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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O filme de "um branquela"

Hugo Gomes, 05.02.21

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Há umas semanas, a Variety pediu desculpa à atriz Carey Mulligan após esta ter manifestado a sua indignação com uma observação na crítica da publicação ao seu filme "A Promising Young Woman". Uma “novela” que certamente nos levaria para outro debate, mas curiosamente esta relação entre a crítica e artistas ganharia também um diálogo agressivo pela voz do ator John David Washington no papel de um realizador ansioso pelas primeiras reações em “Malcolm & Marie”.

Este que é um dos primeiros filmes produzidos e rodados durante a pandemia exalta-se como um exercício minimalista, algo referencial ao cinema do lendário John Cassavetes (no seu apoio aos atores e um visual e temático minimalismo). Washington contracena com Zendaya num extenso combate de boxe "matrimonial" em que de um filme dentro do filme emana uma conflituosa reflexão da sua relação. Mas voltando ao ponto inicial, o realizador está a desfrutar a primeira grande crítica ao seu novo filme, de “uma branquela do LA Times”, que começa com o palavreado da “obra-prima”. Para Malcolm, essa frase-feita para fins promocionais é um mero adorno e é a partir deste momento que começa a desconstruir todo o texto para a seguir revoltar-se com a ausência de pensamento no seio da crítica e, sobretudo, as definições instintivas desses profissionais.

Tendo em conta que Sam Levinson, o realizador de “Malcolm & Marie”, é um “branquela” em tempos prejudicado pelas reações negativas dos críticos ao seu segundo filme (“Assassination Nation”), estas "bofetadas" quanto à suposta (falta de) literacia revelam-se um ensaio cínico, de alguém que está a usar a personagem de Malcolm como um fantoche para a sua mal disfarçada vingança. Mas no fundo, após a consagração do seu trabalho com a série “Euphoria” (de onde vem Zendaya, que mostra a tudo e todos, tanto na série como neste filme, que vale muito mais do que o seu percurso na Disney), ele tem uma certa legitimidade na sua postura, assim como em todas as outras "bofetadas" que vai dando ao longo de "Malcolm & Marie".

Mas este filme não é apenas uma arma de arremesso à fraca frontalidade e liberdade pensante da crítica cinematográfica, e confia no suplício dos seus atores para exibir a vitalidade destes amantes inconstantes, destes adversários emocionais, durante os assaltos do tal "boxe matrimonial". Nesse aspecto, encontramos um duelo preciso e uma crença inabalável em Washington e Zendaya, nas suas próprias palavras e na sua conturbada cumplicidade. Aqui, o Cinema ainda deve, e muito, ao Teatro, e “Malcolm & Marie” apropria-se disso num estilo arrojado e estetizado, mesmo que para isso tenha de reduzir a Sétima Arte a que pertence.

Em inversão de marcha pelo resgate do espectáculo cinematográfico

Hugo Gomes, 25.08.20

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Tempos estranhos, aqueles que estamos a vivenciar. Do qual ficamos perplexos ao admirar multidões que se reúnem em óperas, lotando salas, como aquela que indiciamos nos primeiros minutos de “Tenet”. Pois bem, julgávamos nós que iríamos presenciar uma pequena amostra da performance da orquestra no palco, infelizmente (talvez os mais que habituados às iguais sinfonias), temos a alternativa dos rompantes trombones à lá Hans Zimmer (compositor que nas mãos de Christopher Nolan soa como um génio de um só acorde, aqui substituído por Ludwig Göransson), que dão entrada ao golpe, espaço tão familiar e comum no cinema do realizador. Mas não desviemos do objetivo, e novamente sublinhando o incomum da nossa disposição, é na empatia para com as máscaras vitais que o nosso protagonista e a sua trupe terão que recorrer num mundo, literalmente, ao “contrário”, ou seja, estranho mundo este em que identificamos com tais adereços.

Com isto, saliento, assim como muitos filmes que tem suscitado nas nossas salas de cinema após a nossa exposição de um confinamento longo acompanhado por um medo imposto pelos medias, redes sociais e não só, “Tenet” alterou-se perante o empírico da sua audiência. Porém, é também na vitalidade do cinema enquanto negócio que depositamos a fé em Nolan neste filme, até então, misterioso, mas que mesmo assim consumiu 200 milhões de dólares de orçamento. Como tal, adquire o seu quê de messiânico e comporta-se (isso mesmo) como a última “bolacha do pacote” em termos operáticos, sem com isto apercebermos que o realizador, aliás autor de uma indústria vincada, megalómana e destruidora, oferece-nos o mesmo joguete. Complicar o que não merece ser descomplicado, extraindo um enredo simples e por via de acupuntura, alfinetar com os diferentes atalhos de pseudociência (física quântica para a mesa quatro), daquela que Nolan nos habituara e que em certos casos funcionava às mil maravilhas (“Inception”, por exemplo, continua como o seu filme fundamental para entender a sua natureza de espectáculo).

Tenet” impõe-nos uma trama globalizada, algo que Ian Fleming se lembraria para induzir o seu amado James Bond em mais uma demanda ao serviço de sua Majestade, mas aqui, a espionagem física e brutalizada por um desencanto contagioso nas suas virtudes técnicas (a fotografia amarelada tão monótona como o próprio concreto que maioritariamente serve de cenário) é recolhido por um macguffin temporal, a desculpa servida em bandeja para a atração de cartaz deste mesmo circo.

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Sem surpresas (aliás porque os trailer assim o mostraram), a ação, muito afastada da pornografia CGI, é dependente da inversão, o fast forward para entendidos. Para sermos sinceros, nada impressiona nessas imagens de marcha-a-ré. A culpa? Essa, advém dos 120 anos de história cinematográfica, desde a invenção acidental dos irmãos Lumière que funcionou num artifício de espanto, quando o público deparou com um muro de pedra que ao invés de tombar, ergue-se “milagrosamente” dos seus próprios destroços ("Démolition d’un Mur”, 1896). E o que dizer das constantes acelerações da cómica série "Benny Hill” ou dos populares (hoje esquecidos no pó) “Gods Must Be Crazy”? Isto tudo para afirmar o óbvio, que mesmo sob o selo de espetacularidade embrulhadas nestas sequências de adrenalina sintética, o movimento não é um feito nem uma descoberta, é a reutilização de algo visto, revisto e reproduzido em incontáveis ocasiões. E basta ir fora do audiovisual tradicional, qualquer plataforma de vídeos tem ao seu lote de “brincadeiras temporais”.

Quanto ao filme propriamente dito, “Tenet” apoia-se na incapacidade acrescida de Nolan em criar personagens, recolher emoções sem a cumplicidade do seu compositor fetiche e com isso, dirigir os seus atores de forma transgressiva. O resultado está à vista, um John David Washington que soa mais enfadado que o próprio filme ou um Kenneth Branagh over the top em vestes de um traficante russo que condensa um dos mais esquecíveis vilões da galeria de Nolan. Enfim, apenas Elizabeth Debicki, mesmo com uma personagem chapa 5, consegue trazer charme a um "mastodonte" isento dele.

Certamente, não é este o futuro ou a dependência do cinema, mas é, à sua maneira, um filme adequado para estes tempos distorcidos e … estranhos. Cinema espetáculo que ondula nas mazelas da sua própria indústria.

O renascimento de uma Nação

Hugo Gomes, 05.09.18

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Fora as questões de cinematografia, convém referir que nos anos 90, e não há tanto tempo assim, Spike Lee era visto como uma espécie de caricatura de um certo fundamentalismo afro-americano, nesse sentido, um filme como “Malcolm X” correspondia com exatidão à sua natureza. Com a passagem para o novo século, Lee foi de certa forma ostracizado pela indústria, como tal, tentou integrar-se perante projetos fora das suas amenas águas. Filmes como “Inside Man” e até mesmo o esquecível remake de "Oldboy" eram encarados como tarefas de subsistência perante uma Hollywood que definitivamente o desprezava. Não somente a sua figura, mas como evidenciava um inerente racismo e colonialismo no seio desta “utopia cinematográfica”. A América, porém, não mudou em paralelo com o circuito de Lee, apenas revelou os seus demónios interiores, sendo que, tendo em conta os tempos que vivemos, sentimos na obrigação de pedir clemência ao realizador, que se assumiria não mais, nem menos, que um subestimado messias sociopolítico.

Em “BlacKkKlansman”, Spike Lee subverte o caso real de Ron Stallworth (um detetive afro-americano que infiltra-se na sede do Ku Klux Klan, em plena década de 70) para abordar uma América de hoje, sob os enfeites dos movimentos trumpistas e da expansão extrema-direita. O filme soa a projeto antigo, com o cineasta a indiciar força de vontade para espelhar os seus profundos dilemas, entre os quais a repugnância por “The Birth of a Nation”, de D.W. Griffith, e pelo retrato exposto em outro clássico norte-americano, “Gone with the Wind”. Como sabem, Spike Lee sempre fora um apoiante à censura do incontornável filme de Griffith (incontornável no sentido da História Técnica e Narrativa do Cinema), sendo que nos seus anos enquanto estudante de Cinema protestava incendiariamente à inclusão da obra nessa História centenária. Como trabalho de graduação, Lee respondeu, literalmente, com “The Answer" (1980), onde transformou o filme com mais de três horas de duração numa metragem de 10 minutos.

E desse ‘Answer prolongado em toda a sua obra (mesmo as ditas contas industriais que se resistiam aos seus dilemas) chegamos a “BlacKkKlansman”, o qual somos correspondidos, por fim, ao seu ácido e por vezes urgente ativismo. Em tempos que filmes politizados à direita se convertem em êxitos sem precedentes (de “American Sniper” a quase tudo composto por Berg / Wahlberg), uma obra inteirada nas questões raciais e sociopolíticas que evadem todo um sistema bajulador da bandeira estrelada, assume-se, como diria os yankees, num must-see.

Mesmo sob um humor matreiro a ser confundido com os tons coenescos (por aqui aposta-se influência de Jordan Peele, realizador de “Get Out” reivindica a produção deste “BlacKkKlansman”), deparamos com um Spike Lee em estado de fúria, libertador do seu enclausuramento cinematográfico o qual encontra neste curioso ficheiro policial um pretexto para prosseguir o seu discurso. É sim, um filme de demagogia política centrada no seu alvo, visto que o realizador nunca exerce de maneira igualitária os mesmos julgamentos perante organizações tão opostas e igualmente propagadoras de ódio (os Black Panthers de um lado, a terem como punição um sermão ao de leve, e os Ku Klux Klan a ser ridicularizados … sublinha-se … deliciosamente ridicularizados). Esta desigualdade é tão própria de Spike Lee, mas assumimos “BlacKkKlansman” como um filme do seu tempo (precisamente o nosso), cujo objetivo principal requer toda a nossa e merecida atenção.

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Spike Lee dirige Adam Driver e Topher Grace em “BlacKkKlansman” (2018)

Mas é nesses signos de “The Answer”, que o filme tende por vezes cair num discurso incansavelmente reacionário, e propício à imagem dos mais recentes movimentos que anseiam apagar obras inteiras perante o seu conteúdo temático. “The Birth of a Nation”, é assim, a vítima da fúria de Lee, despachada para novas gerações como um somente “filme inconsequente e irresponsável” da História cinematográfica, ao invés de salientar a sua importância na linguagem da mesma. É óbvio que datado como se encontra, a obra de Griffith é uma tenebrosa e indigesta visão de um Mundo fabulista, idealizado por alguns loucos (e não são poucos), mas sem a existência desta controversa peça não existiria, estruturalmente, este “BlacKkKlansman”. Talvez estejamos a cair em conversas de sensibilidades puras ao invés de construirmos uma consciência exata e racional. Contudo, o debate de obra acima do autor / conteúdo tem mais que se diga e não iremos centrar-nos nestas questões perante um filme como este. “BlacKkKlansman” encontra firmeza nas suas palavras e atos, é uma produção vingativa, mas sabiamente vingativa que se reencontra constantemente. E por mais defeitos que possamos apontar a Spike Lee, nunca iremos acusá-lo de incoerência nesse mesmo discurso.

O realizador regressa naquilo que poderemos afirmar como um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos, conseguindo reunir um elenco capaz e vigorosamente carismático (desde o achado que é John David Washington, filho de Denzel Washington, até ao caricatural Topher Grace na pele do infame David Duke) e providenciando momentos de um cinema estruturado e tecnicamente expressivo (a reunião com os Black Panthers revela-se num onirismo aludido e metaforizado). Confirma-se, Spike Lee continua a demonstrar sangue na guelra.