O Fio de Baba Azul-Fluorescente

Gabriel Mascaro, de volta às distopias reais, aprendeu com "Divino Amor" a interligar-se com a actualidade brasileira sem recorrer ao descaramento do confronto directo ou ao panfletarismo que, por vezes, o cinema de guerrilha parece contrair contra si próprio. Em "O Último Azul", o idadismo soa a verdade em tempos em que os anciãos se tornam prisioneiros, tutorados ou transportados sem guia para a "Colónia": um “não-lugar” de onde, segundo a narrativa, ninguém regressa.
Mais do que comentário sobre uma sociedade moderna que falha em garantir segurança aos seus cidadãos mais duradouros, trata-se de gesto político: apanhar pedaços de história num país que ambiciona recontá-la. Em tempos de Covid-19, entre as várias teorias conspirativas que circulavam, uma acusava o vírus de ser um agente politizado para “assassinar” velhotes, os guardiões de histórias que poucos queriam ouvir: lutas revolucionárias ou chaves-mestras contra fascismos, talvez. A conspiração é panela de pressão entregue ao “deus-dará”; mas também é certo que nasce sempre com carácter político, apontando a distopia como centro obsessivo.
Por um lado, "O Último Azul" parece materializar tais teorias na sua reconstrução, nessa crítica prolongada pela elipse que o filme sustenta. É a fuga da anciã (Denise Weinberg) que, após cumprir 70 anos, passa a ser perseguida por todas as forças governamentais, condenada ao destino imposto aos outros como lei da vida. Mas Tereza, o nome da personagem, despreza o "cata-velhos" (transporte de detenção, não mais que uma jaula ambulante) e nutre um desejo maior do mundo para compensar a vida esmagada pelo ditatorial sistema capitalista: trabalhar sem fim, sem recompensa, sem direito às mais puras fantasias (no seu caso, apenas voar de avião). Despedida por causa da idade, fica sob tutela da filha, ameaçada pela sombra da tal “Colónia”. Mas essa não é vida. Foge, paga um barqueiro que a leva rio Amazonas abaixo, diante de selva irreconhecível, mágica, quase fantástica.
"O Último Azul" ganha sabor no seu realismo mágico, quase arrancado aos cânones literários (como Gabriel García Márquez), ainda hoje em força na literatura centro e sul-americana. Contudo, a viagem carece de conflito, de consequência; a atmosfera instala-se pesada sobre a estrutura. Mascaro não força a distopia, embeleza-a de alguma maneira (do trabalho de fotografia de Guillermo Garza, acompanhado pelos toques retros-musicais de Memo Guerra): alonga-a como movimento líquido, com um pé na água e outro no terreno da contemporaneidade. Porque este país não é para velhos … só que não! Tereza vai contrariar. Viver sem idade e com igual honra, olhos tingidos pela baba azul do caracol raro, conduzindo a tempos e vontades diluídos, e a sorte grande nas escamas de peixes beta.
É um filme sensorial, talvez (desde o boi pintado no seu “Boi Neon” que o realizador ganhou o gosto). Codificado, porém. Mas envolvido no seu próprio retrato. Fiquemos assim.


