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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Fio de Baba Azul-Fluorescente

Hugo Gomes, 02.09.25

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Gabriel Mascaro, de volta às distopias reais, aprendeu com "Divino Amor" a interligar-se com a actualidade brasileira sem recorrer ao descaramento do confronto directo ou ao panfletarismo que, por vezes, o cinema de guerrilha parece contrair contra si próprio. Em "O Último Azul", o idadismo soa a verdade em tempos em que os anciãos se tornam prisioneiros, tutorados ou transportados sem guia para a "Colónia": um “não-lugar” de onde, segundo a narrativa, ninguém regressa.

Mais do que comentário sobre uma sociedade moderna que falha em garantir segurança aos seus cidadãos mais duradouros, trata-se de gesto político: apanhar pedaços de história num país que ambiciona recontá-la. Em tempos de Covid-19, entre as várias teorias conspirativas que circulavam, uma acusava o vírus de ser um  agente politizado para “assassinar” velhotes, os guardiões de histórias que poucos queriam ouvir: lutas revolucionárias ou chaves-mestras contra fascismos, talvez. A conspiração é panela de pressão entregue ao “deus-dará”; mas também é certo que nasce sempre com carácter político, apontando a distopia como centro obsessivo.

Por um lado, "O Último Azul" parece materializar tais teorias na sua reconstrução, nessa crítica prolongada pela elipse que o filme sustenta. É a fuga da anciã (Denise Weinberg) que, após cumprir 70 anos, passa a ser perseguida por todas as forças governamentais, condenada ao destino imposto aos outros como lei da vida. Mas Tereza, o nome da personagem, despreza o "cata-velhos" (transporte de detenção, não mais que uma jaula ambulante) e nutre um desejo maior do mundo para compensar a vida esmagada pelo ditatorial sistema capitalista: trabalhar sem fim, sem recompensa, sem direito às mais puras fantasias (no seu caso, apenas voar de avião). Despedida por causa da idade, fica sob tutela da filha, ameaçada pela sombra da tal “Colónia”. Mas essa não é vida. Foge, paga um barqueiro que a leva rio Amazonas abaixo, diante de selva irreconhecível, mágica, quase fantástica. 

"O Último Azul" ganha sabor no seu realismo mágico, quase arrancado aos cânones literários (como Gabriel García Márquez), ainda hoje em força na literatura centro e sul-americana. Contudo, a viagem carece de conflito, de consequência; a atmosfera instala-se pesada sobre a estrutura. Mascaro não força a distopia, embeleza-a de alguma maneira (do trabalho de fotografia de Guillermo Garza, acompanhado pelos toques retros-musicais de Memo Guerra): alonga-a como movimento líquido, com um pé na água e outro no terreno da contemporaneidade. Porque este país não é para velhos … só que não! Tereza vai contrariar. Viver sem idade e com igual honra, olhos tingidos pela baba azul do caracol raro, conduzindo a tempos e vontades diluídos, e a sorte grande nas escamas de peixes beta. 

É um filme sensorial, talvez (desde o boi pintado no seu “Boi Neon” que o realizador ganhou o gosto). Codificado, porém. Mas envolvido no seu próprio retrato. Fiquemos assim.

Arranca o Close-Up, Observatório de Cinema em Vila Nova de Famalicão

Hugo Gomes, 16.10.16

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Steamboat Bill, Jr. (Charles Reisner & Buster Keaton, 1928)

Vila Nova de Famalicão será, durante os próximos quatro dias, o derradeiro Observatório de Cinema, o Close-Up, para ser mais exato. E é já a partir de amanhã (27 de outubro), que esta iniciativa projetada pelo Cineclube de Joane, arrancará com uma impressionante programação de filmes e eventos paralelos, que ligam o passado, presente e futuro do Cinema. Reflexões sobre a Sétima Arte, os primórdios em jeito de arqueologia, assim como os caminhos a seguir ou previsivelmente a instalar-se, muitos convidados e uma mostra selecionada de filmes, com principal ênfase às produções nacionais, dividido em oito sessões temáticas, preencherão a Casa das Artes da cidade.

Temos como principal destaque o ciclo “Noite e Nevoeiro – 70 anos de Imagens do Holocausto“, que tal como o título focará sobretudo no registo cinematográfico e documental dos horrores cometidos na Segunda Guerra Mundial. Inserido na sessão Paisagens Temáticas, neste espaço serão exibidos filmes, que vão desde o recente e premiado “Saul Fia”, de László Nemes, sobre um prisioneiro de Auschwitz que reencontra a sua Humanidade até ao mais novo trabalho de Sérgio Tréfaut, “Treblinka”, um testemunho materializado daqueles que partiram contra em comboios cujos destinos são impensáveis. Passando pelo biográfico “Hannah Arendt”, de Margarethe Von Trotta, sobre a mulher por detrás dos pensamentos da Banalidade do Mal, até chegar, por fim, ao documentário “The Decent One”, de Vanessa Lapa, que retrata a vida de Heinrich Himmler, o mentor da chamada “Solução Final”, o extermínio dos judeus. Elena Piatok, diretora do Judaica: Festival de Cinema e Cultura, e a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves, serão as oradoras.

Em “Fantasia Lusitana “, espera-nos sete filmes que no seu todo formam um quadro, quer etnográfico, quer artístico de um país. É uma seleção de documentários nacionais sobre pessoas, animais, lugares e estados, escolhidos a dedo e interligados de alguma forma. Destaca-se as exibições do filme-testamento de Manoel de Oliveira, “Visita ou Memórias e Confissões”, seguido pela homenagem de João Botelho ao “mestre” em “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”.

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Saul Fia (László Nemes, 2015)

Dois dos mais venerados autores japoneses, Yasujiro Ozu e Isao Takahata, serão analisados e reavaliados nesta edição de Histórias de Cinema. De um lado, o dramático e emocionalmente expoente Ozu, um realizador marcado pela sua maneira inconfundível de filmar, planificar e dirigir os seus atores sobre um conjunto de falsos raccords. E do outro “canto”, Takahata, um dos mestres da animação nipónica, que poderá não ter gozado da mesma aclamação que o seu colega Hayao Miyazaki desfrutou, mas que mesmo assim, se apresenta como o criador de algumas das mais emotivas obras da Ghibli Studios. Animação e ação real, duas dimensões entrepostas neste olhar pelo cinema japonês.

Um dos mais ascendentes cineastas brasileiros da atualidade será homenageado no Close-Up. Serão cinco, as obras exibidas nesta secção Cinema do Mundo, dedicada ao “outro Brasil” de Gabriel Mascaro. Nesta retrospetiva poderemos encontrar os muito aclamados “Ventos de Agosto”, um atípico romance de verão, e o recente Boi Neon, que nos leva ao outro lado dos rodeos brasileiros sob uma confrontação com a própria ode da masculinidade.

O resto da programação será constituída por sessões direcionadas para escolas, com foco principal no tema da juventude. Vale a pena salientar que a primeira longa-metragem de Andrei Tarkovsky, "Ivan 's Childhood”, encontra-se integrada no programa. Para além disso, está agendado uma Oficina de Animação dedicada aos mais novos. Close-Up ainda exibirá uma sessão especial de O Ornitólogo”, a quinta longa de João Pedro Rodrigues que remete o espectador a uma viagem esotérica de um observador de pássaros, perdido nas encostas do Douro.

Por fim, como sessão de abertura, temos um “double bill” constituído pelo filme-concerto “Steamboat Bill, Jr”., um dos grandes clássicos do “rei do slapstickBuster Keaton, será transformado sob a vertente musical de Bruno Pernadas. E “Cinco para Kiarostami”, o filme-homenagem a Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano que infelizmente nos deixou recentemente, uma produção da Casa das Artes e do Cineclube de Joane, com direção de Vítor Ribeiro e Mário Macedo.

Néon é o novo negro ...

Hugo Gomes, 23.04.16

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Boi Neon tem diversas vezes a noção de que a beleza pode ser fabricada mesmo sobre chapa zinco. Tal como é possível assistir a certo momento nesta obra de Gabriel Mascaro, um boi pintado sobre cores neons, conseguindo-se tornar-se no ponto alto de um rodeo decadente. Ou seja, o belo pode ser procurado e interpolado nos mais inóspitos cenários, mesmo quando o conto em si, beleza real nada traz. Tal como Domésticas, o anterior trabalho de Mascaro, o foco é novamente a "mão-de-obra", indivíduos sujeitos ao bem-estar dos outros, completando serviços que ninguém sonha ter como um derradeiro destino.

As donas de casa são substituídas pelos "Reis do Gado", e por detrás dessa luxuosa visão de paisagens verdejantes e bovinos ruminando calmamente, existe um mundo algures entre a "podridão" e a escravatura do novo século. Porém, Boi Neon é mais que um alerta político-social, longe do filme-denúncia de teor propagandista, é um ensaio da natureza intrínseca da masculinidade, e como esta pode ser invertida num mundo onde os homens preocupam com as futilidades do seu aspeto e com os sonhos mantidos de estilismos e outros acessórios associados ao feminino. Nesse mesmo universo, mantido com algum humor screewball e mordaz, as mulheres são seres dominantes, ativas que fazem dos homens meros objetos de prazer sexual, ou serventes de manda, como gado que estará aí por nascer. 

É um exotismo não visto num Brasil fora do mercado das novelas e de muitas favela movies que contamina indústrias cinematográficas com um realismo modelizado para com o que convém. Este é o Brasil desconhecido, inóspito de elegância, cuja beleza está presente a quem procura e Boi Neon é o filme certo para "entrar" nessa honestidade estética, a "belezura" de papelão, tingida e infringida de maneira crua e suja. Um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, sem medo para transgredir o politicamente correto, ou por outras palavras, o conservacionismo.