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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A arte delicada do argumento

Hugo Gomes, 05.08.25

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Não é a primeira nem a segunda, mas sim a terceira vez que dedico umas linhas mais ou menos improvisadas a Three Comrades (1938) – peço desde já desculpa pela falta de originalidade, e por não resistir a uma paixão relativamente antiga.Bem sei que está longe de ser uma das obras-primas absolutas do cinema (embora, nos termos dos meus afetos cinéfilos, caiba à vontade nessa categoria), e que não surge entre os filmes mais citados de Frank Borzage; ainda menos se lembram dele quando o ângulo é “literatura e cinema”. A obsessão é só minha. E porém, atente-se na sua ficha técnica e repare-se no nome que imediatamente nos transporta de foguetão para o planeta The Great Gatsby: F. Scott Fitzgerald, ele próprio.

Acontece que Three Comrades – um hino à amizade no pós-Primeira Guerra Mundial, sobre três ex-soldados e a mulher doce, tuberculosa, que com eles partilha um amor a diferentes cores –,nascido do romance homónimo do alemão Erich Maria Remarque, contém no seu ADN a história da única vez que Fitzgerald, dono e senhor da mais refinada prosa, viu a sua assinatura creditada no argumento de um filme. Um capítulo,à boa maneira de Hollywood,repleto de dissabores, bebedeiras e conflitos com o produtor, no caso, Joseph L. Mankiewicz, alguém impossível de reduzir ao estereótipo da cabeça do “executivo castrador”, já que estamos a falar de um dos grandes argumentistas da era dos estúdios, cineasta com uma mentalidade que começava no espírito da letra e fluía na corrente dramática do ecrã.

Sobre o escritor americano, disse mais tarde Mankiewicz: “O problema de Fitzgerald como argumentista era o facto de ser por natureza e treino um contador de histórias, habituado a fornecer ao leitor o tipo de informação que não pode ser dramatizada. Uma das razões pelas quais os romances de Fitzgerald falharam enquanto filmes é que a sua técnica era mais romanesca do que dramática.” E até Margaret Sullavan, a fabulosa protagonista de Three Comrades, ajudou a cimentar essa perceção, queixando-se da dificuldade de ler “diálogos muito literários”...

Já que o que aqui nos traz é o mote “Ler Cinema, Ver Literatura”, parece-me que este (des)encontro de F. Scott Fitzgerald com Hollywood pode muito bem figurar como um poderoso exemplo das metamorfoses necessárias por trás de um texto concebido para a delicada estrutura de tempo e luz que é o objeto filme (até porque, além de Mankiewicz, outro argumentista dos estúdios, Edward E. Paramore, acrescentou a sua pincelada). Onde ficou então a marca do autor de Belos e Malditos? Sem dúvida, no romantismo celestial de várias cenas e diálogos, que se preservou apesar dos “ajustes”.

E por falar em ajustes,veja-se este na frase final de Pat/Sullavan, que está a morrer, deitada nas tábuas frias do chão do quarto, imobilizada pela dor:

“It’s all right. It’s hard to die, but I’m quite full of love, like a bee is full of honey when it comes back to the hive in the evening.” (versão original de Fitzgerald)

“It’s right for me to die, darling. It isn’t hard. And I’m so full of love.” (versão definitiva)

Percebem a diferença? Às vezes a literatura é mesmo outra coisa.

 

*Texto da autoria de Inês Lourenço, crítica de cinema do Diário de Notícias, revista MetropolisÀ pala de Walsh e da Antena 2 - A Grande Ilusão - e com um mestrado em Cinema e Televisão pela Universidade Nova de Lisboa.

Um duelo ao som da melodia

Hugo Gomes, 23.08.19

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Podemos apelidá-lo de “tearjerker” de segunda categoria, um melodrama que se empoleira de bico de pés perante o selo qualitativo oriundo dos grandes estúdios, orquestrado (melhor palavra aqui) pelo mais “lacrimejante” dos realizadores da Hollywood clássica, Frank Borzage, mas existe nele um momento perfeitamente divinal.

Falo de I’Ve Always Loved You (1946), um à primeira vista romance entre mestre e discípula orientado no mundo da música clássica, porém, o filme é mais que isso, é um conto de superação profissional e de género (mesmo que nesta questão haja nele um lençol de conservadorismo) em que as personagens se relacionam com a música como uma linguagem emocional distinta.

A genialidade encontra-se no confronto entre Myra (Catherine McLeod), a aprendiz, e o “grande” maestro Goronoff (Philip Dorn), ocorrido no Carnegie Hall, Nova Iorque. Aqui sob o olhar atento de um público que reconhece a rivalidade descortinada na performance musical, Myra tenta brilhar através das suas proezas no piano enquanto Goronoff a sabota perante uma orquestra submissa à sua enfurecida batuta. O momento prolonga-se, a música ecoa pela grande sala de espéctaculos oscilando entre a doce melodia até ao rompante uníssono, os olhares entre os dois competidores cruzam-se de lés-a-lés, os pensamentos de Myrra sufocam a cadência enquanto os gestos agressivos e assertivos de Goronoff solicitam por mais um round.

É como um combate de boxe, aliás, nunca se vira o glamoroso Carnage Hall transformado num ringue entre dois pugilistas - o underdog promissor contra o convicto campeão - o entretenimento de aristocratas assumindo-se no “desporto de brutos”. Não vira tal transladação semiótica desta maneira, não até surgir entre nós Whiplash de Chazelle, também ele o embate entre mestre/aluno, maestro e “trovador”.