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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O Pub da empatia

Hugo Gomes, 16.11.23

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Podemos encarar "The Old Oak" como uma concessão à irrealidade emotiva por parte de Ken Loach, um cineasta sempre permeado por agendas políticas (falamos do cinema de Loach, uma plataforma para as suas ideias em relação ao mundo), que por vezes tropeça na própria manipulação. Mas, avancemos por partes. Se há algo que devemos extrair desta convergência de lutas - a amizade entre uma refugiada síria e um proprietário de um velho pub, que unem esforços para fortalecer uma comunidade multicultural num bairro decadente inglês - é a sua urgência pela empatia. Aliás, é nesse aspecto que o filme nos parece encontrar o seu principal, e único, motivo de existência, talvez uma afronta ao mundo em que estamos a vivenciar, esse em que a empatia se torna cada vez mais um instrumento, seja manipulatório ou de erradicação (como um maligno apêndice).

Loach sempre se apropriou das narrativas como armas de arremesso; a subtilidade não é com ele, e recentemente tem-se mostrado mais escancarado nos seus propósitos. Em "Sorry We Missed You", a bomba emocionalmente energética encontra-se no seu final-raspanete, e em "I, Daniel Blake", o discurso do homónimo protagonista - “Não sou um cão” - faz uso desse apelo aos sentimentos (citando as duas obras anteriores). Loach nunca esteve ausente desse cariz humano; os seus "panfletos" são dotados de dramaturgia capaz de transcender a ideia-base.

"The Old Oak" é precisamente isso, entendido como um gesto politizado mas floreado, abordando os seus temas recorrentes, a classe operária e as suas constantes (por vezes vencidas) lutas, numa Inglaterra em rápida mudança. Contudo, notamos uma mudança de perspetiva aqui, talvez motivada pelo cansaço do realizador perante o mundo que enfrenta, por vezes, parecendo solitário. Sim, há uma cedência ao esperançoso, à utopia, ao apaziguador, a uma ingenuidade em acreditar nos "amanhãs que cantam". É também a essência de muito cinema político, motivando à revolução através do sentido, da clamor por um cenário a vir. 

"Millions of Us" (1936), de Jack Smith e Tina Taylor, integrado nos movimentos do documentário New Deal, pregava no seio da Grande Crise Financeira, a saída à rua, aos punhos erguidos, aos passos militarmente exercidos, à greve, aos direitos renegados pelo capitalismo predatório, a favor do sindicalismo. Os momentos finais dessa preciosidade cinematográfica balançavam ao mesmo ritmo da montagem soviética contemporânea, aquele cinema concebido para apelar às "massas", incentivando as suas forças, como, anos mais tarde, em 1940 precisamente, Henry Fonda em plena convicção de "I'll be there, too" ("The Grapes of Wrath", John Ford) fizera de modo mais performativo. Às armas, irmãos! Às armas!

No entanto, não nos exaltemos; "The Old Oak" não é tão fervoroso assim. É, como referido anteriormente, um 'produto' gerado como resposta à falta de empatia. Mas estas menções ao cinema americano não são em vão. Ken Loach (novamente colaborando com o argumentista Paul Laverty) reservou-nos um desfecho, possivelmente não consensual (porque aí está, estamos cada vez mais cínicos enquanto espectadores), que emana essa ânsia pela união, ou na fantasia (ingenuidade ao quadrado, mais uma vez), como os finais à lá Hollywood, da clássica, não a que hoje oscila pelo ambíguo ou pelo capitalismo incomensurável, esse que Loach reprova num ápice.

Dia do trabalhador!!

Hugo Gomes, 01.05.23

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La Sortie de l'usine Lumière à Lyon (Auguste Lumière & Louis Lumière, 1985)

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Modern Times (Charlie Chaplin, 1936)

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Tout va Bien ( Jean-Luc Godard & Jean-Pierre Gorin, 1972)

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La loi du marché / The Measure of a Man (Stéphane Brizé, 2015)

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Trabalhar Cansa (Juliana Rojas & Marco Dutra, 2011)

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La mano invisible / The Invisible Hand (David Macián, 2016)

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North Country (Niki Caro, 2005)

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Sorry We Missed You (Ken Loach, 2019)

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Stachka / Strike (Sergei Eisenstein, 1925)

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Ressources Humaines / Human Resources (Laurent Cantent, 1999)

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Labour of Love (Aditya Vikram Sengupta, 2014)

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A Fabrica do Nada (Pedro Pinho, 2017)

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Vida Activa (Susana Nobre, 2014)

Dance with my self

Hugo Gomes, 04.02.23

A liberdade de um filme é medido pelo tempo que é dado às personagens para poderem dançar sozinhas. Ou parafraseando uma das obras menores de Ken Loach ["Jimmy's Hall"] - “We need to take control of our lives again. Work for need, not for greed. And not just to survive like a dog, but to live. And to celebrate. And to dance, to sing, as free human beings.”.

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Spider-Man 3 (Sam Raimi, 2007)

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Babylon (Damien Chazelle, 2022)

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La vie d'Adèle / Blue is the Warmest Color (Abdellatif Kechiche, 2013)

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Saturday Night Fever (John Badham, 1977)

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Frances Ha (Noah Baumbach, 2012)

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Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994)

Ya no estoy aquí (Fernando Frias, 2019)

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Bergman Island (Mia Hanse-Love, 2021)

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Grigris (Mahamat-Saleh Haroun, 2013)

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L'événement / The Happening (Audrey Diwan, 2021)

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Kickboxer ( Mark DiSalle & David Worth, 1989)

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Jimmy's Hall (Ken Loach, 2014)

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Cold War (Pawel Pawlikowski, 2018)

"Existe uma espécie de 'cão raivoso' em mim", falando com Kris Hitchen, o ator de "Sorry We Missed You"

Hugo Gomes, 18.11.19

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Mais uma vez, a dupla Ken Loach (realizador) e Paul Laverty (argumentista) atribuem a voz ao operário que sob a cadência da modernização trespassa de um sistema para outro, o “trabalhador independente” na era das novas tecnologias e aplicações. Uma ilusão ao qual Ricky acede, condenado a “trabalhar até morrer” para conseguir retirar a sua família do sufoco financeiro, isto sem saber que cai na armadilha viciosa destes novos dialetos de exploração.

“Sorry We Missed You” (“Passámos por Cá”) é o típico filme na arte de Loach, com toda aquela ode ao proletariado e à tão proclamada classe trabalhadora, só que desta vez reajustada a ameaças de “cara lavada”, que de uma maneira ou outra dialogam com o Brexit e as suas repercussões. E no centro dessa denúncia enfaixada na dramaturgia, encontramos um ator explosivo - Kris Hitchen – que gerou uma personagem através da sua experiência no ramo, não da atuação, mas da resistência para com a “selvajaria” do trabalho precário.

Falei com o ator durante a sua passagem em Cannes, onde o filme integrou a Competição Oficial. Na altura desta conversa, Kris Hitchen era visto como um dos preferidos à estatueta de interpretação, um homem que percorreu um longo caminho para estrear-se em grande no Cinema.

Como é que não ouvimos falar de si? [risos] Onde é que você esteve?

Basta olhar para o meu diálogo inicial, tudo aquilo é verdadeiro, não é apenas da minha personagem. Tive vários trabalhos ao longo dos anos. Trabalhei para sobreviver. Não sou ator, mas sim um canalizador e sei muito bem o que é ganhar para pagar uma renda. Sofri com complexidade e transmiti isso à minha personagem.

Mas não vim de uma família desinformada. O meu pai era diplomado e mesmo assim confinou-se a trabalhos de poucas pretensões. Uma pessoa faz o que faz para sobreviver. O que aconteceu, no meu caso, foi que tive aulas de atuação e um par de semanas depois já tinha um agente que me garantiu pequenos papéis na televisão. Até chegar aqui, obviamente.

Mas sempre foi apaixonado pela atuação?

Sabe, sempre fui conhecido como o “palhaço de turma”, sempre a fazer piadas, brincava e era extrovertido. Sempre fui o melhor bailarino, essas coisas, estão a ver. Ria-me na cara das pessoas de uma maneira particular. Isto pode soar algo infame, mas quando temos a capacidade de manipular à nossa volta, temos aptidão para a atuação. Talvez seja essa minha experiência que me abriu portas como ator.

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Mas este seu desempenho é tudo menos sorridente.

Quando temos uma vida cheia, podemos canalizar qualquer experiência e distribuí-la em alguns momentos na vida de Ricky. Por isso, é fácil de manobrar.

Pegando no ínicio da nossa conversa, para criar o Ricky usou o seu passado?

Usei o meu passado sim, a minha experiência, a minha resistência pelo que passei em vida para chegar onde cheguei. Este papel requeria uma espécie de regresso às minhas “cicatrizes”, uma investigação à minha alma e às minhas emoções ocultas. Para fazer de Rick tinha que invocar as minhas lutas, aquela resistência que vos falei. De onde vim, não é costume erguemo-nos do chão, mas sim continuar a pontapear mesmo quando estamos estendidos. Como tal é necessário gerar esta motivação, a energia para fazer-voltar a estar de pé. E é essa energia que usei no Rick. Talvez seja por isso que fui escolhido para este papel. Existe uma espécie de “cão raivoso” em mim.

E foi fácil usar esse método com Ken Loach? O de vincular a sua experiência?

É curioso quando um realizador dá-nos as ferramentas necessárias para aprofundarmos a nossa personagem. Filmamos em seis semanas e o Ken e o Paul eram hábeis em criar situações que nos levam aos extremos das nossas emoções. Pode não parecer, mas por vezes tínhamos aquelas cenas onde nada acontecia, mas elas serviam de arranque para algo maior. E nesse percurso trabalhávamos emocionalmente a nossa personagem, porque tínhamos que estar preparados para o embate que a dupla nos preparava. Eram engenhosos nesta composição.

De certa forma, Ricky fala por toda uma classe trabalhadora que está a passar por mudanças na sua precariedade. Utilizou apenas a sua experiência ou fez investigação para que fosse possível elaborar uma personagem universal?

Bem, eu sou da classe trabalhadora, mas enquanto atores temos que fazer um trabalho de investigação. No caso desta personagem era necessário aceder a estatísticas e os relatórios políticos e sociais sobre o seu “ambiente”. Porém, não precisei nada disso. Eu conheço este dito “ambiente” e temos que ter conta que o Ricky está marcado para trabalhar até morrer. Isso deve-se a um sistema que falha com ele. Como tal, o Ricky tem que entrar neste mundo do trabalho por conta própria, que atualmente é de grande relevância económica e que dá uma falsa sensação de conforto. Pessoas como eu e como a minha personagem cedem a isto por causa de “falsas-sensações”. Existe esta independência, liberdade, emancipação, mas são apenas truques para nos afastar de um sistema fracassado. Este “trabalho por conta própria” é rodeado de mentiras que nos levarão a novos obstáculos. Tudo aquilo que vemos no filme é verdadeiro, isso, vos garanto.

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Em Portugal é costume dizer-se que “trabalhamos até morrer” e em certa parte foi esta a ideia que nos impuseram desde os primórdios da nossa existência. O filme de uma maneira ou de outra aborda essa questão. Sempre seremos escravos do trabalho?

No Reino Unido nós temos uma frase que é: “Nós trabalhamos para viver, não vivemos para trabalhar“. E continuando a brincar com as palavras, grande parte dos ingleses tem uma hipoteca [“mortgage“] para pagar, que tem a referência de morte no nome (“mort-gag“), que logo nos dá a ideia de uma prisão, só que essa prisão é a nossa casa. E quando temos casa própria, temos que pagar taxas e impostos para o resto da nossa vida. Portanto sim, estamos condenados a este ciclo. Mas não é só no Reino Unido, todo o Mundo está rendido a isto. Curiosamente, ouvi numa conferência que se retirarmos as 8 pessoas mais ricas do Mundo, estaríamos a retirar 20% das riquezas mundiais. Ou seja, imagina estes 20% retidos em apenas 8 pessoas? A riqueza está mal distribuída.

E em relação ao Brexit?

[risos nervoso] Acho que se tem que ter cuidado ao falar sobre esses assuntos. Em relação à decisão só digo apenas que: se as coisas estão bem, para quê mudar? Estão a perceber? Agora, toda a campanha do #Leave foi uma fraude em que muitos “caíram”. Um monte de mentiras, mas é tarde demais. A cruz já estava feita na caixa. Aliás, nós somos todos culpados pela situação.

A Morte em vários estados no Festival de Cannes

Hugo Gomes, 18.05.19

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Être vivant et le savoir (Alain Cavalier, 2019)

A morte manifesta-se de diferentes maneiras aqui em Cannes, a começar pela simulação de Alain Cavalier que em “Être vivant et le savoir” [Fora de Competição] experiencia o fim, mesmo indiretamente, através da resistência de uma velha amiga sua perante o cancro. Luta que acabará em tragédia e nisso, Alain Cavalier, sem medos de utilizar o seu modelo de cinema-manual, expõe o intimismo, os pensamentos e uma dor controlada com a perda de outros (o seu mundo desaba perante os seus olhos).  A morte anda de lado com este novo trabalho do realizador de “Thérèse” e “Irène”, não só pelos fatídicos eventos filmados por Cavalier, como também a sua reimaginação para com o seu próprio fim. O realizador passa para o outro lado da câmara e, após a finalização do seu monólogo, suspende a respiração. Por breves minutos, os espectadores assistiram à queda do cineasta, o seu abraço correspondido com a morte que o cerca. É um filme-testamento, sentimos isso.

Após uma breve introdução de Thierry Fremaux, o poeta (tal como o diretor artístico de Cannes o apelida) entra em palco e emociona-se com a calorosa recepção com que a Sala Bunuel o recebe. Discurso feito e sai inesperadamente da sala. Só depois do filme é que percebemos a sua atitude. A morte aproxima-se cada vez mais e não vale a pena invocá-lo desnecessariamente.

E a morte persiste em outras propostas do festival. Ken Loach procurou no seu cinema característico responder indiretamente a indiferença das sociedades modernas com este tópico. Depois do vencedor da Palma de Ouro, “I, Daniel Blake”, Loach regressa à Competição com “Sorry We Missed You”, onde analisa através de uma família nas suas plenas dificuldades financeiras e sociais, um novo tipo de trabalho precário. O surgimento da “economia gig“, segundo o realizador nas suas notas de imprensa, que veio originar uma nova e disfarçada forma de “escravatura”. O que é que isto tem de relacionado com a morte? Simples, é um filme que ataca uma certa ideia persistente nas sociedades ultra-capitalistas: “temos que trabalhar até morrer”. E que vida é essa, se passamos grande parte dos dias a trabalhar, a gerir horas, a conseguir subsistir através de contratos cada vez mais apertados e sempre monitorizados pela tecnologia. 

“Sorry We Missed You” usa essas questões e oferece-nos um filme-exemplo que facilmente poderia entrar em território panfletário, não fossem os seus atores, meros desconhecidos que vêm para a Croisette provar através de uma intensa carga dramática, que merecem um lugar neste universo chamado Cinema

Mas também a morte é o inexplicável, o sobrenatural e o fantasioso. “Atlantique”, uma das obras que aguardávamos com mais expectativa na Competição Oficial, trabalha com o prenunciado fim como o recomeço. Numa cidade costeira do Senegal, a tragédia também faz parte dos romances proibidos, quase shakespearianos, e os fantasmas deambulam na noite como gatos pardos oriundos do mar que se encarregam de guardar os corpos. Dirigido pela atriz Mati Diop (“35 Shots de Rum”), “Atlantique” é um novo exemplo do dispositivo Apichatpong Weerasethakul: a naturalidade com a sobrenaturalidade existente. Mas fora isso, estamos perante um belo filme que oscila pela terra e pelo longínquo e desconhecido oceano, para mais uma vez “tocar na ferida” da questão dos refugiados. Esse vai-e-vem ao improvisado cemitério marítimo para chegar a terra firme, como espíritos de assuntos pendentes, é feito com graciosidade.

Este país não é para Daniel Blake

Hugo Gomes, 14.05.16

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Ken Loach continua a sua luta pelos direitos da classe operária, tentando denunciar um sistema falível de Segurança Social e o peão dessa sua experiência propagandista é Daniel Blake (Dave Johns), um carpinteiro de meia-idade sob graves problemas cardíacos que luta contra a burocracia em prol dos seus direitos enquanto cidadão. Neste caso, uns “trocos” para a renda semanal era mais que bem-vindo, mas uma realidade cada vez mais difícil perante uma sociedade que não integra nem deixa integrar. Não é mais uma citação de “este país não é para velhos”, trata-se sim da busca pelo orgulho do proletário, e toda a propaganda que é assim afinada, não validando, portanto, a emoção dita cinematográfica, quase emprestado aos grandes crowd pleasures de Hollywood.

No ano passado, assistimos igualmente na competição de Cannes “La Loi du marché”, de Stéphane Brizé, um filme muito apegado ao realismo que reduzia o ator Vincent Lindon ao desespero enquanto desempregado. Ao contrário dessa obra, Ken Loach apela à emoção como veículo de luta e o seu apoio neste teor contrai maravilhas para o espectador. Em simultaneamente com os vínculos de realidade formal que esboça nesta desesperante jornada de um homem que acima de tudo deseja ser tratado como tal e não, como é referido a certa altura, num cão.

Mais do que um ensaio precário à lá Laurent Cantent, “I, Daniel Blake” apresenta-nos outras importantes questões na nossa sociedade, entre os quais a apresentação da tecnologia não como um facilitismo, mas como um obstáculo para a população mais envelhecida, e o facto desses sistemas de Segurança Social apoiarem quase exclusivamente no informático. Existe particularmente uma sequência onde Daniel Blake revela uma cassete de música a uma criança, sendo que esta desconhece por completo tal formato físico. Isto tudo para dizer que os tempos constantemente mudam e não dão tréguas a quem continua presente no “século passado”. Emotivo e igualmente furioso.