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Nem tudo é o que parece e Hitchcock sabia disso melhor que ninguém. Mas em “Vertigo” (1958), o engano não é apenas artifício narrativo: converte-se na própria matéria do filme. Aqui, a ilusão não serve apenas para iludir o espectador; e sim, para construir o mundo, para deformá-lo, para torná-lo inabitável. Dessas avessas é a entrega do policial de contornos fantasmagóricos, que numa esquina e na outra vira um abismo sem fundo: emocional, existencial, formal e porque não, conceptual.
Baseado num thriller romântico psicológico [“D'entre les morts”] escrito pela dupla Boileau-Narcejac (Pierre Louis Boileau e Pierre Ayraud), na demanda hitchockiana, seguimos John “Scottie” Ferguson (James Stewart, desconstruído pela obsessão) é um detective reformado e um homem falhado, vítima da sua acrofobia, esse medo de alturas que o realizador imprime na tela através de movimentos de câmara tão vertiginosos quanto ao desespero da sua personagem (aqui, Stewart funcionando num histrionismo que se data, mas depara-se com um charme simbólico). Sobrevivendo de pequenos casos privados, o protagonista é contratado para seguir uma mulher supostamente possuída pelo passado. Caso, esse, que Scottie se afundará numa teia de simulacros, aparições e duplicações. O que persegue, no fundo, não é um crime … é um fantasma! Ou pior: é uma ideia.
Vertigo não é um “thriller” qualquer. É, talvez, a mais pura das parábolas hitchcockianas sobre a obsessão e o desejo masculino, e como estes, quando projectados numa mulher idealizada, acabam por destruir tudo à volta, sobretudo a própria mulher. Kim Novak (papel que de certo serviria a Grace Kelly em outros tempos) encarna essa dualidade com uma opacidade calculada: musa, vítima e espectro, tudo ao mesmo tempo. O olhar de Stewart molda-a, recria-a, manipula-a e o filme deixa-nos sempre nesse território ambíguo onde a beleza se confunde com a crueldade.
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O filme, à época, foi um fracasso (apenas compensado pelos êxitos seguintes), demonstrando que o público não estava preparado para a sua densidade psicológica nem para o seu romantismo necrofílico, e muito menos para o desfecho niilista que se afasta das resoluções clássicas. Para contrariar, o tempo foi-lhe generoso. Hoje, “Vertigo” não é apenas reabilitado, é acima de tudo mitificado, atingindo a sua aura cimeira, filme maior de quem o achava, incluído o seu “mestre”, de ser menor. Foi alçado, inclusive, ao pódio máximo da crítica internacional (Sight & Sound, 2012), substituindo “Citizen Kane” de Orson Welles como “melhor filme de sempre”. Rótulo questionável, talvez, mas compreensível tendo em conta a influência revitalizadora que o filme contraiu em muito do cinema moderno e corrente.
Não há aqui reviravoltas gratuitas como em “Psycho” (dois anos depois, cujo twist encantaria as propostas de mercantilização da altura), nem o humor de “North by Northwest” (ano seguinte, com Cary Grant numa imitável cena de perseguição aérea). Há, sim, uma descida controlada ao inferno da idealização. Uma espécie de film noir dissolvido em melodrama, com música obsessiva de Bernard Herrmann, cor líquida, mise-en-scène hipnótica. Um pesadelo romântico com estrutura circular. Sem saída.
E talvez por isso “Vertigo” seja um dos filmes mais crueis de Hitchcock, não por aquilo que é vislumbrado, mas por aquilo que é sugerido: que o amor talvez seja, afinal, apenas um erro de perspectiva.