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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Uma dona de casa desesperada ...

Hugo Gomes, 26.09.22

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"What is the opposite of progress? Chaos. Chaos, an ugly word."

Não te preocupes querida, os dramas de bastidores são apenas isso mesmo, dramas, que servirão futuramente para fortalecer mitologias envoltas dos seus filmes. O que era do “Apocalypse Now” sem as suas badaladas histórias de produção? Ou “Last Tango in Paris” sem a sua controvérsia, ainda hoje debatida e polémica? “Don’t Worry Darling”, a segunda aventura da atriz Olivia Wilde na realização é um thriller distópico que tem beneficiado das suas historietas e conflitos internos, muitos deles inflacionados pela viralidade das redes sociais, para se assumir algo à parte do que realmente é. 

E o que realmente é? Wilde abandona a estrutura “After Hoursteen cheio de maneirismos, mas investido com delicadeza que fora “Booksmart” (2019) e aposta num, agora como é vulgarmente descrito, episódio rejeitado da antologia “Black Mirror”, com inspirações numa história imaginada pelo mesmo argumentista de “Titanic II” [Shane Van Dyke]. Porém, não desfazendo a equipa criativa, é bem verdade que já vimos este enredo algures, até mesmo o seu conceito. Por um lado, é a reprodução de “The Stepford Wives” de Bryan Forbes (1975) mais uma vez, a reutilização do modelo de quotidiano americano dos anos 50, onde os conservadorismos patriarcais de mão dada com o capitalismo serviam como resposta agressiva aos movimentos sufragistas que por aí se manifestavam. 

A obra de culto em questão embebia dessa fórmula ritualista para expor uma sociedade centrada na figura masculina e com as mulheres subjugadas a uma passivo-submissão ao matrimónio aí idealizado. Título adequado e irónica aquele que recebera em terras lusas - “Mulheres Perfeitas” - e que mais tarde partilhado pelo remake de 2004, assinado por Frank Oz, e com Nicole Kidman e Glenn Close no elenco (mas isso é história … ou outras histórias, visto que a rodagem desse filme não fora de todo muito pacífica), já que no universo materializado por Olivia Wilde, o signo “mulheres perfeitas” é sinal de abundância. 

Aliás, o termo seria outro, cada vez mais em desuso - “donas de casa” - longe do desespero, mas perto da sua ignorância, uma que rima com felicidade oca. São mulheres dedicadas aos seus maridos, cujas lides de casa são devidamente “amanhadas” como rotina diária, e a estética é toda ela centrada como ostentação aos mesmos do que propriamente desígnios de auto-estima (o que é isso neste mundo?). Luxos e luxuosos cativeiros esses, que mantêm as mulheres suburbanas procurando companhia na cumplicidade de “cela” numas e outras, falando de trivialidades, descendência e acima de tudo, dos esposos e dos seus “misteriosos” empregos (o que será que os faz mover todos os dias para fora dos seus lares). 

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Nesse Reino de além dor, reluzente e aromatizado, o incomodo é um convidado discreto que o espectador primeiramente sente, depois decorre a distopia, ou mais concretamente o elemento distópico. Um “bug” que ameaça uma realidade, feito espelho em estilhaços, e o reflexo dá-se pelo nome de Florence Pugh, a “mulher perfeita” que se debate com a sua própria carnalidade e existência, não de um foro psicanalista ou teológico (mesmo que a personagem de Chris Pine opere como uma espécie de pastor sob o sermão “Vitória, Família e Harmonia"), mas de forma conspirativa ("Midsommer" mais uma vez?). A sua paranóia causa comoção, as perguntas são agressivamente colocadas, as respostas, essas, são ocultadas até mesmo pela pessoa que mais confia … o seu marido (Harry Styles a tentar romper na atuação).

Olivia Wilde presta-se a concretizar uma atmosfera de um positivismo sufocante, até que a harmonia ali desenhada ceda a representações de caos, seja por via de montagens rápidas, seja pelas falsas elipses que contribuem para a artificialidade do cenário e da narrativa que aí embarga. Não vamos longe com a loucura, mas a protagonista (Florence, quem mais seria?) encaminha-nos por atalhos credíveis. Naquele e neste mundo, ela é o filme, o resto é adorno, visto e revisto, modelizado a uma nova linguagem, ou melhor, a uma nova contemporaneidade perceptiva (o foco trazido pela obra de Bryan Forbes é revitalizado, porém de mensagem mais escancarada do que uma mera alegoria). No fundo, “Don’t Worry Darling” é um remake não assumido de “The Stepford Wives” e talvez seja melhor assim, para não ficarmos presos a legados. 

Enquanto isso, não te preocupes querida, aquelas tramas alegadamente ocorridas nos bastidores virarão em “lendas”, e o verdadeiro desafio será a própria ou não emancipação do filme. Só o futuro dirá se foi bem-sucedido ou não nesse “assunto”.   

The roof is on fire!

Hugo Gomes, 19.08.22

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Minari (Lee Isaac Chung, 2020)

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Rebecca (Alfred Hitchcock, 1940)

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Mirror / Zerkalo (Andrei Tarkovsky, 1975)

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The Sacrifice / Offret (Andrei Tarkovsky, 1986)

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Nightsiren (Tereza Nvotovà, 2022)

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The Homesman (Tommy Lee Jones, 2014)

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Burning (Lee Chang-dong, 2018)

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Come and See /  Idi i smotri (Elem Klimov, 1985)

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Midsommar (Ari Aster, 2019)

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Pet Semetary (Mary Lambert, 1989)

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8 Mile (Curtis Hanson, 2002)

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Gone with the Wind (Victor Fleming, 1939)

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There Will Be Blood (Paul Thomas Anderson, 2007)

Uma Víuva (nada) Alegre!

Hugo Gomes, 30.06.21

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Num momento em que os fãs estão enviuvados da personagem Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), que tal mal tratada foi durante este longo franchise, ‘cai-nos’ uma aventura-a-solo meio caricatural (russos e mais os associados estereótipos pregados em Hollywood) meio negra (aliás o mais sombrio desta indústria disnesca) da tardia emancipação desta “action woman”. “Black Widow” entrega-nos aquilo que nos foi prometido e ainda deposita-nos alguma esperança quanto à linha de montagem criada pela Marvel Studios. Não vos vou mentir, possivelmente é dos melhores capítulos deste universo partilhado, o mais independente quanto à forçada continuidade, o mais solido no seu enredo e acima de tudo, a mais concebida heroína deste mesmo universo. Depois há a versátil Florence Pugh e o seu sarcasmo semi-adolescente e aquilo que considero, automaticamente, das melhores ‘coisas’ que vi nesta marvelesca saga (que já dura 13 anos) … um arrepiante e energético genérico ao som de Smell Like Teen Spirit …. Obrigado Cate Shortland!

Midsommer: podem estranhar, mas não devem desprezar!

Hugo Gomes, 06.09.19

69800286_10214643627221235_8688538773304115200_o.jÉ fácil desprezar o Midsommar … facílimo … até porque Ari Aster sai do “calabouço” de "Hereditary" e assume algum pretensiosismo na sua planificação (olha tão bem que filmo!). Contudo, deve-se salientar que o mesmo realizador que invocou entidades serventes na sua obra anterior cita sem nenhuma surpresa os degraus da escadaria do “folk horror”. Nesse sentido, Midsommar é uma prolongada referência que esconde um pequeno e valioso trunfo – a sua estranheza. Ao invés de apostar no terror-choque da sensação (ou sensações) do género, Aster concede toda uma máquina ritualista e confrontam-nos com um episódio xamânico e psicotrópico sobre a perda e o vitimismo anexado.