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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A um palmo da testa de Hong Sang-soo ...

Hugo Gomes, 24.05.22

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A universalidade é a palavra-chave para que o cinema de Hong Sang-soo possa prevalecer fora do cerco que ele próprio criou, forrado pelas fantasias mirabolantes diversas vezes discursadas nos arredores do seu culto. É essa linguagem comum, o do “Foda-se, a vida é fodida”, sem tradução nem contexto cultural, debitada naturalmente num meio de um convívio movido a álcool, desta feita o licor chinês a substituir o soju, para de uma vez por todas acabar com a artificial apropriação detida pelo adepto ocidental. 

De Hong Sang-soo nunca aderi, confesso, demasiado “europeu” na sua possível vanguarda sul-coreana, engodo rohmeriano para festivais e críticos de pensamento francófono, sem referir a sua desengonçada estética, conferindo-lhe a impunidade crítica num círculo iludido da sua própria poesia, porém, é na escrita que o coreano sempre se primou, na invenção, na hipótese, na intervenção algo divina nas relações submetidas, na metafísica embrulhada no monótono quotidiano, repetidamente encenado filme após filme. E é com o argumento que este “In Front of your Face” (o segundo Hong’ de 2021 e o estreado timidamente no Festival de Cannes) sobressai, o segredo de uma mulher retornada, magnetizada pelo vazio espaçado entre arranha-céus coreanos (entre os quais da sua irmã que nunca partiu), e pelo passado sem volta que mutuamente a persegue, quase de um jeito sexual e persistente. Essa mulher, que não fugiu, apenas evadiu do seu conforto em busca de algo maior que ela, e sobretudo fora dela, é Lee Hye-yeong na sua triunfal entrada neste universo que muitos crêem “honguiano”, um reflexo da encontrada maturidade do seu autor.

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E aí está o trunfo deste enésimo filme, um Hong Sang-soo amadurecido, elegante e delicado na sua estética (sem com isso ceder a “makeovers” radicais), que nos fala sobre vida, morte e promessas vencidas e embebidas em álcool, por sua vez de “pinga envelhecida", sem nunca descrer da sensibilidade desses mesmos temas, com quem encara o encerramento já visível do outro lado da esquina. Deste lado o cético que testemunhou um milagre, pequeno mas que basta, num cinema que sempre fora mais preocupado em alimentar o seu culto do que verdadeiramente interrogar as suas próprias emoções. 

In Front of your Face” anuncia uma segunda vida, gestos articuladamente automatizados que reencontram um fôlego emancipador no vazio, esse fascínio mórbido da protagonista, alimentada pelos pactos de serões boémios que possivelmente nunca se cumprirão. No final, gargalha-se, porque o ontem tornou-se nisso mesmo, num passado sem intuito de repetir.

Fenómenos ... da repetição

Hugo Gomes, 16.12.20

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A maneira como ele se repete é absurda”. Não sou eu que o afirmo, quem proclama é umas das personagens, numa espécie de desdém à “popularidade” de um autor, neste “The Woman who Ran” (“A Mulher que Foge”, inexplicável vencedor de um Prémio de Melhor Realização no último Festival de Berlim). Aproprio-me das suas palavras e as posiciono de frente a esta 24ª longa-metragem do sul-coreano e “falso-marginal” Hong Sang-soo, de forma a não empregar sentimentos muitos profundos do meu “ser”. Começo a desconfiar deste “fenómeno”, há aqui um radicalismo que já não se aguenta.