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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Leonor Teles: "A direção de fotografia é o lugar que me faz mais feliz!"

Hugo Gomes, 12.04.24

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"Baan" (Leonor Teles, 2023)

Chegamos a L (Carolina Miragaia), uma jovem que caminha numa dimensão diluída, seja nas suas memórias embaralhadas por ordens indecifráveis do destino, seja no lugar, entre Lisboa e Bangkok, uma nova cidade e ao mesmo tempo cidade nenhuma. Qualquer um de nós, outros já passando em oposição aos que ainda vão passar, identifica-se com L, as suas crises, as suas dúvidas existenciais, a sua melancolia nunca dissipada em festas alheias. L é mais do que uma personagem, é um estado de alma, e esse estado tem um outro nome: Leonor Teles.

Percorremos "Baan" (da palavra tailandesa "Lar"), nessa imaginação, nessa mistura de águas salobras. É um filme de passagem, isso sim, de uma realizadora, e quiçá autora, que desde o brilharete em Berlim ("Balada dos Batráquios"), se afigurou na linha da frente um cinema com novos olhares e linguagens a serem enxertados em Portugal. Depois da sua estreia em Locarno e do circuito comercial nacional, "Baan" parte em busca do seu verdadeiro lar, que é conhecido por outra designação: a sala de cinema.

Aproveitando a sua chegada ao Funchal, por via do cineclube/iniciativa Screenings Funchal, o Cinematograficamente Falando... partilha uma breve conversa com a realizadora, questionando-nos sobre os caminhos que Leonor (a nossa L) irá trilhar. Mãos à obra!

Arranco com a mais 'chata' das questões: como começou este projeto? 

A ideia para o “Baan” surgiu desde 2017, quando viajei e filmei um videoclipe em Macau. Daí nasceu um desejo de filmar um filme em território asiático, que surge desta procura num lugar no Mundo após o fim abrupto de uma relação. Obviamente que esta busca do “depois de um fim” traz consigo todas estas questões de; “como voltar a confiar?”, “Como se sentir bem” e outros problemas de confiança. É toda uma série de consequências e igualmente de novos horizontes o qual apetecia explorar no preciso momento em que uma pessoa perde a sua casa, e neste caso refiro a uma “casa emocional”. 

Bangkok e Almirante Reis, diluídos no mesmo espaço e no mesmo tempo, a criação deste “não-lugar” serve de alguma maneira como alegoria à abstração sentida e vivida por L?

Sim, sem dúvida. Esta ideia de um “não-lugar”, ou de um espaço mental vai muito ao encontro do que a própria personagem está a sentir e do que está a viver, e como se situa no mundo. Nós, muitas vezes, quando estamos em estados extremos de desilusão, de tristeza ou de euforia, temos a tendência de viver dentro da nossa cabeça, deitar-se nas memórias ou projetar futuros, simplesmente viver. Acho que se vive as memórias, viver dentro deste lugar que habita na cabeça dela, é como se o cinema pudesse ser o estado mental das personagens. É através do cinema, desta junção ou não-junção, deste cá-lá e tudo o mesmo sítio, que nos representa o espaço interior da própria L. Claro que isso se reflete. Vê e vive o mundo à sua volta. Era importante que a linguagem do filme transmitisse esse espaço interior. Portanto, sim, seria como uma abstração vivida pela L

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Leonor Teles no Festival de Locarno 2023

Porquê a escolha de Carolina Miragaia? Existe nela um reflexo, diria, autobiográfico?

A escolha da Carolina prendeu-se muito com o rosto e com o corpo que iriam dar vida a L, é certo que também há um lado autobiográfico, e isso é assumido, mas prende-se ao facto de não conseguir falar das ‘coisas’ que estão longe de mim. Para mim também era importante ter um lado familiar e próximo enquanto estava a filmar para que soubesse para onde estava a dirigir o filme, e como levar esta personagem? Como conhecer esta personagem? Como torná-la numa pessoa de carne e de osso, digamos assim, para quem está a vê-la no ecrã? A Carolina tem uma fotogenia incrível e uma presença muito forte e enigmática que acaba por atravessar a câmara. São qualidades que se tem que procurar até encontrar a pessoa certa para o papel em questão e no caso deste filme, a L só poderia ser a Miragaia

A gentrificação das cidades tem sido uma das suas preocupações, seja na curta dos "Cães que ladram aos pássaros", seja no discurso feito na primeira edição dos Prémios Curtas, e agora em "Baan", cujo título não é o acaso. Da produção da longa até aos dias de hoje, como vê essa situação, principalmente a habitação jovem nas grandes cidade portuguesas?

Sim, acho que nos “Pássaros” a gentrificação e a crise da habitação eram o foco e o tema central do filme, em “Baan”, também estão presentes mas não centrais. Há aqui muitas questões que atravessam a personagem e o filme que reflete a vida na cidade quase Lisboa, no qual existem tantas situações que não se encontram resolvidas e que precisavam de uma solução o qual preocupam os jovens. Era importante que o filme abordasse essas questões, que afetam a cidade, e que os que enfrentam dificuldades.

É certo que a habitação é um desses tópicos e é importante, não só a habitação física como também a reflexão e o questionamento sobre um lugar em que nos sentimos bem. É a procura de uma habitação interior e emocional. Tudo reflete um pouco a realidade de que se vive atualmente em Lisboa, principalmente a dos jovens que estão a começar a trabalhar e a assumir responsabilidades numa cidade muito agressiva e desigual.

Tendo em conta o seu percurso, e de uma segunda longa que distanciamento diverge da primeira [“Terra Franca”], que realizadora a Leonor espera ser, e que nós espectadores contaremos? Como se vê daqui a uns tempos?

Não tenho resposta a essa pergunta, porque nem eu sei o que vou fazer a seguir, nem posso lidar com as expectativas que as pessoas queriam.

"Baan" (Leonor Teles, 2023)

Para além de "Baan", 2023 ficou marcado pelo seu trabalho de direção fotográfica no díptico de João Canijo (saliento ainda o trabalho anterior com Pedro Cabeleira no "Verão Danado" ou com Ágata de Pinho na curta “Azul”), esse tipo de experiências a aperfeiçoam enquanto realizadora? Que lições com estes filmes você transporta para os seus?

Em relação à direção de fotografia, continua como o lugar onde me sinto melhor - apesar das pessoas me conhecerem da realização. Na verdade aquilo que pretendo e prefiro fazer, e investir o meu tempo, é sobretudo nesse campo, porque é o lugar que me faz mais feliz! É onde aprendo muito, e com cada realizador que trabalho, seja mais ou menos experiente, a partilha de ideias e discussões acerca dos projetos que estamos a desenvolver, permite-me crescer muito, não só profissionalmente, como também pessoalmente. Isso também me garante que possa tratar essas experiências quando estou a realizar ou a fazer outras ‘coisas’.

Porque ao conhecer os outros, e aprendermos com quem trabalhamos é sempre uma experiência gratificante e faz com que a nossa perspetiva esteja sempre a aumentar e isso torna os nossos trabalhos futuros melhores. É uma aprendizagem em vários aspectos; de como trabalhar com os atores, lidar com os atores, com a equipa técnica, no plateau, ou seja, um trabalho coletivo em constante aprendizagem.

Fica a minha homenagem: Os Filme!!

Hugo Gomes, 14.06.23

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A Filha da Mãe (João Canijo, 1991)

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Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro, 1989)

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Pesadelo Cor de Rosa (Fernando Fragata, 1998)

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Rosa Negra (Margarida Gil, 1992)

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O Sangue (Pedro Costa, 1990)

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O Convento (Manoel de Oliveira, 1995)

 

Teresa Ferreira (1940 - 2023) colorista 

Arquitetando males à lá Canijo

Hugo Gomes, 27.02.23

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"Mal Viver" (João Canijo, 2023)

Convém declarar que no cinema de Canijo o processo acaba sempre por ser a atração dos seus projetos, e nele concentra-se uma ação performativa intensamente arrastada, seja nos atores e a sua maleabilidade para aquilo que chamamos de “realismo” (o nosso senso perante essas representações), ou por outra, pela construção de uma instalação visual, cénica e sonora. 

No caso deste recortado “Mal Viver”, a sua característica nata encontra-se no segundo ponto, mais do que as possibilidades com que os seus atores (com muitas “caras” reconhecíveis do universo de Canijo por aqui) possam expressar. É a inteira percepção do realizador em elaborar um filme, arquitetonicamente falando, retalhado em diversas perspectivas (sendo que isso nos levará à outra face do díptico, mas já lá vamos). Assim, com “Mal Viver”, somos conduzidos a uma teia de dramas a ter lugar num hotel rústico, com enfoque na equipa que gerencia este mesmo espaço, esse abordado maioritariamente por vias de planos conjuntos, onde a ação é somente uma janela à escolha do freguês (literalmente e não-literalmente). O espectador assume então a posição de voyeur e é igualmente resistente face a não distrair-se do enredo principal, essa coluna vertebral conectando tudo o resto sem ordenar a sua execução linear. 

João Canijo presta-se ao desafio, vislumbrando o seu mais Tati dos filmes, um objeto aglomerante de ações sob ações, e o procedimento dessas mesmas em grande ecrã, como os diálogos interpolados e independentes, são apenas sintomas dessas personagens em livre arbítrio, pelo menos a sensação dada, visto que o realizador é um realizador por inteiro, autocrata e onipresente (próximo da rigidez de Haneke). O espectador, porém, perde esse estatuto endeusado, convertendo-se num testemunho impotente e sem certezas absolutas, escolhendo a óptica que lhe enquadrar e nisso prescrever o seu próprio filme. 

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"Viver Mal" (João Canijo, 2023)

Mal Viver” não se deleita nos corpos dos seus intérpretes (em território “canijiano” são escravos do seu método), é antes disso um filme-edificante, pensando e casuístico, cuja sua arquitetura se revelará ainda mais com “Viver Mal”, que ao contrário do filme-siamês, tende em controlar a perspetiva do espectador, ao invés de deixá-lo a “marinar” no ambiente. Desta feita, o enredo não é novo, já havia sido “descoberto” no filme anterior, e em modo loop é trabalhado com severidade na sua mimetização. Aqui, seguimos três histórias, três reservas, cada uma apresentando hóspedes presos aos seus respetivos pecados capitais ou crónicos bovarismos (“ah, o velho conto dos privilegiados encurralados nos seus ‘mundinhos’”). 

Mais do que a matéria desenvolvida em “Mal Viver”, “Viver Mal” encanta-se com os seus atores, e ainda mais na dramaturgia emanada por eles, os seus corpos tornam-se devidas medidas temporais quanto à narrativa tríptica, expondo o esqueleto deste projeto, entretanto repartido em duas estâncias fílmicas. E a conexão sexual entre os demais, reluzentes atrativos para o “buraco na fechadura” que o então voyeur-espectador não deixará de espreitar. Tal como o referido, e estabelecido, filme anterior, “misturamo-nos” com a plebe, faminta por “conhecer” os traços das vidas animalescas e de excentricidades calcificadas dos passageiros residentes (o qual tão bem nos identificamos com a personagem de Cleia Almeida, a camareira que remexe os pertences dos hóspedes ou que se intervém nas suas trivialidades, uma fantasiadora do degrau que nunca irá “pisar”). 

Contudo, é neste capítulo que presenciamos os desempenhos mais ferozes, seja uma Beatriz Batarda em modo “mommy dearest” ou uma Leonor Silveira, despojada vilã de novela, no desempenho mais desafiador da sua carreira nos últimos (e largos) anos. Poderão ser dois filmes desiguais, um mais cuidado que o outro, mas são provas da maratona que Canijo tem executado ao longo da sua carreira, da performance à idealização de um cinema prestigiado por diversos “pontos de fuga”.

 

"Magoamos a mãe?"

Fisicamente ...

Parir doi ...

Transforma."

'Non' ou Vã Glória de Salvar o "Cinema Português"

Hugo Gomes, 14.03.21

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Fade to Nothing (Pedro Maia, 2017)

Recordo vagamente de um diálogo à saída de uma das sessões da 14ª edição do Indielisboa. Estávamos em 2017 e o filme em causa era o ensaio visual e sonoro “Fade to Nothing”, a estreia de Pedro Maia no universo da longa-metragem, com a participação do artista musical Paulo Furtado, ou como é renomado de The Legendary Tigerman. A conversa em questão surgiu devido a uma certa indiferença por parte de quem debatia comigo quanto à experiência, finalizando com uma pergunta sem resposta alguma para devolver – “É este filme que salvará o Cinema Português?”.

Há muito, mas muito, quase como uma cruz pelo qual arrastamos praça adentro, discute-se um eventual “salvamento” do nosso cinema. Para satisfazer os prazeres da carne, ou entretenimento, como muitos defendem, ou por fim, restaurar uma ligação emocional com o perdido espectador que depara com uma instituição demasiado hermética e umbiguista. Conforme seja a causa trazida, uma ‘coisa’ é certa, todos nós esperamos por uma entidade sebastiana, aquele que irá romper o nevoeiro com a finalidade de colocar a nossa cinematografia no mapa. Enquanto essa figura messiânica não chega, arrecado com uma certeza, o cinema português não precisa de ser salvo, além disso, o que precisará, é de uns certos ajustes. Diria mais, localizados, mas isso são “outros cinco tostões”.

Em conversa com Rui Alves de Sousa no seu podcast À Beira do Abismo, reforcei o meu amor pelo cinema português, o “cinema que mais amo, porque é o meu”. Talvez um sentimento algo familiar nasce em mim no que refere a defender este universo, até mesmo durante os seus expositivos fracassos. Mas o cinema português é o meu maior interesse no que refere a cinematografias, é o nosso mundo, e é aquele que mais dialoga ou partilha o nosso espírito identitário, mesmo que muitos do espectadores não o revejam, esse é o Cinema que nos acompanha, que nos faz discutir com os nossos “eus” enquanto nação (para o bem ou para o mal).

Mas o cinema português não fala do real Portugal.” Muitos argumentarão desta maneira. Contudo, o que é o real Portugal? O Portugal rural? Esse, sempre presente em muitos dos nossos ensaios documentais, etnográficos ou memorialistas que buscam esses biótopos desgastados pela decadência e os fluxos migratórios dos mais jovens para as metrópoles. Portugal cosmopolita? Lisboa que sempre foi o focus de atenção nas nossas lentes e o Porto que serviu de berço à nossa atividade cinematográfica. Mas afinal, qual Portugal estamos nós a falar ao certo?

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Sangue do meu Sangue (João Canijo, 2011)

Então os problemas do nosso país? O nosso cinema só quer saber de artistas e lirismo.” Se o distanciamento pode ser traduzido por isso, então há uma novidade para vocês – a ordem natural (novos realizadores, novos olhares) que tem apostado cada vez mais em temas raros na nossa cinematografia, e porque não, de cariz social. Abordamos a austeridade num prisma humano e por via de uma narrativa centrada no realismo encenado (“São Jorge” de Marco Martins ou “Sangue do meu Sangue” de João Canijo, dois exemplos que me vem automaticamente à mente), um constante interesse pela descolonização e no tabu que sempre fora a Guerra do Ultramar (“Mosquito” de João Nuno Pinto, “As Cartas da Guerra” de Ivo M. Ferreira, Our Madness, de João Viana), ou as vozes silenciadas do nosso “querido” Portugal a conseguir o seu palco, por fim (“O Fim do Mundo”, de Basil da Cunha, “Vitalina Varela”, de Pedro Costa).

Mas o cinema português não consegue ser político?" O “ser político” é um terreno mais que pantanoso, as tão acarinhadas comédias portuguesas “estreladas” por Vasco Santana e António Silva eram por natureza materiais politizados (com o seu quê evidente de propagandismo), e na década de 50, Manuel Guimarães trouxe à nossa atividade o neorrealismo (que por si é uma estética politizada) e assim adiante o Cinema Novo (sem falar da vaga militante pós-25 de Abril), ou até mesmo João César Monteiro, que não escondia as suas ideologias (“Sou um intelectual de esquerda”). Na nossa contemporaneidade, quase tudo o que é produzido é formado por gestos políticos, de Miguel Gomes a Teresa Villaverde, de Pedro Pinho a Welket Bungué, de Cláudia Varejão a João Botelho. E se o problema é o ponteiro da rosa-dos-ventos estar direcionada exclusivamente à esquerda, então fica o registo de “Snu” de Patrícia Sequeira ou “Camarate” de Luís Filipe Rocha.

Mas é um cinema demasiado intimista. O cinema português deveria exaltar os nossos grandes heróis”. Mesmo sob uma tremenda estigmatização, não poderemos acusar de Manoel de Oliveira invocar os “bens preciosos” da nossa História, onde até mesmo as derrotas são fruto de inveja entre nações (“'Non', ou A Vã Glória de Mandar”). Como estafetas de tal legado, João Botelho encontrou nos últimos anos, um propósito em consolidar o cinema com a divulgação de trabalhos literários, ou Francisco Manso a tentativa de reafirmar o “filme de época” numa “indústria” de baixos recursos. Enquanto isso, o êxito de “Variações”, projeto de longa data e resistência de João Maia, abriu portas para uma eventual vaga biográfica e musical – “Bem Bom", de Patrícia Sequeira, está na fila para persistir no estilo produtivo.

“Porque é um cinema ‘velho’, não fala com, nem para os jovens”. Como assim? Pedro Cabeleira estreava em Locarno de 2017 com o esteticamente febril “Verão Danado”, um retalho de jovem mal amparados que vivem a noite como não houvesse amanhã, da mesma maneira que Mariana Gaivão exibia a rebeldia numa caverna (uma imagem marcante em “Ruby”), ou o cinema energeticamente pop de “Leviano” de Justin Amorim. Entre outros, basta olhar para as curtas vindas de sangue novo, aquele sangue na guelra que tanto o cinema português deseja e muito bem.

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'Non', ou A Vã Glória de Mandar (Manoel de Oliveira, 1990)

Sim, e antes que perguntem em relação novos géneros, simplesmente deixa acontecer, temos experiências, umas satisfatórias, outras … bem, tentou-se. O tempo é uma ferramenta útil para essa dita diversidade, basta só aguardar. Calmamente …

Quanto ao leitor, a esta altura deverá estar ele próprio a questionar – “então e esses ajustes?”. Se o cinema português precisa de um ajuste, esse seria o de não ser pequeno, ou de pensar como tal. Sabendo que este meio é um nicho que tropeça constante uns nos outros, o refugiarmos na nossa pequenez (um vício tão português) leva-nos automaticamente aos mais variados problemas que acirram ainda mais este panorama. A desunião, a ideologia (não política, mas no modo cinema português deveria ser concebido ou “canonizado”), os egos e o amiguismo que prejudica mais autores do que beneficia-los, “obrigando-os” a abrigar nos seus próprios conformismos.

Não se trata de salvamento, ao invés disso, trata-se de apelo às correntes e olhar para cima. Somos mais do que meras vítimas. 

A cansativa experiência

Hugo Gomes, 07.04.17

Cansaço … é o que sentimos no final desta peregrinação. Simplesmente cansaço! Mas aqui não é um defeito, é uma virtude, o sentimento pretendido neste novo rol de realismo à lá Canijo, onde uma vez mais são as suas atrizes a liderar o processo criativo, mulheres que mimetizam o real e não o oposto. É a continuação do seu trabalho, os métodos experienciados para atingir a natureza-matriz do ator. O que os move? O que os faz atingir esse patamar? O que os torna, não inconfundíveis, mas sim confundíveis com o cenário envolto?

João Canijo tem-se submetido a essa experiência desde que a noite tornou-se escura [“Noite Escura”, 2004] e aí, gradualmente, tem avançado com uma aproximação ao realismo e ao mesmo tempo improvisando e sofisticando o processo de direção de atores. Foi com o “É o Amor” que a ideia de cruzamento surgiu, a do conflito entre a ficção, indiciada por “infiltrados” numa realidade que não lhes pertence, e do lado documental, o realismo aprisionado na lente e moldado para as infinidades da interpretação e reinterpretação. Nesse jeito, “Fátima” funciona nesse apoderamento do primeiro ponto, em constante abalo com o segundo. A veia documental encontra-se presente no percurso, na jornada replicada que se evidencia como um obstáculo de capacidades. As capacidades, por sua vez, encontram-se nas atrizes, subjugadas ao método de improvisação quase “strasbergiana“.

A peregrinação torna-se então num coliseu de gladiadoras, atrizes que rivalizam egos e batalham pela atenção do espectador. Mas nem todas as atrizes são capazes de sobreviver neste “circo de feras”, nesta estrada sem fim que assume como o palco de improbabilidades. Apenas duas (Anabela Moreira e Rita Blanco) concentram forças para a “pedalada” e é nelas que nasce um conflito tardio (dramaticamente falando), que atingirá um estado de ebulição de forma gloriosa. A satisfação surge aí. As personagens estão criadas e nessa frecha conseguem por fim separar-se da atriz num processo doloroso, demorado e dispendioso que resumiu toda esta experiência. A da interpretação, a da matéria de que são feitos os atores e, por fim, do espectador, capaz de testemunhar esta instalação “sob milhas”.

Ao contrário do que se julga, “Fátima” não é um filme religioso. Não no sentido católico do desfecho desta jornada. Nada disso. A religião é apenas evidenciada na composição das personagens e na crença mútua, das atrizes em relação a Canijo, e de Canijo em relação às atrizes. O embate final é um atalho para “Fátima”, o refúgio religioso que se converte na perfeita união de espírito e da cinematografia que Canijo consegue emanar através de imagens assombrosas!

A profissão mais antiga do mundo

Hugo Gomes, 01.11.16

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O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (João Botelho, 2016)

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Total Recall (Paul Verhoeven, 1990)

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L'Apollonide (Souvenirs de la maison close) (Bertrand Bonello, 2011)

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Calígula (Tinto Brass, 1979)

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Byzantium (Neil Jordan, 2012)

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Noite Escura (João Canijo, 2004)

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Sucker Punch (Zack Snyder, 2011)

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Belle de Jour (Luis Buñuel, 1967)

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Vénus Noire (Abdellatif Kechiche, 2010)

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Sleeping Beauty (Julia Leigh, 2011)

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Il Casanova di Federico Fellini (Federico Fellini, 1976)

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Street of Shame (Kenji Mizoguchi, 1956)

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Pretty Baby (Louis Malle, 1978)