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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Ouro, para que te quero?

Hugo Gomes, 03.12.24

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Oh preguiça … Tem piedade sobre a nossa longa miséria."

Não penso que um crítico deva pedir desculpa pelas passadas tentativas de premonição, e por isso não o farei, até porque ainda não há motivos para me descolar da afirmação convicta que fiz há alguns anos, mais precisamente aquando da estreia de Ico Costa à mesa dos “crescidinhos” da longa-metragem, com “Alva”. Referi, nessa ocasião, que o realizador, com essa sua façanha, estava longe de me motivar ou até mesmo de remexer o caldeirão cinematográfico em que o “cinema português” se encontra. Contudo, com “O Ouro e o Mundo”, mesmo notando os vestígios do filão do “criminoso a monte”, consigo encontrar neste novo olhar uma vontade intrinsecamente forte que me leva a reconsiderar o meu julgamento.

Filmado em Moçambique e inteiramente ligado a Moçambique (com fotografia de Raul Domingues), este é um filme sobre a precariedade, sobre juventudes violentamente arrasadas pela passividade, pela desconexão com a ambição e pelo estatuto de “fura-vidas” que se esforçam por ostentar. Talvez nesta fúria de viver um sonho de esquina resida um reflexo crítico de um pensamento ocidental sobre sucesso e conquista, ou do árduo trabalho numa sociedade ultra-capitalista, monologados, resumidamente, num beco, de um protagonista relatando a sua experiência longínqua e desaconselhada em Portugal, enquanto sente o momento, o imediato, como o seu único lugar de pertença. Há uma ideia vinculada de felicidade a ser rastreada fora do radar do capitalismo e dos seus dogmas.

As marcas de “Alva” estão lá: os constantes tracking shots, o esforço da câmara à boleia das suas personagens, como se deslocasse lado-a-lado por deslocamentos sem tempo, por trilhos “ordinários” – capim, mangais, terra batida – à procura de ouro ou de qualquer outro mineral reluzente que os resgate do martírio do trabalho-escravo. São delírios por carreiras espontâneas de hip-hop, de sucessos instantâneos, daqueles que as redes sociais premiam; são ânsias de partir, de ir para longe – longe de tudo e, sobretudo, longe das responsabilidades (até das suas consequências).

Ico Costa não filmou uma nova “cantiga dos desgraçadinhos”. Pelo contrário, desafia-nos a encontrar um estado de alma, de jovens presos a uma carcaça que renegam por completo. O trabalho – essa palavra maldita – é vista como conselho, dica ou sugestão passivo-agressiva acorrentada a uma convencional ideia de “adulthood”, do qual é respondido apenas com a invocação da “mãe preguiça”, que dizem ser prima do progresso, porque, segundo consta, se não fosse ela, o Homem não teria inventado a roda.

E coincidências das coincidências, o nosso protagonista chama-se Domingos [Marengula] – talvez o nome perfeito para ilustrar os dias da semana mais preguiçosos e molengões possíveis, mas que para Ico Costa é a sua grande fonte de energia. 

Para segundo filme estamos num bom caminho!

Ico Costa foge, mas não vai longe

Hugo Gomes, 27.01.19

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Tudo estava indicado para que “Alva” fosse a emancipação de Ico Costa, realizador que tem captado algum interesse no circuito de festivais nacionais, demonstrando os valores da elite cinematográfica do nosso panorama e reforçando a existência do docudrama, mas ao invés disso somos presenteados com mais um impasse.

Nesta primeira longa-metragem deparamos novamente com esse gosto em recriar a realidade com uma ficção complementar que se confunde com toda esta encenação-captação. A obra, que segue um homem, Henrique, em fuga nas montanhas após ter cometido um duplo homicídio, era caminho e tanto para servir de mostra aos temores psicológicos e a regressão quase animalesca da sua personagem, ou por outros caminhos já percorridos (por exemplo com “Nana” de Valérie Massadian), um retrato naturalista da cedência da civilização ao selvagem como subsistência. Ao invés disso, passando por um primeiro ato morno que encaminha enganosamente o espectador pelo primeiro trilho aqui sugerido, o filme tende em ceder à derivação do registo de câmara invisível, sorrateira e sem noção alguma de interferência para com a ação (com tal matéria, Miguel Gomes concretizou com melhor afinco a jornada de Chico “Chapas” num dos episódios de “Mil e uma Noites”).

Como tal, o espectador é absorvido ao estado passivo, enquanto as imagens correm sem o auxílio psicológico por trás ou do simbolismo, aqui desfeito por dois fatores: o primeiro ponto, a crueza e frieza dos planos (corridos de desleixo formal que sabe tão bem aos paladares de um certo academismo português); e segundo, a sequência final que deixa a perder a hipótese de testemunhar o potencial de um realizador calculista (algo que faz falta no nosso Cinema).

Até porque o nosso fugitivo é encaminhado / auxiliado por uma câmara cúmplice que suavemente indica-lhe a direção a seguir (literalmente), quase obtendo uma interatividade de imagem com a personagem ao nível de Michelangelo Antonioni (a câmara que foge do seu próprio filme e adquire a vida pretendida). O plano dessa estrada a fora, a fuga possível de Henrique e o estabelecido momento meta-fílmico em que o real converte-se no simbólico, é laminado com um exibicionismo evidente. A câmara procura o protagonista e é nessa procura que indiciamos essa dita e falta de calculismo. Não com isto insinuar que um plano-sequência ditaria um filme, mas era de facto crucial para entendermos que tipo de realizador Ico Costa se tornará. Pelo que vemos, não será promissor, mas também espero estar enganado quanto a isso. Por enquanto, o resultado é a passividade do costume.