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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um dia "temos que aceitar a Máquina"

Hugo Gomes, 08.10.25

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Por mais que se tente evitar, acreditamos que todo o cinema é político, mesmo o simples entretenimento, aquele que muitos preferem considerar inofensivo, desprovido de qualquer intenção para além da “nobre vontade de entreter”, é igualmente difusor de uma mensagem, reflexo da ideologia que sustenta a indústria em vigor. O que tenho vindo a reparar, sobretudo no campo da ficção científica, é uma constante vontade de humanizar o artificial: torná-lo espelho das nossas preocupações e prioridades, integrá-lo na sociedade de carne e osso.

Nos exemplos mais recentes dessa queda do humanismo e ascensão do artificialismo, encontramos “Alien: Romulus”, tentativa da Disney de reanimar o franchise sem grande rumo (ou de o “televisar”). Aí, somos “surpreendidos”, ou talvez anestesiados, com a facilidade com que a heroína decide abandonar uma mulher grávida à sua sorte em prol do companheiro sintético, androide ou replicante (obedecendo ao desejo de fundir universos). Mais tarde, ainda neste ano, fomos novamente encorajados a preocupar-nos com uma anterior máquina assassina, Megan, agora numa nova atualização. Saudades dos tempos em que as máquinas se sacrificavam pela Humanidade nas horas de aperto, nem que fosse apenas para acenar um “thumbs up” antes de se desintegrarem. Mas essa época se foi (“like tears on a rain”, parafraseando um conhecido sintético entre nós). 

O humanismo é cada vez mais contestado, as nossas fragilidades enquanto espécie (outrora levadas ao colo) são agora descartadas em nome de um fatalismo: o fim da Humanidade é certo, por sua vez, o quando é incerto. Com os avanços tecnológicos e a inteligência artificial convertida em campo de batalha entre hemisférios, é curioso ver Hollywood empenhada em combater o uncanny valley que se instalou como mecanismo de defesa. Os filmes tendem a apostar em mensagens subliminares, e gradualmente mais escancaradas, portas para uma empatia não entre homens, mas entre humanos e máquinas. Serão elas, entre bites e bytes, os nossos sucessores por direito? Poderíamos argumentar que “Tron” já falava disso — da humanização e personificação do artifício. Mas com “Ares”, o terceiro capítulo de uma saga aos solavancos, regressa a busca pelo Pinóquio digital: o ser de 1 e 0 que aspira a tornar-se “menino de verdade”. 

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A narrativa coloca-se entre guerras corporativas pelo domínio da IA, materializando essa tensão. De um lado, Evan Peters e Gillian Anderson encarnam uma empresa de herdeiros e nepotismo, como figuração de um mal identificado, difuso e sem rosto. Do outro, os heróis, com a atriz de Celina Song (“Past Lives”), Greta Lee, a liderar um hub benetton sem espinha dorsal. E ao centro, Jared Leto em modo Leto, como action figure de uma obra atrapalhada pela sua própria identidade - ser-se sequela do legado que presta, ou ser-se ‘coisa diferente’ do habitual. Contudo, “ser diferente”, na tradução desta Hollywood, é pouco: é baralhar as cartadas e percorrer os lugares-comuns com outros ares (viram o que fiz aqui? ou talvez nem por isso). 

E pronto, para filme de artificialidades, “Tron: Ares” não evidencia qualquer traço de distanciar disso mesmo, como também pegar na “mitologia” e torná-la corriqueira, o estranho serviço para que uma obra (a de 1982) que teve pretensões de ser o mais moderno possível mesmo que essa suposta ‘modernidade’ o tenha traído, condená-lo a ser um curioso objeto de culto e datado. 

No entanto, nas indústrias atuais, vale mais essa ambição do que a confortabilidade da fórmula. Ainda que, com a fórmula, venha o cavalo de Troia com a seguinte mensagem ao pendurico: “temos que começar a amar a máquina”.

9 Anos de Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 25.07.16

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The Big Lebowski (Joel & Ethan Coen, 1998)

Vejam como o tempo corre! São nove, os anos que comemoro de longevidade deste espaço que parece cada vez mais fazer parte do meu “eu”. E como cheguei aqui? Um pouco … bem … não quero mentir … muita da teimosia minha em manter vivo este estaminé, mesmo sob as críticas que recebia, nunca baixei os braços e tudo fiz para mantê-lo o mais profissional possível. A minha paixão cinematográfica, que condiz com o meu lado crítico, aquela minha faceta que gosta de criticar tudo e todos, a minha curiosidade de descobrir e explorar os cantos e recantos. O meu compromisso, a rotina criada, a interação que quero manter. E por fim, um agradecimento a quem acreditou em mim e aos meus assíduos leitores que me acompanham há quase uma década.

Agora o porquê da natureza deste discurso, bem, os dias não têm se tornado mais fáceis, e os anos indiciaram menos empatia a este espaço. Pois, o mundo está a evoluir, a blogosfera está a adaptar-se, é um autêntico campo de vida ou morte. As redes sociais apoderam-se destes espaços e mesmo sob o meu esforço em readaptar o Cinematograficamente Falando … a novas gerações, é difícil em confrontação com o meu “eu primitivo”. Aquele que acredita na cinefilia, cada vez mais abalada e desprezada, aquele que acredita que o lugar dos filmes são nas salas de projecção, na “magia” dos festivais de cinema, na continuação do formato físico de home video e nas tertúlias cinematográficas como grandes poços de sabedoria ou confirmação da nossa.

Estes nove anos foram um tremendo alcance, uma luta para manter este espaço vivo. Porém, terão que acontecer algumas mudanças, mudanças que possam tornar este Cinematograficamente Falando … mais expressivo. A ver vamos.

Contudo, um muito obrigado a todos vós, que me acompanham e que nunca deixaram de o fazer. 

CONFORME SEJA AS VOSSAS ESCOLHAS, BONS FILMES!