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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Abrem os vossos chapéus! Lá fora chove musicais ...

Hugo Gomes, 28.12.24

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Muito escrevi sobre "Les Parapluies de Cherbourg”, seja no seu primeiro “comeback” às salas em 2017, seja em reflexões sobre a sua natureza, representação ou até na memória de Nino Castelnuovo. O seu retorno, agora em pack-retrospectiva nos cinemas, faz-me querer revisitar Cherbourg, a cidade portuária próxima de Nantes (já em “Lola” se pressentia essa proximidade), onde somos recebidos por uma torrencial chuva e chapéus em tons pastel que abrigam amores a recitar os códigos shakespearianos. Tudo ali parece encantado, sem fronteiras nem países, um contraponto às bofetadas de cinzentismo da realidade, enquanto Michel Legrand se mostra incansável na sua batuta. Porém, não se deixem enganar: a crueldade do destino está aqui presente como em nenhum outro lugar. Foi desta mesma crueldade que Damien Chazelle bebeu para criar “La La Land”.

E porque não suspirar pela jovialidade de Catherine Deneuve, hoje um verdadeiro património francês? Ainda assim, o que “Les Parapluies de Cherbourg” continua a revelar na contemporaneidade é o nosso preconceito – natural ou talvez nada natural – em relação ao musical. Um género outrora visto como escapismo na era dourada de Hollywood, que hoje resiste aos moldes e simulacros da ficção convencional. Leos Carax fez amor com o género, troçou dele e cuspiu-o em “Annette”. A reação foi morna: de um lado, rosas; do outro, assobios. Já o Joker dançou ao som de velhas canções porque Todd Phillips quis “agredir” o mau espectador (e merece essa agressão) que o cinema abriga nos seus “guarda-chuvas”. Foi incompreendido, em parte pela infantilização do público e da crítica, que antes veneravam o palhaço-psicótico. Por sua vez, Jacques Audiard usou um embalo de falso-trash para abordar narcotraficantes e mudanças de sexo no divisório “Emilia Perez”.

No meio disto, há Broadway [não podemos deixar de lado o fenómeno “Wicked”] ou revivalismos do classicismo ["West Side Story" de Spielberg]. Contudo, no fundo, o espectador repudia: “O único género que não suporto é o musical.” Talvez haja um problema nesta frase, porque a sua banalidade lhe retirou a verdade. Nascemos preconceituosos enquanto espectadores. E enquanto isso, “Les Parapluies de Cherbourg" mantém-se como um dos grandes do seu universo, musical ou não. Afinal, as grandes histórias merecem ser cantadas.

"C’est moi … c’est moi Lola"

Hugo Gomes, 26.12.24

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Em Nantes, na melancólica Nantes, uma dançarina de cabaré ergue sua cartola bem alto para que todos ouçam: o nome que a define não é o de batismo, mas aquele que lhe convém — “C’est moi … c’est moi Lola”. Essa mulher, cuja verdadeira identidade é Cécile, revela-se como uma Anouk Aimée jovial e vivaz, marcada por um sinal no canto da boca que evoca, segundo ela, “Marilyn Monroe”. Lola é uma habitante enraizada na cidade, essa Nantes de passados ocultos, e que num dado momento, em três dias específicos, o seu destino se cruza com o de outros, como se prenunciasse a chegada de uma personagem sebastiana, que atravessa a estrada marginal com um propósito em mente.

Nesses três dias entrelaçados, Cécile transforma-se em Lola, uma performer de cabaré cuja essência fabulista conecta-se diretamente ao cinema: pernas desnudas e bailados que oscilam entre o exotismo e o erotismo. Lola é uma personagem que evoca figuras icônicas, como o “The Blue Angel” (1930) de Sternberg com Marlene Dietrich, enquanto Lola Lola, ou a “Lola Montès” (1955) de Max Ophüls, a quem Jacques Demy dedica o filme logo na abertura. Portanto não encaremos Lola de Aimée em um produto genialmente original, ela é um fruto do seu tempo e do tempo do filme, e por sua vez a de um realizador, Jacques Demy, conquistado na animação e reconquistado no cinema por via da escola Cahiers du Cinema, sem nunca ter frequentado esse “coletivo”. 

As suas curtas abriram-lhe portas e impressionaram uma dessas figuras cimeiras do movimento que se fazia sentir em duas frentes - os “cahierianos” com François Truffaut a vencer o prémio realização no Festival de Cannes [“Les Quatre Cents Coups”, 1959], e dos chamados “left banks” com “Hiroshima Mon Amour” (1959) de Resnais como corte da fita vermelha -, mas voltando à história de Demy, “Lola” e o impressionado crítico a realizador, esse, que era nada mais, nada menos que Jean-Luc Godard. Após o sucesso de "À Bout de Souffle” (1960), Godard convenceu o produtor Georges de Beauregard a apostar em Demy, e assim foi, “Lola” saltou dessa imaginação para a tela, uma história de encontros e desencontros, de coincidências e acasos, marcada por duas Céciles que compartilham destinos paralelos: a cognominada de Lola, a que um dia amou e unicamente ama um marinheiro de nome Michel, uma ausência de anos e anos, e uma jovem Cécile (Annie Duperoux), de 14 anos, que conhece outro marinheiro, yankee até, com quem pactua um reencontro futuro.

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As Céciles são o passado e o futuro de Nantes, e por sua vez o espelho de uma França em transgressão para com ela própria, tentando-se libertar, mesmo com uns quantos saudosistas suspiros, e prometendo a progressão de outro modo. “Lola” respira essa “nouvelle vague” com precisão e projeção; a primeira pelos exteriores, pelos atores que se pavoneia pelos locais míticos de Nantes nunca aquietando dramaturgicamente como muito e corrente cinema americano, as faíscas nos olhos desta geração de cineasta, por outro lado são personagens que coabitam numa espécie de tempo em modo acelerado, são figuras de passagem, seja no espaço, como no tempo, errantes como se afirmam, desapegados dos seus aposentos.

O melhor exemplo disso é Roland Cassard (Marc Michel), um homem azarado, que em três dias vê sua sorte piorar ainda mais, talvez seja o destino a troçar dele. O desapego, geracional digamos, vem desde o primeiro contacto com esta personagem, do qual é despedido do seu ofício após atrasar-se e desculpar com um belíssimo livro de cabeceira. Talvez seja sinal de que Nantes é o seu lugar, e sim Cherbourg, que afirma seguir com afinco — outra cidade portuária que, em breve, daria lugar a um, ainda mais, encantado filme de Demy. Roland deixará para trás  Lola … desculpem, Cécile … a mulher que certo dia amou, e cujo reencontro reacendeu essa suposta chama que o conduziu à mais profunda desilusão.

Essa condição — de que viver no passado é estar preso a uma ilusão — é uma das lições mais universais da Nouvelle Vague. Lola, mulher de duas identidades, ora festiva, ora amargurada, pertence unicamente ao momento presente. Ela não é do passado idealizado nem do futuro imaginado. Jacques Demy levará-nos essa lição para futuros projetos, com gargalhadas e lágrimas no canto do olhos, aliás, fazendo jus a esse mote: é na abertura do seu inaugural “Lola” que se pode ler “ri quem quer, chora quem pode.” Está tudo dito. 

 

Vi um filme com o Gary Cooper esta tarde. Era num sítio belo, as pessoas pareciam felizes.

Onde?

No Katorza.

Queria dizer em que país?

Matareva, uma ilha do Pacifico perto do Tahiti.

É sempre belo nos filmes!”

 

Texto publicado no âmbito da retrospectiva "Jacques Demy", organizada pela Leopardo Filmes

Despedida natalícia

Hugo Gomes, 23.12.23

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A convite do Cinema 7ª Arte elegi um filme dedicado a este Natal (ou simplesmente à quadra em si), mas como não dessas ‘coisas’ natalícias, dos filmes temáticos ou dos produtos role Hallmark, sugeri a agridoce despedida entre Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo no musical “Les Parapluies de Cherbourg” (Jacques Demy, 1964), em que o Natal manifesta a sua melancolia “disfarçada”.

Para ler aqui

Um adeus a Jacques ...

Hugo Gomes, 22.04.22

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La Ragazza con la Valigia (Valerio Zurlini, 1961)

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Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

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The 317th Platoon / La 317ème section (Pierre Schoendoerffer, 1965)

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The Desert of the Tartars / Il Deserto dei Tartari (Valerio Zurlini, 1976)

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The Young Girls of Rochefort / Les Demoiselles de Rochefort (Jacques Demy, 1967)

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La Ligne de Démarcation (Claude Chabrol, 1966)

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Rémi sans famille (Antoine Blossier, 2018)

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Z (Costa-Gavras, 1969)

 

Jacques Perrin (1941 - 2022)