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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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A adopção de Hal Holbrook: a resiliente despedida a um secundário de luxo

Hugo Gomes, 02.02.21

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Não foi certamente a última vez que o vi, mas não deixaria de mencionar a sua, talvez, última grande presença. O momento em que Hal Holbrok resiste à despedida do jovem Emile Hirsch, na pele de Ron Franz em “Into the Wild” (Sean Penn, 2007), o – “Let me adopt you” – é de uma calorosa subtileza e sensibilidade que só um ator com tal longevidade, experiência e também vivência poderia retribuir. Hoje em dia, “Into the Wild” é quase um sacrilégio ser relembrado por muita cinefilia (muito por culpa de “The Last Face”), mas é um filme de pequenas ‘coisas’, e Hal Holbrok, não sendo necessariamente ‘pequeno’, faz parte dessa espontânea magia.

Fora do território selvagem, o ator, que nos deixou aos 95 anos, nunca fora um protagonista emancipado (assumindo como tal em projetos pouco memoráveis), ao invés disso, um secundário de luxo, um valioso suporte do enredo em causa. Quem não esquece o seu obscuro conselho de “Follow the money” em “All The President’s Men” (Alan J. Pakula, 1976), que curiosamente partilha convivência com o seu sermão elitista em “Wall Street” (Oliver Stone, 1987) - “The main thing about money, is that it makes you do things you don't want to do” - ou da sua indignação enquanto padre Malone ao confrontar o criminoso segredo em “The Fog” (John Carpenter, 1980) - “The celebration tonight is a travesty. We're honoring murderers”.

 

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Wall Street (Oliver Stone, 1987)

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All The President's Men (Alan J. Pakula, 1976)

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The Fog (John Carpenter, 1980)

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Magnum Force (Ted Post, 1973)

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Lincoln (Steven Spielberg, 2012)

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The Unholy (Camilo Vila, 1988)

 

 

A bruma é a resposta dos nossos medos

Hugo Gomes, 17.07.17

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“The Fog” é nas suas possibilidades o filme mais convencional e conservador de John Carpenter, título que viria a ser batido pelo até então derradeiro “The Ward” (“O Hospício”). Esta é a sua obra que mais facilmente condensa os primários elementos do género de terror clássico, sem com isto afirmar que nos deparamos com um nevoeiro “básico” ou rotineiro. Carpenter faz uso da escuridão, da luz e por sua vez a sugestão (não nos são demonstrados os “espectros-monstros” na sua totalidade) para orquestrar uma ambiciosa história de assombração, ao invés de um marco, edifício ou lugar, é uma cidade amaldiçoada sob a forma de uma praga “bíblica”, uma fobia patológica endereçada à condenação.

Mas começando pelo início, e porque Carpenter assume esta obra como um portento do seu terror, na sequência inaugural vislumbramos jovens ao redor de uma fogueira e o ancião Mr. Machen (John Houseman) pronto a relatar a história que os irá arrepiar a partir dali: “11:55, quase meia-noite. Tempo que sobra para mais uma história. Uma história mais antes das 12:00, para nos manter quentes. Em cinco minutos, será o dia de 21 Abril. (…)“.

Uma narração vivida pelas voluntárias pausas e a voz trémula e sinistramente confiante de Houseman como cúmplices, ao longe são ouvidos os sinos, outrora informantes do horário, agora encarando-se como trovantes ao auxílio do relato em si. “12:00, dia 21 de Abril“, o alerta foi dado ao espectador quanto a este terror prestes a emergir. Nesta sequência somos devolvidos à década de 30, com Edward Van Sloan a avisar-nos de forma premonitória dos horrores por detrás da cortina em “Frankenstein” (James Whale, 1932) – “Será provavelmente demasiado horrível para vocês. Então, se algum de vocês sente que não deve submeter os nervos a tal tensão, agora é a chance de, uh … Bem, nós o avisamos.

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The Fog” arranca então sob os acordes do próprio Carpenter para preencher uma atmosfera em constante ebulição para uma eventual catástrofe, uma calamidade sob a forma de nevoeiro e sob a aura de uma sinistra sobrenaturalidade. Antonio Bay é a cidade que nos acolhe, ficamos a conhecer os seus “pacatos” habitantes, a locutora de rádio do farol-monumento que conforta os noturnos (a confortante voz de Adrienne Barbeau), e dos andarilhos que chegam nas “piores das alturas” (Jamie Lee Curtis a submeter-se a mais uma perseguição “carpentiano”).

Há uma comemoração, um dia histórico, uma celebração, que mais tarde se vai descobrir num prematuro plot twist – “A celebração desta noite é um travesti. Nós honramos assassinos” – assim despertando um exercício de mortos-vivos espectrais. O que faz “The Fog" funcionar em todo o seu esplendor, para além da sua atmosférica esfera de um terror semi-antológico, é a sua capacidade de sugestão. A neblina propaga-se nos momentos de tensão e, tal como sucedera com “Jaws”, de Steven Spielberg, ou muito antes disso, “The Duel”, o efeito sugestão tem primazia, nunca cedendo ao explícito de revelar na totalidade o seu monstro, neste caso, monstros.

Porém, toda esta fantasmagórica corrida contra o tempo leva-nos a uma perversa perceção: afinal, tudo não é mais que uma história, um conto de fantasmas narrado pelo ancião de forma a assustar o seu público … o seu jovem público. Será esse “velho” Carpenter o incitador de pesadelos?