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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Quarteto de cordas

Hugo Gomes, 22.07.25

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Tenta-se mais um Quarteto. Tenta-se ser mais Fantástico do que o anterior. Mas as ilações tiradas mostram como uma das personagens mais complexas da assinatura Marvel, o(a) Surfista Prateado, criatura de um outro espaço que para proteger os seus, sacrifica-se à eternidade numa servidão a um tirânico devorador de Mundos (Galactus), angariando culpa e culpa de trilhões de vidas perdidas em prol da insaciável fome da entidade. Contudo, continua sem atingir a sua ênfase dramática nem os seus dilemas existenciais na transposição para o grande ecrã. 

Se não contarmos com as constantes alusões projectadas pela personagem de Richard Gere em “Breathless”, de Jim McBride (sim, o remake americanizado de “À bout de souffle”), as raras importações cinematográficas da figura criada por Jack Kirby são de uma bidimensionalidade atroz, e este “Fantastic Four: First Steps” não foge à regra, mesmo que o “building up” da incorporação de Julia Garner prometa algo acima do que é entregue. Mas não poderíamos esperar muito da Disney neste conteúdo,  e os incómodos dilemas, os complexos que estes quatro magníficos poderiam trazer e deliciar, são facilitados para qualquer freguês entender, sensibilizar, ou interpretar tudo no rol de cinema escapista, diríamos até “pipoqueiro”, se não fosse o caso de as pipocas se apoderarem do espectáculo, nestas condições, ao invés do filme.

Pintado com tinta retro-futurista, a aposta marvelesca inicia-se com a condição de ser um mundo alternativo, não situado no contexto partilhado, mas sim na mistela multiversal que esta fase [phase] nos assegura como grande finale. A ópera aqui orquestrada tem notas que, vá lá, arrancam sorrisos breves, mas nunca uma verdadeira adição. Primeiro, o descartar de muito do humor marvelesco, representando um risco quanto ao seu modus operandi. E, se “Superman”, na sala ao lado, adquiria a cor e a jocosidade que se recordava com nostalgia, aqui a Disney quer consequências, quer seriedade, e insinua umas piscadelas ao texto de crítica político-social.

Obviamente, nem uma coisa nem outra se expandem. Tudo é despejado, entregue a discursos demagogos e de compreensão deslizante. Nem o tal Complexo de Abrãao, que poderia, por um lado, alavancar, feito Arquimedes, o produto para além do aristotélico A e B e clímax C com destruição e festim CGI, é repensado na oralidade de Vanessa Kirby, enquanto Susan Storm (aka Mulher Invisível), de cima do palanque, frente a uma violenta mob, desesperada pela escolha dos seus herois de inspiração, às portas do Armagedão. Resolve-se a situação com empatia, não ao próximo, mas para com eles, a do tal grupo de super-humanos, algo elitistas e bravos no seu admirável novo mundo. Contudo, não convém sermos demasiado duros com esta miopia crítica, porque o próprio mundo aqui construído é binário: os protagonistas e os “outros” (que se resumem ao restante globo), completamente servis às vontades destes seus conquistadores.

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Mesmo com algum camp e kitsch atirado à cara, “The Fantastic Four: First Steps” resume-se ao “mais do mesmo” em termos produtivos e dentro dessa linhagem do MCU. Tem personalidade, o que já é algo, quando comparado aos seus congéneres formatados (“Thunderbolts*” sofria precisamente dessa carência), mas, evidentemente, não é Kierkegaard, mesmo que assumindo a sua limitada sapiência em ser-se “alegórico” sem sê-lo. São milhões investidos, há que ser perceptível, há que acompanhar a juvenilidade dos seus atendentes.

Noutras ordens, Kevin Feige convocou recentemente as suas hordas para anunciar que, em breve, todos estes universos terão o seu reset, um recomeço, ou seja: “toca o disco, vira, toca do mesmo”. Assim vai o estado de saúde do cinema americano à la Hollywood. Enquanto isso, o Surfista Prateado continua aquém da sua potencialidade. Parece que há filosofia nos comics que o audiovisual ainda não consegue replicar.

Um lobisomem americano no seu devido lugar ...

Hugo Gomes, 13.01.25

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Drácula não se descolou das suas origens, já Tom Cruise aterrou catastroficamente na tentativa de arrancar um desejado universo partilhado, o Dark Universe, como fora precocemente baptizado. A Universal Pictures queria transformar a sua galeria de monstros clássicos num desfile de reavivações e reinvenções, com a Marvel em papel vegetal, mas nunca conseguiu — os acidentes foram muitos e muitos. No entanto, apesar da perda de um possível franchise, ganharam-se releituras ajustadas ao elemento do terror, o de falar de qualquer outra ‘coisa’ sob a subtextualidade do seu susto, e é aqui que entra Leigh Whannell, antigo argumentista de “Saw” (2004), que desbravou caminho como realizador em projetos de baixos orçamentos, seja na ação, com “Upgrade” (2018), seja neste espólio de horror “datado”, agora sob a tutela cuidadosa de um produtor autoral como Jason Blum (Blumhouse).

O resultado desse duo foi “The Invisible Man” (2020), surpresa de voyeurismo exacerbado, com camadas de violência doméstica, perversidade e abusos físico-psicológicos — tudo aquilo que Paul Verhoeven não conseguiu concretizar em “Hollow Man” (a despedida do holandês do cinema americano em 2000). Este feito, alcançado mesmo às portas do encerramento dos cinemas devido à Covid, fortaleceu a confiança de Whannell e Blum em uma agenda de "velhas histórias com novas roupagens". Agora, o próximo destino é um território mais felpudo, dentudo e com garras a condizer. 

Wolf Man” — lobisomens, claro —, aqui afastado de Londres e das mariphasas, do goticismo e de outras interações clássicas, transportando-nos às florestas densas do interior americano, naquilo que pode ser traduzido como “exercício cronenberguiano sobre papéis sociais, sem jumpscares e com CGI nos mínimos dos mínimos possíveis”. A equação inclui transformações grotescas, gradual e inteligentemente tratadas com efeitos práticos (que bem!), longe da espectacularidade referencial de “An American Werewolf in London” (John Landis, 1981), mas mantendo uma visceralidade digna do território do body horror, e claro, Cronenberg nas suas mais diferentes vertentes (o próprio realizador afirmou que piscou os olhos ao “The Fly”), não apenas estética, um “bode expiatório” nesta adoração à Lua Cheia.

Mas vamos aos factos: Whannell consegue … check … oferecer-nos um filme de terror sóbrio e ciente das suas limitações orçamentais. Mais do que isso, usa esse “custo reduzido” como vantagem, com criatividade no ponto e engenhosidade na exposição, este know-how, tão frequentemente esquecido nos filmes de estúdio (sim, estamos a olhar para ti, Eggers!), é o motor que alimenta este cerco de lugares-comuns do género — incluindo uma casa isolada no mato, com Evil Dead nas suas entranhas. Se é verdade que, no que toca ao argumento, não há nada radicalmente inovador (reinventar o mito do lobisomem é bem mais difícil do que o da invisibilidade do “monstro” originário de H.G. Wells), é porém na recitação do terror que este filme sobressai dos muitos produzidos em contexto de majors, e mais ainda, pela sua proposição a outras leituras, sendo aqui o medo como sempre fora, uma alegoria a aproveitar. 

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Neste caso, vemos os “papéis sociais” estabelecidos e questionados pela modernidade como parte dessa “moral”. O homem passivo (Christopher Abbott, “James White”), doméstico e pai a tempo inteiro, que converte-se nesta animalesca figura para se tornar num ser ativo, do outro lado, a mulher (Julia Garner, “The Assistant”), beneficiada da desconstrução ao ponto de não ser mais identificável com o “papel original” quando mais necessitará, sim, referimos esse lado maternal. O filme brinca — até esteticamente — com essas perspectivas, criando um diálogo que, gradualmente, se torna incomunicável. Dois sexos, dois mundos antípodas, cada um interagindo de forma distinta com as suas sociologias, as divergências são evidentes com o rodar de câmara. Podemos dizer que a criatura incorpora uma masculinidade tóxica, quase hereditária (paralelamente “Bowling Saturne” de Patricia Mazuy entra nesse joguete, fica a dica) e a mulher, a final girl, outro papel garantido, a sair-se numa inesperada emancipação. 

O confronto não é apenas físico, há nela uma ambiguidade sobre as desconstruções e os efeitos que trarão numa sociedade intrinsecamente doente, repressiva e de “monstros” ocultados. A besta licantrópica não é apenas um antagonista, é um sintoma social que exibe uma materialização das tensões subjacentes. A “domesticação”, frequentemente “pintado” por quem deseja proteger sua “fortaleza masculina”, pode gerar certas feralidades (uma ferocidade, como se testemunha no panorama político atual, parte dele advém dessas transgressões sociais e a “distorção” desses papeis).

Estas são apenas leituras possíveis, e cada espectador encontrará as suas certamente, espelhando um terror detido nessa capacidade de ser interpretado de diferentes luzes, assumindo uma nova dimensão conforme a visualização. Sem preço até, especialmente nestes tempos em que a sobreliteralidade encontra-se excessivamente valorizada (basta ver o fenómeno “The Substance”). Não querendo soar a cheerleader, nem que o valha mas … Leigh Whannell conseguiu mais uma vez. Hurray!

Make werewolves great again!

Hugo Gomes, 08.01.25

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Garras, dentes e pêlo ... os lobisomens viraram objeto cronenberguiano e Leigh Whannell comprova, mais uma vez, que com pouco faz terror como "gente grande", e com receitas velhas, daquelas mais antigas que o próprio conto.
"Wolf Man" estreia no próximo dia 16 de janeiro, e é tudo aquilo que "Nosferatu" de Eggers não conseguiu ser em nenhum momento.