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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Corpo de Celeste e sem Alma de Sorrentino

Hugo Gomes, 20.02.25

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O que gosta numa mulher? 

As costas, o resto é pornografia

Seguindo as suas artimanhas visio-sonoras, Paolo Sorrentino mapeia o corpo escultural de Celeste Dalla Porta como se fosse a geografia de uma cidade — precisamente a sua cidade-berço, à beira-mar. O mar, esse, inevitável primeiro contacto com a vida e também com a morte, condensando-se na tragédia desta jovem mulher, de frases prontas, mas cujos seus silêncios a deter uma outra dimensão.

Parthenope, nome que partilha com o antigo batismo de Nápoles, é um símbolo desse povo, sobre o qual recai a incumbência de carregar uma tristeza entranhada e corrosiva — um quê de existencialismo, outro de bovarismo, sem certezas absolutas, talvez na busca de um tempo perdido. Aquele em que a sua carruagem, oferenda de um oligarca que a "moça" apadrinhou, representava o seu idealizado mundo, luminoso e, sobretudo, belo. A beleza — a sua arte, a sua estratégia, o seu mistério, a sua tão proclamada "grande beleza" — numa tentativa de “matar dois coelhos numa cajadada só”: a demanda pelo que a vida ainda guarda a sete chaves e a réplica estética com que Sorrentino cita e recita o seu próprio êxito.

A "pilhagem", diria Pedro Mexia sempre que tivesse oportunidade de destilar o seu ódio sorrentiniano, muitos o seguirão nesse fel, sem dúvida, mas aqui não há saque aos tesouros alheios, apenas a exibição das velhas pratas da casa. Sorrentino conhece a lição de cor: os tons fellinianos, o circo montado, a alienação burguesa levada ao extremo. Não desbrava caminho nem sobe um degrau, apenas recolhe os restos da juventude de que tanto se queixa ter perdido.

Nápoles, sim, o canto onde Celeste "Diva" Portadiva ou divina, como quiserem — se entrega ao mistério, à fantasia e, sobretudo, ao líbido implantado nos homens ressabiados. Um simples toque traz consequências — a mão de Deus ou a fatalidade da ardência que desperta nos outros. E é dessa pulsão que nasce um enredo desfigurado, desorientado, cansado no seu misticismo pasoliniano de terceira rodagem.

Sorrentino é capaz de notas mais altas. Fala aqui um dos poucos defensores de “La Grande Bellezza" neste meio, até porque de Fellini se conhece e se vê retratado num distanciamento possível, mas em “Parthenope”, mesmo que por vias de sketches, concentra-se numa exatidão identificável: "Para onde vão as conversas das noites de bebedeira?", chora Gary Oldman, e choramos também nós ao perceber que o tempo não retrocede, não se entrega de mansinho, não nos estende a mão para uma segunda oportunidade — seja qual for — e que o ideal que projetamos de nós mesmos nunca se cumpre.

Cairá quem quiser. Talvez porque Sorrentino seja um homem de desejos masculinos e frustrações à medida, e porque aqueles que partilham essas inquietações se reveem nas suas dores, mesmo quando debitadas por uma protagonista — donna com título inquirido e olhos tristes a condizer. Um exibicionista ensaio com vida lá dentro — a vida maquilhada de Sorrentino —, mesmo que o velcro seja de uma pobreza franciscana perante a aristocracia das suas imagens. E já agora, Nápoles… viva Nápoles!

Nem tudo são rosas ...

Hugo Gomes, 19.10.19

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Na Netflix, nem tudo é originalidade e primor! Numa só semana contamos com o lançamento de dois graus de “obras falhadas”, de um lado Wounds, da suposta revelação Babak Anvari, terror sob contornos lovecraftianos que produz um clima de mistério para depois lançar-se “às urtigas” e com ele levando Armie Hammer e Dakota Johnson (possivelmente das piores atrizes da atualidade) ao abismo. Do outro canto, possivelmente a mais alarmante, The Laundromat, o prolifero Steven Soderbergh na denúncia dos Panamá Papers, num objeto sabichão ou diria antes “chico-esperto”, a replicar as tendências da economia para totós de Adam McKay e apresentar a pior das Meryl Streeps. Armado em Robin dos Bosques versão caviar.

Que venham mas é esse Marriage Story e o tão badalado The Irishman, do “verdadeiro” Scorsese, porque a Netflix precisa urgentemente de Cinema nos seus cantos próprios.

 

Se isto é comédia ...

Hugo Gomes, 24.08.17

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As comédias norte-americanas continuam as mesmas, persistindo em characters type de alguns atores, muitos deles reduzidos a caricaturas, ou a resistências do datados estereótipos, quer geográficos, raciais ou de género.

“The Hitman’s Bodyguard”, possivelmente uma das bem sucedidas deste verão, é a rotina deste catálogo que acompanha gerações, gerações e gerações de espectadores. A esta altura o leitor questiona se o filme em si é merecedor desta revolta, ou se apresenta uma qualidade vergonhosamente descarada. Podemos afirmar que não se trata do pior do ano, nem a “coisa” mais ofensiva dos últimos anos, mas não há motivos para descanso, trata-se de um retrocesso considerar isto entretenimento.

Se a nova direção de Patrick Hughes (“The Expendables 3”) funciona quando Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds são deixados à sua mercê ao velho estilo buddy movie, o resto … bem, o resto, é uma coletânea de lugares comuns e de miopia por parte dos envolvidos. Vamos por partes: Gary Oldman é o vilão (who else?), fingindo ser um russo… peço desculpa … bielorrusso, porque antagonismo tem origem no leste, segundo a crença yankee; O português Joaquim De Almeida vem sabe-se lá donde e o espectador conhece automaticamente a sua vilania, devido a esse character type e Salma Hayek é a louca mexicana.

Umas piadas previsíveis ali com júbilos geográficos e fart jokes à mistura, a violência R que parece ter virado moda com “Deadpool” (tudo se resume a tendências), umas questionáveis lições de justiça e maniqueísmo (até Tarantino consegue ser mais ambíguo) e Samuel L. Jackson a demonstrar que continua o melhor a vestir a pele de Samuel L. Jackson.

Isto é comédia para alguns, entretenimento para outros, mas no fundo é a mesma jogada de sempre. Hollywood parece não ter aprendido nada ao fim destes anos todos, nem com as mudanças que testemunha.

O Senhor da 'Macacada'

Hugo Gomes, 21.07.14

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Um blockbuster inteligente? Parece heresia esta afirmação principalmente para os mais puristas cinéfilos, mas a verdade é que esta “sequela de uma prequela /reboot, respetivamente vindo de um “remake” de um clássico que por sua vez é uma adaptação de um célebre e provocante livro de Pierre Boulle” (mais “tempestades” que “ventos favoráveis” neste título), é uma obra que reserva alguma astúcia e uma caminhada leve a muitas das questões que assombram atualmente a Humanidade (não, não é ironia). Existe nesta revolta animal uma análise ligeiramente “trocada por miúdos” de como estruturalmente funciona um regime ditatorial (frases como “eles seguem-no porque têm medo” invoca essa mesma ideia nas audiências mais despreocupadas do verão) e o constante darwinismo ético e moral, que evidencia um distanciamento dos primatas da sua natureza e a aproximação da sua comunidade às similaridades da civilização humana e das bases de que foram erguidas.

São ideias e temáticas que Boulle havia invocado na sua obra e que Franklin J. Schaffner “beliscou” sob moldes clássicos no filme de 1968, aquele que foi considerado o início de um dos primeiros grandes franchisings do cinema. Nesta versão tecnologicamente irrepreensível, somos ditados por um conjunto de fórmulas e modelos narrativos, vistos e revistos, mas que funcionam naturalmente compatíveis neste génesis do fim do Mundo alternativo, é por isso que em o “Dawn of the Planet of the Apes” não esperem nada de novo no campo do cinema mainstream. Ao invés disso, contemplam jogadas brilhantemente orquestradas e arriscadas da produção.

Entre esses riscos encontramos um protagonismo irrecusável dos primatas, cujo primeiro ato é envolvente em prol destes, esboçando a sua comunidade, relações e partilha de visões, tudo elaborado por uma linguagem perceptível, mesmo sem as legendas que complementam os seus dialetos gestuais. Caesar, o chimpanzé dominante encarnado por Andy Serkis (por via da tecnologia motion capture), é visto e limado como um líder idealista, conservador da paz e perseverante na força conjunta dos primatas. Os traços convergentes da criatura tecnológica com outras fortes personalidades históricas e bíblicas não são um disparate. Existe algo de Lenine em Caesar, mas também de Moisés, tal como no anterior.

Ou seja, este é um mundo onde literalmente e analiticamente, os “macacos” são os reis, os condutores de toda a intriga que tal como a anterior obra de Rupert Wyatt, a muito bem-sucedida Origem, não apressa à ação nem o clímax, construindo um verdadeiro drama humano nas ditas criaturas. E tal como seu antecessor, são as personagens humanas que apresentam fragilidade e pouca interatividade com o próprio espectador, mesmo que Gary Oldman seja sempre um secundário de primeira classe. O “Dawn of the Planet of the Apes” é um entretenimento de “grau prata”, que evoca inteligência (voltando à questão inicial) e uma certa memória cinematográfica que se faz deslumbrar com uma qualidade técnica invejável (é um forte candidato à estatueta de Melhores Efeitos Visuais, vistos que as criaturas tecnológicas parecem realmente “bestas” de carne e osso). As verdades devem ser ditas e vale a pena espreitar o “amanhecer” de um imaginário que de tão alusivo tem com a matriz a Humanidade.