dos holofotes das grandes produções pelo facto de, como todos os mortais, envelhecer. 

Este processo que poucos conseguem lidar propriamente (envelhecer no cinema solicita um arte), o recambiado-o ao tipo de produções de onde viera, e talvez, por aí ande uma espécie mina de ouro onde Crowe seja rei Salomão. Há quem compare esta sua carreira agora vinculado a um género e estilo algo “canastrão” com as eneśimas aventuras germinadas do êxito de “Death Wish” que Charles Bronson encontrou aos “montões” em década de 80’. Convenhamos que este “The Exorcism” tenha uma costela da última incursão de possessões do ator, “The Pope’s Exorcist” (Julius Avery, 2023), que adquiriu um certo culto pelas “sociedades underground” de cinéfilos, contudo, garantidos que nada de relacionado tem estas duas obras e fica a notícia em modo rodapé: “The Pope’s Exorcist” terá sequela. 

Quanto ao “The Exorcism” (com realização de Joshua John Miller), não nos deixemos de modas nem preoconceitos pré-estabelecidos até porque o assinante disto é Kevin Williamson, o argumentista aliado a Wes Craven na fomentação da era pós-moderna do terror com uns quantos “Scream” (a sua ausência, aliás de ambos, faz-se sentir nestes dois últimos atentados da franquia). E a caneta de Williamson é notada até no espelho que cria nesta intriga de um eventual remake de “The Exorcist” de Friedkin (tal não é formulado em palavras, mas o filme não esconde a ambição) e de um ator na penúria e com quantas reabilitações no historial que é cotado para o protagonizar, porém, a rodagem é tudo menos pacífica, há no ar um toque demoníaco que vai se apoderar dos bastidores e atormentar este já atormentado Russell Crowe

De facto há pitadinhas de interesse nesta descida infernal com o seu quê camp (Crowe faz isso por nós, o que aufere, tal como em “The Pope’s Exorcist”, o seu ar de graça), o ínicio com aquela “casa das bonecas” a ser mapeada, o gesto Williamson em exorcizar uma Hollywood que entre a sua “fogueira das vaidades” tem o mortal auto-fascínio, até o percurso daquela fictícia rodagem que nos soa mais intimista do que fantasmagórica, mas … e tudo tem um mas, a ‘coisa’ tende a despertar um clímax espampanante e caótico, nada de novo, obviamente, que os elogiados “The Conjurings” também possuem essa tendência. Denomino “motivação Jesus Franco”, que em reflexo com o lendário e prolífico realizador, os filmes tendem ser abandonados da sua premissa como sinal de desinteresse dos envolvidos, optando por um pragmatismo, ora involuntariamente cómico. 

Fora isso, é melhor que a encomenda.