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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Sei o que fizeste com esta saga no passado ...

Hugo Gomes, 15.07.25

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Afinal, o espírito de Ben “Capitão Gancho” Willis ainda paira ao longo destes anos, e, como estamos em tempos de legacy sequels em abundância, nada como capitalizar a nostalgia. Se os anos 80 já estão distantes, os 90 tornaram-se a nova mina de ouro… ou assim se acredita. Chegamos a "I Know What You Did Last Summer", êxito do terror de 1997 que, caso não o recordem, poderão lembrar do spoof no primeiro "Scary Movie", dos irmãos Wayans. Contudo, antes de avançarmos para o regresso de Jennifer Love Hewitt ao género — que abandonou firmemente em 1998 — e de Freddie Prinze Jr., percorremos este breve recap da saga: o original, a sequela… e o bastardo.

 

I Know What You Did Last Summer (1997)

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Na boa maré de "Scream", o argumentista Kevin Williamson achou por bem capitalizar o seu guião engavetado, que até então não conseguia vender, uma adaptação do livro de Lois Duncan, "I Know What You Did Last Summer" [publicado em 1973], que acabaria por ser lançado no mesmo ano de outro trabalho assinado por Williamson — a sequela musculada "Scream 2" — o que motivou comparações na altura entre o slasher desconstrutivo e este teen slasher certinho no regulamento. O filme dá continuidade à tendência do terror adolescente bem-comportado, feito para entreter acne e hormonas, receitas encorajoradoramente fáceis de peregrinações de jovens salivantes por aroma softcore sexual ou mortalidade criativas.

A autora original não gostou em nada da reconversão do seu livro num genérico exercício slasher movie: “Como mãe de uma filha morta, repudio veementemente”, declarou invocando a memória da sua filha mais nova, Kaitlyn Arquette, assassinada em 1989, tinha 18 anos. Quanto ao filme, com realização de Jim Gillespie, seguimos um quarteto juvenil a passo de entrar na universidade ou carreiras desejadas. Na noite de finalistas, após festejos privados na praia, regressam a casa… ou assim pretendiam. Pelo caminho, atropelam acidentalmente um pescador. Após ocultarem o corpo, pactuam o silêncio do crime, ainda que em constante oposição da protagonista (Jennifer Love Hewitt, a perder a virgindade logo no início do filme, como que a despistar os mais atentos ao arquétipo de “final girl”). Um ano depois, cada um dos envolvidos recebe uma mensagem anónima: “Eu sei o que fizeste no Verão passado.” Não é preciso muito para prever o rumo da história — nem quem será a próxima vítima neste descarrilar de uma suposta gangue à lá Scooby-Doo.

A ideia que serve de mote ao enredo rapidamente se vê embrulhada em clichés e numa certa risibilidade que não consegue evitar. A contar com isso, o elenco pouco contribui para qualquer credibilidade — com excepção de Sarah Michelle Gellar, nos intervalos de "Buffy", e a saudosa Anne Heche (1969 - 2022) num papel secundário e algo alucinado. É, aliás, a realização de Jim Gillespie, algo virtuosa para o material que tem em mãos, que confere alguma dignidade ao que é, no fundo, um filme redundante de facaria … ou neste caso “gancharia”?

Foi um sucesso (125 milhões de dólares angariados mundialmente). E daí? Passados uns dias, esquecemos mesmo do raio que eles fizeram no verão passado. Portanto, entre isto e “Scream”, Kevin Williamson não previu a passada de génio. 

 

I Still Know What You Did Last Summer (1998)

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Depois do sucesso a sequela não tardaria a surgir (bastou um ano, nem esperaram o corpo arrefecer). Desta vez, Kevin Williamson não assinaria o argumento, devido a conflitos de agenda (e ainda bem, com ‘coisas’ bem melhores para fazer), e Jim Gillespie desaparece do “mapa”, sendo substituído por Danny Cannon, saído do fracasso de "Judge Dredd", com Sylvester Stallone, e dividido entre a produção do corruptível policial “Phoenix”. 

Afinal, o pescador não estava morto, e o seu retorno aconteceu num misto de Bahamas com precipitação elevada e mais mortes, principalmente de secundários de passagem… e sim, Jack Black com “dreadlocks is a thing”.

No auge da efémera movimentação dos teen slashers, ressuscitados com o sucesso de "Scream", este "I Still Know What You Did Last Summer" perpetua os clichés e lugares-comuns contra os quais a saga de Wes Craven declarou guerra, evidenciando lições pregadas aos peixes (com a tal memória de 5 segundos que isso acarreta), lá pelos lados de Hollywood. Valha-nos os trópicos e um aroma de vudu para apimentar a correria de jovens sexualizados nesta parvoíce febril, pouco dados a usar neurónios nas horas cruciais. Hoje, visto em retrospectiva, é claramente um produto do seu tempo; com uma migração evidente de artistas musicais em tela, neste caso Brandy Norwood a nova coadjuvante da candidata scream queen, ou actores promissores embriagados pelas más decisões, Mekhi Phifer, que “brilhou” ao lado de Delroy Lindo em “Clockers” de Spike Lee e aqui ressoa os mesmos estereótipos deste subgénero. Ainda a sonoridade a tentar capitalizar colectâneas de artistas em ascensão ou no cunho MTV.

A verdade é que o boca-a-boca não ajudou ao seu sucesso. A estrela Freddie Prinze Jr., por exemplo, recusou-se durante anos a ver esta sua obra. Já Jennifer Love Hewitt, saturada de ganchos e gabardinas, avançou para outras decisões de carreira, não com muita sorte, visto que acabou por falar com fantasmas numa série de televisão ("Ghost Whisperer").

 

I’ll Always Know What You Did Last Summer (2006)

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Ao terceiro, o cânone é opcional. Estamos no auge do mercado de home video; o DVD popularizou o “cinema em casa” e, rapidamente, algumas produtoras viram na possibilidade de ir directamente para as prateleiras uma mina de ouro — vender milhões de cópias graças a um conceito de nostalgia “mal-amanhada”. A fórmula era simples: pegar numa saga ou num título, produziam à pressa uma sequela com esse único propósito (nem era necessário contar com elementos do projecto original, muito menos respeitar a coerência narrativa do franchise). Bastava um número no fim do título … valha-nos a numeração! "Hollow Man" teve, "The Butterfly Effect", também, e, inexplicavelmente, até "Donnie Darko", por isso… porque não "I Know What You Did Last Summer"?

Este "I'll Always Know What You Did Last Summer" estava inicialmente previsto para ser produzido por volta dos anos 2000 e retomaria a história onde o segundo filme terminou. Só que nem Jennifer, nem Freddie, quiseram regressar. O projecto foi para a gaveta e o que nos chega é uma recontagem da obra original que herda o título… sem o merecer.

Uma recauchutada cópia feita à pressa, sem o virtuosismo do primeiro, sem a ambiência exótica do segundo. Apenas existe porque, supostamente, respira … ofegante e desesperado, e que coloca (será essa a novidade), o pescador como uma assombração. O realizador deste “feito” é Sylvain White, mais tarde especializado em televisão ou série de streaming, que no fundo foi uma substituição de última hora. Ou seja, um simples “tapa-buracos”. 

 

Minas e Armadilhas

Hugo Gomes, 14.04.25

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O recordista de vendas de jogos electrónicos não escapou às “garras” de David Zaslav e da sua franchisada Warner Bros, como havia sido anunciado a 1 de Abril — e não é mentira — o estúdio histórico decidiu expulsar dos seus planos os “filmes de autor”, apostando numa linha de sequelas e outros produtos com potencial para se tornarem sagas. É o cinema americano a render-se à passividade, na sua essência de entretenimento e nada mais, ainda assim espelhando os vícios tendenciosos da produção.

Em "A Minecraft Movie", começamos com um aviso: nos créditos iniciais, é possível ver a listagem de cinco argumentistas. Cinco!! No fim das contas, o quinteto serve de base para o previsível, algorítmico e reluzente espectáculo de easter eggs constantes, e sob a batuta de Jared Hess ("Napoleon Dynamite"), deparamos com um produto transformado em filme, cuja única intenção parece ser o de vender o próprio produto. É isto que a gerência de Zaslav pretende: vender, vender, vender, até ao limite dos seus recursos “criativos”.

Ao contrário, e vindo da mesma casa e do mesmo processo, "Barbie" brindou-nos com iguais ambições comerciais, mas com um volte-face ao desconstruir os valores da matéria-prima. Em "A Minecraft Movie", há uma exaltação daquilo que o jogo sempre “premiou” com “valor de moeda”, o de incutir criatividade. É essa a crença de quem esteve na origem, porém, discriminada pelos os produtores revelam descrença, recusando qualquer assunto que caminhe nessa direcção.

O sucesso constrói-se pelo reconhecível, com world building emprestado a outros world buildings (isto soa ao enredo de "Warcraft", ouvido no banco ao lado) e uma infantilização usada como moeda de troca para todas as sensibilidades e é nisto que o cinema se encontra entregue (cinco cabeças pensadoras que concretizam isto!), apenas Jack Black consegue ser o seu próprio idiossincrático, enquanto Jason Momoa ensaia pretensões de auto-ridicularização (o que é bom e, ao mesmo tempo, irrita o ‘sisudo’ Vin Diesel, naquele último capítulo de uma outra saga milenar já sem combustível criativo). A sequela já está a caminho, como se vê na bola de cristal de Zaslav.

Professores, inspirações até no Cinema

Hugo Gomes, 25.02.23

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Jack Black em "School of Rock" (Richard Linklater, 2003)

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Drew Barrymore em "Donnie Darko" (Richard Kelly, 2001)

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Jerry Lewis em "The Nutty Professor (Jerry Lewis, 1963)

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Jeremy Irons em "The Man Who Knew Infinity" (Matt Brown, 2015)

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Russell Crowe em "A Beautiful Mind" (Ron Howard, 2001)

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Sidney Poitier em "To Sir, with Love" (James Clavell, 1967)

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Eddie Murphy em "The Nutty Professor" (Tom Shadyac, 1996)

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Denzel Washington em "The Great Debaters" (Denzel Washington, 2007)

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Ryan Gosling em "Half Nelson" (Ryan Fleck & Anna Boden, 2006)

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Aamir Khan em "Taare Zameen Par" / "Like Stars on Earth" (Aamir Khan, 2007)

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Adrien Brody em "Detachment" (Tony Kaye, 2011)

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Tom Berenger em "The Substitute" (Robert Mandel, 1996)

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Jürgen Vogel em "Die Welle" / "The Wave" (Dennis Gansel, 2008)

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Michellle Pfeiffer em "Dangerous Minds" (John N. Smith, 1995)

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Kevin Kline em "The Emperor's Club" (Michael Hoffman, 2002)

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Robin Williams em "Dead Poets Society" (Peter Weir, 1989)

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Leonie Benesch em "The Teacher's Lounge" (Ilker Çatak, 2023)

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François Bégaudeau em "Entre les Murs" (Laurent Cantet, 2008)

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Valerio Mastandrea em "La Mia Classe" (Daniele Gaglianone, 2013)

... Já andámos por este jogo há algum tempo, mas o dinheiro fala mais alto.

Hugo Gomes, 11.12.19

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Em 2017, algures entre a sequela e o "reboot", “Jumanji” descobriu uma nova vida na densa selva da indústria de Hollywood, com Dwayne “The Rock” Johnson no comando e obviamente mais uns rodriguinhos (e estranhamnete assinado por Jake Kasdan, filho do prestigiado realizador e argumentista Lawrence Kasdan).

Voltemos a 1995 e ao primeiro "Jumanji" sob os ecos de “What year is it?” na deliciosa histeria de Robin Williams (um ator de quem sentimos tanta falta!), para entendermos o culto gerado por uma sofisticada fantasia para miúdos e graúdos. Apesar de ter envelhecido bastante mal, nomeadamente nos efeitos visuais, uma continuação da história do homónimo jogo de tabuleiro (inspirado num livro de Chis Van Allsburg) sempre esteve na lista de desejos dos estúdios.

A alternativa acabou por chegar em 2005 com “Zathura: Aventura no Espaço”, que serviu de uma espécie de "spin-off" espacial com sabor de reciclagem (curiosidade, Kristen Stewart integrava o elenco), mas a solução apenas foi desbravada em 2017 com o poder de Dwayne Johnson, ator que é hoje um dos mais curiosos casos de sucesso a apurar e um dos raros de Hollywood a manter uma espécie de "star system" (algo perdido neste consumo desenfreado por formas de entretenimento). A tal ressurreição chamou-se “Jumanji: Welcome to the Jungle” (em jeito de coincidência, também é o título de um dos precoces filme de Dwayne Johnson, aquele de 2003 ao lado de Sean William Scott que se passava na Amazónia) e o jogo de tabuleiro que Robin Williams jogava com uma “gaiata Kirsten Dunst tornava-se um esboço: o dispositivo passava a ser é uma "vintage" consola semelhante ao Super Nintendo.

O resultado foi um inesperado sucesso da Sony Pictures, com uns impressionantes 900 milhões de dólares em bilheteiras mundiais que criaram para esta saga moribunda um percurso de respeito (mesmo com um “Star Wars” estreado bem próximo da mesma data). E como é lei em Hollywood, sucesso é igual a sequela e assim nos é oferecido, novamente na mesma época natalícia, o chamado “Next Level” (novamente sob a batuta Kasdan), com os mesmos dados. Em “Welcome to the Jungle”, o ritmo, o elenco e o artificial sentido de aventura guiavam um filme de risco para as extremidades do despreocupado produto, enquanto esta continuação sobrevive à conta de restos.

Os pormenores não adiantam nem avançam no reino do entretenimento fácil e mesmo com aquisições de peso (Danny DeVito, Danny Glover e, por que não, Awkwafina), este novo “Jumanji” é incapaz de superar o registo piloto-automático do argumento, escrito às três pancadas e rodeado dos mais entranhados e cansativos clichés, onde nem mesmo os gags disfuncionais e cada vez mais imaturos parecem funcionar. Fora isso, é mais do mesmo, com um ritmo tremido e por vezes conduzido para uma mensagem "bigger than life" [maior do que a vida] que apenas ganha sentido com o afeto que temos pelos atores veteranos nas suas personagens envelhecidas.

Quanto à estrela, Dwayne Johnson, no registo híbrido da comédia e ação, está como peixe na água ao lado de um sempre exagerado Kevin Hart. Sim, há química, mas falta a isto tudo coração e isso ainda faz sentir mais saudades do filme com Robin Williams...