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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Lavagante e champanhe ...

Hugo Gomes, 02.10.25

Captura de ecrã_2-10-2025_132942_www.youtube.com.

"O lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.

Podíamos, nesta altura, estar a celebrar (ou, no mínimo, a constatar) o regresso de António-Pedro Vasconcelos [APV] aos braços de Paulo Branco, mas o destino prega das suas partidas de vez em quando, e “Km 224” tornou-se no ingrato ponto final da sua carreira. O que restou foi um argumento: a adaptação do homónimo livro (por sua vez também inacabado) de José Cardoso Pires, e, no sacrifício da obra, o deslizar de Mário Barroso (de diretor de fotografia para a cadeira de realizador). Difícil mesmo agora é imaginar “Lavagante” como o inimaginável epílogo de APV, até porque, nos últimos anos de carreira, este perdeu a apetência estética, resvalando para um formalismo de fácil digestão, por vezes a lamber o universo televisivo. Daí a questão interessante: como sobreviveria um realizador enredado nestes engodos populares num ambiente que se queria autoral? Requisitando essa via ou apenas o seu simulacro? Ora, mistérios do “e se”! 

Entretanto, “Lavagante” permeia como uma transcrição certinha, mesmo quando o contexto político-social exigiria outras agressividades, tendo em conta o palco português atual e as tentativas de revisionismo dos ideais de Abril. Na procura de um cinema político, Barroso (“Milagre Segundo Salomé”, “Ordem Moral”) parece não ter a garra necessária para transgredir a forma e o adorno aparente, mas, convém sublinhar: o que está em causa é o livro de Cardoso Pires, crítico feroz do antigo regime e das réstias deixadas nas gerações sucessoras. Onde “Lavagante” encontra a sua inspiração é na forma quase sedutora como procura, em Júlia Palha, uma obsessão histórica (no cinema sob o cunho de Branco, a actriz tem servido essa pele como ninguém — veja-se, por exemplo, “Campo de Sangue” de João Mário Grilo), mais do que mera pin-up, uma mulher idealizada num projeto de país. A câmara ama a actriz: nela há uma valsa gradual de olhares, sorrisos e gestos, um namoro, uma fantasia, a romantização de um país paralelo. 

A história de um médico enfeitiçado por esta jovem, culminando na prisão e posteriormente no exílio, é um conto cautelar, com moral enviesada, mas também uma culpa: o sacrifício de uma ideia de país, que só nos contornos adocicados do rosto de Palha o vemos miraculosamente representado, como pinturas rupestres. A sua personagem não é mais do que uma ninfeta, dito assim, parece objetificação vazia … ou talvez não, porque é na compostura, na desilusão trazida por essa prolongada canção de engate, que encontramos a defraudação: a renúncia de uma nacionalidade, de uma identidade, encorajada por esse canto de sereia. Poderíamos, sim, imaginar esta personagem de Júlia Palha pelos olhos de APV, só que, com Barroso, é isto que temos: sob um manto preto-e-branco, emoldurado e igualmente truque para falsear a reconstituição histórica, sempre longínqua, fora das possibilidades orçamentais do nosso cinema. 

Com isto, esperamos, aguardando ansiosamente, por um cinema político não confinado a nichos ou a estéticas autorais, mas algo que fale às massas sobre o saudosismo patológico ou sobre estes tempos tenebrosos que nos ameaçam. Algo adaptável às vontades de cada um, igualmente raivoso, nada contido. Em tempos, à altura de “Parque Mayer”, APV declarou de peito aberto: o “único cinema político português é o meu”, nada mais distante da realidade. Ser político não é apenas reconstruir uma época, é desestabilizar uma estação. Nesse aspecto, APV era demasiado domesticado; Barroso, por outro lado, demasiado ilustrativo.

"Lavagantar"

Hugo Gomes, 19.09.25

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História de lavagantes e safios, de realizadores do povo e realizadores de outra ordens morais, um filme sobre a memória recente urgentemente requisitada que opera numa transformação alegórica do corpo de Júlia Palha num país que nunca existiu, mas o qual se deseja intensamente.

"Lavagante" estreia 2 de outubro nos cinemas portugueses.

Eduardo Serra (1943 - 2025): pintando telas em tom de pérola

Hugo Gomes, 22.08.25

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Girl with a Pearl Earring (Peter Webber, 2003)

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O Delfim (Fernando Lopes, 2002)

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Unbreakable (M. Night Shyamalan, 2000)

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A Promise (Patrice Leconte, 2013)

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A Mulher do Próximo (José Fonseca e Costa, 1988)

Fados (Carlos Saura, 2007)

 

Um dos nossos nomes mais internacionais deixou-nos, após uma homenageada “Carta Branca” e ciclo na Cinemateca. O fantasma da sua ausência fazia-se sentir nos corredores e nas salas de projeção, até que alguém disse: “Está doente, é uma pena… era muito talentoso.” O derradeiro chegou e, com ele, a força das manchetes. O que dirão perante obra afiada e olhar aguçado? Valorizarão apenas o facto de ter ido para Hollywood e de ter assinado um dos “Harry Potter”? Já esse ciclo continha uma mensagem clara: há sempre mais por onde olhar no cinema de Eduardo Serra. A sua internacionalização não deve ser desmedida para os puristas; a sua sensibilidade fotogénica enche telas … e se as enche!

"Sombra Brancas": um filme-simoso

Hugo Gomes, 20.04.23

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Um filme-simoso … a palavra, essa, pura invenção do seu autor - José Cardoso Pires - após sofrer um derrame cerebral que o “atirou” para um “branco limbo”. Em jeito poético, resume-se a um escritor que esquece de ser escritor e por sua vez o seu mundo, dessa forma, tenta (re)identificar objetos quotidianos, entre giletes ou óculos e o que sai é “simoso”, sem uso algum devido à sua inexistência gramatical. 

Esta adaptação de “De Profundis, Valsa Lenta”, obra literária algures entre o existencialismo biográfico e o experimentalismo ensaísta, objeto de “profunda” construção a partir da sua vivência em 1995 (o tal AVC), é fruto ficcional para Fernando Vendrell, produtor e ocasionalmente realizador, que havia tentado outro escritor e em outro espectro, 5 anos antes, com “Aparição”, sobre Vergílio Ferreira. Portanto, simoso é um estado, uma ideia, uma pluralidade, um gambuzino, e por outras andanças uma via para a criatividade, infelizmente “Sombras Brancas” debate-se para com a sua própria existência ao invés de persuadir na construção de uma, deseja ser uma biografia disfarçada, algo retrospectiva ou introspectiva, e por outro um forro surrealista e experimental, saindo o tiro pela culatra nesse mesmo alvo, no meio um retrato algo dissipado de um Lisboa intelectual e igualmente boémia, amantes do néctar da juventude interna, ou da (a)provação do “minete” (bem haja, em memória de Rogério Samora), ambiências que o próprio Cardoso Pires decidiu enveredar [com "Alexandra Alpha”] como contradição à tradição do ruralismo literário.

Sendo assim, tudo nos é desfragmentado, curiosamente seria essa a mais valia de “Sombras Brancas” (filmado durante a pandemia), uma entropia cerebral e narrativa, mas a confusão aí endereçada nada de refrescante nos traz, existe um sintoma de episódio-piloto em todas as sequências, como fossem esboços ou aperitivos para aprofundar em uma possível conversão de seriado televisivo. Ainda contamos com outro sintoma, não tão propício a enfartes mas de algum incómodo para com a sua natureza, uma sensação de coletivo, o que contraria aqui esse eventual e convidativo intimismo ou vertigem de morte, um índice vivente povoado de personagens em passagem e faces “desenhadas” num ensurdecedor eco. Um “simoso” nunca cumprido … daremos desta maneira uso à não-identificável palavra. 

Fernando Vendrell fica-se pela competência em trazer um livro infilmável (assim classificado, ao contrário de “Delfim”, a considerada obra-prima de Cardoso Pires, que contou com conversão fílmica de Fernando Lopes em 2002), sem romper as apropriadas vestes nem os seus estilos definidos, distanciando-nos do escritor regredido, interpretado aqui pelo muy generis Rui Morrison, porém, em matéria de desempenhos, a aliada contra a branquitude voraz, Natália Luiza (em dicotomia temporal com Ana Lopes), merecem os destaques e uma retirada das sombras (mesmo quão brancas sejam). A mulher, a mártir do ego desmesurável e dos pecados originais de quem é escritor, seja de raíz ou de causa, e de quem escritor nunca deixará de ser, mesmo que a vida prega as suas maliciosas partidas.  

 

“Como é que tu te chamas?”

“Eu? Edite. (...) E tu?”

“Parece que é Cardoso Pires”