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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"A Semente do Mal": entre manos e manias, é tudo família ...

Hugo Gomes, 16.09.23

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Parece novela, mas dois gémeos se encontram passados 30 anos, separados devido a circunstâncias misteriosas. Edward (Carloto Cotta) parte de Nova Iorque à descoberta do que resta da sua família, possível graças a um teste de DNA oferecido pela sua namorada, Riley (Brigette Lindy-Paine), cujo resultado o conduz para Portugal, mais precisamente para um casarão 'perdido' no meio da floresta transmontana, onde reside o seu “perdido” irmão (novamente Cotta) e a sua desfigurada mãe (Alba Baptista / Anabela Moreira). Um reencontro há muito esperado que desvendará alguns segredos macabros e perversos.

Ora, como é possível verificar, é Carloto Cotta a dobrar num prometido regresso de Gabriel Abrantes à longa-metragem (cinco anos depois de “Diamantino”), resultando numa produção competentíssima, aliás, das mais universalmente competentes no que se refere às nossas 'aventuras' pelo género... isto, falando num senso comum de mercado. E é aí que “A Semente do Mal” (“Amelia’s Children” para os ‘amigos’ gringos) mais falha, o de não conseguir prosseguir enquanto exercício personalizado, visto que é o nome Gabriel Abrantes a surgir nos créditos. É Abrantes, sim, como poderia ser outro qualquer 'sujeito' e o resultado seria o mesmo: num profissionalismo embrulhado em semiótica reconhecível e pior que isso... algo que não perdoo nesta “altura do campeonato”... o uso fácil dos jumpscares, isso, ao invés da aposta atmosférica (sendo o material frutífero para tal e muito mais). Onde se nota o cobiçado 'toque-abrantes' em todo este cenário é na tecnologia enquanto alavanca narrativa, neste caso o mecanismo e a respetiva aplicação de DNA, a possibilidade e a impossibilidade unidas em futurismos como mandou parte do cinema do realizador (aqui menos delirante e mais propenso a montar um filme de terror seguindo as instruções de um manual).

Talvez esteja a ser injusto, ou até incapaz de gerir desilusão perante uma pintura assinada por Gabriel Abrantes. Este "cruzamento" entre "Suspiria" (o último ato leva-nos a esse território) e "X" de Ti West vai agradar 'gente', mas é um caso “Rabo de Peixe” da Netflix, não detém expressão, simplesmente confunde-se com o habitual.

Estátuas, tamboris, robôs e hipopótamos: Gabriel Abrantes demonstra a sua criatividade em Quatro Contos

Hugo Gomes, 29.10.20

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Estreia nas nossas salas um quarteto de curtas-metragens que melhor sintetizam um realizador em rápida ascensão nos quadros portugueses: “Quatro Contos de Gabriel Abrantes”. Jovem, prolífero, criativo e ao seu jeito provocador, para os mais desatentos foi o responsável (em conjunto com Daniel Schmidt) de uma comédia tresloucada que se passou por sátira a uma das figuras incontornáveis da contemporaneidade portuguesa – Cristiano Ronaldo.

Nesta coletânea de contos, como indica o título, somos levados pelos devaneios do nosso inconsciente com tamboris à mistura em “Freud Und Friends”, seguido pelo resumo histórico que levou à criação de uma enigmática escultura de Constantin Brancusi em “A Brief History of Princess X” e terminando com os dilemas amorosos de um robô (“Humores Artificiais”) e da evasão de uma estátua “banal” no algoritmo dos coletes amarelos (“Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”). São enredos excêntricos, trabalhados lado a lado com os seus encantos visuais, traduzindo numa estética que em muito o Cinema Português não está, interiormente, preparado.

Gabriel Abrantes falou sobre o projeto e cada uma das suas “estações”, de forma a decifrar um sentido único no seu cinema.

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Uma Breve História da Princesa X (2016)

Sabendo que Gabriel Abrantes já frequenta estes cantos cinematográficos há algum tempo, foi com “Diamantino” e o prémio da Semana da Crítica que o despertou atenção num público mais desatento. Com isto deparamos com uma seleção de quatro curtas suas, algumas delas igualmente premiadas em festivais. Fez parte desta escolha de trabalhos seus? Se sim, como procedeu à seleção e a sua imposição orgânica de forma a criar uma obra única e plena?

Queria programar uma sessão das minhas curtas mais recentes, uma delas, feita a seguir ao “Diamantino”, e que fazem parte do mesmo universo do “Diamantino”, no sentido que são filmes que misturam o cinema de género com um humor absurdo, histórias por vezes delirantes e fantásticas mas que falam das realidades de hoje. Se existe um fio condutor na sessão, é o humor e o amor, que são temas que permeiam todas as curtas.

“Freud Und Friends” havia anteriormente integrado um filme coletivo, uma espécie de “cadáver esquisito”, se bem me lembro, foi uma proposta do Indielisboa (“Aqui, em Lisboa – Episódios da Vida de Uma Cidade”, juntamente com Denis Côté, Dominga Sotomayor e Marie Losier). Neste caso, o seu contributo emancipou-se do conjunto e encontrou nova vida noutro “mosaico”.

É verdade! Gostei muito de participar no projeto ‘Aqui, em Lisboa’, e estou muito grato ao IndieLisboa por me ter convidado na altura. Gosto que os espectadores agora tenham a oportunidade de ver o “Freud Und Friends” neste contexto, rodeado de outros filmes meus. Acho que o filme ganhou alguns sentidos bem diferentes agora que está contextualizado com outras curtas minhas.

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Freud und Friends (2015)

Há um delírio pecaminoso em “Freud Und Friends” e mais que isso, um deboche aportuguesado dos nossos “brandos costumes” (falo obviamente daquele intervalo através de um pseudo-filme de um pseudo-Woody Allen e uma Lisboa sob perspetiva “”gringa”).

Freud Und Friends” é um exercício de auto derisão, e o trailer paródico para um filme do Woody Allen e goza com o Woody Allen e a forma que este fez vários filmes que funcionam como obras de propaganda para o ministério de turismo de diferentes cidades europeias.

Chegando a “A Brief History of Princess X”, o que fez interessar pela escultura de Constantin Brancusi [Princess X], desde a sua história e o absurdismo o qual a mergulha?

A Princesa X é uma escultura muito particular, porque é uma obra que representa, no modo da abstração, uma forma fálica, e parece uma piada infantil ou boçal, mas que foi feita por Constantin Brancusi, um escultor modernista, um dos inventores do abstracionismo, e escultor que enaltecia o seu trabalho a um patamar místico quase religioso. Essa contradição entre a piada infantil e a escultura mística atraiu-me a pesquisar esta obra, e daí descobri a inspiradora história de Princesa Marie Bonaparte, uma das figuras mais importantes da história da psicanálise. Depois de mergulhar um pouco nessa pesquisa quis fazer um filme que retratasse a escultura e a Princesa Bonaparte.

“Os Humores Artificiais” é um filme que vem demonstrar com exatidão um dos seus reconhecíveis gestos, o trabalho visual e as suas derivações de efeitos especiais que se integram nestas mirabolantes narrativas. Gostaria que me falasse dos efeitos visuais e a importância destes nos seus filmes?

Sempre gostei de efeitos visuais, os mundos fantásticos criados pelos efeitos visuais é uma das coisas que mais me seduz no cinema. Cada vez gosto mais de trabalhar com efeitos especiais. Procuro fazer filmes que misturam um lado fantástico com temas atuais da nossa realidade contemporânea, e os efeitos especiais facilitam essa mistura. Trabalho com a IrmaLucia, uma empresa especializada em VFX, e muito do meu trabalho seria impossível sem os talentos deste atelier.

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Humores Artificais (2016)

É possível que “Humores Artificiais" seja um dos seus trabalhos lineares e ao mesmo tempo complexos. Esta oposição de humor / amor leva-nos a refletir a duas (assim cremos) impossibilidades para a vida artificial, no entanto, o Gabriel Abrantes dá esperança aos robôs em ambas virtudes.

Estou muito interessado nos mais recentes desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, e este filme partiu desse interesse. Existem realmente alguns pesquisadores que estão a tentar criar ‘robôs de stand-up’ e o filme partiu dessas inspirações.

Na “As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”, somos confrontados com a curiosidade mórbida duma “banal” estátua do museu do Louvre, que mesmo reduzida à sua frustração existencial, consegue à sua maneira instalar uma “revolução”. A revolução parte de gestos “vulgares” que involuntariamente tornam-se gloriosos?

A Menina de Pedra é uma escultura naïf, e na sua naiveté consegue ter fé no impossível, e talvez essa ingenuidade pode ser uma raiz do espírito revolucionário. O filme é inspirado num conto de Hans Christian Andersen, ‘O Pinheirinho’, sobre um jovem pinheiro, que sonha um dia ser uma árvore de natal. É igualmente sobre um ser naïf, que deseja ser algo que não deveria ser. O filme pega nesse tema e adapta-o ao conflito entre ‘arte’ e ‘política’.

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As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra / Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (2019)

Como artista visual, gostaria que me falasse sobre as prolongações de “Humores Artificiais" e “As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”, que cada uma à sua maneira serviu de instalações artísticas.

Muitos dos meus filmes foram exibidos de diversas formas, em cinemas, festivais e museus. Gosto muito de poder mostrar os filmes em diversos contextos, e acho que servem públicos diferentes, e a experiência do filme é diferente.

Quanto a novos projetos? O veremos aventurar em uma nova longa-metragem?

Estou em pré-produção da minha próxima longa-metragem, um filme de terror passado em Trás-os-Montes.

Sósia de Ronaldo produziu um “objeto estranho”

Hugo Gomes, 20.05.18

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Coloquemos em “pratos limpos” os reais motivos da primeira longa-metragem de Gabriel Abrantes (em parceria com Daniel Schmidt), existir: por debaixo das caricaturas de Ronaldo e do humor deslocado e desvairado, "Diamantino" tende em seguir uma sátira ácida aos movimentos populistas e nacionalistas que tem crescido por toda a Europa (e não só … Portugal não tem sido exceção).

Nesta feita, partimos para um país imaginário num futuro alternativo e não pouco distante da nossa previsão, para encontrarmos o homónimo Diamantino, o maior craque do futebol, um exemplar perfeito do mundo desportivo. O Midas, assim por dizer, perde o seu dom repentinamente, em paralelo com a morte do seu “querido” pai. O protagonista, sem o intelecto necessário para perceber a sua situação, entra num vórtice existencialista e tenta preencher os vazios com atos humanitários, entre os quais adotar uma criança “refugiada” (sem ele saber que é uma agente infiltrada do Interpol) e integrar a campanha de um Partido Político Renovador (que na verdade esconde uma agenda de supremacia nacionalista).

Carloto Cotta, ator habituado a aventuras foras dos habituais contextos do cinema português (como as obras de Miguel Gomes e o esquecido "Paixão", de Margarida Gil), veste com genica este suposto heterónimo de Cristiano Ronaldo, invertendo alguns maneirismos e distorcendo o seu biotipo (as suas irmãs “malvadas”, interpretadas pelas gémeas Anabela e Margarida Moreira), sem nunca se afastar da proposta caricatural.

Obviamente que essas similaridades são chamarizes para que o espectador embarque na corrente da crítica social e política desta rábula de humor direcionado que dispara com jovialidade e encanto de um visual over-the-top. Aliás, é na sua estética (e digamos, um trabalho astuto no campo dos efeitos visuais), o qual Gabriel Abrantes trabalhou para o conceber na sua jornada pelo universo das curtas-metragens [ver com especial atenção “Humores Artificiais” e o segmento “Freud and Friends” do coletivo “Aqui em Lisboa”], que “Diamantino” parece ganhar um propósito na história do nosso cinema. Um fruto, há muito esperado, diga-se de passagem, das novas gerações e dos olhares (longe de um suposto niilismo) frescos quanto à posição da nossa “indústria” para com o país e com o Mundo.

Se há motivos de celebração, “Diamantino” está longe de ser um exercício perfeito. A ausência de dinamismo na sua concepção e da farsa, que tende em dissipar-se no decorrer da narrativa, tornam-no um objeto frágil como um castelo de cartas. Mas face a estas marés “velhacas” da arte do "storytelling", o filme de Abrantes e Schmidt é um autêntico OVNI que promete, sobretudo, futuras reavaliações.

Há muito tempo que não se via um filme português assim … tão … estranho!