O Nada de "Eddington" é o Tudo de Ari Aster

Afirma-se, como gravado em pedra, que David Lynch começou a fazer filmes como forma interessante de contar os seus sonhos, algo que, por outra via, normalmente receberia um sinal de reprovação e tédio do ouvinte. Da mesma forma, acredito que Ari Aster faz cinema para centrar as suas paranoias, conspiratórias e obsessivas até. Talvez seja esse o cinema dos novos artesãos, completamente embebidos num mundo em permanente mutação, o que os faz ser... digamos, deslocados, ansiosos e apreensivos.
"Eddington" resolve ser esse filme, um ensaio saído da cabeça do realizador, cuja autoria é impossível negar. Desde o primeiro momento, sabemos onde estamos: há máscaras faciais, e a resistência da personagem de Joaquin Phoenix (um xerife de uma pacata cidade texana que partilha o nome da tabuleta com o título da metragem), indica-nos que o enredo decorre em 2021, em plena pandemia e consequencialmente com o movimento #BlackLivesMatter emergido da trágica morte de George Floyd. O protagonista vive numa casa isolada com a mulher (Emma Stone), traumatizada por um certo episódio infeliz, e com a sogra “licenciada” em teorias da conspiração (Deirdre O'Connell), relação que o contaminará e o levará, contra tudo e todos, a concorrer ao cargo de mayor, contra Pedro Pascal, carismático titular do cargo (quase como uma meta-crítica à sobrepresença do ator na industria corrente). O resto da salganhada cómico-trágica apresentará um buffet de conspirações e delírios coletivos: Bill Gates, George Soros, Covid 19, Governos Sombras, ANTIFAS e cultos satânico-pedófilos … tudo triturado, e servido à colherada ao espectador.
À saída do filme em visionamento de imprensa, foi possível constatar reações emotivas de colegas meus, e outras tão entediadas quanto indiferentes, acusando a obra de ser “sobre nada”, ou até ser um nada. Saio, então, em defesa do Nada do filme, pois é precisamente a partir desse vazio a ser preenchido que compõe a natureza de muita espiral conspirativa. Se não fossem as teorias da conspiração fruto de uma suspeita quase estrutural sobre todas as formas de autoridade, um Poder “invisível”, quase reptiliano, que só alguns, os iluminados, conseguem decifrar, talvez este Nada não fosse tão inquietante, ou seja, o Nada é o Nada representado em "Eddington". Aí, Ari Aster conseguiu o que pretendia.
Mas Radu Jude também o fizera há uns tempos atrás no calor do confinamento, num turbilhão mais experimental, com "Bad Luck Banging or Loony Porn", só que sem precisar de tantas estrelinhas ou da solenidade de um tratado. Aster, porém, tem obsessões, e a sua preocupação com o estado da sociedade em que vive (os EUA) leva-o a cometer filmes como este. Da mesma forma que, antes, a falta de terapia o levou ao medo em "Beau Is Afraid".









