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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #3 - Uma tarde sem solidão. Uma conversa com Susana Bessa

Hugo Gomes, 12.10.25

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The Pleasure of Being Robbed (Josh Safdie, 2008)

Escrever crítica de cinema é um ato solitário e nem sempre o mais pacífico. São guerras interiores, ideias em combustão, a incessante procura por um espaço “silencioso”, longe dos ruídos e da vida urbana, que, ao contrariar a corrente, libertam a inspiração de que necessitamos… ou assim acreditamos. Foi numa dessas tardes solarengas, com vista para a serra da Arrábida, do outro lado da margem do estuário (engajando o episódio inaugural), que a crítica de cinema Susana Bessa se juntou para uma conversa sobre lutas quotidianas, emoções impressas em textos e representações positivas, como também sobre o inevitável ‘entrar’ na arena sob violência intrinsecamente cultural e o sacrilégio desse ritualizado encontro entre homem e animal. Filme, esse, que no seio desta pequena sociedade chamada “cinefilia à portuguesa”, acabou por gerar um debate politizado e até ético. Alguns lamentos acerca da nossa contemporaneidade emergiram, até porque não se combinou ser rigoroso nem seguir fórmulas (aqui não se fala de cartaz). Nelas revelámos o desgaste e, sobretudo, Vida. Porque escrever crítica é aproximar da nossa Humanidade.

Ouvir episódio completo aqui

Irmãos, projectos a meias ...

Hugo Gomes, 01.03.25

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Auguste e Louis Lumière, os pais do cinematografo

- La Sortie de l'usine Lumière à Lyon (1895)

- L'arrivée d'un train à La Ciotat (1896)

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Jean-Marie e Arnaud Larrieu, realizadores

- Tralala (2021)

- Roman de Jim (2024)

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David e Nathan Zellner, realizadores

- Damsel (2018)

- Sasquatch Sunset (2024)

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Runje, Runme e Runde Shaw, produtores de Hong Kong, fundadores do Shaw Bros

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Harry, Albert, Sam e Jack Warner, fundadores da Warner Bros

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Josh e Benny Safdie, realizadores

- Good Time (2017)

- Uncut Gems (2019)

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Jen e Sylvia Soska, realizadoras

- American Mary (2012)

- Rabid (2019)

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Ethan e Joel Coen, realizador e argumentistas

- True Grit (2010)

- Inside Llewyn Davis (2013)

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Anthony e Joe Russo, produtores e realizadores

- Avengers: Endgame (2019)

- The Gray Man (2022)

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Jean-Pierre e Luc Dardenne, realizadores, uns dos bastiões do cinema realista francês

- Rosetta (1999)

- L'enfant (2005)

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Vittorio e Paolo Taviani, realizadores

- Padre Padrone (1977)

- Cesare deve morire (2012)

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Oxide e Danny Pang, realizadores e editores

- The Eye (2002)

- Re-cycle (2006)

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Tony e Ridley Scott, realizadores e produtores

- Produtores de "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford" (Andrew Dominik, 2007)

- Produtores de "Stoker" (Chan-wook Park, 2013)

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Mário e Pedro Patrocínio, realizadores, diretores de fotografia e fundadores da produtora Bros

- Complexo - Univeso Paralelo (2011)

- I Love Kuduro (2014)

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Lina e Maira Fridman, realizadoras e produtoras

- Calendário (2020)

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Lana e Lilly Wachowski, produtoras e realizadoras

- The Matrix (1999)

- Speed Racer (2008)

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Paul e Chris Weitz, realizadores

- Down to Earth (2001)

- About a Boy (2002)

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Bobby e Peter Farrelly, realizadores e argumentistas

- There’s Something About Mary (1998)

- Me, Myself & Irene (2000)

Adam Sandler e a "Big Apple"

Hugo Gomes, 04.02.20

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Esta é a Nova Iorque pintada com as habituais aguarelas dos irmãos Safdie, nisso não há dúvidas algumas. A “Big Apple" é novamente transformada numa selva de asfalto onde a lei do mais forte se faz ditar pelas suas ruas multiculturais e na imensidão humana. E onde os “necrófagos” pairam aguardando pela sua oportunidade de inverter a pirâmide hierárquica deste pesadelo. Dentro deste leque de “come-restos” e oportunistas humanos está Howard Ratner, um joalheiro que acaba de adquirir a sua grande opala, pedra preciosa vinda da Etiópia, ainda banhada pelo sangue dos sacrificados, sem saber que esta será a início da sua derrocada.

Guiados neste turbilhão por um Adam Sandler submetido a um tratamento “safdiano”, olhamos, julgamos e, sobretudo, prezamos pela decadência humana que envolve o protagonista durante os seus esquemas e artimanhas, sejam profissionais ou afetivos. Tudo em "Uncut Gems" é acelerado, como uma força energética omnipresente que nos apressa a julgar ou sentir empatia por esta personagem que aguarda o seu micro-apocalipse. Uma mistura de trágico e comédia é aquilo a que a vida de Ratner é reduzida, uma longa piada de contornos nefastos e até mortais.

O filme é assim, frenético, desarrumado (a câmara guerrilheira parte somente como uma testemunha ocular) e sem compaixão pelos seus personagens, humilhados perante uma prolongada malapata, signo tão recorrente no cinema de Ben e Josh Safdie. Nisso não devemos negar, foi emprestado por Martin Scorsese e o seu muito influente “After Hours”, carregando a negrito na lei de Murphy de que se o que possa correr mal irá correr mal na pior altura possível.

E quanto a Adam Sandler? A grande ausência nas nomeações dos Óscares? Confessamos que não há nada de novo na interpretação, é igual a todos os registos da sua corrente de comédias. Só que aqui os Safdie colocam essa sua "persona" num ambiente propício às suas vertentes dramáticas e ele camufla-se neste cinema, com esta cidade, com esta vinculada má sorte de que anseia sair. Sandler converte-se num farrapo, num destroçado velcro vazio, egoísta e auto-destruidor, e nisso encontramos uma face insólita nesta estrela que costumamos associar ao “mau cinema” (salvo os raros momentos em que sai das comédias tontas ligadas ao ego, em filmes de Paul Thomas Anderson, Noah Baumbach e James L. Brooks). Por outras palavras, o grande impasse do ator noutros filmes é o seu envolvente ego, aqui diluído com a essência imposta pelos realizadores.

Vale a pena prestar ainda atenção à banda sonora desproporcional, que se assume como uma intrínseca anarquia dentro da ação. Os irmãos Safdies são realizadores de caos citadinos e, ao mesmo tempo, artesãos sincronizados com o sonoro, essa musicalidade que acompanha os personagens como uma narrativa à parte. A música não encaixa na psique do filme, soa com uma narrativa à parte e independente do que estamos a ver, seduzindo as personagens e desafiando os espectadores. Afirmação de uma identidade cinematográfica gerada pela independência de um cinema marginal em contra-corrente dos marcos "hollywoodescos", “Uncut Gems” confirma Safdies como os mais passivo-agressivos realizadores norte-americanos do momento. Sem com isto insinuar um menosprezo, longe disso: estão entre os grandes autores do outro lado do oceano, na reinvenção artística e até na direção de atores, como os maiores admiradores das encruzilhadas da alma humana.

Amar e desgraçar-se em Nova Iorque

Hugo Gomes, 16.11.14

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A segunda longa metragem conjunta dos irmãos Safdie (Ben e Joshua) é composta por um cinema espontâneo, cru e neorrealista nas ruas de Nova Iorque, pavoneando-se como um conto de miserabilidade humana, mas com um olhar crescente para o individualismo pessoal. “Heaven Knows What" é inspirado num relato de vida, ainda por publicar, da sua protagonista, Arielle Holmes, uma toxicodependente e sem-abrigo que graças a esta obra cinematográfica tem sido reconhecida e declarada como uma estrela para o futuro. E não é para menos. A agora actriz é incisiva no seu empenho autobiográfico, declarando-se um figura simbiótica com o paradoxismo e bizarria do seu Mundo, o qual se encontra repleto de marginais e é "adocicado" por um atípico romance que transcreve um "amor-cão" ácido para os próprios parâmetros do romantismo cinematográfico (o actor Caleb Landry Jones é prova dessa bestialidade amorosa).

Ausente de crítica e de esboço social, sem moralidades nem compaixão com estas "criaturas" sob vestes humanas, a narrativa é impetuosa e vibrante como poucas, originando cumplicidades com uma câmara irrequieta e interveniente, sempre acompanhada por uma banda sonora minimalista [Paul Grimstad & Ariel Pink] que tão bem acentua as almas das suas próprias personagens. Os Safdie conseguiram aqui o efeito naturalista e recorrente a um cinema urbano, selvagem e psicologicamente violento, preenchido por figura enigmáticas, "aprisionadas" a um habitat complexo, mas quase incompreensível para os demais, onde tudo se resume a um campo de batalha entre a vida e a morte.

É cinema independente norte-americano no seu melhor estado, envolvido sob um sopro de ar fresco que revela assim a esperada emancipação da dupla de realizadores no panorama cinematográfico depois de “Get some Rosemary” (2009). A construção de uma nova linguagem? Talvez sim, talvez não, até porque não existe uma evidente ruptura estética, apenas a compreensão e a progressão dos demais antecedentes, mais do que um mero híbrido da veia documental. Mas por enquanto, podemos apreciar uma experiência vertiginosa nesses termos, liderada por uma protagonista que revive o seu falso quotidiano uma enésima vez.