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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Nada se perde com Christian Petzold, tudo se transforma

Hugo Gomes, 25.04.21

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Se me deixares, tenho te matar”, diz Undine Wibeau (Paula Beer), de forma desesperada, nunca deixando cair a sua aparência calculada e resistente, frente ao homem que amou (ou até cuja paixão continua a nutrir) a momentos deste abandoná-la. Contudo, o aviso / ameaça foi em vão, o jovem galopante desaparece deixando a nossa protagonista num tormento.

Historiadora e guia de ocasião, Undine instrui a turistas, estrangeiros ou meros curiosos, sobre a natureza arquitetónica da cidade de Berlim, referindo-se às suas mudanças no percurso da História assim como a sua génese, um pântano segundo as suas palavras. Acompanhamos o didatismo pregado em cumplicidade com as maquetas, automaticamente materializando em geografias reais. Aliás, é nesta transposição – da representação pelo “real” – que somos guiados aos propósitos deste “Undine”, o novo filme de Christian Petzold (um dos nomes maiores do cinema alemão contemporâneo), que após um “divórcio” com a sua musa Nina Hoss, navega por outras águas, ao encontro de novos marinheiros (Franz Rogowski) e de novas ondinas (Beer).

Depois de “Transit” (2018), a dupla serve de apoio a esta extração em tom fílmico (e fabulista), do corpo (a sua fisicalidade) a uma ideia, a uma imagem e a um mito, a fonte mineira deste romance hiperbólico, como o leitor pôde constatar na ameaça deixada no primeiro parágrafo do texto. Como todos os amantes, ou aspirante a estes, existe uma permanente sensação de pioneiros no comum dos territórios (“Porque que é que os amantes sempre pensam que estão a inventar o romance?“, ouvido, citado e traduzido em o “Portrait de la jeune fille en feu”, de Céline Sciamma, essa perdição de amores), um mundo criado, idealizado e sustentado até à sua rutura, o tal “armagedão” que leva qualquer um à sua extrema loucura. E para Undine, esse amor não morreu, nem sequer foi morto, transferiu (eis novamente a transposição) para outro corpo, outra face, outro … digamos … olhar.

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O que Petzold nos ensinou, em muito do seu cinema, é que nada morre, tudo é reciclado e incorporado em novas vivências, basta olhar para trás (como a personagem Undine exerce nos braços do seu novo amante, vendo o “antecessor” passar por ela), à dinastia de Nina Hoss – do inquietante “Yella” (2007) ao arrepiante “Phoenix” (2014) – para verificarmos a concretização de uma segunda oportunidade, de uma mudança e por vias disso, digamos, uma apropriação. Em “Undine”, passamos do amor murcho à mercê da sua dissipação para o colapso de um aquário (um “metafórico” cativeiro) e o nascer de um novo interesse. Assim, é reconstruída uma nova tragédia, com rasgos da sua mitologia, da sua fantasia disfarçada e ocultada na arquitetura berlinense e a liberdade proposta nas profundezas fluviais, um canto de sereia abafado pelo pântano que o seu ambiente transformou.

Undine torna-se Berlim, e Berlim torna-se Undine, uma cidade, um corpo, que não morre, simplesmente dá a vez a outro. Christian Petzold pode não ter aqui a essência bruta e já flexível da sua cooperação com Nina Hoss (saudades), mas sabemos que temos, não um desfecho, e sim, uma aurora. Um reinício do seu Cinema.

Não querendo banalizar um termo, por si só, tão banalizado, eis um belo filme.

Room Service!

Hugo Gomes, 09.06.20

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Chambre 212 (Christophe Honoré, 2019)

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Anomalisa (Duke Johnson & Charles Kaufman, 2015)

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The Best Exotic Marigold Hotel (John Madden, 2011)

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Don't Bother to Knock ( Roy Ward Baker, 1952)

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Four Rooms (Allison Anders, Alexandre Rockwell, Robert Rodriguez & Quentin Tarantino, 1995)

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The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson, 2014)

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Home Alone 2: Lost in New York (Chris Columbus, 1992)

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1408 (Mikael Håfström, 2007)

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2046 (Wong Kar-Wai, 2004)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Some Like It Hot! (Billy Wilder, 1959)

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Room 304 (Birgitte Stærmose, 2011)

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The Bellboy (Jerry Lewis, 1960)

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The Million Dollar Hotel (Wim Wenders, 2000)

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Chelsea on the Rocks (Abel Ferrara, 2008)

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Hotel (Jessica Hausner, 2004)

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Love Steaks (Jakob Lass, 2013)

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Mekong Hotel (Apichatpong Weerasethakul, 2011)

Animais "fornicadores"

Hugo Gomes, 02.02.15

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Num hotel de luxo, dois funcionários vivem um amor desvairado, a harmonia encontrada entre ambos é inconstante, mas essa inconstância soa como uma anarquia em todo o estabelecimento. O hotel vê com maus olhos esta relação algo autodestrutiva.

Em “Love Steaks”, de Jakob Lass, existe um impulso animalesco que o torna primariamente sedutor. Eis um filme que remete-nos à linguagem de uma nova geração de cineastas. Geração, essa, que nasceu com a proliferação dos videoclipes e da sua influência no cinema, também é esta a geração que cresceu com a ousadia e o minimalismo das produções MTV. Mas Lass evidencia mais do que preguiça em ilustrar o retrato frenético e de cariz adolescente. Invés disso, filma uma história recorrente à química dos seus protagonistas, da bizarria dos seus comportamentos e da sua cumplicidade alienada. Mas apesar do toque, fica sempre longe dos lugares-comuns ou da tentação de se rever numa trama "mainstream".

“Love Steaks” é uma panóplia de gestos, é o embate entre dois seres deslocados do seu meio ambiente, perdidos entre o rigor de um sistema estabelecido e libertinos na respetiva aura (quase soando como uma metáfora coming-of-age, embrulhado com um retrato social alusivo). Lana Cooper e Franz Rogowski expõem essa mesma química sem remorsos de pudor, sem timidez nem receio da eventual humilhação. As suas entregas interpretativas funcionam como combustão neste filme minimalista que procura ser o que todos pretendem: uma rebeldia adolescente evidente da qual não é possível fugir.

Porém, é curioso o interesse dado pelas suas personagens e a relação de ambos, tão inatural como "perfeito". Na verdade, tudo se resume a um golpe de sorte do seu realizador, Jakob Lass, que filma por instinto e usufrui de uma linguagem leve, revoltante aos modelos aristotélicos do cinema, ao mesmo tempo que aspira os códigos do espírito jovem. Um exercício de dinamismo e aptidão!