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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Jacques Doniol-Valcroze, o sofisticado "esquecido" que se revelou conservador

Hugo Gomes, 09.02.22

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L'eau à la bouche / A Game for Six Lovers” (1960)

Ainda não possuímos o tempo, nem a vontade de resgatar Jacques Doniol-Valcroze da “secundarização”, mesmo tendo o conhecimento dos seus feitos enquanto peão dessa longa escadaria chamada Cinema. Enumera-se a co-fundação da revista “Cahiers du Cinéma” ao lado de Bazin e Lo Duca, o seu papel como editor durante seis anos (1951 – 1957), a defesa de um Novo Cinema Francês, terminando na ideia da Quinzena de Realizadores em Cannes que, como bem sabemos, materializou-se, mas longe desses facts / checks à lá Wikipédia o que podemos extrair de um cineasta que partilhou como muitos contemporâneos seus, a sentença à pequena tela como último reduto, mesmo tendo o coração suplicado pela sala de Cinema?

Os EUA vivendo nos altos momentos das novas portas acedidas graças ao streaming e daquelas escancaradas pelo fenómeno de “Parasite” de Bong Joon Ho nos Óscares (esperemos que Ryusuke Hamaguchi em “Drive My Car” replique isso), estando mais aptos à sua definição de “língua estrangeira”, poderão apreciar duas obras restauradas de Doniol-Valcroze, que mais do que contextualizar um cinema francês em nova remodelação cinematográfica, leva-os a orbitar por entre as personagens desconhecidas dos enredos canonizados da Nouvelle Vague e dos seus mais que citados protagonistas.

A plataforma OVID, especializada de cinema alternativo e desdém das majors e das tendências atuais, lança-se nos filmes incompreendidos (duas obras disponíveis a partir de 14 de fevereiro) de Doniol-Valcroze, que ao contrário dos seus discípulos e comparsas não gozou de uma aclamação ou sequer sofisticação. O seu cinema, compreendido por amores e desamores em intrigas cruzadas, foi constantemente sombreado pelos últimos gritos, as novas vogais para uma igualmente rompante linguagem disparada para quem desejou desconstruir uma fundação pela sua base. Basta olhar para a sua primeira longa-metragem, a comédia romântica de enganos - “L'eau à la bouche” (“A Game for Six Lovers”, 1960) - paixões ardentes localizadas num palácio cercado pela memória e de súplicas sexuais, para além dos Pirenéus que compõem a sua paisagem, um exercício que nos remete automaticamente ao onirismo estético de “L'année dernière à Marienbad” (dirigido por Alain Resnais e escrito pelo "protégé" de Doniol-Valcroze, o erotizado Alain Robbe-Grillet), estreado um ano depois.

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L'eau à la bouche / A Game for Six Lovers” (1960)

“L’eau à la bouche” é uma história de aristocratas, de privilegiados embebidos nas suas preocupações dos seus próprios “mundinhos”, o que seguiria em contradição com um dos fundamentos e golpes certeiros da nouvelle vague; a invocação de temáticas e de personagens-tipos que esquivam do cinema francês produzido e selado com o “carimbo de prestígio” desde então (graças à premiação de uma narrativa prestigiada dignas dos romances de bolso ou das obras mestras vindouras). A guerra, a memória, a interioridade identificável, o anti-heroísmo, a modo zeitgeist que o cinema novo pontuou, traços óbvios que não encontram par no filme de Doniol-Valcroze.

O tal palácio, o abrigo daquele turbilhão emocional que prescreve as danças nos alpendres banhados por noites imaculadas, personagens reféns a segredos egoístas e de sentimentos formais (filmado num constante fascínio por travellings, Doniol-Valcroze poderá, e bem, ser encostado ao seu gosto por esses movimentos de câmara), é um resultado de um certo umbiguismo que despreza a restante França e a modernidade aí convocada e requisitada em grande tela. Estas personagens de castas (seis, incluindo o mordomo perverso e a atrevida empregada, respetivamente interpretados por Michel Galabru e Bernadette Lafont) não são criaturas higienizadas do restante, são náufragos reduzidos aos seus limitados espaços, aos seus círculos e às suas intimidades, nada parece nascer dali para além dos respetivos amores-próprios e dos estatutos mascarados de outros status que darão lugar à narrativa de peripécias. Em alguma maneira, “L’eau à la bouche” vai ao encontro a um tipo de cinema francês, digamos, sobretudo “cenarista”, que Truffaut desejava combater e que tal expressou no manifesto “Une certaine tendance dans le cinéma français” (1954), é um objeto nascido no seio do clube de transgressivos mas apresentando um conservadorismo ideológico, de como comportar-se numa mesa onde a etiqueta milenar reina.

Já "La Dénonciation" (1962), thriller que mergulha de cabeça na ficção pela memória francesa não tão longínqua, restaurando os fantasmas provenientes de uma invasão alemã, parte da culpa e dos pecados de “invadidos” para costurar um “whoddunit” existencial. Um crime, um homem na hora errada e no sítio de erro (Maurice Rounet), um cabaret de nome sugestivo (Play-Boy) e um detetive (Sacha Pitoeff) que “tenta” (sublinha-se) resolver o caso à distância, como se estivesse a higienizar para uma eventual sujidade que o assassinato se poderá revelar, ingredientes para encher a nossa imaginação sedenta pelo subgénero.

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La dénonciation / The denunciation (1962)

Os tiques e as extensões do noir francês, encontrando conformismo e confortabilidade na lente de Doniol-Valcroze, apresentam-nos como um ser indeciso, atormentado no seu próprio “armário”. Ora, se esse convencionalismo que tal como os ancestrais de prestígio miravam copiosamente a produção hollywoodesca (não os evitando de produzir exemplares magníficos como os tido na posse de Jacques Becker ou de Henri-Georges Clouzot) abunda, encontramos nele um impulso de querer acompanhar os seus conterrâneos transgressivos, pelo menos ao situar-se como retalhista de uma identidade conturbada. Contudo, não cumplicia a sua modernidade, 

Ao final, a morte reencontra-se em alcatrão quente, invocando uma das imagens mais célebres do movimento da nouvelle vague ["À Bout de Souffle"]. Doniol-Valcroze estava atento (era sua faceta de crítico e observador a colocar-se na frente da sua criação), mas o seu cinema respirava noutras bandas e noutro imaginário.

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La dénonciation / The denunciation (1962)

À bout de souffle / Breathless (Jean-Luc Godard, 1960)

O Acossado por Hugo Gomes e António Araújo em Segundo Take

Hugo Gomes, 12.04.21

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Para muitos é certamente uma heresia só o facto de se abordar remakes a filmes históricos ou progressistas como é o caso da primeira longa-metragem de Godard, mas a convite de António Araújo e do seu podcast de cinema Segundo Take decidi quebrar o “tabu”. Em jogo está o clássico e vanguardista À Bout de Souffle (1960) e a sua variação à americana Breathless (Jim McBride, 1983). Nesta dualidade existe todo um universo pleno de vigaristas criminalmente apaixonados, anárquicos no seu estilo de vida, mas um alterou a História do Cinema, ameaçando todo uma indústria vinda do outro lado do Oceano, enquanto o outro, a suposta cópia, demonstrou que através da liberdade é possível atribuir novo fôlego às velhas histórias.

Para ouvir ...

Um colecionador de autores ...

Hugo Gomes, 09.02.21

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Jean-Claude Carrière (1931 – 2021) foi um dos mais impressionantes argumentistas do nosso tempo, e não há adjetivos que chegue para representar a sua genialidade e, mais que isso, hiperatividade. Digamos que a sua carreira fala por si.

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Birth (Jonathan Glazer, 2004)

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L'ombre des femmes / In the Shadow of Women (Philippe Garrel, 2015)

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Le Charme Discret de la Bourgeoisie / The Discreet Charm of the Bourgeoisie (Luis Buñuel, 1972)

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Cyrano de Bergerac (Jean-Paul Rappeneau, 1990)

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The Tin Drum (Volker Schlöndorff, 1979)

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The Unbearable Lightness of Being (Philip Kaufman, 1988)

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Possession (Andrzej Zulawski, 1981)

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Passion (Jean-Luc Godard, 1982)

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Antonieta (Carlos Saura, 1982)

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Valmont (Milos Forman, 1989)

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Milou en Mai / Milou in May (Louis Malle, 1990)

 

São Pedros, São Pedrocas, São Peters, São Pierres e São Pietros

Hugo Gomes, 29.06.20

Hoje, dia de São Pedro, recordo alguns 10 Pedro(s) célebres do Cinema. E para vocês, qual "Pedro" destacaria na lista?

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Peter Sellers, ator de “Dr. Strangelove” e da saga “The Pink Panther

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"Pierrot, Le Fou" (Pedro, O Louco), filme de Jean-Luc Godard com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina

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Peter Lorre, ator de "M", "Casablanca" e "The Man Who Knew Much"

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Peter O'Toole, ator de "Lawrence of the Arabia" e "Venus"

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Peter Weller, ator de "Robocop" e "Naked Lunch"

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Pedro Almodovar, cineasta de "Pain and Glory", "All About My Mother" e "Women on the Verge of a Nervous Breakdown"

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Pedro Costa, realizador de "Vitalina Varela" e "Quarto da Vanda"

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Peter Cushing, ator de "Star Wars" e vários títulos da Hammer

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Peter Weir, realizador de "The Mosquito Coast", "Truman Show" e "Picnic at Hanging Rock"

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Peter Bogdanovich, realizador de "The Last Picture Show" e "Paper Moon", um dos responsáveis pela conclusão de "The Other Side of the Wind", de Orson Welles

Uma Varda lágrima

Hugo Gomes, 03.10.19

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Até há data só houve três mulheres do Cinema que me fizeram chorar!

A primeira, aconteceu em Cannes de 2018, no Theater DeBussy, quando após a transmissão do excerto de Pierrot le Fou - “Pourquoi t’as l’air triste?” / “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments” – fomos levados diretamente ao rosto lavada em lágrimas de Anna Karina que se encontrava timidamente no meio do público. A outrora bela face da Nouvelle Vague já não apresentava mais aquela jovialidade e vitalidade que paralelizava com um cinema que emergia sob novas ideias e sobretudo novos dispositivos narrativos. Era agora uma cara envelhecida. Anna Karina confrontava com as recordações dos seus tempos áureos, e nós, espectadores fomos empurrados para esse mesmo saudosismo.

A segunda ocorreu no dia 27 de janeiro de 2017, ao rever Hiroshima Mon Amour depois de ter sido noticiado com a morte de Emmanuelle Riva. Segundo consta, ela nada sabia sobre a tragédia de Hiroxima e portanto nós também não.

A terceira deu-se novamente em Cannes, em 2017, sentadinho no meu banco aguardava um eventual e esperado reencontro. Recordo de ver Agnès Varda dirigindo-se alegremente, quase a saltitar, para a casa de Jean-Luc Godard. Contudo, a promessa não foi cumprida, na porta encontrava-se um recado, o realizador de Pierrot le Fou e Vivre sa Vie não estava disposto a recordar os velhos tempos. Varda, a sempre alegre “piolha” não consegue esconder a sua desilusão, uma lágrima solta-se e corre pela sua face. Um momento duro, mas de uma sinceridade que dificilmente poderia ser falseada. Visages Villages foi essa emenda.

Com isto para dizer que ao ver novamente Varda no documentário-legado e certa forma, autobiografado, em Varda por Agnès, é de um triste consolo. A sua energia, criatividade, expressividade e sabedoria, Agnès Varda era uma artista, não de palmo e meio, mas de corpo inteiro, e sobretudo de um humanismo único. Vê-la, ou direi corretamente, revê-la no grande ecrã numa espécie de retrato a nu, porém, de uma nudez controlada pela própria, foi uma das experiências mais emocionantes deste ano no Cinema.

Ficamos sem Varda. Longa Vida a Agnès.

As belas trazem a morte consigo

Hugo Gomes, 30.03.19

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Michel Poiccard (À Bout de Souffle, 1960) assim como a “oitava maravilha do Mundo” King Kong são “criaturas” fora do seu habitat natural que deambulavam numa selva de asfalto em busca de uma salvação possível, sob a conveniência de salvaguardar o seu projectivo romance. Ambos foram traídos pelo que mais amavam, consequentemente fuzilados à queima-roupa, sendo o alcatrão, o seu improvisado túmulo. A multidão cerca-os de igual forma nos dois casos.

Os diálogos finais e últimos atos pouco diferem, mas cujas divergências poderiam ser trocadas que mesmo assim preservariam o exacto simbolismo. Enquanto que na leva de Poiccard facilmente ouvir-se-ia “It was beauty killed the beast”, e no caso do símio “Qu'est-ce que c'est, "dégueulasse"?”.

Mas a cerimónia fúnebre está longe da convergência. Num deparamos com a morte da besta, enquanto que o outro é a morte do cinema clássico e a longa vida para o cinema moderno.

O meu Cinema é feito de Mulheres!

Hugo Gomes, 09.03.19

Não é só o dia 8 de Março que as mulheres devem celebradas, aliás, o dia da Mulher deve ser, sobretudo, normalizado. Todos os dias são dias de mulheres, e todas as mulheres fazem parte dos nossos dias. Como tal, eis o meu contributo, as mulheres especiais que integram o meu Cinema … digo por passagem, que são somente algumas.

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