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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Adeus John Hurt ...

Hugo Gomes, 28.01.17

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The first thing I am going to do when I get back is get some decent food.Alien (Ridley Scott, 1979)

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April the 4th, 1984. To the past, or to the future. To an age when thought is free. From the Age of Big Brother, from the Age of the Thought Police, from a dead man... greetings.1984 (Michael Radford, 1984)

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“Catch the midnight express.” Midnight Express (Alan Parker, 1978)

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“This is the sad tale of the township of Dogville.” Dogville (Lars Von Trier, 2003)

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“I am not an elephant! I am not an animal! I am a human being! I am a man!The Elephant Man (David Lynch, 1980)

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“In the absence of light, darkness prevails. There are things that go bump in the night, Agent Myers. Make no mistake about that. And we are the ones who bump back.Hellboy (Guillermo Del Toro, 2004)

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“I want this country to realize that we stand on the edge of oblivion. I want every man, woman and child to understand how close we are to chaos. I want everyone to remember why they need us!” V for Vendetta (James McTeigue, 2005)

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“Oh, no. Not again.Oh, no. Not again.” Spaceballs (Mel Brooks, 1987)

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“Survivors! Wash yourselves. The water supply section ... wash away the blood …” Snowpiecer (Bong Joon-ho, 2013)

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“The powers that be have been very busy lately, falling over each other to position themselves for the game of the millennium. Maybe I can help deal you back in.Contact (Robert Zemeckis, 1997)

O “monstro” num mundo de monstros!

Hugo Gomes, 07.11.14

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No primeiro vislumbre do cirurgião Treves (Anthony Hopkins) sobre o deformado “Homem-Elefante”, o seu olhar congela. Não é um horror nascido do medo ou da repulsa, mas antes da consternação perante tamanha desgraça humana. Um olhar de piedade, um pedido silencioso de misericórdia. Como espectadores, sentimos essa súplica: a súplica por uma criatura que, no fundo, não tem nada de místico ou monstruoso – é apenas um homem, condenado e aprisionado no seu próprio corpo. Neste instante, Hopkins oferece-nos humanidade e esperança, mas também um dilema moral: no papel do respeitado cirurgião londrino, ele resgata John Merrick (John Hurt) de um espectáculo de aberrações, devolvendo-lhe alguma dignidade. No entanto, à medida que tenta ajudá-lo a ser aceite por uma sociedade que sempre o repudiou, Treves começa a questionar-se, se estará, de alguma forma, a perpetuar o mesmo ciclo de exploração que condena?

Baseado numa história real tão trágica quanto extraordinária, “The Elephant Man”, de David Lynch, é uma obra sobre o lado mais animalesco da humanidade – um retrato de uma sociedade preconceituosa, que valoriza a estética acima de tudo, mas que, paradoxalmente, também se revela capaz de aceitação. Apesar de ser um filme do início dos anos 80, “The Elephant Man” emula a grandiosidade dos verdadeiros clássicos de Hollywood: filmado a preto e branco, com uma mise-en-scène cuidada e pausas narrativas intensas, comporta-se como uma obra atemporal.

Lynch, hoje reconhecido como um dos mestres do surrealismo cinematográfico norte-americanos (o lynchiano que cunhou com afinco), entrega aqui o seu filme mais acessível em termos narrativos. Ainda assim, a sua marca está presente: a evocação fantasmagórica da industrialização, o desconforto existencial, a atmosfera opressiva. Mas, acima de tudo, “The Elephant Man" é um dos seus filmes mais confrontacionais, tristes e crueis. John Merrick (um irreconhecível e extraordinário John Hurt) enfrenta um mundo habitado por monstros de carne e osso – não aqueles das feiras de horrores, mas os da sociedade dita civilizada. O realizador arranca desses momentos de brutalidade uma carga emocional impressionante, amplificada pela banda sonora de John Morris e coroada por um final arrebatador ao som de Adagio for Strings, de Samuel Barber – tema que, anos depois, voltaria a ser um protagonista (“Platoon”, de Oliver Stone).

Depois de “Eraserhead”, um pesadelo industrial onde Lynch explorava a fobia à deformidade e à paternidade, “The Elephant Man" marcou a sua transição do circuito underground para a ribalta. Apenas três anos após a sua estreia nas longas-metragens, Lynch conquistou um vasto público e a atenção da Academia, garantindo ao filme oito nomeações aos Óscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Ator para John Hurt. Uma obra mestra e de afirmação que, para além de consolidar a carreira de Lynch, se impõe como um conto negro, miserável, mas onde ainda persiste uma réstia de esperança. De uma beleza triste inimaginável.