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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Sorrindo para a Morte, cuspindo-lhe na cara ... morrer como um ato egoísta?

Hugo Gomes, 03.08.24

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Os vivos não compreendem os moribundos

Hélène, uma mulher de 33 anos que sofre de uma rara doença pulmonar, “maleita” que lhe projetou uma vida de dias contabilizados. Essa aproximação para com a morte leva-a distanciar-se socialmente, seja de amigos, família e até mesmo do seu companheiro, sempre pronto a auxiliar-lhe os imediatos socorros. Sentindo-se cada vez mais isolada no seu apartamento em Luxemburgo, confidencia-se no painel de procura de um browser dicas de como lidar com essa morte que lhe chega a passos largos.

O primeiro resultado dá-lhe acesso a uma página motivacional com hurras viradas para os céus, com agradecimentos ao divino ou aceitações quase transcendentes da sua condição. Uma foleirice, pensou ela, partindo para um outro resultado, desta vez um blog de alguém sofredor de um cancro algures no intestino, os dias são-lhe igualmente restritos, cheios de dor, porém sem agradecimentos a entidades extra-terrenos, somente uma página de fotos várias, sem ligações umas com as outras, acompanhados por legenda irónica sob a assinatura de “Mister”. Hélène ficou fascinada pela personagem ali espelhada, uma figura que, mesmo com face voltada ao ceifeiro, brinca com a sua situação como uma piada mortal se tratasse. 

Até porque o humor, como defende o humorista Ricardo Araújo Pereira nas muitas badaladas e publicadas edições sobre essa sua tese / obsessão, resume-se a uma consciência da nossa própria mortalidade. Vista a ‘coisa’, aquele homem tem a perfeita noção de que vai morrer, e mais, sabe que a morte não trará qualquer redenção, não será branda, irreversível nem sequer um castigo de outros aléns, para Hélène é esse comportamento que procura, e não só … Em breves conversas via Skype, descobre “Mister” como um residente nas Fiordes noruegueses, pede-lhe refúgio, um outro cenário para o seu fim, e após um parecer positivo parte sem o seu marido, este opondo, porém só a resistência ficou-lhe. Morrer sozinha, abraçar o seu destino, ter essa ilusão de controlo. 

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Em “Plus que jamais”, a realizadora e argumentista Emily Atef percorre a dimensão performativa do corpo de Vicky Krieps, atriz que tem dado nas vistas desde a sua ‘revelação’ em “Phantom Tread” - sombreando o metódico Daniel Day-Lewis no seu anunciado derradeiro papel - possivelmente é através dela que nasce o filme, algo dorido reluzindo no seu olhar e movimentada sob a destreza do falecimento. É sobretudo um palco de atriz, estas Fiordes filmadas sem o único usos de drones (salienta-se o esforço na atualidade cada vez mais cedida à maquinização desse engenho), da sua entrega corporal, desde a mimetização de um terminio em forma humana até ao sexo, essa funcionando como uma agridoce despedida ao mundo dos mortais e a todos os laços que a vincam nesse domínio. Krieps passa a mensagem de Atef, que por outras mãos soaria a intenção priveligiada de priveligiados, tentando relegar sofrimentos a classes ou a agendas. Por outro lado, “Plus que Jamais” resolve-se arrojadamente como um anti-discurso motivacional ou de no oposto das crencices pró-vida, é morrer numa aceitação atroz, a vivência como uma passagem a ter na consciência. 

Recordamos aquela constatação de consultório em “Donnie Darko” (Richard Kelly, 2001), onde o homónimo protagonista aceita a solidão como o último abraço da vida (“Every living creature on Earth dies alone”). Aqui, é o último suspiro, funcionando como um conflito ao estabelecido numa sociedade ocidental, até porque pensamos demasiado na morte mas nunca em como lidar com ela, seja direta ou indiretamente. Coincidência cruel, este é o último de Gaspard Ulliel (1984 - 2022), aqui encenando o fiel à moribunda, o ator despede-se da tela numa procissão ao seu próprio destino, deixando Krieps induzida na sua adocicada fantasia mortal. Pois é, a vida é por vezes maldita, de um humor cerradamente escuro com direito à sua indigesta punchline.     

A tentação chamada Eva

Hugo Gomes, 13.06.18

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Se é bem verdade que a Benoît Jacquot atribuímos a força das suas propostas acima do resultado, que revela-se na maior parte das vezes passivo, para “Eva” implicaria uma maior agressividade, o que acaba por nunca acontecer, visto que o propósito deste conto de luxúria e fantasias de farsante é o fascínio.

E de onde vem esse fascínio? Na atriz, Isabelle Huppert, transformada numa persona acorrentada aos maneirismos reconhecidos da sua longa carreira, a mulher que o Cinema sonha e neste caso a fantasia sexual de qualquer homem empenhado. Da mesma forma que a personagem de Gaspard Ulliel absorve desta sua convivência com Huppert, a Eva do título para ser mais preciso (uma musa para a sua criação dramaturga somente planeada e projetada por vias de uma emotividade composta pelo tabu), Benoît Jacquot manipula o espectador a sentir a fenomenologia neste meta-enredo. Aliás, todos nós somos deslumbrados pela sua figura, até mesmo quando Huppert se torna somente Huppert, a mulher acima de qualquer homem.

Nesse sentido, o filme inteira-se nessa mesma “proeza” e o realizador revela-se esforçado em atribuir a todas estes “crimes e escapadelas” uma natureza psicológica, algures entre o desejo e a obsessão, eficazmente cedendo à falsa perspetiva masculina (nota-se aqui palco para a dominância "hupperteana"). Mas “Eva” [o filme] tende a ceder nas ideias esgotadas, assim encara o realizador perante o seu material, perdendo numa corrida contra ao tempo para o desfecho idealizado. Evidencia-se um desleixo técnico e narrativo nas proximidades do terceiro ato - deixando-se levar pela força do terceiro grau (o equivalente teatral) - o loop que nos guia à queda do protagonista em distorcido reflexo para com as primeiras cenas, a intro forçada no pecado do disfarce.

Desaproveitar-se o potencial da intriga, deixa-se à mercê o potencial da atriz Julia Roy (que trabalhou com maior afinco com Jacquot no anterior “À Jamais”) e desconeta-se a potência do desejo proposto. Assim, regressando ao primeiro ponto de partida, como manda a lei do terceiro grau, a proposta é sempre mais interessante que o todo. No final, caímos no universo teatral em jeito Almeida Garrett: “Quem é? Ninguém!

Tão Só o Fim do Mundo, os autores, as suas fraquezas, solipsismo e os seus egos

Hugo Gomes, 22.10.16

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A difícil arte de ser Xavier Dolan, as complicações geradas por ser aclamado em tenros anos e consecutivamente ao longo da sua, até então, imaculada carreira. Se por um lado, ouvimos constantemente citações de historiadores e outros especialistas cinematográficos de que um “autor, até a obra mais fraca é melhor que tantas de outros realizadores“ [a política dos autores, génese teorizada pelos Cahiers du Cinéma], por outro, através de reflexões sobre o sentimento vivido por este “Juste La Fin du Monde” ("Tão Só o Fim do Mundo"), um outro conselho surge ao meu alcance: “quando se gosta de um autor, somos os primeiros a admitir que ele errou“.

Porém, antes de começarem com as “pedradas“, questiono o seguinte, será correto considerar o ainda jovem franco-canadiano Xavier Dolan, num autor cinematográfico? Porque não!? Contudo, não é esta a derradeira questão aqui envolvida, aliás, muitos esperam que o nosso “cineastazito” prove de uma vez por todos que é digno desse título (sendo que em “Mommy” já havia provado que as aclamações precoces não foram um erro). Mas em “Juste la Fin du Monde”, a recente obra que ganhou mediatismo com os “surpreendentes” apupos na sessão de imprensa de Cannes, existe um claro tom de “auto-estima elevada“. Talvez tenha sido esta sensação de “triunfo antes do sabor” que causou o maior choque entre o então adorado Xavier Dolan e os críticos que apelidavam o seu novo trabalho como “desastre artístico“.

Adaptação de uma peça teatral de Jean-Luc Lagarde, “Juste La Fin du Monde” beneficia de um ambiente caótico de procrastinação, enquanto a intriga começa a ganhar forma, desenvolvendo para lado nenhum, dando a sensação de impotência e clara frustração ao espectador. Esta é a história de um escritor homossexual que vai encontro da sua família para anunciar a sua breve morte, visto que é um seropositivo de HIV. A respetiva família, que desconhecia o seu paradeiro e o estilo de vida levado a cabo pelo seu ente querido, tenta o receber da melhor forma possível, mas os assuntos inacabados, que o nosso protagonista deixou para trás, o confrontam.

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Sim, Xavier Dolan acerta na “mouche” quanto ao teor a ser invocado neste drama de complexidades familiares, mas o que não anteviu é que por vezes o cinema tem que desligar do palco teatral para assumir a sua vida emancipada. Resultado disso, evidentemente, é um esforço descomunal na caracterização dos seguintes personagens, inseridos num rótulo de morte anunciada, a outra é os desempenhos, prometedores mas “fogo de vista” face a uma claustrofobia descontrolada deste enredo de manutenção de relações afetivas.

Existem demasiadas pontas soltas aqui, obviamente que Dolan não irá resolver tendo em conta o respeito pela obra original, mas falta de extensão, do alinhamento, e da renegação com a artificialidade constrangedora com que tenta transformar drama de 2ª Arte para Sétima Arte, o leva para “becos sem saída” de criatividade intrínseca. Ao menos assumisse tudo como “teatro filmado” como Manoel de Oliveira sempre o fizera. Assim sendo, as personagens parecem “morrer” demasiado cedo, as atuações não se vingam perante tal voluntária barafunda (mesmo que Vincent Cassel, Gaspard Ulliel e Marion Cottilard mereçam destaque) e a técnica (fotografia, por exemplo) entra em conflito com o trabalho de escrita e de coordenação.

E assim chegamos a outra questão, será que a obra merecida dará a sua devida reavaliação, a revisão por novas audiências? Não nego, cheira-me a filme a ser valorizado daqui a uns valentes anos, mas também não é com esta “fruta podre” do cesto que nos vai fazer desligar do potencial de Dolan. Por isso, que venha esse “The Death and Life of John F. Donovan”, porque está provado que o fim do mundo não é matéria para o nosso realizador.

"Saint Laurent": desta vez o estilo é vingado!

Hugo Gomes, 26.11.14

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Já lá vão duas cinebiografias de Yves Saint Laurent! O génio da alta-costura, o eterno lutador pela beleza e a estética sensual. Se a primeira estreada este ano, o homónimo filme de Jalil Lespert com Pierre Niney no protagonismo, limitou-se a ser um esboço esquematizado e bem padronizado da vida da personalidade, o filme de Bertrand Bonello centra-se como um produto intimista do próprio YSL, ou seja, sobrevaloriza o seu estilo visual e de requinte narrativo.

Nesta nova perspetiva, Saint Laurent [o estilista] já é um nome incontornável da Moda. A sua natureza presunçosa e perfecionista leva-o a um trilho ascendente nas suas próprias criações, mas a sua fragilidade emocional impede-o de se converter num “anjo cujo Céu é o direito“. São os relacionamentos amorosos que o lançam para um dilema entre liberdade e conforto, os traumas passados que o assombram e a sua dependência com a droga, bebida e experiências que o transfiguram pouco a pouco, tudo elementos presentes nesta cinebiografia embebida com a personalidade do próprio Saint Laurent.

Nunca um desfile de moda foi tão bem encaixado no cinema. Bonello teve a feliz decisão de narrar sob constantes split-screens didáticos. O mesmo método narrativo é utilizado a certa altura como uma pertinente crítica silenciosa à burguesia envolta deste movimento “artístico”, onde são conjugados sequências de diversas coleções de YSL com alguns dos momentos mais marcantes a nível social desses mesmos anos. Todavia, não é apenas visualmente que Bonello dispõe o split-screen. Ele invoca-o a nível narrativo,  ignorando qualquer gesto de esquematização, apenas sublinhado, não só a história de vida do estilista, mas a sua natureza, alma e “santificação”.

Obviamente o resultado desta biopic não seria possível se o protagonista não o auxilia-se. Gaspard Ulliel, que fracassou em 2007 ao vestir a pele de Hannibal Lecter, é explícito no seu trabalho, não apenas de interpretação mas de prestar uma densidade emocional e dramática à figura que representa. E mesmo que o seu mundo ilustrado ceda demasiada vezes à figuração. Saint Laurent [desta vez o filme] preza pelo triunfo em fugir do convencionalmente formatado biopic e tal como as anteriores obras de Bonello, é eficaz em transmitir a sexualidade com tamanha naturalidade para com o seu quotidiano. Assim sim!