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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Arte de matar críticos de cinema ... e egos

Hugo Gomes, 13.06.25

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Há semelhanças de carácter entre Ridley Scott e Leonel Vieira: ambos desistiram da sua perseguição autoral e entregaram-se ao repetitivo baile da cor do dinheiro. Embora a jornada de Scott tenha sido, incomparavelmente, mais interessante do que a de Vieira (e o bailado de um mais digno do que a coreografia do outro), são realizadores que adquiriram um ego desmesurado, por vezes afiambrado na colheita de box-office.

Antes de o português se render aos remakes de clássicos salazarentos ou a pontes telenovelescas com o Brasil, ainda se aventurou na internacionalização do cinema português. Fê-lo sem perceber que a sua conquista mundial residia na preservação da identidade e na sua língua. Aqui, fez-se o “bonito” de encantar o anglo-saxónico, recitando o que sabe sobre universos tarantinescos, rodriguescos e outros crimes por tuta-e-meia, convidando actores — aqui (Ivo Canelas, Soraia Chaves, Nicolau Breyner) e para lá de Badajoz (Enrique Arce) — e integra-os um prato de condimentos importados, cozinhado para a pequena tela.

É um filme esquecível. Não vale a pena bater no ceguinho, mas também não convém fazer-lhe festas ou olhar com a condescendência do “só quer contar uma história”, lema e tradição de novatos nestes arcabouços da crítica de cinema. “Arte de Roubar” não tem identidade, nem sequer personalidade. Macaqueia o que vê e o que viu, e ainda “mata” críticos (a célebre referência da adega) como aquele alfaiate que matou as sete moscas num só golpe, aludindo ao erro do rei que pensou tratar-se de gigantes que ameaçavam as suas terras.

Pois bem: Vieira quis vingar-se das más críticas de determinados críticos e de um específico produtor, mas esqueceu-se de contar a história como deve ser. Enganou-nos, e bem, ao tentar soar maior do que é. Por um lado, quem me dera ser um crítico enterrado e assassinado nestas ficções, é sinal que os maiores egos conseguem ferir com poucas mas devidas palavras.

“Que Mulheres serão estas?”: a questão que vira sessão de curtas sobre mulheres ... e que mulheres!

Hugo Gomes, 04.10.24

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“Que mulheres serão estas?”, a pergunta que se faz de título, e o título que se faz de pergunta, talvez na persistência do dilema do que é uma mulher, e o que se faz para ser mulher. Decretos feministas, portanto, mas mais que isso, é a vontade de esmiuçar um género, ou além disso uma identidade, a partida dela nasce a iniciativa cinematográfica, três curtas portuguesas para fazer jus à tendência que desejamos tornar tradição. Essas sessões triplas, três produções cada uma delas oriundas de uma diferente produtora, cada uma correspondendo a uma visão e a uma definição própria de mulher. “Que Mulheres Serão Estas?” a questão que vira sessão.

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As Sacrificadas

Seguimos à tradicional e à sacrificada se não fosse esse também o título deste projecto - “As Sacrificadas” - sobre martires e forças, segundo se crê sobrenaturais, que o sexo feminino parece apresentar, neste caso a Otília (Tânia Alves), dividida entre o trabalho, em ser cuidadora da sua mãe e ainda, sob a ameaça dos fogos estivais. Uma curta que chega-nos ao circuito comercial com sabor de zeitgeist, um drama que borboleteia por esses temas e que revela “mão firme” de Aurélie Oliveira Pernet. Contudo, é um filme ausente, pertinentemente e perversamente, do seu lado incendiário. Entende-se a sensação de drama semi-rural enclausurado (mas sem fascínio algum para com esse meio), continuamente fechado a esta mulher de força avassaladora, e em consequência, cada vez mais apagada enquanto identidade, a tradicional e igualmente oprimida, nem que seja pelos códigos estabelecidos sociais, a da mulher, e aí está, sacrificada em prol de outros. 

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By Flávio

Depois segue a emancipação de uma outra mulher “aprisionada”, e não por menos desprezada, Márcia (Ana Vilaça), uma experiente em questões de redes sociais, sendo esse o seu escape, contrariamente condenatório à sua persona. Jovem, solteira e mãe, e com um pouco de inconsequência pelo meio, ela é, à partida, olhada de vesga pelos restantes, a irresponsável vista à lupa da tal sociedade que ordena e julga. “By Flávio”, curta de Pedro Cabeleira, uma das grandes ‘promessas’ do cinema português o qual não canso de insistir (basta conferir “Verão Danado”), trabalha aqui um filme sobre duplas vidas e de duplos desejos, com humor ácido e estéticas embebidas numa artificialização da fantasia pop. É um gag prolongado sobre as ditaduras visuais e aquilo que se prende nos “padrões socialmente seduzidos” do que é uma “mulher de descarte”. Vista as ‘coisas’ é uma emancipação feminina, da improvável, a suposta que “não vale um chavo”, corpo acima do resto, contra as convenções que a aprisiona. No final - “Sou eu e a puta da shotgun” - o grito de guerra da luta de quem por direito anseia uma nova feminilidade.  

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Um Caroço de Abacate

Já a terceira e última curta - “Um Caroço de Abacate” - de Ary Zara (cuja história da sua transpassagem encontra-se presente no documentário “Ary” de Daniela Guerra), lida com uma sombra preconceituosa, a do fetiche inicialmente, aqui representado por Ivo Canelas, homem cis que sente o fascinio pelo mundo de Gaya de Medeiros, aqui como mulher trans e prostituta, que numa certa noite decide mostrar-lhe um caminho alternativo ao lascivo da fantasia oculta. Das três é a historieta mais arriscada, até porque “puxa o tapete e sacode o pó” dela em temas e dilemas que numa sociedade ainda presentemente conservadora tende em negar, e curiosamente, o filme de Zara poderia funcionar nesse panfleto do que é mulher ou não é mulher, as fronteiras da identidade com o seu género, e agressão ao conceito de cisgenero e heteronormatividade. Poderia … mas para quem viu “Ary” apercebe que da sua experiência o ativismo é humano, é sentido, daí “Um Caroço de Abacate” jogar com o seu maior trunfo, a sua delicadeza e carinho para com as suas personagens, deixa de lado o discurso demolidor e transgressivo e se concentra num episódio “After Hours” com “Before the Sunset”, sem malapatas e nem romances acima da carne, apenas dois indivíduos de traços quase almodovarianos partilhando um mundo, uma dança, e uma expectativa. Empatia sobretudo, é a arma de guerra de Ary Zara, e nesse sentido faz mais pelas supostas “causas” que muitos irão realçar do que os verdadeiros “filmes de causa”. Somos humanos, e é o que importa, o resto é “conversa de tesão”. 

Lição Nº [inserir algoritmo]: “boas ideias” não resultam (automaticamente) em “bons filmes”

Hugo Gomes, 23.08.16

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Esta é a história de Lucas Mateus (Ivo Canelas), um músico de carreira falhada que entra em depressão após descobrir que a sua namorada o traía com o seu melhor amigo, Pedro (João Tempera), que ao contrário do protagonista é um músico com uma carreira bem sucedida. Com as desilusões que se vão acumulando na sua vida, Lucas desesperadamente entra num ciclo vicioso de “carrologia”, uma arte de engate em que consiste “estudar” o conteúdo dos carrinhos de supermercado. É durante essa “caça a mulheres” que Lucas encontra, que conhece uma estranha rapariga, cuja principal particularidade é de viver dentro de um fato de dinossauro cor-de-rosa.

Na teoria, “Refrigerantes e Canções de Amor” soa como uma variação de criatividade “Sundance style”, mas o pior é quando chegamos realmente à prática, e aí sim, é onde “a dinossaura torce o rabo”. Escrito pelo humorista Nuno Markl, esta é uma comédia de ideias, porém, mal executadas em derivação de um malabarismo de tons, de uma realização ausente de frescura, por um overacting conformado por muitas das suas estrelas e por um timing incorretamente aplicado. 

Devo dizer que esta obra tem de tudo para funcionar como um case study, exibido em qualquer aula de preparação para estudantes de cinema nos termos do que se “deve ou não fazer”. Verdadeiramente triste que isso aconteça, até porque no leme deste projeto está o veterano Luís Galvão Teles, que ainda este ano presenteou-nos com a louvada tentativa de “Gelo”, um filme de ficção científica que não envergonha ninguém. Infelizmente é na sua direção que encontramos a “faca de dois gumes” deste “Refrigerantes e Canções de Amor”, se por um lado a realização de Galvão Teles afasta-nos da usual linguagem televisiva que empesta as produções comerciais (*cof*O Pátio das Cantigas *cof*), é nele que encontramos o desleixo total, confirmado no patético clímax, onde não existe qualquer noção espacial e até temporal.

Sim, meus caros, “Refrigerantes e Canções de Amor” é um produto falhado, sem amor nem carinho, despachado e dilacerado precocemente. Algo bom nisto tudo é Victoria Guerra, que mesmo deixada à sua mercê no interior de um fato de dinossauro rosa, consegue graciosamente contagiar-nos com o seu talento. Aliás é nela que encontramos o termo de requisitada interpretação, onde os gestos e a voz valem mais que muitas expressões faciais.

Uma brisa revolucionária no ar ...

Hugo Gomes, 17.02.14

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Da maneira como “A Estrada da Revolução” inicia – escombros, sangue, gritos e uma assombração de um atentado – fazia-se prever mais uma cadeia “choque” tão fiel às manchetes sobre o estado atual do Médio Oriente e Norte de África dos mais variados noticiários. Face a tais imagens, o espectador ocidental facilmente se sente intrigado, revoltado por momentos, mas tal dissipa-se com o conforto das suas habitações e pela distância social ou simplesmente o afastamento geográfico de tais cenários desoladores e sanguinários. Para o jornalista Tiago Carrascos e ou seus parceiros, João Fontes (repórter de imagem) e João Henriques (fotógrafo), o noticiário não era o suficiente. Vendo mais que somente rotinas passageiras para o indivíduo comum, o que o trio presencia é um movimento de tamanha relevância, não apenas para o Médio Oriente e Norte de África, mas também para o resto do Mundo. A Primavera Árabe, a manifestação contagiante do ecoar dos ideais que os portugueses parecem “esquecer” – o Povo é quem mais ordena – imposta nem que seja por via do sacrifício e do sangue derramado.

Curiosos em testemunhar de perto este fenómeno, os três portugueses seguem então na derradeira rota da Turquia até à Tunísia, passando por verdadeiros “campos de batalha” como a Síria e o Líbano, através de uma demanda por vias de transportes terrestres, com o intuito de se aproximarem à verdadeira essência da Primavera Árabe: as pessoas. Depois da exibição de violência, sublinhando a atmosfera pesada e infernal que se vive nestes “indesejados” cantos terrestres, “A Estrada da Revolução” parte numa outra perspectiva, a visão partilhada por estes três jornalistas; as pessoas, os seus ideais e convicções, a luta através de cânticos, o uso da tecnologia como o escape da censura ditada por regimes e por fim as histórias por detrás desses novos ventos que se avizinham.

Será pura coincidência a queda sucessiva dos diferentes líderes de tais nações? “A Estrada da Revolução” segue tal viagem por fragmentos, e ao contrário dos documentários de formato televisivo não cede à definição, apenas às imagens que explicitam testemunhos de coragem. E é nessa coragem, e a semelhança que encontramos em todas essas histórias, o elo que liga povos diferentes mas igualmente oprimidos. Cada um sob a sua abordagem, umas mais difíceis de aceitar pela cultura ocidental que outras, como por exemplo o abdicar dos próprios filhos (mártires) em prol da queda de governos antagonistas. Porém, aceitando ou não, existe algo de sentido neste retrato para o indivíduo português, mesmo que as situações não se comparem (ou 8 ou 80), Portugal necessitava da sua própria Primavera, o retorno dos velhos ideais do 25 de abril que nunca se concretizaram por completo. Basta só assistir a luta quase interminável de um povo em atingir o seu próprio conceito de liberdade para depois testemunhar uma aceitação conformista de uma austeridade que revela a passos num novo género de Ditadura.

Deixando por agora este intervalo crónico nacionalista de jornal e regressando ao documentário. “A Estrada da Revolução” separa após os primeiros minutos dos lugares-comuns e da generalização utilizada nos telejornais e avança para um retrato humanista e íntimo a um dos movimentos que tem de tudo para se tornar num dos mais importantes do século XXI. Porém, a sua fraqueza como obra cinematográfica é que o filme de Dânia Lucas (narrado pelo ator Ivo Canelas) foi um fruto extraído de cerca de 200 horas de material gravado, sendo que a profundidade desejada não é devidamente atingida, prezando-se ainda assim o facto de um filme destes estar nas nossas salas, havendo aqui algo de muito atual e revolucionário. Não é coincidência a estreia nacional de “A Estrada da Revolução”, o nosso país precisa acordar, nem que seja seguir os exemplos (porém não os devemos seguir à letra) dos outros!

Nota de contexto histórico: este texto, e olhando agora com retrospectiva, foi escrito no calor do seu tempo. Portugal lidava com austeridade, Troika e um primeiro-ministro - Pedro Passos Coelho - que perante ao amontado de miserabilidade e desespero português, sugeriu "emigração". Portanto, pedimos desculpa pelo obsoleto que texto se tornou, desejando que não seja interpretado como um apelo aos populismos nem linchamentos populares.