Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Os Melhores Filmes de 2018, segundo o Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 02.01.19

Depois de uma colheita minimamente dececionante [2017], seguimos para um lote frutado e recheado de cinema diversificado, de temáticas de difícil digestão e até estéticas que primam pelo classicismo e o progressismo. Assim sendo, 2018 foi propicio às trevas que habitam no coração dos homens, aos amores escaldantes nas diversas “juventudes” e até mesmo à Disney como imagem do novo “sonho americano”. Este foi o ano em 10 filmes ...

 

#10) Jusqu'à la Garde

custody01.jpg

“Uma histórias de “monstros” que se confundem como figuras paternais durante uma batalha campal. A separação, a custódia e a disputa pelo prémio em forma de primogénito leva-nos a um suposto drama de contornos realistas que transforma-se, à velocidade de um estalar de dedos, num tremendo thriller psicológico. É como se The Shining (o de Kubrick e não os escritos de Stephen King) fosse transportado para a sua “pele” mais mundana. Que rica primeira longa-metragem do ator Xavier Legrand.

 

#09) ROMA

Roma-de-Cuaron-e-da-America-Latina-900x506.jpg

“Um filme de detalhes e de ecrãs dentro de ecrãs (e assim sucessivamente) que persiste na vitalidade cénica com que Alfonso Cuáron deseja ser reconhecido. É um choque de classes e de géneros, que ao invés de contrair uma pobreza desencantada como muitos que anseiam filmar a precariedade, encontra no seu rigor estético uma beleza formal de quem deseja salvar estas personagens de um certo vampirismo miserabilista.”

 

#08) The Project Florida

the-florida-project-estreia.jpg

“Um anti-filme da Disney filmado às portas do tão omnipresente “parque encantado”, com as personagens marginalizadas por esses “autênticos” contos de fadas a obter os seus respetivos holofotes. O realizador Sean Baker parte para o naturalismo deste mesmo leque que goza da sua pitoresca paisagem de motéis e lojas XXL, um reino fantástico aos olhos das crianças que anseiam perder na Terra do Nunca para se afastarem da irresponsabilidade dos adultos. A juntar à equação, um Willem Dafoe que se camufla com este ambiente de náufragos.”

 

#07) Hereditary

MV5BMDdmNjhmNmUtNmUyMy00NjY3LTlkOWMtODQzYTMwYzI3OD

“O terror é hereditário. Está no sangue daqueles que são marcados desde a nascença e que não conseguem escapar aos desígnios do género. Ari Aster é um desses “amaldiçoados”, pelo que consegue nesta sua primeira longa-metragem executar um dos ensaios mais estetizados, sinistros e atmosféricos que este território tem para nos oferecer nos seus mais recentes anos. E não é todos os dias que evidenciamos uma Toni Collette explosiva que (literalmente) sobe as paredes.”

 

#06) Shoplifters

Film-Review-Shoplifters-A-masterfully-heartbreakin

“A subtileza quase melosa é a arma furtiva para que as personagens se submetam aos ditos experimentos … e o espectador também. Depois seguimos na pista de outros “lugares-comuns” do cinema de Koreeda, entre as quais a inclusão social que já se encontrava presente no seu primordial Maboroshi (1995) ou as constantes críticas ao sistema judicial e prisional nipónico visto e revisto em Air Doll (Boneca Insuflável, 2009) e The Third Murder (O Terceiro Assassinato, 2017). Elementos para racionalizar e sobretudo sentir com a sensibilidade de alguém que sobressaiu do formato reportagem e documental, evidenciando com isso o detalhe da tendência observacional de Koreeda pelo seu redor e do invisível.”

 

#05) Happy End

happy-ende-01.jpg

“Meticulosamente, Haneke vai construído o seu ambiente, uma atmosfera de iminente catástrofe. Sentimos isso, essa faca aguçada que nos ameaça. Somente ameaça. E é então que chegamos às festas; a primeira ao som de um angelical violino e um discurso de boas-vindas pela nossa Isabelle Huppert; somos convidados a um cruzar de olhares, a um clima de suspeita, ao nascer de um "monstro", a relações proibidas secretamente vividas no ar, às conversas soltas que nos confundem mais e mais. Saímos a meio, e partimos para outro festejo. O caos já é elevado, as consequências são fatais, fazemos corar as implantações de Luis Buñuel, os burgueses "estão em maus lençóis".”

 

#04) Cold War

cold-war-696x392.jpg

“Se Ida era considerado um filme frívolo, Cold War vai além da sua designação; é a extração do calor no gélido panorama. Apaixonamo-nos por estes atores (Joanna Kulig, Tomasz Kot), amamos esta dupla, o simbolismo friccionado nesta relação, a química que nos aquece em frios planos.”

 

#03) Der Hauptmann

72bc498d-8760-4600-bb91-b24231f4b0d6.jpg

“Não se trata de hora marcada com a raiz do mal, a farda não descreve o nazismo fechado a conceito implantado (mesmo que fascínio entre uniformes e alemães seja algo mais interiorizado e já citado no Cinema, a ter em conta O Último dos Homens, de F.W. Murnau). Sim, as divisas de capitão funcionam como o mais recente acordo do demónio Mefistófeles, oriundo do romance de Goethe. A sua escapatória e, ao mesmo tempo, a agendada descida aos infernos existencialistas, o animalesco da sua própria vivência.”

 

#02) Call Me By Your Name

call_me_by_your_name_trailer_1050_591_81_s_c1.jpg

“Não se trata de um “somente” filme queer, mas sim de um amor de verão adjacente a um certo bucolismo, jovial e proustiano que se atenta nos desempenhos naturalistas dos seus atores (um promissor Timothée Chalamet e um sedutor Armie Hammer). Apesar de centrar nas paixonetas de um adolescente na descoberta da sua sexualidade, é um joguete maduro por parte de um realizador versátil, que por sua vez procura o seu próprio gesto autoral. Uma obra que não merece de todo ser desprezada.”

 

#01) First Reformed

first-reformed-schrader-633x356.jpg

“Enquanto que Taxi Driver resumia aos grunhos e ao seu ativismo algo anárquico, esta nova chance de Paul Schrader remete-nos ao ativismo dos sábios. Impulsores divergentes, causas percorridas em iguais pisadas. É na descrença que a verdadeira fé é atingida, poderemos contar com isto num filme religioso, mas a crença não se baseia em teologias fundamentalistas, First Reformed olha para o mundo deixado por Taxi Driver, e o atualiza, refletindo-o numa dolorosa agonia. É a política, sob as agendas anti-trumpistas, fervorosamente renegando outras politizadas tarefas, como o ambientalismo a fugir dos panfletismos Al Gore (possivelmente, e em certa parte, o mais sóbrio dos filmes ecológicos).”

 

Menções honrosas: The Phantom Tread, The Other Side of the Wind, The Isle of Dogs, Girl, A Simple Favor

Koreeda: O japonês de primeira linha

Hugo Gomes, 22.11.18

Koreeda1-1024x683.jpg

Numa conversa com o Hirokazu Koreeda, o confrontei com a atualidade do cinema nipónico, potência de outrora, hoje reduzido a todo um mercado subjugado à cultura Otaku e a protótipos de formatos ocidentais: “Como vê a industria de cinema no Japão atualmente?”. A resposta, foi de tudo lúcido, sem receio algum de represálias pelos seus conterrâneos.

Está constantemente a piorar. Algo que tenho percebido é que existem cada vez menos participantes japoneses em eventos como Cannes. Há cinquenta anos atrás existiam mais cineastas independentes e distribuidores que gostariam de trabalhar com eles. Atualmente, os grandes estúdios têm uma visão muito limitada e apostam quase exclusivamente no mercado interno. Olhando para o lado independente, encontramos uma vaga talentosa, mas também ela a decrescer devido a isso mesmo, o pouco interesse no mercado japonês. Julgo que o Japão está a tornar-se cada vez mais fechado e isso é algo que devemos impedir e atuar.”

Esta atitude advém do seu jeito observacional, Hirokazu Koreeda surgiu do documentário televisivo e sobretudo da reportagem, é hoje um dos cineastas mais valorizados do Cinema Japonês, se não o principal autor dessa mesma industria. Mas sua corrente enquanto observador do Mundo leva a que os seus filmes interpolam numa espécie de retrato/crítico social, o desvendar de uma Japão longe das vendidas canônes a ocidentais, e um cariz autoral com veia encriptada numa linguagem bastante europeia.

A minha conversa com o realizador decorreu numa das residenciais de Cannes, durante o Festival que o cineasta iria conquistar a tão Palma de Ouro, prémio que não fora atribuído a uma obra japonesa desde 1997, onde Shohei Imamura partilhou o lugar com o iraniano Abbas Kiarostami. Infelizmente, o filme de Kiarostami, O Sabor da Cereja, prevaleceu na memória dos cinéfilos de todo o Mundo, a Enguia de Imamura, restringiu a nichos, sem com isto desvalorizando o filme em si. Koreeda consagra-se então como o realizador de primeira linha, a Palma vem confirmar isso, porque a sua carreira cinematográfica, iniciada com Maboroshi (1995), tem tornar-se numa referência para com o panorama cinematográfico nipónico. De um lado, existe no seu cinema um invocar de gestos passados do Cinema do Japão, passando, evidentemente, pela sensibilidade de Yasujiro Ozu, e como o próprio sugere nesta mesma conversa, Mikio Naruse e Nagisa Oshima.

Mas ao mesmo tempo, Koreeda era o que faltava nessa indústria, uma compilação das tendências europeias, traduzindo-as num registo nacional. Por outras palavras, as histórias condensadas pelo realizador, que tão bem transpiram a sociedade japonesa, tendo como foco uma desconstrução da sua natureza e sociedade, proclamando o moderno ainda invisível para o Mundo afora, são de uma linguagem universal para com os demais. A prova encontrou-se no final da apresentação da sua última obra, o triunfante Shoplifters, o qual contexto teve a conversa acima referida. Projetado no Grand Lumiere Theatre, a sessão termina sobre um forte aplauso por parte do público. Em sala, a atriz australiana Cate Blanchett, presidente do júri desta seleção, não consegue esconder as suas lágrimas, a câmara capta o momento … o momento em que a mais importante membro dos jurados emociona perante um filme de uma realidade distante.

A partir deste momento, tendo arrecadado ótimas críticas e apresentando-se nas comités de críticos como o favorito ao prémio principal, o que veio a confirmar poucos dias depois, Koreeda sai-se vitorioso e sem o descanso algum parte para a sua primeiro obra internacional, onde irá trabalhar com atores como a francesa Catherine DeNeuve e o norte-americano Ethan Hawke, numa altura de holofote graças ao seu desempenho com First Reformed (de Paul Schradder).

sample

Uma lágrima para Koreeda

Hugo Gomes, 12.11.18

FB_IMG_1582504522805.jpg

Na obra de Hirokazu Koreeda assim como no seu recente Shoplifters, em particular, a palavra-chave encontra é LÁGRIMA. Aquele vestígio de sentimento que guardamos com a maior das reservas até ser libertada após as desamarras dos nossos passivos demónios. Uma. Basta apenas uma só, que dita toda uma costura de subtileza e sensibilidade para com o retrato concebido de um Japão fora dos canónicos ficcionais de hoje. E é essa lágrima, tida como dentro [nas personagens] e igualmente de fora [no espectador] que nos encarrega de guardá-la com a maior das confidências.